Imperdíveis as Palavras de Papa Francisco na Bolívia
Em missa na Bolívia,
papa Francisco critica lógica do descarte
Luciana Nunes
Leal
Enviada Especial
Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)
Líder da Igreja Católica também ressaltou as injustiças
e os sofrimentos das mulheres na sociedade e disse que riqueza se mede pelo que
“os idosos ensinam aos jovens”
Em
homilia na primeira missa rezada na Bolívia, o papa Francisco condenou nesta
quinta-feira, 9 de julho, o consumismo e a mercantilização do mundo e falou em
defesa "dos que não produzem". "Frente
a tanta situação de fome no mundo, o desespero termina ganhando nosso coração.
Um coração desesperado é fácil chegar à lógica que transforma tudo em objeto de
troca, de consumo, de negocio", afirmou o pontífice.
O
papa começou o sermão dirigindo-se às mulheres, ressaltando que elas levam nos
ombros os filhos e também "as injustiças e o sofrimento". Ao refletir
sobre a leitura de hoje sobre o milagre
dos pães e peixes, Francisco lembrou que Jesus convidou os discípulos a dar
de comer aos que tinham fome. "Jesus
transforma a lógica do descarte em lógica de comunhão", comparou. O
líder da Igreja Católica rejeitou os bens materiais como medida de
prosperidade. "Peço uma lógica de
comunidade. A riqueza se mede na vida de sua gente, dos idosos, que ensinam aos
jovens."
Francisco
também insistiu na importância de transformar a mensagem em gestos. "Só na
entrega e no dividir se encontra a alegria. Jesus quer que participemos",
conclamou. O papa rezou missa para publico estimado em DOIS MILHÕES DE PESSOAS na
praça do Cristo Redentor, no centro
de Santa Cruz de la Sierra.
Durante
a homilia, o papa também pediu pela valorização do bem e da vida.
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Papa Francisco faz sua pregação durante a Missa na Praça do Cristo Redentor em Santa Cruz de la Sierra - Bolívia |
Leia
esta homilia na íntegra, abaixo:
Homilia
Viagem apostólica do Papa Francisco
Praça do Cristo Redentor, Santa Cruz de la Sierra,
Bolívia
Quinta-feira, 9 de Julho de 2015
Viemos de lugares, regiões, povoados
distintos, para celebrar a presença viva de Deus entre nós. Há horas que saímos
de nossas casas e comunidades, para podermos estar juntos como Povo Santo de
Deus. A cruz e a imagem da missão trazem-nos à memória todas as comunidades que
nasceram sob o nome de Jesus nestas terras e das quais somos herdeiros.
No Evangelho que acabamos de ouvir,
descrevia-se uma situação muito semelhante à que estamos a viver agora. Como
aquelas quatro mil pessoas, também nós estamos desejosos de ouvir a Palavra de
Jesus e receber a sua vida. Eles ontem e nós hoje, ao pé do Mestre, Pão de
vida.
Nestes dias, pude ver muitas mães que
carregavam seus filhos às costas, como aliás muitas de vós o fazem aqui.
Carregando sobre si a vida, o futuro do seu povo. Carregando os motivos da sua
alegria, as suas esperanças. Carregando a bênção da terra nos frutos.
Carregando o trabalho feito com as suas mãos. Mãos, que moldaram o presente e
tecerão os sonhos do amanhã. Mas carregando também sobre os seus ombros
decepções, tristezas e amarguras, a injustiça que parece não ter fim e as
cicatrizes duma justiça não realizada. Carregando sobre si mesmas a alegria e a
dor duma terra. Carregais sobre vós a memória do vosso povo. Porque os povos
têm memória, uma memória que passa de geração em geração, uma memória em
caminho.
E não são poucas as vezes que
experimentamos o cansaço deste caminho. Não são poucas as vezes que nos faltam
as forças para manter viva a esperança. Quantas vezes vivemos situações que
pretendem anestesiar-nos a memória e, deste modo, debilita-se a esperança e,
pouco a pouco, perdem-se os motivos de alegria. E começa a apoderar-se de nós
uma tristeza que nos torna individualistas, que nos faz perder a memória de
povo amado, de povo escolhido. E esta perda desagrega-nos, faz com que nos
fechemos aos outros, especialmente aos mais pobres.
Pode suceder a nós o mesmo que aos
discípulos de ontem, quando viram a quantidade de pessoas que estava lá. Pedem
a Jesus que a mande embora, já que é impossível alimentar tanta gente. Perante
muitas situações de fome no mundo, podemos dizer: «Os números não batem certo;
não podemos resolver a conta». É impossível enfrentar estas situações; então o
desespero acaba por apoderar-se do coração.
Num coração desesperado, é muito fácil
ganhar espaço a lógica que pretende impor-se no mundo de hoje. Uma lógica que
procura transformar tudo em objeto de troca, de consumo: vê tudo negociável. Uma
lógica que pretende deixar espaço para muito poucos, descartando todos aqueles
que não «produzem», que não são considerados aptos ou dignos porque,
aparentemente, «os números não batem certo». Jesus retoma a palava para nos
dizer: Não é necessário irem embora; dai-lhes vós mesmos de comer.
É um convite que hoje ressoa fortemente
para nós: «Não é necessário mandar ninguém embora, basta de descartes; dai-lhes
vós mesmos de comer». Jesus continua a dizer-nos nesta praça: Sim, basta de
descartes; dai-lhes vós mesmos de comer. O olhar de Jesus não aceita uma
lógica, uma perspectiva que sempre «corta o fio» pelo ponto mais frágil, mais
necessitado. Tomando «o pedaço», Ele mesmo nos dá o exemplo, nos mostra o
caminho. Uma atitude em três palavras: toma um pouco de pão e alguns peixes,
bendiz a Deus por eles, divide-os e entrega para que os discípulos os partilhem
com os outros. Este é o caminho do milagre. Por certo, não é magia nem
idolatria. Por meio destas três ações, Jesus consegue transformar a lógica do descarte
numa lógica de comunhão, de comunidade. Gostaria de destacar brevemente cada
uma destas ações.
Toma
O ponto de partida é tomar muito a sério a
vida dos seus. Fixa-os nos olhos e, nestes, conhece a sua vida, os seus
sentimentos. Vê, naquele olhar, o que pulsa e o que deixou de pulsar na memória
e no coração do seu povo. Considera-o e valoriza-o. Valoriza todo o bem que
possam oferecer, todo o bem a partir do qual se possa construir. Mas não fala
dos objetos, dos bens culturais ou das ideias; fala das pessoas. A riqueza
maior duma sociedade mede-se na vida do seu povo, mede-se nos idosos que
conseguem transmitir aos mais novos a sua sabedoria e a memória do seu povo.
Jesus nunca ignora a dignidade de pessoa alguma, por maior que seja a aparência
de não ter nada para oferecer ou partilhar.
Bendiz
Jesus toma em suas mãos o dom, e bendiz o
Pai que está nos céus. Sabe que estes dons são um presente de Deus. Por isso,
não os trata como «uma coisa qualquer», dado que toda esta vida é fruto do amor
misericordioso. Ele reconhece-o. Vai além da simples aparência e, neste gesto
de bendizer, de louvar, pede a seu Pai o dom do Espírito Santo. Aquele ato de
bendizer tem esta dupla perspectiva: por um lado, agradecer e, por outro,
transformar. É reconhecer que a vida é sempre um dom, um presente que, colocado
nas mãos de Deus, adquire uma força de multiplicação. O nosso Pai não nos tira
nada, multiplica tudo.
Entrega
Em Jesus, não existe um tomar que não seja
bênção, nem uma bênção que não seja entrega. A bênção é sempre missão, tem um
destino: repartir, partilhar o que se recebeu, uma vez que só na entrega, no
com-partilhar é que as pessoas encontram a fonte da alegria e a experiência da
salvação. Uma entrega que quer reconstruir a memória de povo santo, de povo
convidado, chamado a ser portador da alegria da salvação. As mãos, que Jesus
ergue para bendizer o Deus do céu, são as mesmas que distribuem o pão à
multidão que tem fome. Podemos imaginar como os pães e os peixes iam passando
de mão em mão até chegar aos mais afastados. Jesus consegue gerar uma corrente
entre os seus: todos estavam compartilhando o seu, transformando-o em dom para
os outros, e foi assim que comeram até ficarem saciados. E, incrivelmente,
sobrou: recolheram sete cestos de sobras. Uma memória tomada, abençoada e
entregue sempre sacia um povo.
A Eucaristia é «Pão repartido para a vida
do mundo», como diz o lema do V Congresso Eucarístico que hoje inauguramos e
vai realizar-se em Tarija. É sacramento de comunhão, que nos faz sair do individualismo
para vivermos juntos o seguimento de Jesus e nos dá a certeza de que aquilo que
temos e somos, se tomado, abençoado e entregue, pelo poder de Deus, pelo poder
do seu amor, transforma-se em pão de vida para os outros.
A Igreja é uma comunidade memoriosa. Por
isso, fiel ao mandato do Senhor, repete incansavelmente: «Fazei isto em memória
de Mim» (Lc 22,19). Geração após geração atualiza, nos distintos cantos da
nossa terra, o mistério do Pão da Vida. No-lo faz presente e entrega. Jesus
quer que participemos desta sua vida e, por nosso intermédio, se vá
multiplicando na nossa sociedade. Não somos pessoas isoladas, separadas, mas o
Povo da memória atualizada e sempre entregue.
Uma vida memoriosa precisa dos outros, do
intercâmbio, do encontro, duma solidariedade real que seja capaz de entrar na
lógica do tomar, bendizer e entregar; na lógica do amor.
Maria, que, de forma igual a muitas de vós,
carregou sobre si a memória do seu povo, a vida do seu Filho, e experimentou em
Si própria a grandeza de Deus, proclamando com alegria que Ele «encheu de bens
os famintos» (Lc 1,53), seja hoje o nosso exemplo para confiarmos na bondade
do Senhor, que faz obras grandes com a humildade dos seus servos.
Fontes: ESTADÃO.COM.BR –
Internacional
– 09 de julho de 2015 – 13h56 – Internet: clique aqui.
News.va – Official Vatican Network –
Rádio Vaticana – 09/07/2015 – Internet: clique aqui.
Papa pede perdão por crimes da Igreja contra
povos indígenas na conquista da América
Luciana Nunes
Leal
Enviada Especial
Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)
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Cerca de 1.500 pessoas de todas as partes do planeta se fizeram presentes de 07 a 09 de Julho em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) para o II Encontro Mundial dos Movimentos Populares |
O
papa Francisco pediu nesta quarta-feira, 9 de julho, perdão pelas ofensas e crimes
cometidos pela Igreja Católica aos povos indígenas da América Latina durante a
colonização do continente. A declaração do pontífice argentino foi dada durante
2.º Encontro Mundial de Movimentos Populares, no segundo dia de sua viagem à
Bolívia, uma das maiores nações indígenas da América do Sul.
“Humildemente
peço perdão não apenas pelas ofensas da própria Igreja Católica, como também
pelos crimes cometidos contra os povos originários durante a chamada conquista
da América”, disse Francisco. “Digo com
pesar que se cometeram muitos e graves pecados contra os povos originais da
América Latina em nome de Deus. Peço que a Igreja se pouse diante de Deus e
peça perdão pelos pecados passados e recentes. Meus antecessores já
reconheceram e também quero reconhecer”.
Para
a plateia de 1, 5 mil participantes do encontro de movimentos populares, o papa
chamou atenção para “velhas e novas formas de colonialismo” de países ricos,
dos grandes meios de comunicação.
Em
relação aos países desenvolvidos, o pontífice afirmou que “nenhum poder
constituído tem direito de privar os países pobres do pleno direito à
soberania”. “Quando fazem isso, vemos novas formas de colonialismo. Os povos
latino americanos pariram dolorosamente suas independências”, disse o papa.
Também
mencionou os meios de comunicação. “Ações de concentração monopólica dos meios
de comunicação social que pretendem impor pautas alienantes de consumo e
uniformidade cultural é uma forma de novo colonialismo, de colonialismo
ideológico”, criticou.
Francisco
pediu “ação coordenada na luta contra corrupção, narcotráfico e terrorismo,
graves problemas dos nossos tempos”. O papa criticou conferências
internacionais “sem resultados” e disse que os programas assistenciais dos
governos aos pobres “são respostas passageiras”. “O que dá dignidade é a
verdadeira inclusão”. Finalmente, afirmou que “é imprescindível que os povos
construam alternativa humana à globalização excludente”. O papa fez várias
vezes menções à preservação da “mãe terra”, como chamam os povos indígenas.
Leia,
abaixo, a íntegra do discurso de Papa
Francisco no encerramento do II Encontro Mundial dos Movimentos Populares,
em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia.
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Papa Francisco discursa diante dos participantes do II Encontro Mundial dos Movimentos Populares Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. |
Boa tarde a todos!
Há alguns meses, reunimo-nos em Roma e não
esqueço aquele nosso primeiro encontro. Durante este tempo, trouxe-vos no meu
coração e nas minhas orações. Alegra-me vê-los de novo aqui, debatendo os
melhores caminhos para superar as graves situações de injustiça que padecem os
excluídos em todo o mundo. Obrigado Senhor Presidente Evo Morales, por
sustentar tão decididamente este Encontro. Então, em Roma, senti algo muito
belo: fraternidade, paixão, entrega, sede de justiça. Hoje, em Santa Cruz de la
Sierra, volto a sentir o mesmo. Obrigado! Soube também, pelo Pontifício
Conselho «Justiça e Paz» presidido pelo Cardeal Turkson, que são muitos na
Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos movimentos populares. Muito me
alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vós, a qual se
envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada diocese, em cada comissão
«Justiça e Paz», uma colaboração real, permanente e comprometida com os
movimentos populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente
com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais a aprofundar este
encontro.
Deus permitiu que nos voltássemos a ver
hoje. A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu
quero voltar a unir a minha voz à vossa: terra, teto e trabalho para todos os
nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados. Vale a pena,
vale a pena lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América
Latina e em toda a terra.
1. Comecemos por reconhecer que precisamos
duma mudança. Quero esclarecer, para que não haja mal-entendidos, que falo dos
problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, de toda a
humanidade. Problemas, que têm uma matriz global e que atualmente nenhum
Estado pode resolver por si mesmo. Feito este esclarecimento, proponho que nos
coloquemos estas perguntas:
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade?
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se apodera até dos nossos bairros?
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante?
Então digamo-lo sem medo: Precisamos e
queremos uma mudança.
Nas vossas cartas e nos nossos encontros,
relataram-me as múltiplas exclusões e injustiças que sofrem em cada atividade
laboral, em cada bairro, em cada território. São tantas e tão variadas como
muitas e diferentes são as formas próprias de as enfrentar. Mas há um elo
invisível que une cada uma destas exclusões: conseguimos nós reconhecê-lo? É
que não se trata de questões isoladas. Pergunto-me se somos capazes de
reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se
tornou global. Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo
o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?
Se é assim – insisto – digamo-lo sem medo:
Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema
é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores,
não o suportam as comunidades, não o suportam os povos.... E nem sequer o
suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco.
Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos
nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança
que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer
respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que
nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da
exclusão e da indiferença.
Hoje quero refletir convosco sobre a
mudança que queremos e precisamos. Como sabem, recentemente escrevi sobre os
problemas da mudança climática. Mas, desta vez, quero falar duma mudança noutro
sentido. Uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança –
poderíamos dizer – redentora. Porque é dela que precisamos. Sei que buscais uma
mudança e não apenas vós: nos diferentes encontros, nas várias viagens,
verifiquei que há uma expectativa, uma busca forte, um anseio de mudança em todos
os povos do mundo. Mesmo dentro da minoria cada vez mais reduzida que pensa
sair beneficiada deste sistema, reina a insatisfação e, sobretudo, a tristeza.
Muitos esperam uma mudança que os liberte desta tristeza individualista que
escraviza.
O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece
exaurir-se; já não nos contentamos com lutar entre nós, mas chegamos até a
assanhar-nos contra a nossa casa. Hoje, a comunidade científica aceita aquilo
que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis
no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma
quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição,
sente-se o cheiro daquilo que, um dos primeiros teólogos da Igreja, Basílio de
Cesareia chamava «o esterco do diabo»: reina a ambição desenfreada de dinheiro.
Esse é o esterco do diabo. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando
o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a
avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade,
condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana,
faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa
comum. A irmã e mãe Terra. Não quero alongar-me na descrição dos efeitos
malignos desta ditadura sutil: vós conhecei-os! Mas também não basta assinalar
as causas estruturais do drama social e ambiental contemporâneo. Sofremos de um
certo excesso de diagnóstico, que às vezes nos leva a um pessimismo charlatão
ou a rejubilar com o negativo. Ao ver a crônica negra de cada dia, pensamos que
não haja nada que se possa fazer para além de cuidar de nós mesmos e do pequeno
círculo da família e dos amigos.
Podem fazer muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!
- Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer?
- Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais?
- Que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações?
- Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado?
- Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas?
Podem fazer muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!
2. Vós sois semeadores de mudança. Aqui, na
Bolívia, ouvi uma frase de que gosto muito: «processo de mudança». A mudança
concebida, não como algo que um dia chegará porque se impôs esta ou aquela
opção política ou porque se estabeleceu esta ou aquela estrutura social.
Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas, que não seja acompanhada
por uma conversão sincera das atitudes e do coração, acaba a longo ou curto
prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. É preciso mudar o coração.
Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar
serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos
os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos. A opção é por
gerar processos e não por ocupar espaços. Cada um de nós é apenas uma parte de
um todo complexo e diversificado interagindo no tempo: povos que lutam por uma
afirmação, por um destino, por viver com dignidade, por «viver bem»,
dignamente, nesse sentido.
Vós, a partir dos movimentos populares,
assumis as tarefas comuns motivados pelo amor fraterno, que se rebela contra a
injustiça social. Quando olhamos o rosto dos que sofrem:
- o rosto do camponês ameaçado,
- do trabalhador excluído,
- do indígena oprimido,
- da família sem teto,
- do imigrante perseguido,
- do jovem desempregado,
- da criança explorada,
- da mãe que perdeu o seu filho num tiroteio porque o bairro foi tomado pelo narcotráfico,
- do pai que perdeu a sua filha porque foi sujeita à escravidão;
Vós viveis, cada dia, imersos na crueza da
tormenta humana. Falastes-me das vossas causas, partilhastes comigo as vossas
lutas, desde Buenos Aires, e agradeço-vos. Queridos irmãos, muitas vezes
trabalhais no insignificante, no que aparece ao vosso alcance, na realidade
injusta que vos foi imposta e a que não vos resignais opondo uma resistência
ativa ao sistema idólatra que exclui, degrada e mata. Vi-vos trabalhar
incansavelmente pela terra e a agricultura camponesa, pelos vossos territórios
e comunidades, pela dignificação da economia popular, pela integração urbana
das vossas favelas e agrupamentos, pela auto-construção de moradias e o
desenvolvimento das infra-estruturas do bairro e em muitas atividades
comunitárias que tendem à reafirmação de algo tão elementar e inegavelmente
necessário como o direito aos “3 T”: terra, tecto e trabalho. Este apego ao
bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se
no rosto do outro, esta proximidade no dia-a-dia, com as suas misérias, porque
existem, as temos, e os seus heroísmos quotidianos, é o que permite realizar o
mandamento do amor, não a partir de ideias ou conceitos, mas a partir do
genuíno encontro entre pessoas, precisamos instaurar essa cultura do encontro,
porque não se amam os conceitos nem as ideias; ninguém ama um conceito, ninguém
ama uma ideia. Amam-se as pessoas. A entrega, a verdadeira entrega nasce do
amor pelos homens e mulheres, crianças e idosos, vilarejos e comunidades...
Rostos e nomes que enchem o coração. A partir destas sementes de esperança
semeadas pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de
ternura que lutam por subsistir na escuridão da exclusão, crescerão grandes
árvores, surgirão bosques densos de esperança para oxigenar este mundo.
Vejo, com alegria, que trabalhais no que
aparece ao vosso alcance, cuidando dos rebentos; mas, ao mesmo tempo, com uma
perspectiva mais ampla, protegendo o arvoredo. Trabalhais numa perspectiva que
não só aborda a realidade sectorial que cada um de vós representa e na qual
felizmente está enraizada, mas procurais também resolver, na sua raiz, os
problemas gerais de pobreza, desigualdade e exclusão. Felicito-vos por isso. É
imprescindível que, a par da reivindicação dos seus legítimos direitos, os
povos e as suas organizações sociais construam uma alternativa humana à
globalização exclusiva. Vós sois semeadores de mudança. Que Deus vos dê
coragem, alegria, perseverança e paixão para continuar a semear. Podeis ter a
certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver os frutos. Peço aos
dirigentes: sede criativos e nunca percais o apego às coisas próximas, porque o
pai da mentira sabe usurpar palavras nobres, promover modas intelectuais e
adotar posições ideológicas, mas se construirdes sobre bases sólidas, sobre as
necessidades reais e a experiência viva dos vossos irmãos, dos camponeses e
indígenas, dos trabalhadores excluídos e famílias marginalizadas, de certeza
não vos equivocareis.
A Igreja não pode nem deve ser alheia a
este processo no anúncio do Evangelho. Muitos sacerdotes e agentes pastorais
realizam uma tarefa imensa acompanhando e promovendo os excluídos em todo o
mundo, ao lado de cooperativas, dando impulso a empreendimentos, construindo
casas, trabalhando abnegadamente nas áreas da saúde, desporto e educação. Estou
convencido de que a cooperação amistosa com os movimentos populares pode
robustecer estes esforços e fortalecer os processos de mudança.
No coração, tenhamos sempre a Virgem Maria,
uma jovem humilde duma pequena aldeia perdida na periferia dum grande império,
uma mãe sem tecto que soube transformar um curral de animais na casa de Jesus
com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Maria é sinal de esperança
para os povos que sofrem dores de parto até que brote a justiça. Rezo à Virgem
do Carmo, padroeira da Bolívia, para fazer com que este nosso Encontro seja
fermento de mudança.
3. Esse padre fala muito, não? Por último,
gostaria que refletíssemos, juntos, sobre algumas tarefas importantes neste
momento histórico, pois queremos uma mudança positiva em benefício de todos os
nossos irmãos e irmãs. Disto estamos certos! Queremos uma mudança que se
enriqueça com o trabalho conjunto de governos, movimentos populares e outras
forças sociais. Sabemos isto também! Mas não é tão fácil definir o conteúdo da
mudança, ou seja, o programa social que reflita este projeto de fraternidade
e justiça que esperamos. Neste sentido, não esperem uma receita deste Papa. Nem
o Papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social e da
proposta de soluções para os problemas contemporâneos. Atrever-me-ia a dizer
que não existe uma receita. A história é construída pelas gerações que se vão
sucedendo no horizonte de povos que avançam individuando o próprio caminho e
respeitando os valores que Deus colocou no coração.
Gostaria, no entanto, de vos propor três
grandes tarefas que requerem a decisiva contribuição do conjunto dos movimentos
populares:
3.1. A primeira tarefa é pôr a economia ao
serviço dos povos.
Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.
Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.
A economia não deveria ser um mecanismo de
acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Isto implica cuidar
zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. A sua
finalidade não é unicamente garantir o alimento ou um «decoroso sustento». Não
é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos “3 T” pelos
quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer,
uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade,
«prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos». Esta última frase foi
dita pelo Papa João XIII há 50 anos. Jesus fala no Evangelho aquele que dê espontaneamente um copo de água para quem tem sede, lhe será tido em conta no
reino dos céus. Assim que...
Isto envolve os “3 T” mas também acesso à
educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à
comunicação, ao desporto e à recreação. Uma economia justa deve criar as
condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações,
desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos
durante os anos de atividade e ter acesso a uma digna aposentação na velhice. É
uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o
sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e
necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social. Vós – e
outros povos também – resumis este anseio duma maneira simples e bela: «viver
bem». Que não é o mesmo que “esbanjar” (ndr: tradução nossa da expressão
espanhola “pasarla bien”).
Esta economia é não apenas desejável e
necessária, mas também possível. Não é uma utopia, nem uma fantasia. É uma
perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos disponíveis
no mundo, fruto do trabalho intergeneracional dos povos e dos dons da criação,
são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de «todos os homens e
do homem todo». Mas o problema é outro. Existe um sistema com outros
objetivos. Um sistema que, apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da
produção, apesar de implementar métodos na indústria e na agricultura que
sacrificam a Mãe Terra na ara da «produtividade», continua a negar a milhares
de milhões de irmãos os mais elementares direitos econômicos, sociais e
culturais. Este sistema atenta contra o projeto de Jesus. Contra a boa notícia
que trouxe Jesus.
A justa distribuição dos frutos da terra e
do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos,
o encargo é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres
e às pessoas o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno
retórico da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade
privada. A propriedade, sobretudo quando afeta os recursos naturais, deve
estar sempre em função das necessidades das pessoas. E estas necessidades não
se limitam ao consumo. Não basta deixar cair algumas gotas, quando os pobres
agitam este copo que, por si só, nunca derrama. Os planos de assistência que
acodem a certas emergências deveriam ser pensados apenas como respostas
transitórias. Nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: a inclusão que dá
o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário. Neste caminho, os
movimentos populares têm um papel essencial, não apenas exigindo e reclamando,
mas fundamentalmente criando. Vós sois poetas sociais: criadores de trabalho,
construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados
pelo mercado global. Conheci de perto várias experiências, onde os
trabalhadores, unidos em cooperativas e outras formas de organização
comunitária, conseguiram criar trabalho onde só havia sobras da economia
idólatra. As empresas recuperadas, as feiras francas e as cooperativas de
catadores de papelão são exemplos desta economia popular que surge da exclusão
e que pouco a pouco, com esforço e paciência, adota formas solidárias que a dignificam. Quão diferente é isto do facto de os descartados pelo mercado
formal serem explorados como escravos!
Os governos que assumem como própria a
tarefa de colocar a economia ao serviço das pessoas devem promover o
fortalecimento, melhoria, coordenação e expansão destas formas de economia
popular e produção comunitária. Isto implica melhorar os processos de trabalho,
prover de adequadas infra-estruturas e garantir plenos direitos aos
trabalhadores deste sector alternativo. Quando Estado e organizações sociais
assumem, juntos, a missão dos “3 T”, activam-se os princípios de solidariedade
e subsidiariedade que permitem construir o bem comum numa democracia plena e
participativa.
3.2. A segunda tarefa é unir os nossos povos
no caminho da paz e da justiça.
Os povos do mundo querem ser artífices do
seu próprio destino. Querem caminhar em paz para a justiça. Não querem tutelas
nem interferências, onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que a sua
cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradições religiosas sejam
respeitados. Nenhum poder efetivamente constituído tem direito de privar os
países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos
novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e
justiça, porque «a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas
também no respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito à
independência».
Os povos da América Latina alcançaram, com
um parto doloroso, a sua independência política e, desde então, viveram já
quase dois séculos duma história dramática e cheia de contradições procurando
conquistar uma independência plena. Nos últimos anos, depois de tantos
mal-entendidos, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade
entre os seus povos. Os governos da região juntaram seus esforços para fazer
respeitar a sua soberania, a de cada país e a da região como um todo que, de
forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a «Pátria Grande».
Peço-vos, irmãos e irmãs dos movimentos populares, que cuidem e façam crescer
esta unidade. É necessário manter a unidade contra toda a tentativa de divisão,
para que a região cresça em paz e justiça.
Apesar destes avanços, ainda subsistem
factores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e coarctam a
soberania dos países da «Pátria Grande» e doutras latitudes do Planeta. O novo
colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anônimo do ídolo
dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados «de livre
comércio» e a imposição de medidas de «austeridade» que sempre apertam o cinto
dos trabalhadores e dos pobres. Os bispos latino-americanos denunciam-no muito
claramente, no documento de Aparecida, quando afirmam que «as instituições
financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar
as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez
mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de
suas populações». Noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a
corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo – graves males dos nossos tempos que
requerem uma ação internacional coordenada – vemos que se impõem aos Estados
medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas
vezes tornam as coisas piores.
Da mesma forma, a concentração monopolista
dos meios de comunicação social que pretende impor padrões alienantes de
consumo e certa uniformidade cultural é outra das formas que adota o novo
colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África,
muitas vezes pretende-se converter os países pobres em «peças de um mecanismo,
partes de uma engrenagem gigante». Temos de reconhecer que nenhum dos graves
problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interação dos Estados e dos
povos a nível internacional. Qualquer ato de envergadura realizado numa parte
do Planeta repercute-se no todo em termos econômicos, ecológicos, sociais e
culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo
pode atuar à margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma
mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Ou
seja, nossa sadia independência. Mas interação não é sinônimo de imposição, não
é subordinação de uns em função dos interesses dos outros. O colonialismo, novo
e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e
mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os
males que vêm juntos... precisamente porque, ao pôr a periferia em função do
centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. E isso, irmãos,
desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum recurso policial,
militar ou dos serviços secretos será capaz de deter. Digamos NÃO às velhas e
novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas.
Bem-aventurados os que trabalham pela paz. Aqui quero deter-me num tema
importante. É que alguém poderá, com direito, dizer: «Quando o Papa fala de
colonialismo, esquece-se de certas ações da Igreja». Com pesar, vo-lo digo:
Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em
nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero
reafirmá-lo eu também. Como São João Paulo II, peço que a Igreja «se ajoelhe
diante de Deus e implore o perdão para os pecados passados e presentes dos seus
filhos». E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi São João Paulo
II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas
também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da
América. E junto com esse pedido de perdão, e para ser justos, também quero que
recordemos sacerdotes, bispos, que se opuseram fortemente à lógica da espada com
a força da cruz. Houve pecado, houve pecado e abunda, mas não pedimos perdão, e
por isso pedimos perdão. Mas ali também onde houve pecado, onde houve abundante
pecado, sobreabundou a graça, através desses homens que defenderam a justiça dos
povos originários.
Peço-vos também a todos, crentes e não
crentes, que se recordem de tantos bispos, sacerdotes e leigos que pregaram e
pregam e continuam pregando a boa nova de Jesus com coragem e mansidão,
respeito e em paz; disse bispos, sacerdotes e leigos, não quero esquecer-me das
freirinhas que anonimamente andam pelos nossos bairros pobres, levando uma
mensagem de paz e de justiça, que, na sua passagem por esta vida, deixaram
impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas vezes ao
lado dos povos indígenas ou acompanhando os próprios movimentos populares mesmo
até ao martírio. A Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte da identidade
dos povos na América Latina. Identidade que alguns poderes, tanto aqui como
noutros países, se empenham por apagar, talvez porque a nossa fé é
revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro. Hoje
vemos, com horror, como no Médio Oriente e noutros lugares do mundo se
persegue, tortura, assassina a muitos irmãos nossos pela sua fé em Jesus. Isto
também devemos denunciá-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas
que vivemos, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar. Aos irmãos e
irmãs do movimento indígena latino-americano, deixem-me expressar a minha mais
profunda estima e felicitá-los por procurarem a conjugação dos seus povos e
culturas segundo uma forma de convivência, a que eu chamo poliédrica, onde as
partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que não
atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A sua procura desta interculturalidade
que conjuga a reafirmação dos direitos dos povos nativos com o respeito à
integridade territorial dos Estados enriquece-nos e fortalece-nos a todos.
3.3. A terceira tarefa, e talvez a mais
importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra.
A casa comum de todos nós está a ser saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos, com crescente decepção, sucederem-se uma após outras cimeiras internacionais sem qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de atuar que não está a ser cumprido. Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a criação. Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir – pacífica mas tenazmente – a adoção urgente de medidas apropriadas. Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra. Sobre este assunto, expressei-me devidamente na carta encíclica Laudato si’.
A casa comum de todos nós está a ser saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos, com crescente decepção, sucederem-se uma após outras cimeiras internacionais sem qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de atuar que não está a ser cumprido. Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a criação. Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir – pacífica mas tenazmente – a adoção urgente de medidas apropriadas. Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra. Sobre este assunto, expressei-me devidamente na carta encíclica Laudato si’.
4. Para concluir, quero dizer-lhes
novamente: O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes
dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos
dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que
regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco.
Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem tecto, nenhum camponês
sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma
pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem
possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa
luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra. Rezo por vós, rezo convosco e quero
pedir a nosso Pai Deus que vos acompanhe e abençoe, que vos cumule do seu amor
e defenda no caminho concedendo-vos, em abundância, aquela força que nos mantém
de pé: esta força é a esperança, e uma coisa importante, a esperança que não
decepciona. Obrigado! E peço-vos, por favor, que rezeis por mim. E se algum de
vocês não pode rezar, eu o respeito, peço que pense bem de mim, que me mande me
mande um ok.
[Texto original em espanhol,
com expressões e frases acrescentadas pelo Papa, transcritas por ZENIT]
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