A verdade sobre o Islã, segundo um jesuíta egípcio
Matteo
Matzuzzi
Il Foglio
10-01-2015
"Os imãs dizem
que não devemos confundir os terroristas com o Islã, que, em vez disso, é uma
religião que prega a paz e a não violência. Fácil demais assim, pouco
demais"
Diz o padre Samir
Khalil Samir, jesuíta nascido no Egito, que viveu no Líbano, professor da Université Saint-Joseph de Beirute, e
do Pontifício Instituto Oriental de
Roma, considerado um dos maiores islamólogos [especialista em islamismo] vivos.
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Padre SAMIR KHALIL SAMIR - jesuíta especializado em islamismo |
"Não podemos nos desculpar desse modo, e, enquanto
ouvirmos repetir por parte dos doutos muçulmanos o costumeiro refrão, nada vai
mudar." Os imãs, em primeiro lugar, explica o nosso interlocutor,
"deveriam se distanciar daqueles que entram em uma redação de jornal com
os fuzis apontados, dizendo que são terroristas que querem reconquistar o mundo
para o Islã. Em vez disso, eles não o fazem, não assumem que ao menos 80% das ações terroristas no planeta ocorrem
em nome do Profeta".
A questão fundamental é que, "no Alcorão, há violência,
ao contrário do Evangelho. Quando os muçulmanos conquistaram a Terra Santa,
passaram a fio de espada os infiéis", é um fato. É aqui que deve começar o
trabalho dos imãs, chamados a "explicar que uma coisa é o texto escrito
que ninguém quer tocar, outra coisa é a interpretação dessas frases. Tomemos o
Antigo Testamento, que contém passagens de uma violência sem precedentes",
acrescenta o padre Samir: "A Igreja, em dois mil anos, soube ensinar como
interpretar as Escrituras, caso contrário, ainda deveríamos levar ao pé da
letra os versículos sobre o Deus dos exércitos e das crianças jogadas contra as
rochas. Todas as civilizações conheceram essa fase, mas a superaram. O Islã
não".
São muito poucos, professores universitários
intelectualmente crescidos no Ocidente, aqueles que tentaram contextualizar aos tempos atuais o ditado
corânico. Os outros, a maioria, "não ousam fazê-lo".
O que serviria por parte da comunidade muçulmana, explica o
padre Samir, é "uma saudável
autocrítica, mas não a fazem, calam-se quando, em nome do Islã, é cometido
algo contra os outros. Então, é inútil
dizer que eles se sentem oprimidos e inferiores. Em parte, é verdade, mas o que
eles fazem para mudar essa condição? Nada. Não é o Ocidente que os colocou
nessa situação, mas eles são os únicos que se enfiaram aí, arruinando a
reputação de todos os muçulmanos que desejam apenas viver em paz com
todos".
Em suma, diz o islamólogo, "não se pode aceitar que
aqueles que vêm ao Ocidente queiram impor o seu próprio sistema de regras. A integração pressupõe a aceitação da
cultura das populações acolhedoras, a adoção dos hábitos desse povo, até
mesmo diferente dos seus. Porque só assim essas pessoas estarão prontas para
acolher e ajudar. O debate face a face não serve de nada, o diálogo verdadeiro pressupõe a disponibilidade, sim, para ouvir, mas
também para se adequar ao outro".
Hoje, no entanto, "o diálogo consiste nos muçulmanos
que, em primeiro lugar, lembram que são mais de um bilhão e meio no planeta e
que, se houver algum atentado, é porque se encontram em condições sociais
difíceis. Pois bem, não é que os chineses estejam em condições muito melhores,
mas não jogam granadas".
Ao contrário, os islâmicos não fazem isso, fecham-se em comunidades
restritas e alimentam o medo. Coisa óbvia, neste ponto, diz Samir: "Muitos
cometeram atos terroristas em nome do deus islâmico – para eles, existe apenas
'Alá', não o chamam de Deus, nem mesmo quando falam em francês, inglês ou
italiano –, e a imagem que o Islã dá de si é totalmente negativa. Apresenta-se
como uma religião beligerante, agressiva, atrasada. A única solução é de
admitir, por sua parte, que algo está errado no seu próprio agir. Mas eles
devem fazer isso".
Em vez disso, eles reagem do modo que se viu contra as
caricaturas satíricas de uma revista: "A
bomba no turbante de Maomé? Que mal há?", diz o padre Samir, que
acrescenta: "Na época, os meus interlocutores muçulmanos definiam isso
como inaceitável. No entanto, eles
representam Alá com a espada. O Hezbollah o escreve até como se fosse um
kalashnikov [fuzil de origem russa],
de modo que quem o olha e não sabe ler em árabe pensa que esse nome indica
justamente a arma".
Não se trata de insultar o Profeta, esclarece o islamólogo:
"Só estou dizendo que, se alguém não concorda com uma caricatura, vá ao
juiz e se sirva da lei desse país. Se a lei não está bem, você é livre para ir
embora desse país. Não se pode chegar ao
ponto de alguém ser definido como 'ímpio' na própria casa".
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto.
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original, clique aqui.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 14 de janeiro de 2015 –
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