As paróquias sejam ilhas de misericórdia no mar da indiferença, pede Francisco
Iacopo Scaramuzzi
Vatican Insider
27-01-2015
“Como desejo que os lugares onde a Igreja se manifesta,
particularmente as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de
misericórdia no meio do mar da indiferença!” Foi o que indicou o Papa Francisco
na mensagem anual da Quaresma (que
este ano vai de 22 de fevereiro a 5 de abril, dia da Páscoa). O texto
concentra-se na ideia, importante para o Papa, da superação da “globalização da indiferença”.
Deus “não é
indiferente a nós”, explicou Jorge Bergoglio na mensagem assinada em 04 de
outubro, festa de São Francisco de Assis, e que foi apresentada nesta
terça-feira no Vaticano. “Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-O
de ficar indiferente perante aquilo que acontece conosco. Coisa diversa se passa conosco! Quando estamos bem e comodamente
instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca
faz!), não nos interessam os seus
problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso
coração cai na indiferença”. O mundo “tende a fechar-se em si mesmo e a fechar
a referida porta pela qual Deus entra no mundo e o mundo n’Ele. Sendo assim, a
mão, que é a Igreja – explicou o Papa –, não deve jamais surpreender-se, se se
vir rejeitada, esmagada e ferida”. A
indiferença é uma “tentação real inclusive para nós cristãos”, e, como
consequência, temos necessidade de ouvir “cada Quaresma o grito dos profetas
que levantam sua voz e nos despertam”.
O Pontífice argentino destacou que “o Povo de Deus” necessita renovar-se “para não ser indiferente e para
não se fechar em si mesmo”, motivo pelo qual propôs três passos que devem ser meditados “para esta renovação”.
[1º] Em primeiro
lugar, a partir da Carta de São Paulo
aos Coríntios (“Se um membro sofre,
com ele sofrem todos os membros” – 1Cor 12,26), o Papa Francisco indicou
que “só se pode testemunhar algo que
antes experimentamos”, razão pela qual a Quaresma “é um tempo propício para nos deixarmos servir por Cristo e,
deste modo, tornarmo-nos como Ele. Verifica-se isto quando ouvimos a
Palavra de Deus e recebemos os sacramentos, especialmente a Eucaristia. Nesta,
tornamo-nos naquilo que recebemos: o corpo de Cristo. Neste corpo, não encontra
lugar a tal indiferença que, com tanta frequência, parece apoderar-se dos
nossos corações; porque, quem é de
Cristo, pertence a um único corpo e, n’Ele, um não olha o outro com indiferença”.
[2º] Em segundo
lugar, explicou Francisco, a partir da pergunta do Gênesis “Onde está o teu irmão?” [Gn 4,9], “tudo
o que se disse a propósito da Igreja universal é necessário agora traduzi-lo na
vida das paróquias e comunidades. Nestas
realidades eclesiais, consegue-se, porventura, experimentar que fazemos parte
de um único corpo? Um corpo que, simultaneamente, recebe e partilha aquilo
que Deus nos quer dar? Um corpo que conhece e cuida dos seus membros mais
frágeis, pobres e pequeninos? Ou refugiamo-nos num amor universal pronto a
comprometer-se lá longe no mundo, mas que esquece o Lázaro sentado à sua porta
fechada?” Por isso, a esperança de que
“cada comunidade cristã” possa “cruzar o umbral que a põe em relação com a
sociedade que a cerca, com os pobres e os incrédulos”, já que “a Igreja é,
por sua natureza, missionária, não fechada em si mesma, mas enviada a todos os
homens”. “Amados irmãos e irmãs – escreveu o Papa Francisco –, como desejo que
os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas paróquias e as
nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da
indiferença!”
[3º] Para
concluir, retomando o versículo da Carta
de Tiago que este ano inspira o título da mensagem papal (“Fortalecei os vossos corações” – Tg 5,8),
o Papa insiste em que “também como indivíduos temos a tentação da indiferença. Estamos saturados de notícias e imagens
impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo
toda a nossa incapacidade de intervir. O que fazer para não nos deixarmos
absorver por esta espiral de terror e impotência?” A resposta do Pontífice é, em primeiro lugar, rezar (“A iniciativa
24 horas para o Senhor, que espero se celebre em toda a Igreja – mesmo a nível
diocesano – nos dias 13 e 14 de março, pretende dar expressão a esta
necessidade da oração”), e depois vem a
caridade (“A Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo
outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa
participação na humanidade”), para concluir
com a conversão, “porque a
necessidade do irmão recorda-me a fragilidade da minha vida, a minha
dependência de Deus e dos irmãos” e permite encontrar “um coração forte e
misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai
na vertigem da globalização da indiferença”.
Participaram da apresentação da mensagem do Papa na Sala de
Imprensa vaticana, mons. Giampietro Dal
Toso, secretário do Pontifício
Conselho Cor Unum, mons. Segundo
Tejado Muñoz, subsecretário do mesmo dicastério, e Michel Roy, secretário-geral da Cáritas
Internacional. Mons. Dal Toso, em particular, indicou três âmbitos da
intervenção caritativa: a reconstrução
do Haiti após o terremoto (para o que a Igreja católica já contribuiu com
cerca de 21,5 milhões de dólares), o Oriente
Médio, particularmente a Síria e o Iraque, e as Filipinas, para onde acaba de viajar o Papa Francisco.
Ao responder aos jornalistas sobre a fusão do Pontifício
Conselho Cor Unum com outros dicastérios vaticanos, no contexto da reforma do
Papa Francisco, Dal Toso afirmou que “a caridade abre muitas portas, e é cartão
de apresentação para a Igreja; isso será seguramente levado em consideração na
revisão das estruturas da cúria, e posso imaginar que a eventual reestruturação
dê um impulso maior ao grande mundo da caridade e da presença da Igreja no
mundo para a promoção da humanidade”.
Para ter acesso à íntegra dessa mensagem do papa, clique aqui.
Traduzido do italiano por André Langer. Para ter acesso ao artigo
na versão original italiana, clique aqui.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 28 de janeiro de 2015 –
Internet: clique aqui.
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