Papa em Quito: “Comunhão intensa entre nós favorece mais a missão”
Alessandra
Borges
Em Quito, durante homilia, Papa Francisco pede aos
fiéis
que deem um autêntico testemunho cristão de comunhão
fraterna
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Papa Francisco chega para presidir a Santa Missa no Parque Bicentenário, em Quito, capital do Equador. Terça-feira, 7 de julho de 2015. |
Nesta
terça-feira, 7 de julho, o Papa
Francisco presidiu uma Santa Missa campal no Parque Bicentenário, em Quito,
capital do Equador, reunindo
aproximadamente dois milhões de pessoas.
Durante
sua homilia, o Santo Padre falou aos milhões de fiéis presentes e a todos que
acompanharam a reflexão pelos meios de comunicação sobre a importância de um autêntico testemunho cristão com gestos de amor e
solidariedade ao próximo. E destacou que “a nossa fé é sempre revolucionária”.
A
reflexão do Papa Francisco, na Celebração Eucarística desta terça-feira, 7, foi
baseada no Evangelho de São João 17,11-23,
na qual ele comparou o sussurro de Jesus na Última Ceia com o “Bicentenário do Grito de Independência
Hispano-Americana”. E destacou que esses gritos devem servir como um belo
desafio da evangelização.
“Nós
todos juntos, aqui reunidos à volta da mesa com Jesus, somos um grito, um
clamor nascido da convicção de que a sua presença nos impele para a unidade,
indica um horizonte estupendo, oferece um banquete desejável”, animou o Sumo
Pontífice.
Sua
Santidade também recordou aos fiéis que hoje
vivemos em um mundo dilacerado pelas guerras e a violência, fato que acaba nos
colocando uns contra os outros. E
nos convidou a ser testemunhas da evangelização a fim de que consigamos “atrair
os afastados com o nosso testemunho, e nos aproximarmos humildemente daqueles
que se sentem longe de Deus e da Igreja”.
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Pessoas aguardam o Papa Francisco para a Missa no Parque Bicentenário, em Quito, capital do Equador. Foto: Rodrigo Buendia / AFP / Getty Images |
“É
precisamente a este mundo desafiador que Jesus nos envia, e a nossa resposta não é nos fazer de
distraídos, argumentar que não temos meios ou que a realidade nos supera. A
nossa resposta repete o clamor de Jesus e aceita a graça e a tarefa da
unidade”, lembrou o Papa Francisco.
E
indicou que a Igreja deve estar em um
constante estado de missão para que os cristãos possam testemunhar a
evangelização e ir ao encontro dos irmãos, por isso é necessário que haja
comunhão entre as pessoas.
“Colocar
a Igreja em estado de missão pede-nos para recriarmos a comunhão, pois já não
se trata de uma ação voltada só para fora; fazemos missão para dentro e missão
para fora, manifestando-nos ‘como mãe que vai ao encontro, uma casa acolhedora,
uma escola permanente de comunhão missionária'” (Documento de Aparecida 370),
explicou Sua Santidade.
Francisco
encerrou sua homilia pedindo aos fiéis que deem um testemunho vivo e verdadeiro
da comunhão fraterna.
Na
íntegra, a homilia do Papa pela evangelização dos povos
Homilia
Viagem apostólica do Papa Francisco
Parque Bicentenário, Quito, Equador
Terça-feira, 7 de Julho de 2015
A Palavra de Deus convida-nos a viver a
unidade para que o mundo acredite.
Imagino aquele sussurro de Jesus na Última
Ceia como um grito nesta Missa que celebramos no «Parque do Bicentenário». O
Bicentenário daquele Grito de Independência da Hispano-América. Foi um grito,
nascido da consciência da falta de liberdade, de estar a ser espremidos e
saqueados, «sujeitos às conveniências dos poderosos de turno» (EG 213).
Quereria que hoje os dois gritos
coincidissem sob o belo desafio da evangelização. Não a partir de palavras
altissonantes, nem com termos complicados, mas que nasça da «alegria do
Evangelho», que «enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com
Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza,
do vazio interior, do isolamento» (EG 1). Nós todos juntos, aqui reunidos à
volta da mesa com Jesus, somos um grito, um clamor nascido da convicção de que
a sua presença nos impele para a unidade, «indica um horizonte estupendo,
oferece um banquete desejável» (EG 14).
«Pai, que sejam um, para que o mundo
creia»: assim o almejou, levantando os olhos ao céu. A Jesus brota-Lhe este
pedido num contexto de envio: ‘Como Tu me enviaste ao mundo, Eu também os
enviei ao mundo’. Naquele momento, o Senhor experimenta na sua própria carne o
pior deste mundo, o qual Ele, apesar de tudo, ama loucamente: intrigas,
desconfianças, traição, mas não esconde a cabeça, não se lamenta. Também nós
constatamos no dia a dia que vivemos num mundo dilacerado pelas guerras e a
violência. Seria superficial pensar que a divisão e o ódio afetam apenas as
tensões entre os países ou os grupos sociais. Na realidade, são manifestação
daquele «generalizado individualismo» que nos separa e coloca uns contra os
outros (cf. Evangelii Gaudium, 99),
da ferida do pecado no coração das pessoas, cujas consequências fazem sofrer
também a sociedade e a criação inteira. É precisamente a este mundo desafiador
que Jesus nos envia, e a nossa resposta não é nos fazer de distraídos,
argumentar que não temos meios ou que a realidade nos supera. A nossa resposta
repete o clamor de Jesus e aceita a graça e a tarefa da unidade.
Àquele grito de liberdade, que prorrompeu
há pouco mais de 200 anos, não lhe faltou convicção nem força, mas a história
conta-nos que só se tornou contundente quando deixou de lado os personalismos,
o afã de lideranças únicas, a falta de compreensão doutros processos
libertadores com características diferentes, mas não por isso antagônicas.
Poderá a evangelização ser veículo de
unidade de aspirações, sensibilidades, esperanças e até de certas utopias? É
claro que sim; nisso mesmo acreditamos e gritamos. Como disse uma vez,
«enquanto no mundo, especialmente nalguns países, se reacendem várias formas de
guerras e conflitos, nós, cristãos, insistimos na proposta de reconhecer o
outro, de curar as feridas, de construir pontes, de estreitar laços e de nos
ajudarmos a carregar as cargas uns dos outros» (EG 67). O anseio de unidade
supõe a doce e reconfortante alegria de evangelizar, a convicção de que temos
um bem imenso para comunicar e de que, comunicando-o, ganha raízes; e qualquer
pessoa que tenha vivido esta experiência adquire maior sensibilidade face às
necessidades dos outros (cf. EG 9). Daí a necessidade de lutar pela inclusão em
todos os níveis, evitando egoísmos, promovendo a comunicação e o diálogo,
encorajando a colaboração. É preciso confiar o coração ao companheiro de
estrada, sem medo nem difidência. «O abrir-se ao outro é algo de artesanal, a
paz é artesanal» (EG 244); é impensável que brilhe a unidade se a mundanidade
espiritual nos faz estar em guerra entre nós, numa busca estéril de poder, prestígio,
prazer ou segurança econômica. E isso nas costas dos mais pobres, dos mais
indefesos e daqueles que não perdem a sua dignidade, apesar daqueles que batem
neles todos os dias.
Esta unidade já é uma ação missionária
«para que o mundo creia». A evangelização não consiste em fazer proselitismo,
mas em atrair os afastados com o nosso testemunho, em aproximar-se humildemente
daqueles que se sentem longe de Deus e da Igreja, daqueles que têm medo ou dos
indiferentes, para lhes dizer: «O Senhor também te chama para seres parte do
seu povo, e fá-lo com grande respeito e amor» (EG 113).
A missão da Igreja, enquanto sacramento da
salvação, condiz com a sua identidade de povo em caminho, com a vocação de
incorporar na sua marcha todas as nações da terra. Quanto mais intensa for a
comunhão entre nós, tanto mais sairá favorecida a missão (cf. João Paulo II, Pastores gregis, 22). Colocar a Igreja
em estado de missão pede-nos para recriarmos a comunhão, pois já não se trata
duma ação voltada só para fora; fazemos missão para dentro e missão para fora,
manifestando-nos «como mãe que vai ao encontro, uma casa acolhedora, uma escola
permanente de comunhão missionária» (Aparecida 370).
Este sonho de Jesus é possível, porque nos
consagrou: «Totalmente Me consagro, para que também eles sejam consagrados por
meio da Verdade». A vida espiritual do evangelizador nasce desta verdade tão
profunda, que não se confunde com uns poucos momentos religiosos que
proporcionam algum alívio; Jesus consagra-nos para suscitar um encontro pessoal
com Ele, que alimenta o encontro com os outros, o compromisso no mundo, a
paixão evangelizadora (cf. EG 78).
A intimidade de Deus, incompreensível para
nós, é-nos revelada por meio de imagens que nos falam de comunhão, comunicação,
doação, amor. Por isso a união, que Jesus pede, não é uniformidade, mas a
«multiforme harmonia que atrai» (EG 117). A imensa riqueza da variedade, a
multiplicidade que alcança a unidade todas as vezes em que fazemos memória
daquela Quinta-feira Santa, afasta-nos da tentação de propostas mais próximas
de ditaduras, ideologias ou sectarismos. Também não é um arranjo feito à nossa
medida, no qual ditamos as condições, escolhemos alguns membros e excluímos os
outros. Jesus reza para que façamos parte duma grande família, na qual Deus é
nosso Pai e todos nós somos irmãos. Isso não se fundamenta no fato de ter os
mesmos gostos, as mesmas preocupações, os mesmos talentos. Somos irmãos, porque
Deus nos criou por amor e, por pura iniciativa d’Ele, nos destinou para sermos
seus filhos (cf. Ef 1,5). Somos irmãos, porque «Deus enviou aos nossos corações
o Espírito do seu Filho, que clama: “Abbà! – Pai!”» (Gl 4,6). Somos irmãos,
porque, justificados pelo sangue de Cristo Jesus (cf. Rm 5, 9), passamos da
morte à vida, fazendo-nos «co-herdeiros» da promessa (cf. Gl 3, 26-29; Rm 8,
17). Esta é a salvação que Deus realiza e a Igreja alegremente anuncia: fazer
parte do «nós» divino.
O nosso grito, neste lugar que lembra
aquele primeiro da liberdade, atualiza o grito de São Paulo: «Ai de mim, se eu
não evangelizar!» (1 Cor 9, 16). É tão urgente e premente como o daqueles
desejos de independência. Possui fascínio semelhante, o mesmo fogo que atrai.
Sede um testemunho de comunhão fraterna que se torne resplandecente!
Que belo seria se todos pudessem admirar
como nos preocupamos uns pelos outros; como mutuamente nos animamos e fazemos
companhia. É o dom de si que estabelece a relação interpessoal; esta não se
gera dando «coisas», mas dando-se a si mesmo. Em qualquer doação, é a própria
pessoa que se oferece. «Dar-se» significa deixar atuar em si mesmo toda a força
do amor que é o Espírito de Deus e, assim, dar lugar à sua força criadora.
Dando-se, o homem volta a encontrar-se a si mesmo com a sua verdadeira
identidade de filho de Deus, semelhante ao Pai e, como Ele, doador de vida,
irmão de Jesus, de Quem dá testemunho. Isso é evangelizar, esta é a nossa
revolução – porque a nossa fé é sempre revolucionária – este é o nosso grito
mais profundo e constante.
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