Por que nos mobilizamos pela França, mas nos esquecemos da Nigéria?
Jaime Rubio
Hancock
El País
13-01-2015
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Menina esfrega o olho ao lado do pai em um acampamento de pessoas deslocadas pela violência do Boko Haram, em Wurojuli, Estado de Gombe (Nigéria) Foto: STRINGER / REUTERS |
O atentado ao Charlie
Hebdo e a reação da opinião pública francesa têm dominado as capas dos
jornais e revistas do mundo todo. Mas muitos ficaram surpresos com a menor
atenção dada à ofensiva da seita islâmica Boko
Haram no nordeste da Nigéria,
que poderia somar até 2.000 mortos,
em ações que incluíram o envio a um mercado de uma menina de 10 anos com
explosivos atados ao corpo, provocando sua morte e a de outras 19 pessoas.
A imprensa anglo-saxã comenta a “hierarquia da morte”, ou seja, o fato de darmos mais cobertura a
algumas vítimas do que a outras, especialmente no noticiário internacional.
Essa hierarquia é influenciada por vários fatores, que podemos dividir em dois
grupos: a proximidade e a qualidade da informação.
1.
A proximidade
Interessa-nos mais o que ocorre em nosso país e em países
próximos, e também se há alguma vítima local. A análise de Jacoba Urist na The Atlantic
recorda como o The New York Times
publicou mais de 2.500 obituários para os assassinados nos atentados de 11 de
setembro de 2001, coisa que o EL PAÍS
também fez com os mortos no ataque islâmico de 11 de março de 2004 em Madri.
“Toda informação é
local”, diz o jornalista Miguel Ángel
Bastenier, do EL PAÍS, “e se
repercutimos as notícias internacionais é pela proximidade e pela vinculação
que temos com esses países, e também pela qualidade da informação que
conseguimos obter”. Ele acrescenta que “é preciso informar sobre a Nigéria,
e se informa”, mas esses dois fatores fazem com que se fale mais sobre o
atentado na França do que sobre muitos outros conflitos.
Tal proximidade provoca uma maior empatia entre jornalistas
e leitores, mas também pode favorecer o confronto, observa a jornalista Leila Nachawati, cofundadora do site Syria Untold. “Há um posicionamento do
‘nós contra eles’”, algo que na opinião dela transparece, por exemplo, nas
declarações oficiais sobre o atentado ao Charlie
Hebdo, em que muitos líderes ocidentais apontaram “um ataque contra nós, contra nossos valores”, esquecendo-se de que esses grupos “nascem e se promovem dentro da
Europa”.
No caso da Nigéria, a Boko
Haram chamou a atenção da imprensa ocidental em relativamente poucas
ocasiões, apesar de esse grupo estar ativo
desde 2002 e já ter causado milhares de mortes. Uma dessas situações se deu
após o sequestro de mais de 200 meninas em abril do ano passado. Naquela
ocasião, a atenção foi motivada por uma campanha nas redes sociais, intitulada #BringBackOurGirls (“tragam nossas garotas de volta”), que
contou com a participação, por exemplo, da primeira-dama norte-americana,
Michelle Obama. Ou seja, tanto naquela época como agora (quando se compara a
atenção midiática dada ao atentado de Paris com a cobertura do conflito
nigeriano), o volume de informação cresce porque se busca relação com o que
está ocorrendo no Ocidente.
2.
A qualidade da informação
Muitos veículos de comunicação têm correspondentes ou
enviados especiais em Paris, incluindo as agências de notícias, ao passo que é
muito mais perigoso enviar informações do Estado nigeriano de Borno, majoritariamente controlado pela
Boko Haram. Na verdade, os jornalistas
sofrem ameaças tanto da Boko Haram quanto do próprio Governo.
Bastenier observa que um veículo de vocação global precisa
buscar a melhor informação possível, e que sua obrigação é divulgá-la sempre
que puder. Entretanto, a escassez de
recursos faz com que se conte apenas, na melhor das hipóteses, com o material
das agências, ao passo que há mais e melhores dados a respeito do que
ocorre na França.
A repercussão do atentado ao Charlie Hebdo também se deve ao fato de a França ter um Governo
estável, onde, portanto, é possível organizar uma manifestação gigantesca e
convidar todos os líderes ocidentais: a foto da linha de frente da manifestação
também é notícia.
O problema de não contar com recursos para informar
diretamente sobre um conflito, publicando-se em vez disso, basicamente,
notícias de agências e reportagens de outros veículos, pode levar a uma “desumanização do conflito”, o que
torna ainda mais difícil a empatia com as vítimas, segundo Nachawati.
Além disso, é preciso levar em conta que se presta menos
atenção a conflitos em andamento, pois eles são (tragicamente) previsíveis e,
como explica Nachawati, há “um cansaço com relação a situações como as
da Síria, Iraque ou Nigéria”. Vemos esses países como se estivessem em
um conflito permanente, “visão que se perpetua e sobre a qual não há intenção
de se aprofundar”. Esses conflitos são tratados a partir desse filtro, ao qual
se soma o fator geoestratégico: não
interessa o que acontece com os cidadãos sírios ou nigerianos, e sim “o que
opinam e o que fazem os Estados Unidos e a Rússia”.
Apesar de todas essas dificuldades, Nachawati considera que é preciso informar mais sobre conflitos
como o da Nigéria, e para isso ela aposta em “se aproximar da opinião
pública”, informando sobre associações e campanhas civis. Com esse objetivo, é
preciso desenvolver “redes de confiança,
o que agora ficou mais fácil do que há alguns anos”. Mas continua sendo uma
tarefa de longo prazo.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 14 de janeiro de 2015 –
Internet: clique aqui.
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