Que País é este?
“Cunha é o bandido que eu mais gosto”
Entrevista
com Roberto Jefferson
Ex-deputado federal condenado do Mensalão
Luciana Nunes
Leal
«Ele [Eduardo Cunha] foi o adversário mais à altura do
Lula,
que nunca esperou encontrar um bandido da mesma
qualidade moral,
intelectual que ele.»
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ROBERTO JEFFERSON Em seu escritório, em pose que lembra o protagonista do seriado político "House of Cards" |
Condenado
a sete anos e 14 dias de prisão no processo do mensalão, o ex-deputado Roberto Jefferson obteve perdão da pena no último dia 22
e se prepara para reassumir em 14 de abril, a presidência do PTB,
atualmente ocupada por sua filha, a deputada Cristiane Brasil. Quer voltar ao comando partidário ainda
durante o processo do impeachment da
presidente Dilma Rousseff, do qual é favorável.
Em
entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo,
Jefferson, de 62 anos, dispara que Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o presidente da
Câmara, é o "bandido" que ele
diz mais gostar, pois "foi o adversário mais à altura do Lula",
que "nunca esperou encontrar um bandido da mesma qualidade moral,
intelectual que ele". Afirma que sua "preocupação" hoje é com a
prisão da mulher e filha de Cunha. "São mulheres bonitas, cheirosas",
que vão ser assediadas por companheiras de cela, "vão apanhar na
cara".
O
sr. tinha conhecimento do esquema de corrupção na Petrobrás?
Roberto
Jefferson: Não
soube dessas coisas da Petrobrás na época. Sempre
foi a empresa elite dos partidos mais poderosos. As estatais no Brasil são o braço financeiro das corporações sindicais
e partidos. Quem financia partido são as estatais. Se queremos país
moderno, vamos ter que fazer privatização, porque não vai permitir a
concentração da corrupção. A estatal é a
semente da corrupção no Brasil. Partidos
disputam cargos nas estatais para seu financiamento. O que vão assaltar nos
seis meses enquanto durar o processo de impeachment
é uma loucura. Vai todo mundo querer
fazer caixa, porque ela cai em seis meses. “Cobra 100% de comissão aí!”.
O
PTB pleiteou alguma diretoria ou gerência importante na Petrobrás?
Roberto
Jefferson: Nunca,
éramos muito pequenos. O PTB teve a presidência da Eletronorte, a diretoria do
IRB (Instituto de Resseguros do Brasil) e aquela diretoria dos Correios.
E
Furnas?
Roberto
Jefferson: Uma
diretoria nos foi oferecida pelo Lula, para compensar a não transferência dos
recursos nas eleições em que PT fechou acordo com o PTB. O PTB fechou uma grande aliança com o PT nas capitais, a Marta
(Suplicy) foi eleita com apoio do PTB em São Paulo. Eles ofereceram R$ 20
milhões para financiamento do PTB e deram R$ 4 milhões. Foram os R$ 4
milhões que o Marcos Valério (empresário do mercado publicitário preso após
julgamento do mensalão) levou. Como não
cumpriram os R$ 16 milhões e no PTB ficamos com uma grave dívida e uma crise
interna, Lula tentou montar para o PTB um caminho de financiamento para suprir
esse gasto, a diretoria de Furnas onde estava o Dimas Toledo (ex-diretor de
Engenharia de Furnas nomeado no governo Fernando Henrique Cardoso). Mas não se
concretizou.
O
que aconteceu? Havia um esquema anterior?
Roberto
Jefferson: Havia.
Soube disso quando indicamos Francisco Spirandel para o lugar do Dimas. Recebi
contato do Zé Dirceu para que fosse
conversar com ele na Casa Civil. Ele disse: “em vez de trocar o Dimas, por que a gente não faz um acordo, você
mantém o Dimas e ele passa a ajudar o PTB?”. Eu disse: “da minha parte, sem
problema”. Dimas foi à minha casa conversar. Dimas disse: “minha diretoria rende de apoio R$ 3 milhões por mês, mas tenho
comprometidos R$ 1 milhão com o PT de Minas, R$ 1 milhão com o PT nacional, dou
R$ 600 mil a 12 deputados do PSDB, R$ 50 mil a cada um, eles apoiam de vez em
quando o governo federal. E R$ 400 mil para a diretoria”.
O
sr. foi indiciado pela polícia do Rio por corrupção e lavagem de dinheiro
relacionado a Furnas. Como responderá?
Roberto
Jefferson: Pedi
ao Ministério Público para me ouvir. Uma delegada pediu meu indiciamento
indireto sem me ouvir. Não me furto a nada. Ela disse que confessei. Nós não
recebemos. Pensei que a lei punisse só fato consumado. Nunca vi a lei punir
intenção. O PTB nunca recebeu nenhum recurso de Furnas, do Dimas Toledo, ele
não chegou a ajudar o PTB. Vou esclarecer. Faz parte da vida. Tive que me eviscerar para dar essa
partida, para tirar a máscara da face do PT, botar o rei nu.
Como
a Operação Lava Jato e mensalão se conectavam?
Roberto
Jefferson: Quando
o PT encontra resistência em uma direção partidária, dissolve aquele partido,
pega um grupo, faz outro partido. Quem se manteve firme e não se fragmentou foi
o PMDB. Quando o PMDB viu que o PT
estava tentando esfacelar o partido, criando esse PSD com o ex-prefeito de São
Paulo (Gilberto Kassab), começou ali a reação. Eduardo Cunha vem reagindo a
partir dali. Essa janela que abriram
agora (para troca de partido) é mensalão de novo. Os caras que se
aproximavam para conversar pediam luvas de R$ 1 milhão, R$ 600 mil e mensalão
de R$ 30 mil, R$ 40 mil, R$ 50 mil por mês. É a mesma coisa do mensalão. Aconteceu tem dez dias. O PTB foi
assediado.
Por
quem?
Roberto
Jefferson: Teve
gente que me procurou. “Preciso de R$ 1
milhão”. Eu disse: “aqui no PTB não se paga mensalão para ninguém”. Eram deputados de outra legenda que vinham
com essa conversa para passar para o PTB. Perdemos alguns deputados e sei
que cantaram na orelha deles.
Por
que o PTB não tinha espaço na Petrobrás?
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EDUARDO CUNHA E LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: "Lula nunca esperou encontrar um bandido da mesma qualidade moral, intelectual que ele" |
Acredita
que haverá condenações e prisões na Lava Jato como houve no mensalão?
Roberto
Jefferson: Penso que Lula não vai
escapar. O mensalão parou na antessala dele, na Casa
Civil. Mas o petrolão entrou dentro do Palácio (do Planalto). Ou esse (Marcelo) Odebrecht fala ou vai
levar 30 anos na cadeia. Marcos Valério levou uma martelada de 40 anos. O
processo do petrolão é diferente do mensalão. O mensalão surgiu do embate
político, da denúncia que fiz. No petrolão não tem nem voz da oposição. A oposição está em silêncio porque muitos
dos seus estão comprometidos, tem muita gente da oposição enroscada nas
empreiteiras.
Eduardo
Cunha tem legitimidade para presidir a Câmara no momento em que está em curso o
processo de impeachment?
Roberto
Jefferson: Tem.
Ele responde a vários inquéritos, tem que ter cuidado. Minha preocupação é que
a prisão humilha muito. Para ele a situação vai complicar. Vai levantar de
manhã cedo, chinelo de dedo, bermuda azul, camiseta branca. Está lá no coletivo
dos presos, aquele cheiro de gente doente, com tuberculose, com Aids. Banheiro
com cheiro terrível, banho frio. De manhã cedo, todo mundo em fila. “Senhor
Roberto Jefferson!”. “Presente, senhor”. Cabeça baixa, mão para trás. De noite,
o “confere”, aquela averiguação que se faz. É duro. Dinheiro contadinho, R$ 100
por semana para comprar na cantina. E quem tem R$ 100 tem que comprar para todo
mundo. Se furar a bola, tem que dar uma bola nova. Tem que aturar isso. Limpar
privada, varrer o chão. O que me preocupa são as filhas e a esposa, mulheres
bonitas, cheirosas, entram lá naquele meio, vão ser assediadas. Vão acordar com
aquelas mulheres deitadas na cama, vão apanhar na cara, vão denunciar, vão
apanhar de novo. O cara vai ter que aturar isso. O ambiente prisional é muito
duro, muito triste, muito pesado. O cara não pode expor a esposa, a filha. Não
ataca a Justiça, não ataca o Ministério Público. Respeita. O cara tem 20 contas no exterior, nunca declarou. Gastos milionários em
cartão de crédito. Traz para si, tira a esposa e a filha. Ele não pode permitir a filha e a esposa
passarem por isso. É a preocupação que tenho.
É
possível Cunha responder aos inquéritos e continuar no comando da Câmara?
Roberto
Jefferson: Ele
foi o adversário mais à altura do Lula,
que nunca esperou encontrar um bandido
da mesma qualidade moral, intelectual que ele. O bandido pelo qual eu mais
torço é o Eduardo Cunha. Vai puxar a
barba do Rasputin (Grigori,
místico russo amigo do czar Nicolas II, morto em 1916). Gelado, frio, equilibrado. O Lula, o PT e esse Fórum de São Paulo
(conferência de partidos de esquerda latino-americanos) são bandidos da laia do Cunha, topam tudo. Como Deus faz as coisas.
Botou um cara ali que qualquer jogo ele
joga, qualquer parada ele topa e sabe onde aperta o calo do outro bandido.
Pega o outro bandido na esquina. Dudu é o bandido que eu mais gosto, o vilão
que eu torço por ele, o vilão da minha novela. E estou doido para ele puxar a
barba do Rasputin.
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