Uma em cada 5 mulheres agredidas em SP é de classe média ou alta
Alexandre
Hisayasu
Para promotora, números não significam que pessoas
desses grupos estejam sendo mais vítimas de violência, mas comprovam que a
violência acontece em todas as classes sociais; capital paulista apresenta pelo
menos 1 agressão a mulher por hora
As
estatísticas da Secretaria de Segurança
Pública (SSP) de São Paulo revelam que, em média, 780 mulheres foram agredidas por mês somente na capital
(uma por hora), em 2015. Promotores e magistrados ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo observam que
mulheres de classe média e média alta aparecem cada vez mais nesse grupo. E as
autoridades estimam que hoje, em cada 100 casos, de 15 a 20 vítimas pertencem a
essa classe social.
Para
a promotora Silvia Chakian, do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à
Violência Doméstica (Gevid), os números não significam que as mulheres de
classe média alta estejam sendo mais agredidas, mas comprovam que esse tipo de violência está em todas as
classes sociais. “Trabalho no atendimento às vítimas que moram na área
central da cidade, como Baixada do Glicério, mas também atendo casos dos
bairros nobres, como Higienópolis e Jardins. Posso dizer que recebo todos os
tipos de vítima: pós-graduadas, profissionais bem-sucedidas, empresárias. E a
sociedade tem dificuldade de compatibilizar isso: como uma empresária, uma CEO
de uma grande empresa, sofre violência dentro de casa?”, indaga.
Relação
assimétrica
Na
avaliação de Silvia, as mulheres conquistaram
nos últimos anos mais espaço e poder na sociedade, mas muito pouco dentro de
casa e a relação dentro dos lares continua, na maioria dos casos, assimétrica,
na qual se verifica a “hierarquia de gênero” – com as mulheres exercendo papéis
sociais desvalorizados, em condição de subserviência, de subordinação em
relação ao homem. “Atendemos no
Ministério Público mulheres que têm autonomia financeira, mas que dentro de
casa são vulneráveis e sofrem violência. E têm, portanto, muita dificuldade em
denunciar.”
A maioria dos casos é de mulheres agredidas e
espancadas pelos companheiros. Mas há também muitos processos de outros
crimes, principalmente estupro, agressão e ameaça.
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SILVIA CHAKIAN Promotora do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica (Gevid) |
Violência
Um
dos casos mais complexos é o da psicóloga
Patrícia (nome fictício), hoje com 50 anos de idade. Em 2005, ela decidiu
se separar do então marido e começar um relacionamento com um namorado que teve
no começo da adolescência. Logo nos primeiros dias de convivência, começaram os
espancamentos. “Ele era usuário de
drogas, um viciado, na verdade. E me batia sem eu falar absolutamente nada, sem
motivo”, relata.
As
agressões eram sempre acompanhadas de ameaças. O companheiro dizia que mataria o filho dela e outros membros da
família, se o abandonasse.
Durante
cinco anos, o nível das agressões cresceu. “Apanhava todos os dias. Eram socos no rosto, na barriga, na cabeça,
no corpo todo. Ele me jogava na parede, me chutava. Depois, quando passava o
efeito da droga, dizia que estava arrependido, mas ameaçava que mataria meu
filho se eu fosse embora”, lembrou a psicóloga.
O companheiro chegou a ser
preso durante uma das agressões e ficou seis meses na cadeia por causa da
aplicação da Lei Maria da Penha. Mas, segundo a vítima, ela retirou a queixa a
pedido dos filhos do agressor. “Eles me convenceram
de que não voltaria mais a me procurar e estavam passando fome por causa da
ausência do pai.”
No
entanto, assim que saiu da cadeia, o réu foi diretamente para a casa da mulher
e as agressões recomeçaram. “Ele dizia
que havia aprendido a bater sem deixar marcas. Eu apanhava do pescoço para
baixo.”
Por
causa do relacionamento, abandonou o emprego de psicóloga de uma empresa e
abriu uma loja de motos, a mando do agressor, que faliu por causa das dívidas.
“Acabei perdendo tudo.”
Há
cinco meses, Patrícia fugiu da casa onde ficava “trancada” e está vivendo com
os pais. “Aproveitei um dia que saímos juntos e ele se distraiu. Eu saí
correndo, cheguei na casa da minha mãe e implorei para ficar aqui”, diz a
psicóloga.
Ela
prestou nova queixa contra o então companheiro e ele está sendo processado pela
Justiça. Enquanto a sentença não é definida, Patrícia raramente sai de casa. “Tenho recebido apoio do meu filho, da minha
neta e do meu ex-marido, que é um homem muito bom. Eu sei que vou conseguir
recomeçar.”
Medo
Para
a Promotoria, é comum as mulheres
demorarem a procurar as autoridades para denunciar o agressor. “É muito
importante que, assim que a violência aconteça, a mulher busque ajuda. Infelizmente, há muitas mulheres que morrem
acreditando na mudança do parceiro, que vai conseguir mudar o comportamento do
autor da violência”, disse a promotora Silvia Chakian.
Números
1.555
mulheres foram agredidas na cidade de São
Paulo nos dois primeiros meses de 2016
9
mulheres foram assassinadas no período
26
mulheres foram estupradas
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