Charlie Hebdo: o que não nos contam?
Charlie Hebdo e a moral dupla do Ocidente
Rennan Martins
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Capa da edição que estará nas bancas nesta quarta-feira (14/01/2015) |
A França e o mundo assistiram em choque o ataque de
extremistas à redação do semanário satírico Charlie
Hebdo. Armados de fuzis AK-47, dois homens que o governo francês alega
serem franco argelinos invadiram a sede da publicação por volta das 11:30
locais e assassinaram oito jornalistas, dois policiais, um visitante e um
transeunte que se encontrava nas imediações do prédio.
No momento que traço estas linhas a imprensa corporativa dá
ampla cobertura ao cerco que a polícia francesa fez a fábrica onde dizem estar
os suspeitos com reféns. A ostensiva busca realizada nas horas subsequentes
mobilizou 88.000 homens das forças de segurança.
Conhecida por um humor corrosivo e politicamente incorreto, Charlie Hebdo possui cerca de três
décadas de história na qual publicou charges que atingem e por vezes ofendem a
diversos setores da sociedade. Apesar de ligada à extrema-esquerda, a revista
muitas vezes se alinhou à pura intolerância em desenhos islamófobos e antiminorias.
Independente do quão desrespeitosos e ofensivos eram os
cartoons, é fundamental deixar claro que este atentado é injustificável,
monstruoso e que só alimenta ainda mais a violência. Essencial também é lembrar
que o terrorismo islâmico [expressão inexata!] mata, sobretudo, os próprios
muçulmanos. Em entrevista à Revista Fórum,
o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, explana:
“No ano passado, foram 18 mil pessoas mortas no mundo por
atentados terroristas – são dados oficiais. Quantas pessoas morreram na Europa?
Nenhuma. Quantos atos terroristas foram praticados por islâmicos na Europa?
Nenhum. Houve vários atentados terroristas na Europa, classificados
oficialmente como terrorismo, a grande maioria atribuída a grupos separatistas,
e nenhum islâmico. Há um exagero da ameaça islâmica. Há muito preconceito e
pouca informação.”
Preocupante, no entanto, é a postura das lideranças
ocidentais e a narrativa promovida pela imprensa hegemônica. A abordagem das
autoridades e dos veículos evidencia o quão hipócrita e circunstancial é a
moral em voga.
Todo o teatro teve reinício e mais uma vez se fala nos EUA [Estados
Unidos da América] e aliados como baluartes da democracia e justiça, restando
ao “mundo islâmico” o papel de povo que inveja nossas “liberdades”. A Globo News gasta longos minutos falando
de controle de fronteiras, fazendo o jogo fácil de colar na testa do
estrangeiro a alcunha de mal. Ora, os suspeitos Chérif e Said Kouachi
nasceram na França, são apenas descendentes de árabes. No que o recrudescimento
da fiscalização auxiliaria?
É preciso evidenciar os dois pesos e medidas com que a OTAN [Organização
do Tratado do Atlântico Norte] trata o terrorismo, o uso político que fazem do
fenômeno. A população tem o direito de
saber que o ocidente tem parte e alimenta o terror quando este convém a seus
objetivos geopolíticos.
A Al Qaeda era
insignificante até serem financiados e treinados, ainda nos anos 1980, pela
inteligência norte-americana. Enquanto as ações do talibã serviam aos
interesses de desestabilizar o arquirrival, à época a URSS [União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas], Bin
Laden era retratado como guerreiro da liberdade.
A grande mídia não é exemplo de independência, pratica
autocensura e até mesmo espalha mentiras quando estas servem ao Poder. Não nos
esqueçamos que a Guerra no Iraque
foi legitimada por diversos boatos sobre inexistentes armas de destruição em
massa amplamente veiculados por nossos “jornalistas”. Esta intervenção vitimou
mais de 110.000 civis.
O Estado Islâmico
ganhou poderio e atualmente se consolida, mas somente teve condições para isso
após os EUA e as monarquias sunitas locais os financiarem largamente no intuito
de que a desestabilização promovida gerasse dividendos geopolíticos e
econômicos. O EI só se tornou uma ameaça à civilização após passarem a atuar em
regiões inconvenientes.
No mesmo dia do ataque à Charlie
Hebdo, a Agência Efe informa que os jihadistas do Boko Haram mataram centenas de pessoas na cidade de Baga, nordeste da Nigéria. Onde estão o repúdio e horror das autoridades? As vítimas
nigerianas são de menor valor?
A sociedade civil precisa abrir os olhos e se mobilizar para
impedir que esse atentado seja
instrumentalizado pela extrema-direita, que já se movimenta para avançar na
agenda bélica e xenófoba [que ou quem
manifesta aversão aos estrangeiros, ou à cultura estrangeira]. Como diz o
brilhante professor Chomsky, a melhor forma do ocidente combater o
terrorismo é deixar de promovê-lo.
Fonte: Blog dos Desenvolvimentistas – Vila Velha (ES), 9 de
janeiro de 2015 – Internet: clique aqui.
Ser ou não ser (Charlie)
Osvaldo
Coggiola*
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Osvaldo Coggiola - professor do Departamento de História da FFLCH/USP |
Em 1998, Zinedine
Zidane conduzia a seleção francesa de futebol à sua primeira conquista da
Copa do Mundo, em Paris. O craque francês de origem argelina integrava um time
histórico (também venceu a Eurocopa de 2000) com Didier Deschamps, Emmanuel
Petit (nomes mais franceses, impossível), o ghanês Odenkey Addy Abbey (mais conhecido como Marcel Desailly), Lilian Thuram, também de origem
africana subsaariana, Robert Pirès
(que, se tivesse nascido no país que seus pais abandonaram a procura de
trabalho, teria se chamado simplesmente Roberto Pires, e envergado a casaca cor
de vinho também usada por Cristiano Ronaldo). A França e o mundo celebraram, na
maior conquista esportiva de sua história, a vitória definitiva, no país do
hexágono, de uma sociedade multiétnica e multicultural reconciliada consigo
própria. O estraga-prazeres que ousou apontar que o time galo mais parecia um
catálogo futebolístico do antigo império colonial francês recebeu,
discretamente, não uma taça, mas uma garrafada de champanhe na cabeça.
Menos de sete anos depois, em 27 de outubro de 2005, após a
perseguição pela polícia, seguida de morte, dos jovens franceses descendentes
de africanos Bouna Traoré e Zyed Benna, que fugiam de uma das
habituais blitz policiais contra jovens não brancos das banlieues [periferias], entraram em um terreno fechado, pertencente
à EDF (companhia de eletricidade), refugiando-se dentro de uma edificação onde
havia instalações elétricas, onde morreram eletrocutados (um terceiro, Muhittin Altun, sofreu queimaduras
graves). Pouco depois, começaram os confrontos em Chêne-Pointu, entre grupos de
jovens e a polícia. A revolta se espalhou rapidamente pela periferia de Paris e
de outras cidades da França, instaurando-se o estado de emergência em 25
departamentos, a partir de 8 de novembro de 2005 até 4 de janeiro de 2006. Os
distúrbios duraram dezenove noites consecutivas, até o dia 16 de novembro.
Jovens indignados queimaram 8.970 carros e entraram em confrontos com a polícia
francesa, foram presos 2.888 jovens e houve mais um morto. Em 17 de novembro a
polícia declarou que a situação tinha sido “normalizada”. Certo Chérif Kouachi, rapper amador, foi posto na prisão.
Em 2011, os escritórios do semanário humorístico Charlie Hebdo, que tinha reproduzido as
charges ofensivas sobre o profeta Maomé publicadas há pouco tempo no jornal
dinamarquês Jyllands Posten
(provocando manifestações de rua em repúdio em países árabes e/ou islâmicos)
foram vítimas de um atentado a bomba, que provocou danos materiais, mas não
vítimas. E, em novembro de 2013, a coluna sonora do filme francês “La Marche”
dava a conhecer ao mundo um rap, “livremente” composto e cantado por vários
conhecidos rappers franceses
(Akhenaton, Disiz, Kool Shen e Nekfeu), em que o refrão solicitava, com alguma
insistência, “um Auto da Fé contra esses cachorros de Charlie Hebdo”. Pouco tempo antes, Al Qaeda divulgara uma lista de
condenados à morte (Fatwa), entre os
que se encontrava o editor do semanário, Stéphane
Charbonnier (ou “Charb”). Et que vive
la liberte d’expression! [E viva a liberdade de expressão!].
Uma
operação “profissional”
A 7 de janeiro de 2015, dois jovens (irmãos) franceses de origem árabe (e de declarada profissão de fé islâmica) decidiram invadir a sede de Charlie Hebdo, e realizar o pedido dos rappers, com meios mais modernos do que os outrora utilizados pelo frade Torquemada. Apresentados depois como profissionais altamente treinados em bases terroristas iemenitas e outros centros de treinamento do Oriente Médio, inicialmente erraram o endereço do jornal, que lhes foi revelado por acaso por uma das jornalistas do semanário que, nesse momento, se apresentava ao trabalho. Graças a isso, entraram e mataram quase todos os presentes na redação (onze pessoas), numa ação realizada com armas “sofisticadas” (como as que circulam em qualquer favela do Rio) e com “grande profissionalismo”, segundo jornais e comentaristas. Tão grande, que um dos jornalistas presentes salvou-se ao esconder-se… em baixo de uma mesa. Uma jornalista presente teve a vida perdoada “por ser mulher” (foi aconselhada a ler o Corão pelos assaltantes/assassinos), mas outra (Elsa Cayat, psicanalista) tinha sido previamente massacrada a pesar de possuir evidentemente a mesma condição.
[Continue lendo este
longo, mas muitíssimo bem documentado e fundamentado artigo, clicando aqui - vale a pena!]
* Osvaldo Coggiola, argentino de nascimento, é professor titular de história contemporânea da Universidade de São Paulo (USP).
Fonte: blog da
boitempo – Charlie Hebdo Especial – Publicado em 12/01/2015 – Internet:
clique aqui.
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