COMEÇA MAL O NOVO MINISTÉRIO!
Cada um só por si; à frente, interrogações
WASHINGTON
NOVAES
Jornalista
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Aldo Rebelo (PCdoB) - novo Ministro da Ciência e Teconologia |
Vejam-se, por exemplo, as posturas do novo ministro da Ciência e Tecnologia, ALDO REBELO, para quem o
entendimento de que ações humanas são forte causa de mudanças climáticas
reflete apenas "um cientificismo que tem por trás o controle dos padrões
de consumo dos países pobres" - desprezando pareceres de centenas de
milhares de cientistas na Convenção do Clima. Como ficará a presidente da
República, que na própria ONU defendeu o compromisso de seu governo com a
redução das emissões de poluentes provocadas por seres humanos (com seus
veículos, sua indústria, seu consumo de energia gerada pela queima de carvão,
sua agropecuária, seu desmatamento, etc.)? Como ficará o Ministério do Meio
Ambiente, que tem reiterado o compromisso brasileiro de reduzir suas emissões
entre 38,1% e 38,9% até 2020 e defendido a necessidade de um compromisso
"vinculante" de todos os países nessa área, de reduzir suas emissões
proporcionalmente às suas responsabilidades? Que pensará o secretário-geral da
ONU, Ban Ki-moon, segundo quem é preciso chegar a compromissos obrigatórios de
redução em todos os países, a serem firmados este ano para vigorarem a partir
de 2020? Ficaremos satisfeitos com a
visão do nosso novo ministro, também quando ele - como na votação do novo
Código Florestal - assume posição contrária a boas políticas de conservação de
recursos naturais?
Pode-se passar a outro capítulo, aberto pela nova ministra da Agricultura, KÁTIA
ABREU, para quem "latifúndio não existe
mais no Brasil" (Folha de S. Paulo,
5/1). Ela também defende a proposta de emenda constitucional que retira do
Executivo poderes para demarcar áreas indígenas e os transfere para o Congresso
Nacional. Reconhece até que "o Brasil inteiro era deles" (dos índios)
- mas daí a assegurar-lhes certas áreas, pensa a ministra, vai muita distância.
Porque "os índios saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de
produção". Que lhe importam os direitos originários, ou o fato de que
ainda existam no País mais de 900 mil desses antigos donos de todo o
território, distribuídos por 305 povos, falando 274 línguas - com uma riqueza
cultural extraordinária, até vivência de utopias?
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Kátia Abreu (PMDB) - nova Ministra da Agricultura |
E como ficará a presidente da República diante das
declarações da nova ministra da Agricultura de que "o latifúndio não
existe mais" e reforma agrária é desnecessária? Como vê as posições diametralmente opostas dessa ministra e do novo
titular do Desenvolvimento Agrário? Por que pastas separadas para os dois, que
tratam do mesmo assunto? Como confronta as declarações da ministra com as
dela, Dilma Rousseff, que tantas vezes disse ser imprescindível "acelerar
a reforma agrária" (Estado,
21/10/2013)? E como ficamos se, de
acordo com o próprio Incra, "existem 215 mil hectares de terras em processo
de desapropriação" para a reforma - e se o próprio governo diz haver
feito em 20 anos "a maior reforma agrária" do mundo, com a destinação
de terras para 1,1 milhão de famílias (Estado,
21/10/2013)?
De qualquer forma, que
pensam partidos fisiológicos dos nossos dramas na área da pobreza:
·
se ainda
temos 7,2 milhões de pessoas "vulneráveis à fome", segundo o IBGE
(Estado, 19/12/2014)?
·
Somados
aos 40 milhões que recebem Bolsa Família, serão quase 50 milhões, quase um
quarto da população nacional, ainda vivendo "abaixo da linha da
pobreza", conforme os padrões da ONU.
·
Nosso salário mínimo [do Bolsa Família] não
chega a um dólar por dia.
·
Na
criação de postos de trabalho em um ano - 938.043 até novembro - recuamos aos
níveis de 2002.
·
Na Previdência
Social, os trabalhadores do setor
privado (24 milhões) - que já acabam
pagando (Estado, 8/12/2014) pelo déficit muito maior (R$ 62 milhões)
gerado pelos funcionários do setor público, que são 1 milhão, somando os
militares - recebem ameaças de redução
dos benefícios.
E na área dos dramas
urbanos, que se pode esperar:
·
nas cidades
congestionadas pelo trânsito,
·
com infraestruturas precárias como as redes de
drenagem insuficientes e que contribuem para os alagamentos?
·
Não há muita esperança, com o despejo de esgotos
sem tratamento - onde eles são coletados - e com os investimentos nacionais na
área só chegando a 0,11% do produto interno bruto (PIB), segundo a Organização
Mundial da Saúde (Estado,
19/11/2014).
Educação?
·
Só 13% dos alunos nas redes escolares as
frequentam em tempo integral (Estado,
8/10/2014).
·
Só 67% dos jovens até 16 anos recebem ensino
fundamental completo;
·
17,8% das crianças de 4 e 5 anos não estão nas
escolas, assim como 18,8% dos jovens entre 15 e 17 anos.
·
Temos 13 milhões de analfabetos.
Há muito a fazer e nem se poderia alegar falta de recursos,
já que nossa carga tributária está
próxima de 40% do produto interno bruto [o conjunto de tudo aquilo que o país produz!].
Mas é provável que boa parte dos cidadãos já não espere
muito da área política, de onde se despediu o senador José Sarney, dizendo-se
arrependido de haver ali permanecido quase 25 anos após deixar a Presidência da
República (terá levado todo esse tempo para descobrir o desencanto?). Não
faltará quem queira o lugar. Afinal, levantamento da Transparência Brasil (Correio Braziliense, 1.º/1/2015) diz que
só na área federal são 98 mil pessoas
ocupando cargos em comissão; de cada quatro funcionários federais, um é ligado
a partidos (23,5% do total); e 88%
deles são ligados ao PT.
E até quando se
espera que será assim, que a sociedade nada faça? Não será apenas com
ajustes fiscais, nesta hora de complicado panorama internacional, que tudo se
resolverá.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Espaço aberto – Sexta-feira, 9 de janeiro de 2015 – Pg. A2 –
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