Citações a Deus durante votação na Câmara é criticada por religiosos
Isabela Vieira
(Colaboração
de Nanna Pôssa)
As referências à religião e a Deus nos discursos de
parte dos deputados que decidiram, no domingo (17 de abril), pela abertura de
processo de impeachment da presidenta
Dilma Rousseff incomodaram religiosos.
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ROMI BENCKE Pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterna e atual presidente do CONIC |
Em defesa da separação entre a fé e a
representação política, líderes de várias entidades criticaram as citações e
disseram que os posicionamentos violam o
Estado laico.
Durante a
justificativa de voto, os parlamentares usaram a palavra “Deus” 59 vezes, quase o mesmo número de
vezes que a palavra “corrupção”, citada
65 vezes. Menções aos evangélicos
aparecem dez vezes, enquanto a palavra
“família” surgiu 136, de acordo com a transcrição dos discursos, no site da
Câmara dos Deputados. A votação foi aberta pelo presidente da Câmara, Eduardo
Cunha, evangélico, com os dizeres: “Que
Deus esteja protegendo esta Nação”.
Para o Conselho
Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), composto pelas igrejas
Evangélica de Confissão Luterana, Episcopal Anglicana do Brasil, Metodista e
Católica, que havia se manifestado contra o impeachment,
assim como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ligada à Igreja
Católica, as menções não surpreenderam. A presidenta da entidade, a pastora Romi Bencke, disse que as citações distorcem o sentido das
religiões. “Não concordamos com essa
relação complexa e complicada entre religião e política representativa”,
afirmou.
Segundo Romi, uma das preocupações dos
cristãos é com o uso da religião para justificar posicionamento em questões
controversas. A fé, esclareceu, pode contribuir, com uma cultura de paz, com a
promoção do diálogo e com o fortalecimento das diversidades. Porém, advertiu,
“Tem uma faceta de perpetuar violência”, quando descontextualizada. “Infelizmente, vimos que os parlamentares
que se pronunciaram em nome de Deus, ao longo do mandato, se manifestam contra as
mulheres, defendem a agenda do agronegócio e assim por diante. Preocupa-nos
bastante o fato de Deus ser invocado na
defesa de pautas conservadoras – é ruim adjetivar, mas é a primeira palavra
que me ocorre – e de serem colocadas
citações bíblicas descontextualizadas. Não aceitamos isso e eu acho que é urgente refletir sobre o papel da
religião na sociedade”.
O teólogo
Leonardo Boff, que já foi sacerdote da Igreja Católica, expoente da
Teologia da Libertação no Brasil e hoje é escritor, também criticou o discurso
religioso dos parlamentares que, em sua opinião, colocaram em segundo plano os motivos para o pedido de impeachment, as pedaladas fiscais e a
abertura de créditos suplementares pelo governo de Dilma.
Golpe de 1964
Em seu blog na internet, Boff disse que os argumentos
apresentados se assemelharam aos da campanha da sociedade que culminou com o
golpe militar em 1964, quando as marchas da religião, da família e de Deus
contra a corrupção surgiram. Ele destacou o papel de parlamentares da bancada evangélica que usaram o nome de Deus
inadequadamente.
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JYUNSHO YOSHIKAWA monge budista do Templo Hoshoji, no Rio de Janeiro |
“Dezenas de parlamentares da bancada
evangélica fizeram claramente discursos de tom religioso e invocando o nome de
Deus. E todos, sem exceção, votaram pelo impedimento. Poucas vezes se ofendeu tanto o segundo mandamento da lei de Deus que
proíbe usar o santo nome de Deus em vão”, afirmou. O teólogo também
criticou aqueles que citaram suas famílias.
O Interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, entidade que reúne
representantes de várias religiões, o babalawó
Ivanir dos Santos, comentou que os
deputados transformaram o que deveria ser uma decisão política, neutra, em um
ato messiânico. “As pessoas têm tentado fazer uma atuação messiânica,
voltada a uma orientação religiosa, que não leva em conta a diversidade da
sociedade, ao justificar ações no Congresso Nacional”, disse.
Ele alertou para os riscos de as convicções
morais e religiosas, na política, serem usadas para atacar religiões com menos
fiéis, como é o caso do candomblé e da umbanda.
“Parte das
pessoas que falaram em Deus e religião, e que agora ganham mais força, persegue
religiões de matriz africana”, denunciou. “A nossa preocupação é com as casas
irresponsavelmente associadas ao diabo e incendiadas, as de candomblé, e com a
educação sobre a África e a cultura afro-brasileira, onde dizem que queremos
ensinar macumba”.
Budistas
Os budistas
acreditam que os deputados misturaram religião e interesses particulares. O líder do Templo Hoshoji,
no Rio, o monge Jyunsho Yoshikawa,
se disse incomodado e lembrou que os
representantes deveriam ter mais cuidado. “Não foi agradável ouvir os discursos em nome de Deus, como se
representassem Deus e como se Deus estivesse falando ou decidindo”,
advertiu.
“Religião e política não se misturam.
Política envolve interesses pessoais”.
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DEPUTADO JEAN WYLLYS (PSOL-RJ) COSPE NO DEPUTADO JAIR BOLSONARO (PP-RJ) DURANTE VOTAÇÃO DO IMPEACHMENT NA CÂMARA |
O monge afirmou que, como seres humanos, os
políticos são “imperfeitos”, e lamentou que o Congresso seja uma pequena mostra
disso .“É preciso olhar no espelho. Tudo que vimos é o que a sociedade é. Se
teve citação despropositada de Deus, um xingando o outro de 'bicha', se teve
cusparada ou defesa do regime militar é porque nossa sociedade é assim. Não adianta querer melhorar a política se
nós não buscamos nos tornar pessoas melhores”, disse Jyunsho, em relação ao
episódio em que o deputado Jean Wyllys
(PSOL) cuspiu em Jair Bolsonaro (PP).
Da mesma forma pensam ateus e agnósticos,
aqueles que não acreditam em Deus ou qualquer outra divindade. O presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos,
Daniel Sottomaior, também questionou
a postura de deputados, evangélicos principalmente. Para ele, a falta de compreensão sobre um Estado
Laico, neutro, fere a liberdade da população.
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