O APAGÃO DO PLANETA
Entrevista
com Martin Rees*
Ivan Marsiglia
Indiferente aos “céticos
do clima”, a Terra está cada vez mais quente e a previsão é de desastres
devastadores até o fim do século, alerta astrônomo de Cambridge
![]() |
Martin John Rees - astrofísico e cosmólogo inglês |
Os desastres da gestão da água em São Paulo e dos apagões
elétricos no País não são obra de São Pedro ou de Deus, esse brasileiro - como
chegaram a atribuir certas autoridades. Mas foram ambos agravados por cenário
maior, também de catástrofe anunciada, só que em escala global. Há anos o Intergovernmental
Panel on Climate Change (IPCC), da ONU, alerta para o risco de mudanças
climáticas decorrentes do aquecimento global, pregando praticamente no deserto.
Na semana passada, somando-se ao aumento perceptível de eventos atmosféricos
extremos mundo afora, um relatório da
Nasa, a agência espacial americana, confirmou: 2014 foi o ano mais quente desde que essa medição começou a ser feita,
em 1880. E, embora os cientistas “céticos do clima” continuem sua cruzada
para esfriar os ânimos do ambientalismo, essa é uma realidade cada vez mais
difícil de negar.
“Se as emissões
anuais de CO2 continuarem a aumentar podemos enfrentar uma mudança
climática drástica, com cenários devastadores até o século 22”, crava um
dos cientistas mais respeitados do mundo na área. Sir Martin John Rees, astrônomo e professor de cosmologia e astrofísica
na Universidade de Cambridge, presidente da prestigiosa Royal Society entre
2005 e 2010, não é o que se pode chamar de “alarmista”. E, no entanto, em um
livro de 2003 - Our Final Century (Hora
Final - Alerta de um Cientista, Companhia das Letras) - já dizia, com
polidez britânica, que a humanidade tem
50% de chance de sobreviver ao século 21.
Na entrevista a seguir, o autor de From Here to Infinity: A Vision
for the Future of Science - livro de 2012 em que investiga as conexões
entre ciência, política e economia no século 21 - descreve o delicado estado de
coisas neste nosso “mundo congestionado”, sob ameaça não só do crescimento
populacional e da incessante demanda por recursos naturais, mas também da
incapacidade humana de pensar a longo prazo. Problemas que, alerta Martin Rees,
não serão resolvidos com medidas paliativas ou pela mão invisível do mercado:
“Exigem intervenção governamental e ação internacional”.
Em Our Final Century (2003) o sr. afirmava que nossa civilização tinha
50% de chance de sobreviver até o fim do século 21. Esse porcentual continua o
mesmo?
Martin Rees: Não
mudei meu ponto de vista - e tenho ficado surpreso com a quantidade de pessoas
que pensam que não sou suficientemente pessimista. Claro que é improvável que
todos nós sejamos exterminados. Mas penso que vamos ter que ter muita sorte
para evitar retrocessos devastadores. Em parte devido ao aumento do estresse nos
ecossistemas devido ao crescimento populacional e a nossa crescente demanda por
recursos. Mas, mais do que isso, porque nos apoderamos de uma nova tecnologia:
entramos em uma nova era geológica, o “antropoceno”, em que as ações humanas
determinam o futuro do meio ambiente.
Em que medida isso é uma ameaça?
Martin Rees: Até
a segunda metade do século 20, a grande ameaça, ao menos para o Hemisfério
Norte, era a guerra termonuclear, que por pouco não foi desencadeada durante a
crise dos mísseis em Cuba, na década de 1960. Estivemos perto dela em outras
ocasiões durante a Guerra Fria. Mas agora enfrentamos novas ameaças decorrentes
do uso indevido das bio e cybertecnologias, em avanço espantoso. É com elas que
me preocupo mais e por causa delas é que teremos uma jornada difícil neste
século.
O ano passado foi o mais quente na
Terra desde 1880, quando esse tipo de medição começou a ser feito, disse um
relatório divulgado essa semana pela Nasa, a agência espacial americana, e o
National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). O que está acontecendo
com o planeta?
Martin Rees: Já
está claro que há uma tendência de aquecimento de longo prazo nos últimos 50
anos. Essa taxa não é estável nem uniforme na superfície da Terra. Mas é uma
tendência que se sobrepõe a outros efeitos, como o El Niño, em que as alterações na circulação e no calor do oceano
armazenam-se nele em vez de na atmosfera. Sabemos que a quantidade de CO2
na atmosfera está aumentando e isso provoca aquecimento - e, consequentemente,
mudanças em larga escala nos padrões climáticos em todo o mundo. O que ainda
não está claro é quão grande é esse efeito. A duplicação do CO2 na
atmosfera causa um aquecimento de 1,2°C. Mas esse efeito pode ser ampliado
devido às trocas de vapor d’água e nuvens - e não sabemos as consequências desses
processos. Entretanto, parece claro que se as emissões anuais de CO2
continuarem a aumentar poderemos enfrentar uma mudança climática drástica, com
cenários devastadores até o século 22.
Depois de fazer um diagnóstico
catastrófico em 2007, quando estimou que 6 bilhões de pessoas morreriam até o
final do século, o cientista britânico James
Lovelock voltou atrás em 2012, dizendo que havia sido “alarmista” em
relação ao aquecimento global. Esse novo relatório da Nasa reforça as opiniões
mais pessimistas?
Martin Rees: Não
posso falar por James Lovelock - mas é fantástico vê-lo, aos 95 anos de idade,
engajado nesses temas e ainda disposto a mudar de ideia. Recentemente, por
exemplo, ele adotou uma postura favorável à energia nuclear. Entretanto, não
serão dados relativos a um único ano que vão convencer as pessoas a mudar suas
atitudes. Acho que vamos levar uns 20 anos ainda para começar a reduzir a atual
taxa de aquecimento. Até lá, saberemos com mais precisão - talvez a partir de
modelos produzidos por computação avançada - quanto a temperatura global tem
efetivamente aumentado e quão fortemente o feedback de vapor d’água e nuvens de
que falei amplifica os efeitos da acumulação de CO2 no “efeito
estufa”.
Por que, apesar de todos os alertas
feitos pelo IPCC da ONU, os líderes políticos ao redor do mundo parecem ainda
pouco sensibilizados pela questão, caminhando lentamente na direção de formas
alternativas de energia ou na redução dos atuais padrões de consumo?
Martin Rees: Embora
devamos ter esperança de que a conferência de Paris em dezembro deste ano
obtenha progressos efetivos, meu palpite pessimista é que os esforços políticos
para descarbonizar a produção de energia no mundo não vão ganhar força. E a
concentração de CO2 na atmosfera vai subir a um ritmo acelerado nas
próximas duas décadas. Até lá, ficará claro se o clima do mundo está entrando
em um território perigoso. Pode então haver pânico e uma pressão para que sejam
adotadas medidas de emergência. O que poderia tornar necessário um “plano B”:
fatalismo quanto à continuidade da dependência mundial dos combustíveis
fósseis, acompanhado de medidas que combatam seus efeitos com o uso da
geoengenharia.
Que tipo de medidas poderiam
reverter o aquecimento global?
Martin Rees: O
efeito estufa poderia ser contra-atacado, por exemplo, com a colocação de
aerossóis (partículas que absorvem e dispersam a luz solar) na atmosfera ou
mesmo de grandes guarda-sóis no espaço. É aparentemente factível lançar
material suficiente na estratosfera para mudar o clima do mundo - o assustador
seria imaginar como isso seria feito, se com recursos de uma única nação ou
talvez de uma megacorporação. Os problemas políticos em torno do uso desse tipo
de geoengenharia podem ser esmagadores. Sem falar na possibilidade de ocorrerem
efeitos colaterais. Além disso, o aquecimento poderia voltar caso essas medidas
fossem por alguma razão descontinuadas e também se mostrassem ineficazes em
relação a outras consequências do acúmulo de CO2. Em especial, os
efeitos deletérios que o gás causa na acidificação dos oceanos.
Ou seja, ainda que estejam surgindo
tecnologias supostamente capazes de reverter o aquecimento global, a utilização
delas teria resultados imprevisíveis?
Martin Rees: A
geoengenharia seria um pesadelo político absoluto. Nem todas as nações iriam
querer ajustar o termostato da mesma maneira. Modelos climáticos
superelaborados seriam necessários para calcular os impactos regionais de
qualquer intervenção artificial. Imagine: seria uma festa para os advogados se
um indivíduo ou uma nação pudessem ser responsabilizados por qualquer mau
tempo. Acho que seria prudente estudar suficientemente as técnicas de
geoengenharia para deixar claro que opções fazem sentido antes de adotar um
otimismo injustificado em relação a elas. Não haverá “solução rápida e técnica”
para consertar o clima.
Qual é a sua opinião sobre os
chamados “céticos do clima”, cientistas que ainda negam o aquecimento global,
com pesquisas às vezes financiadas por grupos econômicos que ganham com a
exploração dos combustíveis fósseis?
Martin Rees: O
debate sobre o clima tem sido marcado por muita disputa entre a ciência, a
política e os interesses comerciais. Aqueles que rejeitam as projeções feitas
pelo IPCC têm contribuído mais para jogar a ciência na lata do lixo do que em
fazer um apelo “por uma ciência melhor”. E ainda que os resultados da ciência
fossem claros e cristalinos, haveria uma margem gigantesca para debate sobre a
melhor resposta política. Acho que as divergências em questão dizem respeito
mais a desentendimentos éticos e econômicos do que científicos. Os que propõem
medidas tímidas e convencionais, como por exemplo, (o cientista dinamarquês) Bjørn Lomborg (autor do bestseller O Ambientalista Cético, Campus, 2002),
estão de fato desconsiderando o que pode acontecer para além de 2050. Há, de
fato, pouco risco de uma catástrofe dentro desse horizonte temporal - e assim
não é surpresa que se queira minimizar a prioridade do combate às alterações
climáticas. Mas se você se preocupa com quem vai viver no século 22 e depois
dele, então pode considerar que vale a pena fazer um investimento agora. Para
proteger as gerações futuras contra o pior cenário e prevenir o desencadeamento
de mudanças de longo prazo, como o derretimento do gelo da Groenlândia.
O Brasil, um dos tão aclamados
Brics, vive um momento dramático, com o sistema elétrico saturado e
possibilidade real de colapso total da água em São Paulo, a maior metrópole do
País. Podemos assistir em breve a um cenário de colapsos econômicos e evacuação
de cidades?
Martin Rees: Vivemos
num mundo interconectado cada vez mais dependente de energia e tecnologias
avançadas. Embora eu não esteja familiarizado o bastante para falar sobre São
Paulo, as “megacidades” são especialmente vulneráveis. No curto prazo, a
prioridade absoluta é assegurar energia elétrica confiável para todos. Esse
problema é muito maior em países como a Índia, onde milhões usam madeira ou
estrume como combustível para cozinhar, sofrendo em consequência abalos na saúde.
No longo prazo, todas as nações deveriam adotar políticas de baixo carbono.
Políticos não gostam de defender medidas que tragam mudanças de vida
indesejadas - especialmente se os benefícios dessas medidas só venham a
aparecer daqui a décadas. Mas há três medidas
políticas realistas que deveriam ser impulsionadas.
·
A primeira é os países promoverem ações que
poupem dinheiro, mais eficiência energética, melhor isolamento dos prédios,
etc.
·
A segunda é concentrar esforços em reduzir
poluentes, metano e carbono negro. São substâncias que não agravam tanto o
aquecimento global, mas sua redução, diferentemente da de CO2, traz
mais benefícios locais.
·
A terceira e mais importante é incrementar a
pesquisa e desenvolvimento de todas as formas de energia limpa - incluindo, a
meu ver, a energia nuclear. Por que a pesquisa energética não é feita numa
escala comparável à pesquisa médica? Nesse campo, o Brasil, já um inovador em
biocombustível e outros tipos de energia, poderia tornar-se um líder mundial.
Um outro estudo divulgado há poucos
dias pelo Goddard Space Flight Center,
da Nasa, alerta para a perspectiva de a civilização industrial entrar em
colapso nas próximas décadas por causa da exploração insustentável de recursos
e da distribuição desigual de riqueza - uma abordagem que poderia estar em seu
livro dez anos antes. É realista imaginar o mundo caminhando em outra direção?
Martin Rees: Robôs
estão substituindo humanos na indústria manufatureira. Vão ocupar cada vez mais
nossos empregos, não apenas no trabalho manual. Mas a grande pergunta é: o
advento da robótica será como o ocorrido com outras novas tecnologias - a do
carro, por exemplo -, que criavam tantos empregos quanto eliminavam? Ou desta
vez será diferente? As atuais inovações podem gerar riquezas imensas, mas será
preciso haver maciça redistribuição, via impostos, para garantir a cada um pelo
menos um “salário de sobrevivência”. Não existem impedimentos científicos para
se chegar a um mundo sustentável e seguro em que todos tenham um estilo de vida
melhor que o do Ocidente de hoje. Podemos ser “tecnologicamente otimistas”,
embora o equilíbrio tecnológico exija redirecionamento e se guie por valores
que a ciência em si não pode prover. Mas a aridez da política e da sociologia -
o abismo entre potencialidades e o que ocorre na realidade - indica pessimismo.
Políticos pensam em eleitores e nas próximas eleições. Investidores esperam
lucro no curto prazo. Fingimos ignorar o que ocorre neste exato momento em
países longínquos. E minimizamos fortemente os problemas que deixaremos para as
novas gerações. Sem uma perspectiva mais ampla, sem aceitar que estamos juntos
neste mundo congestionado, governos não vão priorizar projetos políticos de
longo prazo, mesmo que esse longo prazo seja apenas um instante na história do
planeta. A “Nave Terra” está vagando pelo espaço. Seus passageiros estão
ansiosos e divididos. O mecanismo de suporte de vida deles é vulnerável a
rupturas e colapsos. Mesmo assim, há pouco planejamento, pouca observação do
horizonte, pouca consciência dos riscos de longo termo. São problemas que não
podem ser resolvidos pelo mercado: exigem intervenção governamental e ação
internacional.
*
MARTIN REES É ASTROFÍSICO E PROFESSOR DE COSMOLOGIA DA
UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE (REINO UNIDO).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 25 de janeiro de 2015 – Pgs. E2-E3 –
Internet: clique aqui.
Que Deus nos proteja
Sérgio Telles*
Apelo do ministro ao
Criador por chuva seria impensável com cidadania forte
![]() |
Sérgio Telles - psicanalista e escritor |
Uma das coisas que mais me surpreenderam quando vim de
Fortaleza para morar em São Paulo foi ver que as pessoas não varriam a calçada
das ruas e sim as lavavam, gastando grande quantidade de água. Sendo do
Nordeste, onde a seca é uma presença forte no imaginário coletivo e na
realidade cotidiana, considerava a água
um bem valioso e me chocava vê-la desperdiçada com tanto descaso.
Essa lembrança me veio à mente com as notícias sobre a
iminente falta d’água em São Paulo, que está atravessando uma seca, ou melhor,
uma “crise hídrica”, como dizem os políticos.
O uso de eufemismos** para a se referir a realidades incômodas não é
apenas uma curiosidade linguística. É um artifício ligado às técnicas de propaganda e publicidade
que dominam a prática política mais recente e tem sombrios antecedentes. São
conhecidos dois excelentes registros desse recurso: um deles é de ordem
ficcional e foi realizado por George
Orwell com seu romance 1984, onde cria a “novilíngua” para
denunciar o totalitarismo soviético; o outro, documental, Lingua Tertii Imperii - A Língua
do Terceiro Reich, escrito por Viktor
Klemperer e que entre nós recebeu a cuidadosa tradução de Miriam Bettina
Oelsner, no qual estão expostas as deturpações e manipulações da língua alemã
pelos nazistas. Diz Klemperer: “A língua
conduz meu sentimento, dirige minha mente, de forma tão mais natural quanto
mais inconscientemente eu me entregar a ela. O que acontece se a língua culta
tiver sido constituída ou for portadora de elementos venenosos? Palavras podem
ser como minúsculas doses de arsênico: são engolidas de maneira despercebida e
aparentam ser inofensivas; passado um tempo, o efeito do veneno se faz notar”.
Embora longe da amplitude e abrangência alcançadas naqueles
regimes autoritários, estamos todos habituados a diversos termos com os quais o
poder nos bombardeia regularmente, como “aloprados”, “recursos não
contabilizados”, “elite”, “herança maldita”, “mídia golpista”, “malfeitos”,
“contabilidade criativa”, “pedaladas” e tantos outros que mistificam e
desinformam, dificultando qualquer transparência daquilo que supostamente
deveriam esclarecer. Embora condenável, é compreensível que os marqueteiros do
poder usem tal terminologia. Que a “mídia golpista” os avalize ao utilizá-los
sem aspas é um curioso paradoxo.
Vê-se então que a
forma como o poder usa a língua é bastante significativa. Um dos pilares da
identidade de uma nação, manifestação cultural de magna grandeza, a língua é um
bem inalienável que deve ser defendido, respeitado e ensinado. Mais um povo fala corretamente sua língua,
melhor ele expressa o pensamento, o conhecimento, a crítica, a sensibilidade,
as relações afetivas.
Sob esse aspecto, o fato de Dilma Rousseff se fazer chamar
de “presidenta” deixa de ser uma idiossincrasia sem importância e adquire
conotações antes pouco evidentes. Se em assim fazendo enfatiza o fato de ser
mulher e toma posição no combate a valores machistas retrógrados ainda muito
presentes em nossa sociedade, por outro lado tal escolha desconsidera
importantes aspectos. Dizendo-se “presidenta” - embora seja esta uma palavra
dicionarizada -, ao invés de estimular o pleno domínio da língua por todos, ou
seja, a conquista do conhecimento via educação, de forma demagógica nivela a
linguagem por baixo e com isso contribui para que os desfavorecidos permaneçam
no gueto da ignorância, incapacitados de efetivamente competir com os mais bem
preparados.
Mas voltemos à seca
de São Paulo, sua “crise hídrica”
- eufemismo que nos levou a um longo desvio. São veiculadas notícias
preocupantes ligadas à falta d’água, bem como em relação ao sistema elétrico na
iminência de um “apagão”. Aparentemente
corremos o risco de voltar à década de 1950, vivendo novamente a situação
cantada numa marchinha de carnaval daquela época que talvez volte merecidamente
a ser um hit no próximo carnaval - “de dia falta água, de noite falta luz”.
Com as afirmações e desmentidos, não sabemos exatamente o
que esperar. Estamos mesmo em vias de enfrentar uma grave situação? Até onde
vai nossa “crise hídrica”? Como lidar com o “apagão”? Que podemos esperar de
nossas autoridades? Estamos à beira de uma catástrofe? Como a população vai
reagir a uma séria escassez de água? Estará preparada para exercer alguma
solidariedade coletiva em nome do bem comum ou a gravidade da situação despertará
o instinto de sobrevivência, impondo o salve-se quem puder?
Em situações
emergenciais como essa é fundamental a confiança da população em seus líderes.
Mas vivemos um momento em que a
confiabilidade dos políticos cai ininterruptamente, o que o estelionato
eleitoral praticado por nossa “presidenta” só fez agravar. Estamos cada vez
mais atentos ao sinuoso discurso de muitos políticos, no qual fica evidente que
o interesse que os move não é a busca da
verdade no zelo pela coisa pública e sim garantir que sua permanência no poder
seja a mais longa possível, não importa a que preço.
Grande parte das catástrofes naturais é imprevisível. As
mais comuns no Brasil - habitualmente a seca no Nordeste e as enchentes no
Sudeste - são perfeitamente previsíveis, ocorrem regularmente e ao acontecerem
evidenciam mais uma vez a falta de planejamento e a incúria dos poderes
públicos.
![]() |
Eduardo Braga - Ministro das Minas e Energia |
Nessa quinta [22/01/2015], o ministro Eduardo Braga deu uma explícita demonstração de tudo isso.
Ao ser indagado dos riscos de um “apagão”, respondeu que “Deus é brasileiro e
temos que contar que ele vai trazer um pouco de umidade e chuva”. É verdade que
nas calamidades sentimo-nos desamparados, impotentes e diminutos diante das
forças que nos abatem. Regredimos e queremos a proteção paterna. Voltamo-nos incongruentemente
para Deus Pai, implorando sua misericórdia justamente no momento em que ele,
indiferente à nossa infelicidade, nos impõe grandes agruras e nos abandona à
própria sorte. Frente ao silêncio de Deus, arranjamos desculpas para manter
inabalada nossa fé. Se Deus não escuta nem atende nossas preces isso não nos
autoriza a duvidar de sua existência ou de sua bondade. A culpa é nossa. Por
sermos maus e pecadores, a única coisa que merecemos é o castigo.
A resposta do
ministro, autoridade que deveria informar as providências tomadas pelo governo
para enfrentar tamanho problema que pode atingir grandes populações, deixa
implícitas a ausência de uma estratégia e a falta de planejamento ao confessar
que dependemos da ajuda divina...
A resposta do ministro seria impensável se tivéssemos uma
cidadania forte e atuante que não se deixasse engodar com apelos religiosos - o
que não ocorre com nosso bovino eleitorado - e exigisse providências concretas
por parte dos representantes que elegeu e sustenta com os impostos que paga.
Nessa semana circulava nas redes sociais uma enquete que
perguntava o que é o pior no momento - falta de luz ou de água. Apesar de
reconhecer que ambas provocam imensos transtornos, penso que a pergunta está
mal formulada. O pior no momento é a
falta de políticos respeitáveis e a pusilanimidade***
dos cidadãos. Assim, no Brasil, ante os perigos de “crise hídrica” ou
“apagão”, só nos resta pedir a Deus que nos proteja.
N
O T A S :
*
SÉRGIO TELLES É PSICANALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE “O AVESSO DO COTIDIANO” (ZAGODONI EDITORA).
**
Eufemismo é palavra, locução ou acepção mais
agradável, de que se lança mão para suavizar ou minimizar o peso conotador de
outra palavra, locução ou acepção menos agradável, mais grosseira ou mesmo
tabuística: dianho (por “diabo”,
palavra que o povo procura evitar), a interj. caramba (por “caralho”, tabuísmo) etc.(Fonte: Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa – versão 3.0).
***
Pusilanimidade é a característica de quem tem fraqueza de
ânimo, falta de energia, de firmeza, de decisão, medo e covardia (Fonte: Dicionário eletrônico Houaiss da
Língua Portuguesa – versão 3.0).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 25 de janeiro de 2015 – Pg. E3 –
Internet: clique
Comentários
Postar um comentário