AINDA O SÍNODO: Surpresas a cada dia ! ! !
O
relato de um Padre Sinodal:
"Um
menino repartiu a hóstia para dar aos seus pais recasados"
Andrea Gualtieri
Jornal “La Repubblica”
15-10-2015
A intervenção na Aula sinodal comove a assembleia, que entra no cerne
do debate sobre os sacramentos aos divorciados:
«Na Igreja, não somos “oficiais de imigração”, que
devem controlar
perenemente a integridade daqueles que se aproximam».
Papa Francisco adverte: «Cuidado com os doutores da lei».
![]() |
Dom Alonso Gerardo Garza Treviño, da diocese de Piedras Negras (México) comoveu os Padres Sinodais com seu testemunho |
A
história, contada na frente do papa durante a assembleia plenária do Sínodo,
comoveu muitos dos prelados envolvidos no debate sobre a família. Foi
justamente um bispo, cujo nome não foi
relatado [1], que contou a experiência vivida: ele estava celebrando a missa da
primeira comunhão em uma paróquia, quando um menino, que foi ao altar para
receber a hóstia consagrada na mão, repartiu-a e deu um pedacinho para cada um
dos seus pais, que, sendo divorciados recasados, não poderiam tê-la recebido.
O
relato foi revelado durante a coletiva de imprensa cotidiana sobre os trabalhos
do Sínodo pelo Pe. Manuel Dorantes, colaborador
para a língua espanhola do Pe. Federico Lombardi, e é significativo
dos casos trazidos por aqueles que pedem uma reforma da norma que impede o
acesso à comunhão por parte daqueles que se divorciaram e começaram uma nova
relação.
Depois
dos primeiros dez dias, o debate do Sínodo chegou justamente a
abordar a terceira parte do Instrumentum
laboris, relativa às feridas da
família. E o tema dos recasados é um dos eixos mais difíceis da discussão,
junto com a da acolhida aos homossexuais e a contracepção.
Não aos "oficiais de imigração"
"Não
se trata de mudar a doutrina católica, mas a nossa atitude", foi dito na
assembleia. Sobre os recasados, em particular, como destacaram alguns dos
Padres sinodais, a Igreja "deve se
perguntar o que ela faz por eles de modo concreto".
O
nó, porém, continua sendo o acesso aos sacramentos, contra o qual alguns bispos
se levantaram abertamente. "Falamos sobre o processo de nulidade e de
todas as formas pelas quais um divorciado ainda pode participar na vida
eclesial", disse na coletiva de imprensa Stanislaw Gadecki,
arcebispo de Poznan e presidente da Conferência
Episcopal Polonesa, explicando que os prelados poloneses tinham excluído a
hipótese de permitir a reaproximação à comunhão, mas especificando que os
recasados "não estão excomungados" e que, muitas vezes, "têm um
desejo maior de ter acesso à Eucaristia do que aqueles que têm direito".
Por
outro lado, um dos Padres sinodais
sublinhou na assembleia que no texto-guia há apenas uma vez a palavra
"perdão", pedindo para se valorizar esse aspecto. E outro
reivindicou: "Na Igreja, não somos 'oficiais de imigração', que devem
controlar perenemente a integridade daqueles que se aproximam".
Entre
as hipóteses de trabalho que serão abordadas nos próximos dias para superar a
prática atual está a do "caminho de
discernimento" e de uma "via
penitencial". Percurso, este último, que é um pré-requisito
fundamental para o acesso de qualquer pessoa à comunhão e que, destacou-se,
requer que se reafirme o ensinamento sobre o pecado.
O
caminho mais percorrido por aqueles que defendem a tese da readmissão dos
recasados parece ser a de "avaliar
história por história", colocando limitações para os casos
particularmente significativos.
"Cuidado com os doutores da lei"
No
entanto, foi excluída a hipótese de soluções diferentes de acordo com o
contexto geográfico: "Eu venho da distante Austrália. A forma como
nós vivemos a nossa fé é muito diferente da Igreja na África, na América
do Sul e na Ásia. Mas, sobre os pontos essenciais da
doutrina e sobre os sacramentos, especialmente a comunhão, obviamente a
unidade, do ponto de vista do ensinamento, é essencial", declarou em
entrevista à Rádio Vaticano o cardeal George Pell,
prefeito da Secretaria para a Economia e considerado um dos
artífices da carta entregue ao papa na abertura do Sínodo para
contestar os procedimentos.
Nas
suas palavras, há uma ênfase: "É óbvio que o Santo Padre diz que a
doutrina não será tocada. Como nós falamos da doutrina moral, sacramental,
nesta, obviamente, há um elemento essencial da prática, da disciplina."
![]() |
BRUNO FORTE Arcebispo italiano de Chieti-Vasto, teólogo e Secretário Especial do Sínodo dos Bispos |
Pelos
mesmos microfones, no entanto, Dom Bruno Forte, secretário especial
do Sínodo, salientou: "Acredito que uma via pastoral muito
concreta é a que se articula, acima de tudo, no estilo de acompanhamento, que significa acolhida de todos,
companhia da vida e da fé, portanto, proximidade, escuta, partilha".
Ele
explicou que a "via" ao longo da qual se poderá encontrar uma
resposta é a de "caminhar em profunda comunhão com o Papa
Francisco" e com "a
gradualidade do acompanhamento e da integração".
Na
parte da manhã, o pontífice, ao celebrar a missa na capela da Casa
Santa Marta, havia alertado para "guardar-se
dos doutores da lei, que encurtam os horizontes de Deus e tornam pequeno o seu
amor".
Na
assembleia, pediu-se uma mudança de
mentalidade das comunidades eclesiais, com uma reorganização das paróquias em
torno da pastoral familiar e com a criação de pequenas comunidades estáveis
de famílias locais que acompanhem outras famílias, ajudando-as também nos
momentos de dificuldade.
No
geral, parece prevalecer um pedido unânime de uma maior formação na preparação para o matrimônio e no acompanhamento dos
esposos, e novos métodos de catequese, para os quais alguns pediram que se
abandone a linguagem atual, considerada muito "escolástica".
"Há
uma grande riqueza de propostas pastorais concretas", observou o padre Lombardi.
N O T A
[ 1 ] –
Posteriormente, revelou-se que se tratava de um relato feito pelo bispo
mexicano dom Alonso Gerardo Garza Treviño, da diocese de Piedras
Negras (norte do país).
Traduzido do
italiano por Moisés Sbardelotto.
Para acessar a versão original deste artigo, clique aqui.
Fonte:
Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 19 de
outubro de 2015 – Internet: clique aqui.
Os
Padres Sinodais saberão chegar aonde
uma
criança já chegou?
Andrea Grillo*
Come Se Non
15-10-2015
O fato de um menino antecipar os pastores, dando a comunhão aos pais divorciados,
não é uma novidade. Na Bíblia, muitas vezes são os "filhos menores"
que veem mais longe, e não é a primeira vez que um menino ensina no templo aos
doutores da lei.
A
história, publicada nessa quinta-feira, do menino que, no momento da sua
primeira comunhão, partiu a hóstia para levar um fragmento para o pai e a mãe
"divorciados recasados" parece ter "tocado" e
"comovido" a assembleia sinodal.
Lembrando
bem, outra história, há um ano, por sua vez, tinha "marcado" a
reunião dos bispos. Também naquele caso, falava-se de um menino, mas que
coincidia com o cardeal Schönborn,
enquanto ele contava, confessando-se perante os irmãos bispos, a sua história
de "filho" de pais divorciados recasados.
É
evidente que as emoções são um canal formidável de orientação e de convicção.
Mas também é evidente que uma coisa é
ser tocado por uma história biográfica, outra é deliberar sobre uma possibilidade
geral de "superação" da proibição de comunhão eucarística.
Para valorizar plenamente
esse episódio, eu acredito que devemos ter em mente alguns pontos-chave:
1.
O gesto do menino é "profecia
eclesial". Ele já chegou aonde a Igreja ainda deve chegar. Obviamente,
as estradas de um indivíduo e as de um povo não podem ser as mesmas. O que é
uma linha reta direta pode se tornar uma longa série de curvas e também de
retornos. Mas aquela é a meta. Os Padres sinodais foram tocados por uma
antecipação da meta, que é uma verdade sentida que ainda custamos a pensar.
Mas, "com o faro", sabemos que devemos convergir lá.
2.
O gesto do menino é espontâneo e
inspirado. Mas a Igreja se quiser estar à altura da própria tradição, deve
combinar a "bendita espontaneidade" com a "previsão
disciplinada". Ela deve ter a força de "dar palavra argumentada e
pacata" a essa bela iniciativa do neófito. Será que alguns, talvez, terão
a coragem de dizer que a primeira ação do "neocomungado" foi um
pecado contra a doutrina católica sobre o matrimônio indissolúvel? Jovem
menino, que recém comungou, você já foi excomungado?
3.
Nunca se poderá sair da situação de
"impasse" na qual a Familiaris
consortio nos conduziu apenas com um "julgamento caso a caso".
A solução "individual" não é uma saída. Se existe um
"regulamento geral" para a declaração de nulidade matrimonial – algo
que não escandaliza ninguém – não se vê por que não pode existir um regulamento
geral para a "declaração do fracasso matrimonial".
A
indissolubilidade do matrimônio não significa que "ele não pode ser dissolvido", mas que "ele não deve ser dissolvido".
Se, de fato, ele se dissolve, é preciso prever as formas mais adequadas para
que esse fato – com toda a dor e a desordem que implica – seja reconhecido e
para que, com ele, reconheçam-se formas de vida que daí surgem para todos
(ex-cônjuges, novos cônjuges e filhos), e que não são redutíveis simplesmente a "adultério continuado".
4.
Se os bispos poloneses – ou, mais
prudentemente, aqueles que os representam no Sínodo – consideram que a Familiaris consortio é a última palavra
possível sobre a disciplina de matrimônio, da qual "ne iota unum" [trad.: nem
um só iota = “i”] pode ser mudado –, com essa atitude, mais do que ajudar a
resolver o problema da Igreja universal, eles
parecem querer parar a história da Igreja no pontificado de Karol Wojtyla [papa
João Paulo II]. O que se pode entender do ponto de vista do orgulho nacional,
mas não no plano da fé eclesial.
5.
O gesto do menino, no entanto, deve ser
bem compreendido. Por um lado, é fácil de dizer: ele deu a comunhão aos
seus pais "irregulares". Mas não é esse o ponto decisivo. O menino "reconheceu a comunhão"
que vive, apesar de tudo, com os seus pais. Esse é o ponto decisivo, sobre
o qual o Sínodo ainda deverá se interrogar e, depois, se pronunciar: a questão não é "dar a comunhão aos
divorciados recasados", mas "reconhecer
a comunhão nas vidas daqueles que viram fracassar o seu matrimônio".
Essa
é a passagem mais difícil e mais urgente. Não
está em questão, acima de tudo, o "sacramento", mas a vida de
comunhão. Ser comunhão é o fim do sacramento: onde já há comunhão, o sacramento já está presente, embora formalmente
vetado. Nas Escrituras, Pedro também fica surpreso porque o Espírito já
tinha sido dado, embora o batismo ainda não tivesse sido celebrado... [cf.:
Atos 10,23-48].
6.
O fato de um menino antecipar os
pastores não é uma novidade. Na Bíblia, muitas vezes são os "filhos
menores" que veem mais longe, e não é a primeira vez que um menino ensina
no templo aos doutores da lei. Mas, mesmo no famoso conto de fadas, é um menino
o único que sabe dizer que "o rei está nu".
Como o Papa Francisco
repetiu tantas vezes, há muitos casos em que a Igreja tem muito a aprender com
as famílias.
Esse é um daqueles casos exemplares: o sacerdote que anunciava a loucura da
misericórdia do Evangelho, naquela história da primeira comunhão evocada na
assembleia sinodal, era justamente o menino.
*
ANDREA GRILLO é leigo católico casado, teólogo italiano, professor
do Pontifício Ateneu Santo Anselmo,
de Roma; do Instituto Teológico
Marchigiano, de Ancona; e do Instituto
de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Para acessar a
versão original deste artigo, clique aqui.
Comentários
Postar um comentário