Papa Francisco: «Em nome de Deus não se mata. Mas não se insulta a fé dos outros»
Gian Guido
Vecchi
Papa fala dos ataques
em Paris e ameaças terroristas ao Vaticano durante voo para Manila, nas
Filipinas
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Papa Francisco respondendo questões propostas pelos jornalistas no interior do avião que o levava do Sri Lanka para as Filipinas |
«Veja, não se pode...
O senhor é francês? Vamos a Paris, falemos claro». Sobre o voo UL111 que decola
na noite italiana do Sri Lanka a Manila, Francisco vai, ao fundo do avião, ao
encontro dos jornalistas que o seguem de todo o mundo e responde, como de
costume, a todas as perguntas, a começar pela mais urgente: é claro que se fale
do massacre na redação de Charlie Hebdo
e o Papa põe as cartas sobre a mesa: «vamos a Paris...».
Santidade, ontem pela
manhã, na missa, o senhor falou da liberdade religiosa como um direito humano fundamental.
Mas, no respeito às diversas religiões, até que ponto pode-se ir na liberdade
de expressão, que é também um direito humano fundamental?
Papa Francisco: «Obrigado
pela pergunta, inteligente. Creio que ambas sejam direitos humanos
fundamentais, a liberdade religiosa e a liberdade de expressão. Não se pode
esconder uma verdade: todos têm o direito de praticar a própria religião sem
ofender, livremente, e assim devemos fazer todos. Não se pode ofender ou fazer a
guerra ou matar em nome da própria religião, isto é, em nome de Deus. Para nós,
aquilo que acontece agora, nos surpreende, não? Mas pensemos em nossa história:
quantas guerras de religião tivemos! O senhor pense na noite de São Bartolomeu [1]. Também nós fomos pecadores sobre isto. Mas não se
pode matar em nome de Deus. É uma aberração. Com liberdade, sem ofender, mas
sem impor, sem matar... Falava da liberdade de expressão. Cada um não somente
tem a liberdade, tem o direito e, mesmo, a obrigação de dizer aquilo que pensa
para ajudar o bem comum. A obrigação! Se um deputado, um senador não diz aquilo
que pensa ser o caminho verdadeiro, não colabora ao bem comum. Temos a
obrigação de falar abertamente. Ter esta liberdade, mas sem ofender. É verdade
que não se pode reagir violentamente, mas se o doutor Gasbarri [Alberto Gasbarri é o organizador dos voos
papais], que é um amigo, diz um palavrão contra a minha mãe, aguarda-o um
soco! Mas é normal! Não se pode provocar. Não se pode insultar a fé dos outros.
Não se pode zombar da fé. Papa Bento, em um discurso, falou desta mentalidade
pós-positivista, da metafísica pós-positivista, que levava, ao final, a acreditar
que as religiões ou as expressões religiosas sejam uma espécie de subcultura:
toleradas, mas pouca coisa, não estão na cultura iluminada. E esta é uma
herança do iluminismo. Tantas pessoas que falam de outras religiões ou das
religiões, que zombam, digamos “brincam” com a religião dos outros, estes
provocam. E pode acontecer aquilo que aconteceria ao doutor Gasbarri se
dissesse alguma coisa contra a minha mãe! Há um limite. Toda religião tem
dignidade, toda religião que respeita a vida e a pessoa humana, e eu não posso
zombar dela. Este é um limite. Tomei este exemplo para dizer que na liberdade
de expressão existem limites. Como aquele da minha mãe».
Santidade, há muita preocupação no
mundo pela sua segurança. Segundo os serviços [secretos] americanos e
israelitas, o Vaticano estaria na mira dos terroristas islâmicos, nos sites
fundamentalistas apareceu a bandeira do Islã que tremula sobre São Pedro [a basílica vaticana], teme-se, também,
pela sua segurança nas viagens ao exterior. O senhor não deseja renunciar ao
contato direto com as pessoas. Mas, neste momento, acredita que seja necessário
modificar algo em seus comportamentos e em seus programas? Há, também, temor
pela segurança dos fiéis que participam das celebrações, em caso de atentados.
O senhor está preocupado com isso? E, em geral, de acordo com o senhor, qual é
a melhor maneira de responder a essas ameaças dos integralistas islâmicos?
Papa Francisco: «O melhor modo de responder é sempre a
mansidão. Ser manso, humilde, como o pão, sem fazer agressões. Eu estou aqui,
mas há pessoas que não compreendem isso. Para mim, os fiéis me preocupam, isto
me preocupa. Falei com a segurança vaticana, com o doutor Giani que é o encarregado
disso (Domenico Giani, comandante da Gendarmaria vaticana, ndr) e me mantém atualizado sobre este problema. Isto me preocupa.
Tenho medo? O senhor sabe que eu tenho um defeito, uma bela dose de
inconsciência. Às vezes, me pus uma pergunta, mas se me acontecesse alguma
coisa?, e eu disse ao Senhor: peço uma graça, que não me faça mal, pois não sou
corajoso diante da dor. Sou muito medroso. Mas sei que cuidam, as medidas de
segurança são discretas, mas seguras».
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Papa Francisco no interior do avião que o levou do Sri Lanka às Filipinas |
Nos anos da guerra civil, no Sri
Lanka, houve mais de trezentos atentados suicidas. Feitos por homens, mulheres,
moças e rapazes. Agora, estamos vendo atentados suicidas também com crianças. O
que pensa desse modo de fazer guerra?
Papa Francisco: «Talvez, aquilo que me vem em mente, seja
uma falta de respeito, mas creio que atrás de cada atentado suicida haja algo
que tenha relação com o desequilíbrio: o desequilíbrio humano, não sei se
mental, mas humano. Alguma coisa que não está bem na pessoa. A pessoa não tem
um verdadeiro equilíbrio sobre o sentido da própria vida, da vida dos outros.
Doa a vida, mas não a doa bem. Tantas pessoas que trabalham, pensemos por
exemplo nos missionários, doam a própria vida para construir; quem doa a vida
autodestruindo-se e para destruir. Há algo de errado. Os kamikazes [2] não são algo somente do Oriente. Existem estudos
sobre a proposta que chegou ao fascismo, na Itália, durante a Segunda Guerra
Mundial. Não há provas, mas se investiga sobre isso. Há algo muito relacionado
aos sistemas totalitários. O sistema totalitário mata: possibilidades, futuro,
vidas. Não é um problema limitado nem somente oriental».
Mas, o uso das crianças?
Papa Francisco: «As
crianças são usadas em todo lugar para tantas coisas. Exploradas no trabalho.
Exploradas como escravas. Exploradas, também, sexualmente. Alguns anos atrás,
com membros do Senado na Argentina, quisemos fazer uma campanha nos hotéis mais
importantes para dizer publicamente que aqui não se exploram crianças para os
turistas. Não fomos capazes de fazê-lo. As resistências escondidas existem.
Quando estava na Alemanha, chegavam às minhas mãos jornais, havia a zona do
turismo erótico no sudeste asiático... as crianças são exploradas. E o trabalho
escravo das crianças é terrível».
Ontem, em Colombo, o senhor visitou,
de surpresa, um templo budista. Até o século XX os missionários diziam que o
budismo era uma religião do diabo. Qual poderia ser a importância do budismo
para o futuro da Ásia?
Papa Francisco: «O
chefe daquele templo budista veio encontrar-me no aeroporto, e eu fui à sua
casa. Naquele templo há relíquias que se encontravam na Inglaterra, para eles
muito importantes, e conseguiram que elas lhes fossem devolvidas. Ontem, vi uma
coisa que jamais pensava, em Madhu: não eram todos católicos, haviam budistas,
islamistas, hinduístas, e todos vão ali para orar e dizem que recebem graças. O
povo: há no povo o sentido de algo que o une. E estão, assim, tão naturalmente
unidos em orar no templo, que é cristão, mas todos desejam ir lá. Este
testemunho nos faz compreender o sentido da inter-religiosidade que se vive no
Sri Lanka. Há respeito entre eles. Há pequenos grupos fundamentalistas, mas não
estão com o povo, são elites ideológicas. Quanto aos budistas que iam ao
inferno... mas também os protestantes, quando eu era menino, setenta anos
atrás, todos os protestantes iriam para o inferno! Assim nos diziam. E
lembro-me da primeira experiência que tive de ecumenismo. Contei-a, outro dia,
aos dirigentes do Exército da Salvação. Tinha quatro ou cinco anos, mas
recordo-me, estou vendo: ia pela rua com minha avó, ele segurava-me pela mão,
na outra calçada vinham duas mulheres do Exército da Salvação com aquele chapéu
que usavam então, com o laço. E perguntei à minha avó: aquelas são freiras? E
ela me disse: não, são protestantes, mas são boas. A primeira vez que eu ouvi
falar de uma pessoa protestante. Naquele tempo, na catequese, nos diziam que
iam para o inferno. Mas acredito que a Igreja tenha crescido tanto na
consciência como no respeito às demais religiões. Leiamos aquilo que diz o
Concílio Vaticano II sobre os valores e o respeito às outras religiões. A
Igreja cresceu muito nisso. Sim, há tempos obscuros na história da Igreja, e
devemos dizê-lo sem vergonha, porque também nós estamos num caminho de
conversão contínua, do pecado à graça sempre. Esta inter-religiosidade como
irmãos, respeitando-nos sempre, é uma graça».
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Papa Francisco visita templo budista em sua viagem ao Sri Lanka |
Qual mensagem deseja dar nas
Filipinas a quem desejaria encontrar-lhe, mas não poderá fazê-lo?
Papa Francisco: «O
centro, o núcleo da mensagem serão os pobres. Os pobres que desejam ir adiante,
os pobres que sofreram com o tufão Yolanda e, ainda, suportam as suas
consequências, os pobres que têm fé e esperança – penso nesta comemoração do
quinto centenário da pregação do Evangelho nas Filipinas –, e também, os pobres
explorados, aqueles que sentem tantas injustiças sociais, espirituais,
existenciais. Eu penso neles, indo às Filipinas. Outro dia, em nossa casa, em
Santa Marta [no Vaticano], houve a
festividade da Natividade das Igrejas Orientais, há ali pessoas de
nacionalidade etíope e também filipina que ali trabalham e fizeram uma festa,
fui convidado ao almoço. Estive com eles e olhava os funcionários das
Filipinas, pensava em como deixaram a sua pátria procurando o bem-estar e
deixando pai, mãe, filhos, para ir... Os pobres».
Nas Filipinas o senhor visitará as
regiões devastadas pelo tufão Yolanda. Em que ponto está a encíclica sobre a
defesa da criação? Convidará as outras religiões a enfrentar juntas este tema
da proteção ambiental?
Papa Francisco: «Não
sei se na totalidade, mas em grande parte é o homem que agride [lit.: esbofeteia] a natureza e tem uma
responsabilidade nas mudanças climáticas. Nos apoderamos, um pouco, da
natureza, da mãe terra. Recordo aquilo que me disse um velho camponês: Deus
perdoa sempre, os homens algumas vezes, a natureza jamais. Exploramo-la demais.
Lembro-me que em Aparecida [Brasil], quando ouvia os bispos do Brasil falar de
desmatamento da Amazônia, não compreendia muito. Mas a Amazônia é um pulmão do
mundo. Cinco anos atrás, com uma comissão pelos direitos humanos, fiz um
recurso à suprema corte argentina para interromper no norte, ao menos
temporariamente, este desmatamento terrível. E há a monocultura. Os
agricultores sabem que, após três anos cultivando o grão, devem mudar de
cultura por um ano a fim de regenerar a terra. Hoje, se faz a monocultura da
soja até que a terra se exaura. O homem foi por demais além. O primeiro esboço
da nova encíclica foi preparado pelo cardeal Turkson [3]
com a sua equipe. Depois, trabalhei com alguns colaboradores e, alguns
teólogos prepararam o terceiro, e este esboço enviei à Congregação da Doutrina
da Fé, à Secretaria de Estado e ao teólogo da Casa pontifícia, para que estudassem
e eu não dissesse nenhum disparate! Três meses atrás, recebi as respostas,
algumas dessa altura. Levarei uma semana toda de março para terminá-la. Então,
irá para a tradução. Penso que, se o trabalho for bem, em junho poderá sair. É
importante que haja um pouco de tempo entre a publicação da encíclica e o
encontro de Paris sobre o clima. A última conferência no Peru não foi uma grande
coisa, desiludiu-me a falta de coragem, esperemos que em Paris sejam um pouco
mais corajosos. Creio que o diálogo com as religiões seja importante, mesmo
sobre esse ponto há um acordo. Falei com alguns expoentes de outras religiões
sobre o tema e, ao menos, dois teólogos o fizeram. Não será, em todo caso, uma
declaração em comum, os encontros com as religiões acontecerão depois».
Como se chegou à canonização de José
Vaz, que o senhor celebrou no Sri Lanka?
Papa Francisco: «Estas
canonizações foram feitas com a metodologia que se chama equivalente: quando há
muito tempo um homem ou uma mulher são beatos e tem a veneração do povo de Deus
e, de fato, são venerados como santos, não se faz o processo sobre o milagre.
Fi-lo para Angela de Foligno
[Itália], e depois escolhi canonizar pessoas que foram grandes evangelizadores
e grandes evangelizadoras. O primeiro foi Pietro
Favre, evangelizador da Europa, morto pelo caminho, evangelizando. Depois,
houve os evangelizadores do Canadá, fundadores da Igreja naquele país. Depois,
o santo brasileiro fundador de São Paulo [José de Anchieta] e agora José Vaz,
evangelizador do antigo Ceilão. Em setembro, nos Estados Unidos, farei a canonização
de Junipero Serra. São figuras que realizaram uma forte evangelização e estão
em sintonia com a espiritualidade da Evangelii
gaudium [A alegria do evangelho,
exortação apostólica de Papa Francisco]» [4].
Apoiará a Comissão da Verdade no Sri Lanka e em outros países dilacerados
pelos conflitos internos?
Papa Francisco: «Apoiei,
em seu tempo, aquela na Argentina, depois da ditadura militar. Não posso dizer,
concretamente, destas porque não as conheço. Mas apoiarei todos os esforços
para buscar a verdade: equilibrados, não como vingança. Ouvi dizer uma coisa
pelo presidente do Sri Lanka, não desejaria que o meu comentário fosse
interpretado como político, mas disse-me que deseja ir adiante com o trabalho
pela paz, a reconciliação, depois, continuou com uma outra palavra. Disse:
deve-se criar a harmonia no povo, que é a mais bela paz e a reconciliação, a
harmonia é também musical... Depois, acrescentou que esta harmonia nos dará
felicidade e alegria. Eu fiquei admirado e disse: agrada-me ouvir isto, mas não
é fácil! E ele: deveremos chegar ao coração do povo. Somente chegando ao
coração do povo, que sabe o que são os sofrimentos e as injustiças, que sofreu
a guerra e sabe, também, de perdão, podemos encontrar os justos caminhos, sem
concessões, mas justos. As comissões podem estar entre os elementos que ajudam,
como na Argentina, mas há outros argumentos para chegar ao coração do povo».
Como envolver os demais líderes religiosos para combater o
extremismo? Há quem propõe um outro encontro em Assis, como fez
João Paulo II.
Papa Francisco:
«Sei que a proposta foi feita, e que alguns trabalham a esse respeito. Falei
sobre isso com o cardeal Tauran, responsável pelo diálogo inter-religioso. Há
inquietação, também, nas outras religiões, não somente entre nós».
Traduzido do
italiano por Pe. Telmo José Amaral de
Figueiredo.
Para assistir ao vídeo com esta entrevista, contendo tradução simultânea, clique aqui.
N O T A S :
[1] O massacre
da noite de São Bartolomeu ou a noite
de São Bartolomeu, foi um episódio sangrento na repressão aos protestantes
na França pelos reis franceses, que eram católicos. Esses assassinatos
aconteceram em 23 e 24 de agosto de 1572, em Paris, no dia de São Bartolomeu. As
matanças, organizadas pela Casa real francesa, começaram em 24 de Agosto de
1572 e duraram vários meses, inicialmente em Paris e depois em outras cidades
francesas. Números precisos para as vítimas nunca foram compilados, e até
mesmo nos escritos de historiadores modernos há uma escala considerável de
diferença, que têm variado de 2.000 vítimas por um apologista católico, até a
afirmação de 70.000, pelo contemporâneo apologista huguenote duque de Sully,
que escapou por pouco da morte. Para mais detalhes, clique aqui.
[2] Kamikaze era um piloto de um corpo de
voluntários japoneses treinados para pilotar tal tipo de avião em ataques
suicidas durante a Segunda Guerra Mundial.[3] Peter Kodwo Appiah Turkson (nascido em Wassaw Nsuta, 11 de outubro de 1948) é um cardeal católico ganês e presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz no Vaticano. Para saber mais, clique aqui.
[4] Para baixar, imprimir ou, simplesmente, ler este documento papal em português, clique aqui.
Fonte: Corriere della
Sera – Esteri – Quinta-feira, 15 de janeiro – 13h03 – Internet: clique aqui.
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