UM CAMINHO PARA AS TRÊS RELIGIÕES
Enzo Bianchi*
La Stampa
18-01-2015
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Enzo Bianchi - monge e escrito italiano |
A estima e amizade que há décadas nutro por Giuseppe Laras,
ex-rabino-chefe de Milão, me levam a fazer uma interlocução com suas reflexões
no [jornal] Corriere della Sera em
reação aos eventos de Paris e dirigidas como apelo a todo o Ocidente. Gostaria
de precisar melhor o que faz parte como necessidade e tarefa para nós cristãos
e para os judeus, no diálogo compartilhado. Na verdade, o que são hoje judeus e
cristãos? São irmãos gêmeos nascidos de um único tronco, o da Bíblia hebraica,
por nós cristãos definida como Antigo Testamento.
No I século a.C. eram diversos os hebraísmos presentes
(saduceus, fariseus, essênios) e judeus eram também Jesus e seus discípulos. No
I século d.C., respectivamente após a histórica parábola de Jesus e após a
destruição do templo por obra dos romanos em 70 d.C., eis afirmarem-se os dois
grupos dos fariseus (o judaísmo rabínico) e dos cristãos (definidos também como
nazarenos galileus, minim): os
primeiros puseram no centro de sua fé a Torá; os outros, ao invés, mediante uma
leitura do cumprimento das profecias, puseram no centro o Messias prometido,
isto é, Jesus de Nazaré, reconhecido como Mestre, Profeta, Justo e, em virtude
de sua ressurreição, Senhor e Messias.
É este o grande, originário cisma, uma divisão que – como
afirmou Joseph Ratzinger – era legítima a partir das próprias Escrituras
interpretadas de modo diverso. Os judeus não são “irmãos mais velhos”
(expressão carregada de afeto e simpatia, mas teologicamente não correta), são
irmãos que compartilham conosco o único Pai, Deus, e os pais na fé: Abraão,
Isaque, Jacó, Moisés e Davi. Entre judeus e cristãos há certamente uma
assimetria: nós não podemos viver como cristãos sem o Antigo Testamento,
enquanto os judeus podem viver sem o Novo Testamento. No nosso diálogo, que o
apóstolo Paulo corajosamente define também como “zelo” (Rm 11,11.14), as
relações são de emulação, e por isso não fáceis, mas nós somos chamados à
reconciliação sabendo, como escreve o mesmo Paulo, que “sua readmissão no final
dos tempos será uma ressurreição dos mortos” (Rm 11,15).
Mas, nesta nossa relação há um tema candente sobre o qual
não parece haver compreensão: o tema da terra e do Estado de Israel. Segundo as
Escrituras do Novo Testamento existe um Israel de Deus que são os judeus em
aliança com Deus, mas nem todo Israel é o Israel de Deus, é descendência de
Abraão. Assim como nem todos os nascidos em contexto de cristandade são
cristãos. É certo que espontaneamente a Igreja se sente ligada aos judeus que
creem, os quais estão com Deus numa aliança jamais revogada e vivem segundo
suas exigências, mas não identifica esta aliança, que pertence ao âmbito da fé,
com uma dimensão étnica, cultural ou política. Nós cristãos, que já não temos
mais terra nem pátria, porque toda terra estrangeira é para nós pátria – como
se lê na carta A Diogneto, um
esplêndido texto das origens cristãs -, sendo cidadãos do mundo em condições de
fazer escolhas políticas, podemos querer ou não querer o Estado de Israel, mas,
teologicamente não temos palavras em mérito. Isso não significa deixar os
judeus na metade do vau. Pessoalmente auguro o mais rápido possível a presença
de um estado de Israel e de um palestinense, em paz entre eles e reconhecidos
pelo mundo, mas, teologicamente minha fé não me autoriza a levantar a hipótese
de um estado de Israel.
E é complementar a esta reflexão pronunciar uma palavra
sobre os eventos da última semana. Temos falado demasiado e não sabíamos o que
dizíamos: palavras como armas, palavras de guerra, desprezo lançado para o
Islã... Temos desfigurado uma religião, o Islã, deixamo-la confundida com
extremismos que fazem referência a ela, mas que não são muito diversos daqueles
presentes ainda hoje em diversas religiões e em ideologias não religiosas. Sem
dúvida, temos a consciência da natureza manipuladora do fundamentalismo,
sabemos que não custa nada apropriar-se de Deus como de uma bandeira (e que
Deus será aquele na mente dos terroristas?), sabemos que não é verdade que
todos os muçulmanos são inclinados à violência. Sabemos também que por ora não há um choque de civilizações, isto é,
não se combatem Islã e o cristianismo, não há uma guerra em curso e declará-la
tal é irresponsável. Há, ao invés, um terrorismo que se diz inspirado pelo
Islã, que individua como inimigos alguns lugares ou sujeitos precisos do
Ocidente e que ceifa também muitíssimas vítimas muçulmanas no Oriente Médio.
Hoje, mais do que nunca, ocorre que haja responsabilidade,
ocorre racionalizar os temores que nos invadem e não deixar que sejam
cavalgados, com o efeito de aumentá-los e torná-los ingovernáveis, da parte de
forças políticas bárbaras e prontas a declarar guerra porque só se têm diante
de si um inimigo, ao custo de criá-lo, encontram uma forte identidade que não
têm em si mesmas, desprovidas como são de humanismo. O recente discurso do
presidente egípcio Al Sisi na
universidade al-Azhar do Cairo traçou para os muçulmanos uma via que contém
muitas deixas e perguntas. Queremos ajudar estes fermentos, queremos fazer algo
para que se abra um caminho diverso, na insígnia da escuta e do respeito
recíproco? Porque não começar pelo preceito universal da regra de ouro: “Não faças aos outros o que não queres que
seja feito a ti”, quem sabe vetando-nos caricaturas ofensivas para o Islã,
conjugando a nossa liberdade com o respeito pelo outro, sobretudo nesta hora
histórica na qual nos sentimos ameaçados por um terrorismo que recorre ao nome
de Deus e se pretende islâmico? É verdade: uma caricatura, também ofensiva,
jamais pode ser vingada com a violência e o homicídio, esta é uma barbárie
criminal! Mas, com a metáfora da reação espontânea do punho fechado a quem
ofende a mãe, o Papa Francisco se fez entender pelas pessoas mais simples e
cotidianas.
Ora, se é verdade que judaísmo e cristianismo são
principalmente formas de fé e não somente religiões, é preciso reconhecer
também ao Islã a capacidade de ser uma religião tendo no próprio coração a fé.
A única coisa que me ouço dizer – e uso as palavras de Marcel Gauchet – é que “o
cristianismo é a religião que requer a saída da religião”, por ser capaz de
uma crítica, de uma distância da própria religião. No cristianismo, de fato, não é o livro que está no centro, mas um
homem, Jesus Cristo, que os cristãos confessam como Senhor que foi morto
condenado precisamente por suas tomadas de posição que rompiam com a religião
existente. Nesta relação entre religião e fé, relação que o cristianismo soube
por em foco e distinguir, continua verdade que o Islã, em sua não contemporaneidade com a nossa cultura, tem uma lenta
evolução e ainda deve fazer um longo caminho de confronto com a modernidade,
isto é, com a crítica literária e teológica dos escritos sagrados em primeiro
lugar, mas também com a racionalidade humana, exercício absolutamente
necessário para purificar toda e qualquer religião. Além disso, os próprios judeus “religiosos” de Mea Shearim, que são uma minoria
significativa, ainda não elaboraram a
possibilidade de um estado que não seja teocrático e de uma lei civil distinta
da religiosa... E, análoga tentação golpeia ainda franjas fundamentalistas
de cristãos americanos.
Há um caminho a fazer da parte de todos os monoteísmos que
no passado, embora em formas, modos e intensidade diversas, combateram guerras
de religião, perseguiram os hereges, foram intolerantes. Neste caminho, é urgente uma leitura interpretativa
diversa do Antigo Testamento e do Corão, sobretudo nas páginas carregadas de
violência e de vinganças ameaçadas e consumadas. Nem seja esquecido que no
decurso da história também algumas páginas do Novo Testamento conheceram
interpretações violentas e intolerantes, tornadas praxes violentas e
intolerantes. Quanto à relação entre judeus e cristãos – que não pode ser
comparada àquela com o Islã ou com as outras religiões porque de natureza
intrínseca e iniludível – é preciso
permanecer sempre vigilantes para não judaizar da parte dos cristãos e para não
ceder à indiferença com os cristãos da parte dos judeus. São para sempre
irmãos gêmeos.
Traduzido do italiano por Benno Dischinger. Para acessar o artigo em sua versão original, clique aqui.
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Enzo Bianchi (nasceu em Castel Boglione, Itália, aos de 3
de março de 1943) é um religioso italiano e escritor, fundador e prior da
comunidade monástica de Bose, a qual é ecumênica.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 22 de janeiro de 2015 –
Internet: clique aqui.
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