ISLAMISMO E VIOLÊNCA: TUDO A VER???
O APELO DA INSENSATEZ
Felipe
Carneiro
Por que milhares de
jovens europeus – e até um brasileiro – se convertem ao islamismo radical e
viajam para a Síria e o Iraque com o objetivo de cometer atrocidades
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Trecho do vídeo divulgado pelo Estado Islâmico que mostra combatentes franceses: "Esta é uma mensagem de seus irmãos franceses que fizeram Hijra, aos muçulmanos que ainda vivem na terra de Kufr" |
A Europa é a região do mundo com o maior índice de
desenvolvimento humano. O berço do Estado laico, da república e da democracia.
Pelos seus méritos, o continente sempre atraiu imigrantes de todo o globo.
A França tornou-se o lar de mais de 6 milhões de muçulmanos,
vindos principalmente do norte da África. Como explicar, então, que ao menos
2000 europeus tenham feito a travessia no sentido inverso para se juntar ao Estado Islâmico e a outros grupos
tenebrosos na Síria, no Iraque e em outros países do Oriente Médio?
Segundo estimativas oficiais, cerca de 90% deles são homens
com menos de 40 anos, como os irmãos Chérif e Said Kouachi [que praticaram o
atentado contra o jornal francês Charlie
Hebdo]. O primeiro [Chérif Kouachi] foi preso em 2005 quando tentava viajar
para a Síria e depois para o Iraque, onde se juntaria à Al Qaeda. Said, por sua
vez, passou alguns meses no Iêmen. Experiência semelhante buscava o goiano
Kayke Ribeiro Guimarães, de 18 anos, sete deles vividos na Espanha, preso pela
polícia da Bulgária ao tentar viajar para a Síria.
Em comum, esses jovens reproduzem o discurso da vitimização
de muçulmanos pelo mundo, inculcado em sua cabeça por imãs [líderes religiosos
muçulmanos] que atuam por toda a Europa. Os clérigos radicais, que antes
entravam em contato com os adolescentes dentro das mesquitas, hoje fazem a abordagem principalmente pela internet.
A linguagem que usam é própria para criar aquilo que os sociólogos chamam de “senso de pertencimento”, a noção de
que se é parte de uma comunidade maior.
Como são jovens, estão buscando um rumo na vida, eles se
confortam facilmente com a ideia de que não estão mais tão sozinhos no mundo.
Todos se chamam de akhi e ukhti, palavras árabes para “irmão” e “irmã”.
Com seus colegas aprendem o que deve ser elogiado e recusado, para assim
angariar a confiança dos demais.
“Legal” é mash’Allah
(literalmente, “como Alá quer”). “Proibido” é haram. Quando os jovens já se sentem à vontade, os recrutadores os
convencem de que é preciso ir à Síria defender os akhi que estão sendo massacrados pelo ditador Bashar Assad. Para
reforçarem o convite, os veteranos fazem circular por smartphones e pelo YouTube
vídeos editados no estilo de videoclipes e videogames, em que a matança dos “inimigos
do Islã” é glorificada.
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Kayke Ribeiro Guimarães - jovem goiano de 18 anos: ele foi detido na Bulgária tentando ir para a Síria lutar junto ao Estado Islâmico |
Eles apelam para a emoção, deixando de lado o convencimento
pela argumentação e pela exposição de fatos. É principalmente no uso das
técnicas de vídeo que eles têm levado a melhor. “Enquanto os governos tentam
recorrer à razão dos jovens para que não se radicalizem, os jihadistas [promotores da chamada “guerra santa”]* estão
adotando técnicas modernas de produção de conteúdo que, se não são infalíveis,
estão claramente se mostrando eficientes”, diz o cientista político alemão Peter Neumann, diretor do Centro
Internacional para o Estudo da Radicalização (ICSR, na sigla em inglês), na Inglaterra.
Ao chegar à Síria, o novo recruta é apresentado a um
ambiente em que a violência dá popularidade e ele se sente parte de um grupo
vitorioso. Não há uma cobrança para que os novatos acatem todos os ritos
ditados pela ideologia religiosa. Eles não são muito cobrados para que
aprofundem o conhecimento sobre o Corão
ou que sigam à risca a sharia, lei
islâmica. Isso fica para depois. Muitos hábitos do modo de vida ocidental, como
assistir a filmes americanos ou usar roupas de marca, são permitidos. A pornografia
é liberada, a julgar pelo fato de que uma das diversas fontes de receita do Estado Islâmico é o tráfico de material
impróprio.
A motivação para ir à luta, então, vem principalmente da
ideia de que seu grupo tem levado a melhor na guerra contra os outros. Eles se sentem
seguros no território que conquistaram e acreditam que todas invasão ou morte
de um akhi é sempre respondida à
altura, com a decapitação de jornalistas, soldados, voluntários de organizações
de direitos humanos ou qualquer outro “representante” da turma rival.
A filosofia de fundo não é religiosa, mas tribal, muito
parecida com a praticada entre as gangues nas periferias das grandes cidades no
resto do mundo. Toda vez que matarem um dos meus, um dos outros deverá ser
sacrificado.
Ao adotarem o caminho do extremismo, eles extravasam o
desejo, natural da idade, de ir contra o status
quo, de lutar contra o “sistema”. Isso sempre existiu na Europa. Nos anos
1970, a Alemanha e a Itália tiveram de lidar com grupos terroristas de esquerda
muito semelhantes aos que estamos vendo agora: jovens educados que acreditam em
uma revolução utópica, movidos por uma ideologia que endossa a violência.
Tanto antes como agora, a opção de se arrepender e de
abandonar esses grupos não existe. Quem tenta pode ser morto pelos companheiros
akhi. Os extremistas, então, se
tornam vítimas do próprio extremismo.
N
O T A :
*
Jihad é um termo árabe que significa “luta”,
“esforço” ou empenho. É muitas vezes considerado um dos pilares da fé islâmica,
que são deveres religiosos destinados a desenvolver o espírito da submissão a
Deus. O termo jihad é utilizado para
descrever o dever dos muçulmanos de realizar “guerras santas” para disseminar a
fé e defender as terras islâmicas. É também utilizado para indicar a luta pelo
desenvolvimento espiritual. O conceito
de jihad tem dois significados para a religião muçulmana: [1º] a luta pela
melhoria pessoal sob as leis do islamismo e a luta em busca de uma melhor
humanidade, por meio da difusão da influência do islamismo e com o esforço que
os muçulmanos devem fazem para levar a religião islâmica para um maior número
de pessoas. O esforço pessoal, espiritual e introspectivo para controlar seus
impulsos, sua ira e perdoar os pecados em nome de Alá, é considerado para os
muçulmanos a maior jihad. [2º] O segundo significado, a jihad externa, está bem
representada na palavra de Maomé, nela os muçulmanos são instruídos a usar
meios combativos para difundir a paz e a justiça da religião islâmica para
áreas que não estejam sob a influência do profeta Maomé (Fonte: clique aqui).
Fonte: Revista VEJA –
Especial – Edição 2408 – Ano 48 – nº 2 – 14 de janeiro de 2015 – Pgs. 70 e
71.
O FASCISMO EM NOME DE ALÁ
Entrevista
com Hamed Abdel-Samad
Nathalia
Watkins
Há mais de um ano o cientista político egípcio Hamed
Abdel-Samad vive protegido pela polícia alemã. Ele é autor do livro Der
islamische Faschismus (“O fascismo islâmico”, em alemão), sem previsão
de lançamento em português. A obra, que esteve durante mais de vinte semanas
entre as mais vendidas na Alemanha, procura provar que há semelhanças entre o
nazismo e o fundamentalismo islâmico.
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Hamed Abdel-Samad - sociólogo egípcio radicado na Alemanha |
Samad, que defende essa ideia também em palestras, recebeu
inúmeras ameaças de morte. Filho de um imã de uma tribo próxima ao rio Nilo,
ele foi abusado sexualmente duas vezes na infância, algo que atribui em parte à
religião, e militou durante dois anos na Irmandade Muçulmana.
Na semana passada, Samad repudiou o ataque à redação da Charlie Hebdo, mas criticou também a
hipocrisia das pessoas que no passado diziam que a revista estava indo longe
demais ao publicar charges de Maomé e que hoje divulgam em suas páginas de
Facebook mensagens em defesa da liberdade de expressão. Ele também criticou a
ideia de que o atentado não tem nada a ver com o Islã. Ele falou a VEJA por
telefone de Berlim [Alemanha], onde mora.
Seu último livro equipara o islamismo
político ao nazismo. Quais são os elementos em comum?
Hamed Abdel-Samad:
Existem diversas semelhanças entre os dois. [1ª] Os
nazistas cultivavam a supremacia racial.
Consideravam que os arianos eram superiores aos demais seres humanos. Do mesmo modo,
os muçulmanos fundamentalistas também se veem como os escolhidos. Acham que são
mais elevados moralmente que o restante da humanidade. Assim como os nazistas,
eles desumanizam aqueles que consideram diferentes, inimigos ou infiéis, e
tornam legítima sua aniquilação. [2ª] Não é por
acaso que o antissemitismo aparece nos
dois casos. Assim como os fascistas europeus, o grupo radical egípcio
Irmandade Muçulmana, os terroristas do Estado Islâmico (também conhecido como Isis) e os palestinos do Hamas não concordam
com o fato de que os judeus tenham o direito de viver. [3ª]
Por fim, há semelhanças na estrutura organizacional. Tanto Adolf Hitler
quanto os chefes dos extremistas islâmicos são aceitos entre seus seguidores
sem nenhuma negociação, de maneira cega. O conteúdo moral e ético de suas
ordens jamais é questionado. Para os islamistas, a lei que rege os homens foi
criada por Alá e deve haver alguém encarregado de aplicá-la, o aiatolá iraniano
Ali Khamenei ou o líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al Baghdadi.
O senhor também comparou o Islã a
uma droga. Isso não se aplica igualmente a qualquer outra religião, quando
levada ao extremo?
Abdel-Samad: Sim,
todas as religiões podem ser como drogas. Até o budismo. Tudo depende da
quantidade em que são consumidas. O limite
é ultrapassado quando alguém ou um grupo insiste que as regras de convivência
ditadas pela sua religião devem reger todas as situações da vida. O
cristianismo enfrentou esse problema na Idade Média, durante a Inquisição.
Atualmente, pelo menos na Europa, tanto o judaísmo quanto o cristianismo
aceitam uma função diferente na sociedade. Os católicos reconhecem o papa não
como um chefe político, mas um líder espiritual. Do Vaticano, ele não determina
as políticas mundiais como um chefe de Estado.
Por que no mundo islâmico é
diferente?
Abdel-Samad: No
Islã muita gente acredita que o Corão
é a palavra de Deus, enviada diretamente do céu para os seres humanos. O texto
divide o mundo entre bons e maus, fiéis e infiéis, e determina que o islamismo
deve prevalecer sobre todas as outras religiões, o que significa controlar o
mundo. Se as mensagens são interpretadas à luz do que se sabe hoje, então pode
haver uma mensagem que ajude as pessoas a conviver. Do contrário, quando o Corão é aplicado sem nenhuma relativização, o resultado é sempre um
regime fascista, como o do Irã. O Hamas fez isso na Faixa de Gaza. A mesma
coisa também aconteceu na Somália e no Sudão. Não há espaço para a democracia quando se faz uma interpretação literal
do Corão. O Islã diz que as leis são
as leis de Deus e isso não é negociável. Em uma democracia, quem faz as
leis são os seres humanos.
Por que o senhor considera Maomé um
ditador?
Abdel-Samad: Ele
dizia ter acesso direto a Deus, recebia as leis e as implementava. Ninguém na
sua comunidade poderia negociar com ele sobre isso.
Como o Estado Islâmico consegue
recrutar tantos cidadãos ocidentais para lutar no Iraque e na Síria?
Abdel-Samad: Em
mesquitas ou sites de internet, membros do Estado Islâmico dizem a jovens que
em seus países eles são vistos como criminosos e diferentes. E garantem que
todos são iguais e prósperos no califado que estão construindo. Além disso,
afirmam que lá os jihadistas podem ganhar muito dinheiro. Quando uma cidade é
tomada e um banco é roubado, por exemplo, os combatentes recebem uma boa
recompensa. Eu já vi o anúncio de um egípcio que convidava outros muçulmanos
para ir para o Estado Islâmico dizendo que poderiam ganhar até 5000 dólares por
dia. Com tudo isso, o jovem que se sente
um pária na Alemanha ou nos Estados Unidos acha que descobriu uma oportunidade de
ganhar dinheiro, de se tornar o prefeito ou o juiz de uma cidade síria ou
iraquiana ou de comandar uma tropa. Todos os dias, o Estado Islâmico anuncia
que conquistou cidades e dá a impressão de estar vencendo, mesmo que não
esteja. O Isis também não recorre à velha retórica da vitimização
muçulmana, como faz a Al Qaeda. Seus membros apresentam-se como os fortes que
certamente vencerão no final. Isso tudo melhora a autoestima. Assim, enquanto a Al Qaeda recrutava só suicidas,
o Isis diz convocar os novos conquistadores do mundo. Essa é a diferença.
O Isis não pode se enfraquecer por
disputas internas?
Abdel-Samad: Sim,
e é por isso que, assim como os nazistas, o Isis criou milícias para
aterrorizar dissidentes. Todos os grupos radicais, do Estado Islâmico ao
nigeriano Boko Haram ou ao libanês Hezbollah, formam milicianos para impor sua ideologia na sociedade à
base da violência. Não há espaço para a diversidade. Qualquer demonstração
de individualismo é considerada uma ameaça, uma traição.
Em 2010 , o senhor previu o declínio
do Islã. O avanço do Estado Islâmico no Oriente Médio não prova o contrário?
Abdel-Samad: Pode
parecer que o grupo está em ascensão, mas, do meu ponto de vista, este é o
começo da queda. A sociedade tribal e
patriarcal do mundo islâmico não tem respostas às questões da modernidade, pois
não permite a liberdade, uma condição básica para a democracia. Mesmo
depois de ditadores como Hosni Mubarak, do Egito, ou Muamar Kadafi, da Líbia, terem
sido depostos, seus países não se tornaram democráticos. A ascensão de grupos
radicais como o Estado Islâmico levará mais adiante à queda do mundo árabe.
Por quê?
Abdel-Samad: No
tempo de Maomé, para um ditador sobreviver bastava ter um exército forte,
roubar e fazer escravos. Hoje a economia funciona de maneira diferente. Os
países precisam de um sistema bancário que funcione, de uma diplomacia capaz de
cultivar boas relações com outros países. Ter soldados prontos para morrer não
será suficiente para muitos governos do mundo islâmico. Esse declínio será
ainda mais vertiginoso daqui a vinte anos, quando o petróleo secar. As reservas são hoje a fonte do terror, mas
um dia elas não estarão mais lá. Pelo que vejo, os governantes não estão
criando alternativas econômicas viáveis ao petróleo.
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"O fascismo islâmico: uma análise" Título do último livro de Hamed Abdel-Samad Até o momento, edição somente em alemão |
O senhor já foi acusado de ser tão
beligerante quanto os muçulmanos radicais ao dizer que o Islã político deve ser
exterminado militarmente. A crítica faz sentido?
Abdel-Samad: Só
um ingênuo pode achar que um grupo como o Estado Islâmico pode ser derrotado
com diálogo, ainda que de um lado esteja o papa e do outro os representantes
dos extremistas. Não há conversa
possível, porque eles não acreditam que a outra parte tenha o direito de
existir. Querem o poder total para controlar o mundo. A única opção é
bombardeá-los e combatê-los com soldados. Apenas isso não solucionaria o
problema, claro. Subjugá-los exige enfrentá-los pelo ar e por terra e, ao mesmo
tempo, ter uma estratégia para lidar com o mundo árabe, como um novo Plano
Marshall (feito para levantar a Europa
arrasada após a II Guerra Mundial). Os pacifistas, que acreditam que a
guerra não é a solução, precisam ver a situação concreta. Se os Estados Unidos não tivessem bombardeado os terroristas que se
aproximavam da minoria religiosa dos yazidis
em agosto, no Iraque, haveria um genocídio. Os soldados curdos não teriam
conseguido impedir o avanço deles sem ajuda. Se esses pacifistas lessem história, aprenderiam que muita gente tentou
negociar com Hitler, mas de nada adiantou. Apesar da diplomacia, o nazista
tomou a Checoslováquia, a Polônia e outros países. Muitos dos alemães que me
criticam hoje não existiriam se os americanos não tivessem desembarcado na
Normandia e libertado a Alemanha dos nazistas. Obviamente, eu prefiro não ver
uma gota de sangue sendo derramada. No mundo atual, contudo, há grupos como o
Estado Islâmico, que degola inocentes, estupra meninas e dizima minorias. Não
podemos só ficar fazendo correntes humanas e acendendo velas, achando que isso
trará a paz.
O senhor já foi da Irmandade
Muçulmana. Por que abandonou o grupo?
Abdel-Samad: Meu
pai é um imã*,
e eu aprendi a declamar o Corão de
memória. Na universidade, entrei para a Irmandade, atraído pelo mesmo sonho que
o Estado Islâmico vende hoje, o de ser parte de uma revolução. Queríamos
derrubar o ditador egípcio Hosni Mubarak e participara de uma mudança social. É
uma ideia muito sedutora. Durante dois anos, presenciei a lavagem cerebral que
eles fazem. Em um dia muito quente, levaram-nos para um treinamento no deserto.
Deram uma laranja a cada um de nós e pediram que andássemos até cair de cansaço
e sede. Então nos mandaram sentar, ajoelhar e descascar a laranja. Foi um
momento de êxtase. O chefe, porém, nos disse que devíamos enterrá-la e comer só
casca. Eu pensei “Como assim? Ele só pode estar querendo me quebrar, tirar
minha dignidade”. O objetivo é ensinar todos a obedecer cegamente. Fazem essas
coisas pra que os homens não possam dizer “não”. Isso é perigoso. Até hoje,
quando descasco uma laranja, sinto um sabor amargo na boca. O meu próximo passo
foi ir para a Europa, onde comecei a estudar o Islã do ponto de vista
científico. Foi então que comecei a ver todas as contradições e a escrever
sobre isso.
O senhor afirma que foi abusado
sexualmente em sua infância e põe a culpa em parte na religião. Por quê?
Abdel-Samad: Não
culpo a religião, mas é um fato que vivi em uma sociedade em que a violência
ocupa um papel bem forte na família e na educação. Uma criança não pode falar
certas coisas. A religião tem muito
disso, pois força a uma hipocrisia moral. Espera-se que os indivíduos se
comportem como anjos, mas na realidade eles são pessoas normais, e isso não dá
certo. Em boa parte do mundo islâmico, os homens, quando jovens, não podem
se relacionar com mulheres antes de casar, mas têm desejos sexuais. Muitos
acabam pegando um menino menor para se satisfazer. Cria-se assim uma atmosfera
propícia para diversos crimes, e ninguém pode expô-los. Eu tinha 4 anos de meio
quando fui abusado, e isso foi extremamente doloroso. Na segunda vez, eu tinha
11 anos. Ficou absolutamente claro que alguma coisa estava muito errada. Meus
pais nunca souberam, até a publicação do meu primeiro livro. Eles evitaram
falar comigo sobre isso.
Em Berlim, o senhor ainda recebe
ameaças de morte?
Abdel-Samad: Sim.
Elas começaram em junho de 2013, quando fui dar uma palestra no Cairo, depois
das eleições em que Mohamed Mursi,
da Irmandade Muçulmana, se saiu vitorioso. Um acadêmico, um político e um
influente líder religioso disseram em um canal de televisão da Irmandade que eu
deveria ser morto. Nem sequer seria preciso esperar que o Estado fizesse isso.
Qualquer muçulmano poderia tomara a iniciativa porque eu teria atacado Maomé e
o Islã. O político que disse isso tinha sido ninguém menos que o líder da
campanha de Mursi. Na época, o ministro de Relações Internacionais da Alemanha
pediu que os homens que tinham incitado esse crime fossem presos. Nada
aconteceu, e Mursi apareceu abraçando esse político na televisão. Eu saí de lá
e pedi à minha família que não me defendesse publicamente, pois isso seria
perigoso. Mesmo assim, meus parentes receberam ameaças.
N
O T A :
*
Imã ou imane (em árabe امام, "aquele que
guia" ou "aquele que está adiante") é o pregador no culto
islâmico e também designa os principais líderes religiosos do Islamismo que
sucederam ao profeta Maomé. Na doutrina sunita usa-se o título Imame [Imã] paralelamente
ao título de Califa. Os xiitas, e em particular os imamitas, os chamados
"Xiitas dos Doze", elevam ainda mais o significado do termo, pois
observam os doze imames da família de Ali como sucessores legítimos de Maomé
(para saber mais, clique aqui).
Fonte: Revista VEJA –
Especial – Edição 2408 – Ano 48 – nº 2 – 14 de janeiro de 2015 – Pgs.
72-74.
SEM DEUSES
Paolo Flores d’Arcais*
É preciso que o Islã
não fundamentalista aceite a legitimidade daquilo que "Charlie Hebdo" pratica
com intransigência: o direito de ironizar gregos e troianos
![]() |
Homenagem do cartunista Joep Bertrans ao Charlie Hebdo |
Heróis das liberdades democráticas - definiu-os
intempestivamente o presidente François Hollande. É verdade. Wolisnki e seus
companheiros do Charlie Hebdo eram de
fato libertinos maníacos sexuais, extremistas de esquerda, ateus,
anarquistas-comunistas; enfim, irresponsáveis, como diz cristalina e
orgulhosamente o subtítulo do semanário hoje transformado em elogio por
governantes reacionários e jornalistas do establishment, déspotas e falsas
esquerdas, papas e Ligas Árabes, com diferentes graus de hipocrisia que nem
sequer procuramos medir. Melhor assim. Agora todos devem alinhar-se na defesa
do direito aos “despautérios” com os quais os “extremistas” irresponsáveis que
acabam de ser assassinados caracterizaram suas vidas, encheram as páginas do Charlie e nutriram nossas liberdades.
Quando ainda empunhavam o lápis eram atacados, difamados, apenas suportados. O
elogio que, contra a própria vontade, todos devem fazer hoje é, pois, a charge
e o editorial que Wolinski e Charb poderiam ter escrito sobre a hipocrisia do
poder. Não esqueçamos disso.
A matança foi feita
em nome de Deus, o deus monoteísta, criador e onipotente, o Deus de Maomé, Alá,
o Clemente e Misericordioso (são os 2 primeiros dos seus 99
qualificativos). Em nome do Islã,
portanto - mas do Islã fundamentalista e terrorista, ressalvou-se. O outro
Islã, enfatizou-se, é vítima. Sem dúvida. Desde
que esse outro Islã fale de maneira forte, clara, sem malabarismos semânticos e
com cristalina coerência de comportamento. Por isso, não basta que condene
como monstruosa a matança de rue Nicolas Appert, 10 (só faltava não condenar!),
mas é inevitável que reconheça a legitimidade e a normalidade democrática do
que Charlie praticava de maneira
exemplar com intransigência: o direito de criticar gregos e troianos, Nossa
Senhora, o Profeta e o próprio Deus em suas variadas confissões concorrentes.
Inclusive, e, diríamos mesmo, principalmente, quando essa crítica é vista pelo
crente como uma ofensa à própria fé. Isso
exige liberdade democrática, porque esse direito desaparece quando o crente se
torna árbitro e dono dos seus limites.
O cristianismo, felizmente, foi obrigado a chegar a um
acordo com a democracia laica, embora ainda não a aceite plenamente. Assim, o
fundamentalismo habita em seu seio em grau infinitamente menor que em relação
ao fundamentalismo islâmico - isso é ponto pacífico e não há comparação
possível. Mas não devemos nos esquecer que foram cristãos militantes que, nos
EUA [Estados Unidos da América], assassinaram médicos e enfermeiras que
respeitavam a vontade de abortar de algumas mulheres. Mulheres, médicos e
enfermeiras que Wojtila [Papa João Paulo
II] e Ratzinger [Papa Bento XVI] chamaram
várias vezes de responsáveis pelo “genocídio do nosso tempo”, ou seja, nazistas
pós-modernos.
O laicismo mais
rigoroso, que exclui Deus, qualquer Deus da vida pública (escolas,
tribunais, comícios eleitorais, debates televisivos, etc.), é, portanto a única
salvaguarda contra a incubação de um caldo de cultura clerical que
inevitavelmente poderá tornar-se uma bala fundamentalista.
*
Paolo Flores d’Arcais
é filósofo e jornalista italiano, editor da revista Micromega e autor, entre outros livros, de Etica senza fede (Einaudi) – tradução: Ética sem fé.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 11 de janeiro de 2015 – Pg. E3 –
Internet: clique aqui.
OUTRO PONTO DE VISTA
Para se entender o terrorismo contra o Charlie Hebdo
Leonardo Boff*
"Formalizemos um
conceito do terrorismo: é toda violência espetacular, praticada com o propósito
de ocupar as mentes com medo e pavor"
![]() |
Leonardo Boff - teólogo e filósofo brasileiro |
Uma coisa é se indignar, com toda razão, contra o ato
terrorista que dizimou os melhores chargistas franceses. Trata-se de ato
abominável e criminoso, impossível de ser apoiado por quem quer que seja.
Outra coisa é procurar analiticamente entender por que tais
eventos terroristas acontecem. Eles não caem do céu azul. Atrás deles há um céu
escuro, feito de histórias trágicas, matanças massivas, humilhações e
discriminações, quando não de verdadeiras guerras preventivas que sacrificaram
vidas de milhares e milhares de pessoas.
Nisso os Estados Unidos da América [EUA] e em geral o Ocidente
são os primeiros. Na França vivem cerca de cinco milhões de muçulmanos, a
maioria nas periferias em condições precárias. São altamente discriminados a
ponto de surgir uma verdadeira islamofobia.
Logo após o atentado aos escritórios do Charlie Hebdo, uma mesquita foi atacada a tiros, um restaurante
muçulmano foi incendiado e uma casa de oração islâmica foi atingida também por
tiros.
Que significa isso? O mesmo espírito que provocou a tragédia
contra os chargistas está igualmente presente nesses franceses que cometeram
atos violentos às instituições islâmicas. Se Hannah Arendt [filósofa judia, radicada nos EUA] estivesse viva,
ela que acompanhou todo o julgamento do criminoso nazista Eichmann, faria semelhante comentário, denunciando este espírito
vingativo.
Trata-se de superar o espírito de vingança e de renunciar à
estratégia de enfrentar a violência com mais violência. Ela cria uma espiral de
violência interminável, fazendo vítimas sem conta, a maioria delas inocente.
Paradigmático foi o atentado terrorista de 11 de setembro de
2001 contra os Estados Unidos. A reação do Presidente Bush foi declarar a
“guerra infinita” contra o terror; instituir o “ato patriótico” que viola
direitos fundamentais ao permitir prender, sequestrar e submeter a afogamentos
a suspeitos; criar 17 agências de segurança em todo o país e começar a espionar
todo mundo no mundo inteiro, além de submeter terroristas e suspeitos em Guantánamo
a condições desumanas e a torturas.
O que os EUA e aliados ocidentais fizeram no Iraque foi uma
guerra preventiva com uma mortandade de civis incontável. Se no Iraque houvesse
somente ampla plantação de frutas e cítricos, nada disso ocorreria. Mas lá há
muitas reservas de petróleo, sangue do sistema mundial de produção.
Tal violência barbárica, porque destruiu os monumentos de
uma das mais antigas civilizações da humanidade, deixou um rastro de raiva, de
ódio e de vontade de vingança.
A partir deste transfundo, se entende que o atentado
abominável em Paris é resultado desta violência primeira, e não causa
originária. O efeito deste atentado é instalar o medo em toda a França e em
geral na Europa. Esse efeito é visado pelo terrorismo: ocupar as mentes das
pessoas e mantê-las reféns do medo.
O significado principal do terrorismo não é ocupar
territórios, como o fizeram os ocidentais no Afeganistão e no Iraque, mas
ocupar as mentes. Essa é sua vitória sinistra.
A profecia do autor intelectual dos atentados de 11 de
setembro, o então ainda não assassinado Osama
Bin Laden, feita no dia 8 de outubro
de 2001, infelizmente, se realizou: “Os EUA nunca mais terão segurança, nunca
mais terão paz”.
Ocupar as mentes das pessoas, mantê-las desestabilizadas
emocionalmente, obrigá-las a desconfiar de qualquer gesto ou de pessoas
estranhas, eis o que o terrorismo almeja e nisso reside sua essência. Para
alcançar seu objetivo de dominação das mentes, o terrorismo persegue a seguinte
estratégia:
(1) os atos têm de ser espetaculares, caso contrário, não
causam comoção generalizada;
(2) os atos, apesar de odiados, devem provocar admiração
pela sagacidade empregada;
(3) os atos devem sugerir que foram minuciosamente
preparados;
(4) os atos devem ser imprevistos para darem a impressão de
serem incontroláveis;
(5) os atos devem ficar no anonimato dos autores (usar
máscaras) porque quanto mais suspeitos, maior o medo;
(6) os atos devem provocar permanente medo;
(7) os atos devem distorcer a percepção da realidade:
qualquer coisa diferente pode configurar o terror. Basta ver alguns rolezinhos
entrando nos shoppings e já se projeta a imagem de um assaltante potencial.
Formalizemos um conceito do terrorismo: é toda violência
espetacular, praticada com o propósito de ocupar as mentes com medo e pavor.
O importante não é a violência em si, mas seu caráter
espetacular, capaz de dominar as mentes de todos. Um dos efeitos mais
lamentáveis do terrorismo foi ter suscitado o Estado terrorista que são hoje os
EUA. Noam Chomsky cita um
funcionário dos órgãos de segurança norte-americano que confessou: “Os EUA são
um Estado terrorista e nos orgulhamos disso”.
Oxalá não predomine no mundo, especialmente no Ocidente,
este espírito. Aí sim, iremos ao encontro do pior.
*
Leonardo Boff (nascido em Concórdia, Santa Catarina, em
1938) doutorou-se em teologia pela Universidade de Munique (Alemanha). Foi
professor de teologia sistemática e ecumênica com os Franciscanos em Petrópolis
e depois professor de ética, filosofia da religião e de ecologia filosófica na
Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Conta-se entre um dos iniciadores da
Teologia da Libertação. É assessor de movimentos populares. Conhecido como
professor e conferencista no país e no estrangeiro nas áreas de teologia,
filosofia, ética, espiritualidade e ecologia. Para mais informações sobre sua
pessoa e sua obra, clique aqui e aqui.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 12 de janeiro de 2015 –
Internet: clique aqui.
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