Por que vários Estados do Brasil estão "quebrados"?
Ao menos três dos Estados mais ricos do Brasil
estão no vermelho
José Roberto
Castro e Lilian Venturini
É uma matéria de meses atrás, mas que retrata bem
aquilo
que ainda hoje está acontecendo
MANIFESTAÇÕES EM FRENTE À SECRETARIA DE ESTADO DA FAZENDA NO RIO DE JANEIRO - SERVIDORES APOSENTADOS PROTESTAM PELO NÃO PAGAMENTO DAS PENSÕES |
Pelo menos três dos cinco Estados mais ricos
do Brasil sofrem com graves problemas financeiros. Rio de Janeiro, Rio Grande
do Sul e Minas Gerais têm
dificuldades para cumprir seus compromissos mais básicos, como manutenção de
hospitais e pagamento de servidores [RJ não paga nem pensão dos servidores
públicos aposentados!].
No Rio,
o governo repassou hospitais à administração municipal por falta de recursos.
Em Minas, o governo atrasou os
salários de dezembro e não sabe de onde tirar recursos para pagar os próximos
meses. A situação do Rio Grande do Sul
é a que se arrasta há mais tempo, com funcionários recebendo os vencimentos em
parcela e o governo atrasando o pagamento da dívida com a União.
As causas do rombo
Em todos os casos, há causas estruturais e conjunturais
para os problemas nas contas. O conjuntural é a queda de arrecadação
de impostos por conta da crise econômica. Juntos, Minas e Rio, por exemplo,
arrecadaram cerca de R$ 10 bilhões a menos do que o previsto no início de 2015.
No caso fluminense, há ainda os problemas pela queda na arrecadação de royalties do petróleo – dinheiro pago
pelas petroleiras aos estados e municípios produtores.
Os problemas estruturais são os enfrentados por
praticamente todos os Estados brasileiros. Gastando mais do que arrecadavam,
aumentando o custo da máquina pública, eles foram se endividando ao longo dos
anos. A União assumiu parte dessa dívida
em 1998 e hoje o pagamento de juros consome boa parte das receitas e limita o
poder de investimento.
No fim de dezembro [2015], endividados,
governadores foram à Brasília para pedir, entre outras coisas, o aval do
governo federal para voltar a tomar empréstimos no exterior. “Esses empréstimos só complicaram o quadro. O
governador toma o empréstimo, resolve a situação daquele governo e empurra o
problema para o governo seguinte”, analisa o presidente da Federação
Brasileira de Associações de Fiscais de Tributos Estaduais (Febrafite), Roberto Kupski, que chama a taxa
cobrada pelo governo federal pelos empréstimos de “agiotagem”.
Nos últimos dias de 2015, depois de se encontrar
com governadores, a presidente Dilma Rousseff publicou um decreto em que
regulamenta a troca do indexador da
dívida de Estados e municípios. Em vez de pagarem a inflação medida pelo
IGPD-I mais uma taxa que variava entre 6 e 9%, Estados e municípios vão pagar a taxa Selic ou a inflação do IPCA mais
4%.
Pela maneira antiga os juros ficariam entre
16% e 19% em 2015. Na nova fórmula, a taxa fica em cerca de 14%. Segundo
Kupski, a troca do indexador é um alívio
que não resolve a situação. “Para pagarem isso os Estados teriam que ter
crescimento de 4% acima da inflação. É como se, em vez de matar uma pessoa com
cinco tiros, matasse só com três”.
FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS DO RIO GRANDE DO SUL PROTESTAM NAS GALERIAS DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DEVIDO ATRASO NO PAGAMENTO DOS SALÁRIOS |
Rio Grande do Sul
O Rio Grande
do Sul está quebrado. Foram décadas de déficit nas contas públicas e demora na busca de
soluções. Agora o Estado não consegue mais honrar os empréstimos feitos com a
União, repassar recursos aos municípios ou pagar seus servidores públicos em
dia.
O governo de José Ivo Sartori (PMDB) cortou
gastos, o que resultou na precarização
de serviços públicos. Além disso, a Assembleia Legislativa Estadual aprovou
o aumento do ICM-S, principal imposto estadual. Mesmo assim o orçamento do
governo gaúcho não é sustentável. O
Estado só fechou as contas no azul sete vezes nos últimos 43 anos. E em
alguns desses anos o superávit só foi conseguido graças a receitas
extraordinárias vindas de privatizações e venda de ações do Banrisul, por
exemplo.
O Estado gasta
ainda cerca de 75% de sua receita com funcionalismo público. A dívida pública é de
cerca de R$ 61 bilhões. Só com a União, os débitos ultrapassam os R$ 50
bilhões, e o pagamento parcelado consome
13% da receita estadual todo mês.
Rio de Janeiro
Na antevéspera do Natal [de 2015], depois de
a Justiça obrigar o Estado a repassar dinheiro à Saúde, o governador do Rio de
Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), decretou situação de emergência para
agilizar ajuda federal. Hospitais
estavam fechados e pessoas morreram na fila aguardando atendimento."Peço
desculpas à população do Rio de Janeiro. Tenho esperança que amanhã já
estaremos com a situação melhor", disse o governador no dia 23.
A prefeitura da capital assumiu a
administração de hospitais que o governo não estava conseguindo financiar, o
que significará uma economia de R$ 504 milhões anuais aos cofres do Estado.
O problema
adicional do Rio de Janeiro é que a arrecadação é muito dependente da produção
de petróleo.
Com o setor enfrentando a crise da Petrobras e o preço do barril bem abaixo do
que anos atrás, as verbas do Estado foram prejudicadas. Em 2015, o Rio arrecadou cerca de R$ 3,5 bilhões menos que o previsto.
Minas Gerais
O salário
de dezembro dos servidores não foi pago. O governador Fernando Pimentel
(PT) colocou a culpa na queda de arrecadação por conta da crise econômica.
Segundo dados publicados pela Folha de S.
Paulo, o Estado de Minas esperava
arrecadar R$ 50,1 bilhões em 20154, mas só atingiu R$ 42,8 – um recuo de 14,57%.
"Tal situação se deve às dificuldades
financeiras ora enfrentadas pelo Estado de Minas Gerais, que registrou,
sobretudo em 2015, forte redução da arrecadação de ICMS", explicou o
governo em nota.
Por enquanto, a data definida para o
pagamento do salário dos mais de 428 mil servidores da ativa é 13 de janeiro. Não há, porém, a certeza de que os
compromissos dos próximos meses serão honrados no dia marcado.
O ATENDIMENTO À SAÚDE É A ÁREA QUE MAIS SE RECENTE DA FALTA DE VERBAS E MÁ ADMINISTRAÇÃO DAS CONTAS PÚBLICAS |
Contas também preocupam prefeituras
A realidade financeira de parte das cidades
brasileiras também é preocupante, segundo pesquisa elaborada pela CNM (Confederação Nacional dos Municípios),
entre setembro e novembro de 2015.
Das 4.080
cidades consultadas (ao todo são 5.568 municípios no país), 42,6% delas vão
fechar as contas de 2015 no vermelho. A confederação atribui o resultado ao impacto da
crise econômica, que reduziu a arrecadação financeira e o repasse de recursos
ao longo do ano. Do universo de prefeituras avaliadas, 62,5% das administrações relatam dívidas com fornecedores e 13% estão
devendo salários a servidores. O atraso chega a seis meses.
3.357
é o número de cidades onde, segundo os
prefeitos, a saúde foi a área mais
afetada pela crise econômica. Os impactos se traduziram na falta de remédios, fechamento de postos e redução
de profissionais.
Para a CNM, uma das maneiras de aliviar a
situação das contas municipais é a revisão
do Pacto Federativo, principal reivindicação da confederação. O pacto é
definido pela Constituição Federal e estabelece, entre outras coisas, como é
feita a partilha dos recursos arrecadados com o pagamento de impostos e quais
gastos cabem aos governos federal, estadual e municipal.
A CNM defende
mudanças na divisão das receitas por entender que o modelo atual sobrecarrega
as cidades.
De acordo com a confederação, atualmente a União fica com cerca de 60% de tudo
o que é arrecadado no país e apenas 16%
são repassados às prefeituras.
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