AINDA SOBRE EDUCAÇÃO NO BRASIL
Inculta e nada bela
José de Souza
Martins*
A educação não
escapará da ruína se os maiores interessados, que são os pais, a família e os
educadores não se envolverem e não forem envolvidos na missão redentora de
educar
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Cid Gomes - Ministro da Educação - apresentando resultados do ENEM 2014 |
Há anos os resultados das provas do Exame Nacional do Ensino Médio - Enem - mostram um desempenho sofrível dos estudantes e, por
extensão, das escolas brasileiras que os educaram. Se houvesse um sistema de
monitoramento da educação, como há para tempestades e inundações, há muito o
País teria entrado em estado de atenção.
Em todo o Brasil, 6.193.565 estudantes fizeram o exame em
2014. Na prova de redação, apenas 250 obtiveram a pontuação máxima e apenas
8,4% obtiveram ao menos 70% dos mil pontos da escola, pontuação que atesta que
são capazes de se exprimir razoavelmente bem na língua portuguesa. Em
contrapartida, 8,5% (mais de meio milhão) tiveram nota zero - não conseguem se
expressar por escrito na língua pátria, como se dizia em outros tempos, quando Olavo Bilac a louvava enternecido e
generoso e dela dizia: “Última flor do
Lácio, inculta e bela, és, a um tempo, esplendor e sepultura...”. Mal sabia
ele que neste dia distante, que é o nosso, a língua tropeçaria nas fórmulas que
os burocratas da educação inventariam para avaliar se os educandos seriam
capazes de nela escrever corretamente algumas linhas e nela expressar o que
pensam.
A língua portuguesa escrita serve para alguma coisa? Esses
resultados do Enem dizem-nos que serve pouco e para alguns até não serve para
nada. Mais da metade dos examinandos, 55,7%, fizeram no máximo metade dos
pontos necessários para provar que são capazes de se expressar por escrito em nossa
língua. O exame do Enem de 2014 lança no
caminho de escolas superiores e do mercado de trabalho 3.452.543 de iletrados.
Gente que mal escreve e, portanto, pensa mal, se tivermos em conta que escrever com clareza e objetivamente é
expressão do pensar claro e objetivo.
Na comparação do desempenho dos oriundos das diferentes
escolas, o resultado não é consolador. Em redação, a média das escolas federais
foi 618,7 e a das escolas privadas ficou bem abaixo das federais, 570,8, na
faixa das notas medíocres. As escolas públicas municipais e estaduais tiveram
deploráveis 458,2 e 434,7. Ótimas escolas existem nesses quatro campos de
atuação escolar. A qualidade não depende
do que é público ou privado, federal, estadual ou municipal. Depende de
vários fatores. Sempre se diz que depende muito dos salários dos professores,
como se o nível e a qualidade das escolas melhorasse apenas com melhora
salarial. Os salários do magistério
continuam desvinculados da formação e da competência dos docentes. Essa
discussão esconde o fato de que a degradação dos salários do magistério ao
longo de muitos anos, dos cursos de formação de professores, tanto no ensino
médio quanto na universidade, desestimulou vocações. Encheu de desânimo os que
ainda acham que ensinar é missão e sacerdócio e até ato de amor à pátria. A
ideologia de botequim que preside hoje a educação, isto é, a ideologia do
cálculo de custo e de que escola deve ser avaliada por critérios de
produtividade e não de qualidade, tornou professores e alunos equivalentes a mercadorias
de balcão, meros números e índices.
O resultado do Enem para os diferentes campos do
conhecimento em que a avaliação é feita não é diferente do resultado para a
prova de redação, oscilando levemente em torno da mesma média dessa prova. O
dado, talvez, mais interessante para se pensar criticamente a escola média, e
desse modo buscar uma saída que transforme a escola brasileira, está nas médias
obtidas quando se tem como referência o Índice
de Nível Socioeconômico - Inse -
da escola. O desempenho dos alunos é ruim nas de Inse muito baixo, tanto nas escolas federais quanto nas escolas
privadas quanto nas municipais e estaduais. O índice sobe entre 140 e 180
pontos quando se avaliam as médias dos alunos de escolas de Inse muito alto. Nas federais a média
foi de 624,4 e nas privadas foi de 624,4, bem menos do que na escala
tradicional vem a ser nota 7,0 para definir o que é bom estudante, não
necessariamente ótimo.
Esses alunos de
situação social mais elevada têm melhor desempenho porque, muito provavelmente,
têm acesso mais fácil e regular aos canais de difusão da cultura, como os
museus, os concertos, os livros e revistas, extensão da própria inserção
cultural dos pais. Não é demais pensar que as escolas públicas deveriam
obrigar-se a promover atividades nesse âmbito, como complemento do ensino em
sala de aula. O verbalismo didático é um
recurso vencido na educação. Essa implementação depende, também, de que a
chamada comunidade de referência da escola e do aluno seja envolvida nas
atividades escolares.
Os melhores resultados em avaliações da escola pública têm
ocorrido em municípios de tamanho compatível com a sobrevivência do espírito e
da mentalidade comunitários, onde é forte o sentimento de pertencimento e a
valorização da escola pela comunidade. A
educação não escapará da ruína se os maiores interessados, que são os pais, a
família e os educadores não se envolverem e não forem envolvidos na missão
redentora de educar.
*
José de Souza Martins
é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre
outros livros, de Uma Sociologia da Vida
Cotidiana (Ed. Contexto, 2014).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 18 de janeiro de 2015 – Pg. E9 –
Internet: clique aqui.
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