A beleza da família, de acordo com Papa Francisco
Salvatore
Cernuzio
Publicada nesta sexta-feira Exortação apostólica
pós-sinodal do Papa,
que apresenta as reflexões dos dois Sínodos de 2014 e
2015
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PAPA FRANCISCO Publica um documento muito sensível e voltado para a realidade concreta das famílias hoje |
A Amoris
Laetitia contém toda a beleza e a complexidade da família, também nos
seus detalhes mais cinzas, sendo assim uma monumental Exortação apostólica
pós-sinodal do Papa Francisco que marca
a conclusão do não fácil caminho de reflexão realizado nas duas assembleias dos
bispos do mundo.
Nove capítulos, mais de 300 parágrafos, 260
páginas, cerca de dois anos para elaborá-la: no texto altamente esperado,
publicado ontem (08/abril), mas que tem a data não aleatória de 19 de Março, Solenidade de São José, ecoa os resultados dos relatórios finais
dos Sínodos 2014 e 2015, bem como os documentos e os ensinamentos de seus
antecessores: João Paulo II, em particular, com a sua Familiaris Consortio, Papa Paulo VI com a histórica Humanae Vitae, o Papa Bento XVI com a Deus caritas est.
Há também algumas passagens
fortes das catequeses sobre a família do próprio Papa Francisco durante as
Audiências das Quartas-Feiras, preparatórias para acolher este documento que já
promete ser como uma das obras-primas do seu magistério. Não faltam as contribuições dos fiéis e das várias Conferências
Episcopais do mundo, do Quênia, como da Austrália ou da Coréia e as
citações de personalidades significativas como Martin Luther King, Erich
Fromm, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, ou até mesmo do filme A Festa de Babette com o qual o Papa
explica o conceito de “gratuidade”.
Tudo para demonstrar que
para falar de família “não existem simples receitas”, mas é necessário ampliar o
olhar e adotar um discernimento que, na medida do possível, reflita cada caso.
Porque, escreve o Papa, “nem todas as discussões doutrinais, morais
ou pastorais devem ser resolvidas com intervenções do magistério”, mas
principalmente com o amor. A alegria do amor.
Abaixo está um resumo dos pontos-chaves da
Exortação Apostólica do Santo Padre
Premissa
A
Exortação apostólica chama a atenção pela sua amplitude e articulação. Está
dividida em nove capítulos e mais de 300 parágrafos. Tem início com sete parágrafos introdutórios que evidenciam a plena
consciência da complexidade do tema, que requer ser aprofundado. Afirma-se que
as intervenções dos Padres no Sínodo constituíram um «precioso poliedro» (Amoris Laetitia [AL] 4) que deve ser preservado. Neste sentido, o Papa escreve que
«nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através
de intervenções magisteriais». Por conseguinte, para algumas questões «em cada país ou região, é possível buscar
soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De
fato,“as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (…), se
quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”» (AL 3). Este princípio de inculturação revela-se como muito importante até no
modo de articular e compreender os problemas, modo esse que, sem entrar nas
questões dogmáticas bem definidas pelo Magistério da Igreja, não pode ser
«globalizado».
Mas
sobretudo o Papa afirma de imediato e com clareza que é necessário sair da estéril contraposição entre a ânsia de mudança e a
aplicação pura e simples de normas abstratas. Escreve: «Os debates, que têm
lugar nos meios de comunicação ou em publicações e mesmo entre ministros da
Igreja, estendem-se desde o desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente
reflexão ou fundamentação até à atitude que pretende resolver tudo através da
aplicação de normas gerais ou deduzindo conclusões excessivas de algumas
reflexões teológicas» (AL 2).
Capítulo
primeiro: “À luz da Palavra”
Enunciadas
estas premissas, o Papa articula a sua reflexão a partir das Sagradas
Escrituras no primeiro capítulo, que
se desenvolve como uma meditação acerca
do Salmo 128, característico da liturgia nupcial hebraica, assim como da
cristã. A Bíblia «aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de
crises familiares» (AL 8) e a partir
deste dado pode meditar-se como a
família não é um ideal abstrato, mas uma «tarefa “artesanal”» (AL 16) que se exprime com ternura (AL 28), mas que se viu confrontada desde
o início também pelo pecado, quando a relação de amor se transformou em domínio
(cf. AL 19). Então, a Palavra de Deus «não se apresenta como
uma sequência de teses abstratas, mas como uma companheira de viagem, mesmo
para as famílias que estão em crise ou imersas nalguma tribulação,
mostrando-lhes a meta do caminho» (AL
22).
Capítulo
segundo: “A realidade e os desafios das famílias”
Partindo
do terreno bíblico, o Papa considera no
segundo capítulo a situação atual das famílias, mantendo «os pés assentes
na terra» (AL 6), bebendo com
abundância das Relações conclusivas dos dois Sínodos e enfrentando numerosos desafios, desde o:
* fenômeno migratório à
* negação ideológica da
diferença de sexo («ideologia de gênero»);
* da cultura do provisório
* à mentalidade antinatalidade
e
* ao impacto das
biotecnologias no campo da procriação;
* da falta de habitação e de
trabalho
* à pornografia e ao abuso de
menores;
* da atenção às pessoas com
deficiência ao respeito pelos idosos;
* da desconstrução jurídica
da família à
* violência para com as
mulheres.
O Papa insiste no carácter concreto, que é um elemento
fundamental da Exortação. E é este carácter concreto e realista que estabelece
uma diferença substancial entre «teorias» de interpretação da realidade e
«ideologias».
Citando
a Familiaris consortio, Francisco
afirma que «é salutar prestar atenção à realidade concreta, porque “os pedidos e os
apelos do Espírito ressoam também nos acontecimentos da história” através dos
quais “a Igreja pode ser guiada para uma compreensão mais profundado
inexaurível mistério do matrimônio e da família”» (AL 31). Sem escutar a realidade não é possível
compreender nem as exigências do presente nem os apelos do Espírito. O Papa
nota que o individualismo exacerbado
torna hoje difícil a doação a uma outra pessoa de uma maneira generosa (cf. AL 33). Eis um interessante retrato da
situação: «Teme-se a solidão, deseja-se
um espaço de proteção e fidelidade, mas, ao mesmo tempo, cresce o medo de ficar
encurralado numa relação que possa adiar a satisfação das aspirações pessoais»
(AL 34).
A
humildade do realismo ajuda a não apresentar «um ideal teológico do matrimônio
demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação
concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são» (AL 36). O idealismo não permite considerar o matrimônio assim como é, ou
seja, «um caminho dinâmico de crescimento e realização». Por isso, também não se pode julgar que se possa apoiar as
famílias «com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais,
sem motivar a abertura à graça» (AL
37). Convidando a uma certa “autocrítica” de uma apresentação não adequada da
realidade matrimonial e familiar, o Papa insiste na necessidade de dar espaço à formação da consciência dos
fiéis: «Somos chamados a formar as
consciências, não a pretender substituí-las» (AL37). Jesus propunha um ideal exigente, mas «não perdia jamais a
proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher
adúltera» (AL 38).
Capítulo
terceiro: “O olhar fixo em Jesus: a vocação da
família”
O
terceiro capítulo é dedicado a alguns
elementos essenciais do ensinamento da Igreja acerca do matrimônio e da família.
É importante a presença deste capítulo, porque ilustra de uma maneira sintética em 30 parágrafos a vocação à família
de acordo com o Evangelho, assim como ela foi recebida pela Igreja ao longo
do tempo, sobretudo quanto ao tema da indissolubilidade,
da sacramentalidade do matrimônio, da
transmissão da vida e da educação dos filhos. Fazem-se inúmeras
citações da Gaudium et spes do
Vaticano II, da Humanae vitae de
Paulo VI, da Familiaris consortio de
João Paulo II.
O olhar é amplo e inclui
também as «situações imperfeitas». Com efeito, lemos: «“O discernimento da presença
das semina Verbi nas outras culturas
(cf. Ad gentes, 11) pode-se aplicar
também à realidade matrimonial e familiar. Para além do verdadeiro matrimônio
natural, há elementos positivos também
nas formas matrimoniais doutras tradições religiosas”, embora não faltem
também as sombras» (AL 77). A
reflexão inclui ainda as «famílias feridas», a propósito das quais o Papa
afirma – citando a Relatio finalis do
Sínodo de 2015 — «é preciso lembrar
sempre um princípio geral: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão
obrigados a discernir bem as situações” (Familiaris consortio, 84). O grau de responsabilidade não é igual em
todos os casos, e podem existir fatores que limitem a capacidade de
decisão. Por isso, ao mesmo tempo que se exprime com clareza a doutrina, há que
evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações, e
é preciso estar atentos ao modo como as
pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 79).
Capítulo
quarto: “O amor no matrimônio”
O quarto capítulo trata do amor no matrimônio
e ilustra-o a partir do “hino ao amor” de São Paulo de 1Cor 13,4-7. O
capítulo é uma verdadeira e autêntica exegese cuidadosa, precisa, inspirada e
poética do texto paulino. Poderemos dizer que se trata de uma coleção de
fragmentos de um discurso amoroso que cuida de descrever o amor humano em
termos absolutamente concretos. Surpreende-nos
a capacidade de introspeção psicológica evidenciada por esta exegese. O
aprofundamento psicológico chega ao mundo das emoções dos cônjuges – positivas
e negativas – e à dimensão erótica do amor. Este é um contributo extremamente rico e precioso para a vida cristã
dos cônjuges, que não tinha até agora paralelo em anteriores documentos papais.
À
sua maneira, este capítulo constitui um pequeno tratado no conjunto de um
desenvolvimento mais amplo, plenamente consciente do carácter quotidiano do
amor que se opõe a todos os idealismos: «não
se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que
reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja,
porque o matrimônio como sinal implica “um processo dinâmico, que avança
gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus”» (AL 122). Mas, por outro lado, o Papa
insiste de modo enérgico e firme no fato de que «na própria natureza do amor conjugal, existe a abertura ao definitivo»
(AL 123) precisamente no íntimo
daquela «combinação necessária de alegrias e fadigas, de tensões e repouso, de
sofrimentos e libertações, de satisfações e buscas, de aborrecimentos e
prazeres» (Al 126) que é de fato o matrimônio.
O
capítulo conclui-se com uma reflexão muito importante acerca da «transformação
do amor» uma vez que «o alongamento da
vida provocou algo que não era comum noutros tempos: a relação íntima e a mútua
pertença devem ser mantidas durante quatro, cinco ou seis décadas, e isto gera
a necessidade de renovar repetidas vezes a recíproca escolha» (AL 163). A aparência física
transforma-se e a atração amorosa não desaparece, mas muda: com o tempo, o
desejo sexual pode transformar-se em desejo de intimidade e «cumplicidade».
«Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida
inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e
a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade»
(AL 163).
Capítulo
quinto: “O amor que se torna fecundo”
O quinto capítulo centra-se por completo na
fecundidade e no carácter gerador do amor. Fala-se de uma maneira
espiritualmente e psicologicamente profunda do acolher uma nova vida, da espera
própria da gravidez, do amor de mãe e de pai. Mas também da fecundidade alargada, da adoção, do
acolhimento do contributo das famílias para a promoção de uma “cultura do
encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios,
primos, parentes dos parentes, amigos. A Amoris
laetitia não toma em consideração a família «mononuclear», mas está bem
consciente da família como rede de
relações alargadas. A própria mística do sacramento do matrimônio tem um
profundo carácter social (cf. AL
186). E no âmbito desta dimensão social, o Papa sublinha em particular tanto o
papel específico da relação entre jovens e idosos, como a relação entre irmãos
como aprendizagem de crescimento na relação com os outros.
Capítulo
sexto: “Algumas perspectivas pastorais”
No
sexto capítulo, o Papa aborda algumas
vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas e fecundas de
acordo com o plano de Deus. Nesta parte, a Exortação recorre às Relações conclusivas dos dois Sínodos e
às catequeses do Papa Francisco e de João Paulo II. Volta-se a sublinhar que as famílias são sujeito e não apenas objeto
de evangelização. O Papa observa que «os
ministros ordenados carecem, habitualmente, de formação adequada para tratar
dos complexos problemas atuais das famílias» (AL 202). Se, por um lado, é
necessário melhorar a formação psicoafetiva dos seminaristas e envolver mais a
família na formação para o ministério (cf. AL 203), por outro «pode ser útil também a experiência da longa
tradição oriental dos sacerdotes casados» (AL 202).
Em
seguida, o Papa desenvolve o tema da:
* orientação dos noivos no caminho de preparação para o matrimônio,
* do acompanhamento dos esposos nos primeiros anos da vida matrimonial
(incluindo o tema da paternidade responsável),
* mas também em algumas situações complexas e, em particular, nas crises,
sabendo que «cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar,
afinando os ouvidos do coração» (AL
232). São analisadas algumas causas de crise, entre elas uma maturação afetiva
retardada (cf. AL 239).
Além
disso, fala-se também do acompanhamento
das pessoas abandonadas, separadas
ou divorciadas e sublinha-se a
importância da recente reforma dos procedimentos para o reconhecimento dos
casos de nulidade matrimonial. Coloca-se em relevo o sofrimento dos filhos nas
situações de conflito e conclui-se: «O divórcio é um mal, e é muito preocupante
o aumento do número de divórcios. Por isso, sem dúvida, a nossa tarefa pastoral mais importante relativamente às famílias é
reforçar o amor e ajudar a curar as feridas, para podermos impedir o avanço
deste drama do nosso tempo» (AL 246).
Referem-se de seguida as situações dos matrimônios mistos e daqueles com
disparidade de culto, e a situação das famílias que têm dentro de si pessoas
com tendência homossexual, insistindo no respeito para com elas e na recusa de
qualquer discriminação injusta e de todas das formas de agressão e violência. A
parte final do capítulo, «quando a morte crava o seu aguilhão», é de grande
valor pastoral, tocando o tema da perda
das pessoas queridas e da viuvez.
Capítulo
sétimo: “Reforçar a educação dos filhos”
O sétimo capítulo é totalmente dedicado à
educação dos filhos:
* a sua formação ética,
* o valor da sanção como
estímulo,
* o realismo paciente,
* a educação sexual,
* a transmissão da fé e, mais
em geral,
* a vida familiar como
contexto educativo.
É
interessante a sabedoria prática que
transparece em cada parágrafo e, sobretudo, a atenção à gradualidade e aos
pequenos passos que «possam ser compreendidos, aceites e apreciados» (AL 271).
Há
um parágrafo particularmente significativo e de um valor pedagógico fundamental
em que Francisco afirma com clareza que «a
obsessão (…) não é educativa; e
também não é possível ter o controle de
todas as situações onde um filho poderá chegar a encontrar-se (…). Se um
progenitor está obcecado com saber onde está o seu filho e controlar todos os
seus movimentos, procurará apenas dominar o seu espaço. Mas, desta forma, não o
educará, não o reforçará, não o preparará para enfrentar os desafios. O que interessa acima de tudo é gerar no
filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de
preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia» (AL 261).
A
seção dedicada à educação sexual é
notável, e intitula-se muito expressivamente: «Sim à educação sexual». Sustenta-se a sua necessidade e formula-se
a interrogação de saber «se as nossas instituições educativas assumiram este
desafio (…) num tempo em que se tende a banalizar e empobrecer a sexualidade». A educação sexual deve ser realizada «no
contexto duma educação para o amor, para a doação mútua» (AL 280). É feita uma advertência em
relação à expressão «sexo seguro»,
pois transmite «uma atitude negativa a respeito da finalidade procriadora
natural da sexualidade, como se um possível filho fosse um inimigo de que é
preciso proteger-se. Deste modo promove-se a agressividade narcisista, em vez
do acolhimento» (AL 283).
Capítulo
oitavo: “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”
O
capítulo oitavo representa um convite à
misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não
correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa usa aqui três verbos
muito importantes: «acompanhar,
discernir e integrar», os quais são fundamentais para responder a situações
de fragilidade, complexas ou irregulares. Em seguida, apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas
e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é
por ele definida como a «lógica da
misericórdia pastoral».
O oitavo capítulo é muito delicado. Na
sua leitura deve recordar-se que «muitas vezes, o trabalho da Igreja é
semelhante ao de um hospital de campanha» (AL
291). O Pontífice assume aqui aquilo que foi fruto da reflexão do Sínodo acerca
de temáticas controversas. Reforça-se o que é o matrimônio cristão e
acrescenta-se que «algumas formas de união contradizem radicalmente este ideal,
enquanto outras o realizam pelo menos de forma parcial e analógica». Por
conseguinte, «a Igreja não deixa de valorizar os elementos construtivos nas situações que ainda não correspondem ou
já não correspondem à sua doutrina sobre o matrimônio» (AL 292).
No
que respeita ao «discernimento» acerca das situações «irregulares», o Papa
observa: «temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das
diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem
e sofrem por causa da sua condição» (AL
296). E continua: «Trata-se de integrar
a todos, deve-se ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar
na comunidade eclesial, para que se sinta objeto duma misericórdia “imerecida,
incondicional e gratuita”» (AL
297). E ainda: «Os divorciados que vivem numa nova união, por exemplo, podem
encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou
encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado
discernimento pessoal e pastoral» (AL
298).
Nesta
linha, acolhendo as observações de muitos Padres sinodais , o Papa afirma que «os batizados que se divorciaram e voltaram
a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as
diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo». «A sua
participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais (…). Não devem sentir-se excomungados, mas
podem viver e maturar como membros vivos da Igreja (…). Esta integração é
necessária também para o cuidado e a educação cristã dos seus filhos» (AL 299).
Mais
em geral, o Papa profere uma afirmação extremamente importante para que se
compreenda a orientação e o sentido da Exortação: «Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas (…)
é compreensível que se não devia esperar
do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canônico,
aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um
responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que
deveria reconhecer: uma vez que “o grau
de responsabilidade não é igual em todos os casos”, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser
sempre os mesmos» (AL 300). O
Papa desenvolve em profundidade as exigências e características do caminho de
acompanhamento e discernimento em diálogo profundo entre fiéis e pastores. A
este propósito, faz apelo à reflexão da Igreja «sobre os condicionamentos e as
circunstâncias atenuantes» no que respeita à imputabilidade das ações e,
apoiando-se em S. Tomás de Aquino, detém-se na relação entre «as normas e o
discernimento», afirmando: «É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem
transcurar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as
situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por
esta razão, aquilo que faz parte dum
discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria
de norma» (AL 304).
Na
última secção do capítulo, «A lógica da
misericórdia pastoral», o Papa Francisco, para evitar equívocos, reafirma
com vigor: «A compreensão pelas situações excepcionais não implica jamais esconder
a luz do ideal mais pleno, nem propor menos de quanto Jesus oferece ao ser
humano. Hoje, mais importante do que uma
pastoral dos falimentos é o esforço pastoral para consolidar os matrimônios e
assim evitar as rupturas» (AL
307). Mas o sentido abrangente do capítulo e do espírito que o Papa Francisco
pretende imprimir à pastoral da Igreja encontra um resumo adequado nas palavras
finais: «Convido os fiéis, que vivem
situações complexas, a aproximar-se com confiança para falar com os seus
pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre
encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas
seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a
acontecer e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com
carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das
pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e
reconhecer o seu lugar na Igreja» (AL
312). Acerca da «lógica da misericórdia pastoral», o Papa Francisco afirma com
força: «Às vezes custa-nos muito dar
lugar, na pastoral, ao amor incondicional de Deus. Pomos tantas condições à
misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e real significado, e esta é a
pior maneira de aguar o Evangelho» (AL
311).
Capítulo
nono: “Espiritualidade conjugal e familiar”
O
nono capítulo é dedicado à espiritualidade
conjugal e familiar, «feita de milhares de gestos reais e concretos» (AL 315). Diz-se com clareza que «aqueles
que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta
do crescimento na vida do Espírito, mas é um percurso de que o Senhor Se serve
para os levar às alturas da união mística» (AL
316). Tudo, «os momentos de alegria, o
descanso ou a festa, e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação
na vida plena da sua Ressurreição» (AL
317). Fala-se de seguida da oração à
luz da Páscoa, da espiritualidade do amor exclusivo e livre diante do desafio e
do desejo de envelhecer e gastar-se juntos, refletindo a fidelidade de Deus
(cf. AL 319). E, por fim, a
espiritualidade «da solicitude, da consolação e do estímulo». «Toda a vida da
família é um “pastoreio” misericordioso. Cada um, cuidadosamente, desenha e
escreve na vida do outro» (AL 322),
escreve o Papa. «É uma experiência
espiritual profunda contemplar cada ente querido com os olhos de Deus e
reconhecer Cristo nele» (AL 323).
No
parágrafo conclusivo, o Papa afirma: «Nenhuma
família é uma realidade perfeita e confeccionada duma vez para sempre, mas
requer um progressivo amadurecimento
da sua capacidade de amar. (…). Todos somos chamados a manter viva a tensão
para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve
viver neste estímulo constante. Avancemos,
famílias; continuemos a caminhar! (…). Não
percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a
procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida» (AL 325).
A
Exortação apostólica conclui-se com uma Oração
à Sagrada Família (AL 325).
* * *
Como
já se pode depreender a partir de um rápido exame dos seus conteúdos, a Exortação apostólica Amoris laetitia pretende reafirmar com força não o «ideal» da
família, mas a sua realidade rica e complexa. Há nas suas páginas um olhar aberto, profundamente positivo, que se
nutre não de abstrações ou projeções ideais, mas de uma atenção pastoral à
realidade. O documento é uma leitura densa de motivos espirituais e de
sabedoria prática útil a cada casal ou a pessoas que desejam construir uma
família. Nota-se, sobretudo, que foi
fruto de uma experiência concreta com pessoas que sabem a partir da experiência
o que é a família e o viver juntos durante muitos anos. A Exortação fala de
fato a linguagem da experiência e da esperança.
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