UM SÍNODO QUE ABRE CAMINHO À MISERICÓRDIA
O fim do começo
Christopher
Lamb
The
Tablet
22-10-2015
Após três semanas, o Sínodo sobre a família chega ao
seu fim em Roma. Opiniões diferentes sobre os relacionamentos pessoais vieram à
tona, mas também um movimento em direção a uma Igreja mais aberta a escutar.
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PAPA FRANCISCO Concluindo o Sínodo dos Bispos sobre a Família Sala do Sínodo Sábado, 24 de outubro de 2015 |
Estar
do lado de dentro do salão sinodal e presenciar os debates aí travados foi, de
acordo com o arcebispo de Brisbane, Mark
Coleridge, algo como assistir pipoca sendo feita na panela: “As ideias e
opiniões saltavam em todas as direções”, disse.
O
mesmo vem ocorrendo com analistas deste Sínodo dos Bispos sobre a família, que
hoje (22 de outubro) estará votando o seu documento final. Cobriram-se todos os
tipos de tópicos: do divórcio, gays e poligamia até a preparação para o
matrimônio, pobreza e migração.
Alguns
temas parecem ter surgido, tais como a necessidade de a Igreja encontrar uma
nova linguagem – não “indissolubilidade”,
mas “fidelidade” do matrimônio –, para dar uma maior autonomia aos bispos locais em questões pastorais e para ajudar – em vez de julgar – as uniões
que fracassam em viver segundo os ideais do ensino católico.
Resta
saber se algumas destas mudanças em direção à abertura e descentralização irão
se fazer presentes no documento final do Sínodo e se tornar realidade na
Igreja. É bem possível que o resultado do encontro de três semanas venha a
desapontar tanto conservadores como progressistas em questões concernentes ao
matrimônio.
Na
verdade, este encontro mundial dos bispos tem lidado com tantas coisas sobre si
próprio quanto o fez sobre a família. Desde que deu início a este processo
sinodal, pouco tempo depois de sua eleição em 2013, o Papa Francisco tem sido claro que deseja que o Sínodo dos Bispos se
torne parte da Igreja.
Na
edição do ano passado, ele encorajou os participantes e se manifestarem com
franqueza e abertura, e desta vez ele enfrentou uma forte resistência por parte
dos que – incluindo cardeais – sugeriram que, de alguma forma, o processo
estaria sendo manipulado numa direção progressista visando não só uma reforma
como também uma mudança substancial [na doutrina].
O Papa Francisco precisou
dar duro para garantir que o Sínodo fosse, em suas palavras, um “espaço
protegido” para o discernimento e um lugar que permita a ação do Espírito Santo. Em parte ele assim o fez
garantindo, aos Padres Sinodais, que o ensino da Igreja sobre o matrimônio não
estaria sendo alterado. Esta oposição agora parece ter se dissipado.
Talvez, o mais importante
para o Sínodo, e para o seu futuro, foi a fala de Francisco proferida no sábado
passado, a qual muitos estão descrevendo como um marco histórico. Marcando o 50º aniversário do Sínodo dos Bispos, o
pontífice deixou claro que a Igreja não deveria apenas realizar sínodos, mas se
tornar sinodal.
Leia este importantíssimo e histórico pronunciamento de
Papa Francisco,
clicando aqui.
Um
sínodo fortalecido, explicou ele, “constitui uma das heranças mais preciosas do
Concílio Vaticano II” e é capaz de “manter vivo” o espírito do Concílio e o seu
método.
Isso
irá incluir uma “descentralização saudável” e uma escuta ao sensus fidei – o sentido da fé entre o
povo –, que o papa disse ter um “instinto para discernir os novos caminhos que
o Senhor está revelando à Igreja”.
Independentemente do que o
documento final do Sínodo venha a produzir, o processo não vai findar neste fim
de semana.
O papa quer uma Igreja que esteja continuamente escutando o Povo de Deus. No
entanto, nas próximas horas o Sínodo irá precisar se decidir sobre a questão da
Comunhão aos fiéis divorciados e recasados. E durante o encontro, ouvimos
mensagens conflitantes sobre o assunto.
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DOM BLASE CUPICH Arcebispo de Chicago - Estados Unidos |
Disseram
aos jornalistas que a questão foi levantada inúmeras vezes com muitos dos
prelados aprovando a noção de um caminho penitencial, que permita aos recasados
serem readmitidos aos sacramentos. O arcebispo de Chicago, Blase Cupich, enfatizou aos jornalistas a importância de a Igreja respeitar a consciência dos divorciados e
recasados, dizendo: “A consciência é
inviolável. E nós temos de respeitar isso quando estas pessoas tomam suas
decisões, e eu sempre fiz isso”.
Além
disso, informou-se que os Padres Sinodais aplaudiram intensamente após ter
ouvido uma história comovente contada por um bispo de um garoto que tomou sua
hóstia, a repartiu e deu a seus pais, os quais não podiam receber a Comunhão.
Ao
mesmo tempo, Dom Mark Coleridge
disse não ter ouvido uma intervenção explicitamente pedindo que a Comunhão
fosse dada aos divorciados e recasados. Ele também previu que o Sínodo conta
com 65% dos votos contra qualquer forma de desenvolvimento da doutrina.
O grupo de trabalho em língua alemã, no
entanto, está impaciente para ver algo acontecer. Está sustentando que é possível autorizar os sacramentos aos recasados
sem se alterar o ensinamento sobre a indissolubilidade [do matrimônio]. E
ele parece estar tendo algum sucesso em convencer os seus oponentes
tradicionalistas a um tal movimento, como o cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que
era um dos participantes do grupo alemão juntamente com o cardeal de Munique Reinhard Marx, o qual tem se mostrado
mais a favor da reforma.
Nesta
semana, Müller disse à revista semanal alemã Focus que não se pode excluir por completo esta possibilidade, pelo
menos “não em casos individuais extremos”. Embora ressaltando que uma admissão
geral dos divorciados não pode ser algo permitido, “em certos casos (...) é
possível conceder a permissão”.
Ainda
que os bispos estejam divididos neste assunto, Francisco tem destacado que ele
ainda possui todas as cartas quanto ao que será o resultado final do processo
sinodal. Dom Charles Drennan, da
Nova Zelândia, disse ao The Tablet
que o papa não está limitado pela
necessidade tradicional de uma maioria com dois terços dos votos, o que
acontece entre os bispos. Francisco pode perceber que uma maioria simples é
o suficiente para se aprovar uma proposta.
É improvável, todavia, que o
Sínodo vá propor uma regra geral neste tocante. O mais provável é que a
questão seja devolvida aos bispos locais com o papa emitindo um motu proprio [trad.: por sua própria iniciativa = é um
decreto de iniciativa do Papa] sobre o assunto, da mesma forma como as mudanças
no processo de anulação matrimonial foram implementadas. Mas toda e qualquer
descentralização nesta área irá contar com forte oposição. Um dos opositores à
mudança, o cardeal australiano George
Pell, disse esta semana: “Católico significa ‘universal’, não
‘continental’”.
De
qualquer forma, o movimento geral no Sínodo de se focar nas realidades
pastorais pode significar que o seu documento
final vai procurar dar algumas recomendações práticas. Uma dessas pode ser
a de fortalecer os cursos preparatórios
para o matrimônio, exigindo que os casais participem de um curso sério antes de
se casar. Uma proposta semelhante foi apresentada em 1980 na sequência de
um Sínodo.
A coabitação está também surgindo como
uma problemática rara, em que tanto o Ocidente e a África podem concordar que
uma abordagem que conte com
“acompanhamento” não recriminador se faz necessária na Igreja. O cardeal Wilfrid Napier, de Durban, salientou
que a coabitação na África é comum, onde
um casal convive enquanto o homem trabalha até que possa passar o seu dote.
O cardeal destacou que esta prática se dá como um momento preparatório ao
matrimônio – ele disse ser um momento “pró-matrimônio” – e que os bispos
africanos deveriam estudar para encontrar uma maneira de incorporá-la ao
Sacramento do Matrimônio.
Embora
a coabitação seja um fenômeno diferente no Ocidente, a maioria das paróquias na Europa e na América do Norte recebe casais
desejosos de se unirem em matrimônio, pessoas que partilham um mesmo endereço.
A dúvida, portanto, é como a Igreja acolhe e incentiva estas pessoas.
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SHARRON COLE Católica-leiga da Nova Zelândia que deu um forte testemunho durante o Sínodo dos Bispos |
Mas
há o perigo da lacuna crescente entre os católicos comuns e o ensino católico
oficial. Não há exemplo mais claro do que a proibição do uso de métodos anticoncepcionais artificiais.
No todo, este assunto foi ignorado
durante o Sínodo.
Entretanto,
o tema foi abordado por Sharron Cole,
neozelandesa e ex-membro diretor de um grupo que fomenta o planejamento
familiar natural, que instou os Padres Sinodais a repensarem não apenas a Humanae Vitae como também todo o ensino
católico sobre o matrimônio e a sexualidade.
Disse
ela: “Muitos casais católicos tomaram suas decisões em consciência sobre a
forma como exercer a paternidade responsável, o que pode significar o uso de
métodos anticoncepcionais artificiais. Para alguns, isso tem significado
abandonar a Igreja. Outros permanecem, mas frequentemente com uma sensação de
mal-estar. Na qualidade de antiga membro do grupo coordenador de atividades que
promovem o planejamento familiar natural, sei que este método anticoncepcional,
permitido pela Humanae Vitae, é um
método eficaz para casais motivados. No entanto, para muitos outros ele é
simplesmente impraticável”.
Cole acrescentou: “Não irá se precisar de mais catequese, e
sim de escuta com uma profunda empatia a restaurar a credibilidade da Igreja em
matéria de ética sexual. É chegada a hora de este Sínodo propor que a Igreja
reexamine o seu ensino sobre o matrimônio e a sexualidade, bem como a sua
compreensão sobre a paternidade responsável, em diálogo com os leigos e bispos”.
Pedir
às pessoas que falem livremente e a se ouvir os leigos, como tem feito o Papa
Francisco, provavelmente irá fazer se sentir desconfortáveis alguns na
hierarquia. Independentemente do que aconteça hoje, e na conclusão do Sínodo, Francisco criou um processo por meio do
qual a Igreja pode, com honestidade, enfrentar de cabeça erguida os seus
problemas.
Se
isto irá levar a uma mudança concreta não está claro, mas muitos cardeais, como
o Donald Wuerl – veterano em sínodos
presente na equipe de elaboração do documento final –, creem que, no final, o “abraço carinhoso da Igreja às pessoas
que estão tendo dificuldades em viver a plenitude do Evangelho irá vencer”.
Mesmo
assim, provavelmente vai haver mais turbulência ao longo do caminho.
Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Sábado, 24 de outubro de 2015 – Internet: clique aqui.
O Sínodo aprova o texto sobre o
“discernimento” para divorciados recasados
Andrea
Tornielli
Vatican
Insider
24-10-2015
O texto final do Sínodo, aprovado pelos bispos
participantes, não faz mudanças na doutrina e nos valores da família e do
ensinamento do Evangelho, mas também dá um passo rumo a uma maior compreensão
dos divorciados recasados.
Dois parágrafos, em particular, tocam o
tema (uma questão calorosamente debatida e polêmica) da atitude que é preciso ter com os divorciados recasados e também a
questão da possibilidade de que, em certos casos e sob certas ocasiões, possam
ter acesso aos sacramentos.
O Relatório Final do Sínodo – Relatio Synodi – foi publicado, até o momento,
apenas em língua italiana.
Para ter acesso a este importante documento, clique aqui.
No
número 85 cita-se como “critério compreensivo” este parágrafo da encíclica Familiaris Consortio de João Paulo II:
“Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as
situações. Há, na realidade, diferença
entre aqueles que sinceramente se esforçaram para salvar o primeiro matrimônio
e foram abandonados de maneira injusta, e aqueles que por grave culpa
destruíram um matrimônio canonicamente válido. Há ainda aqueles que
contraíram uma segunda união com vistas à educação dos filhos, e, às vezes,
estão subjetivamente certos em consciência de que o primeiro matrimônio,
irreparavelmente destruído, nunca tinha sido válido”.
Com
base nestes critérios, o documento aprovado pelo Sínodo afirma: “É, pois,
tarefa dos presbíteros acompanhar as pessoas interessadas no caminho do
discernimento segundo o ensinamento da Igreja e as orientações do bispo. Neste
processo, será útil fazer um exame de consciência, mediante momentos de
reflexão e de arrependimento. Os divorciados recasados deveriam perguntar-se
como se comportaram com seus filhos quando a comunhão matrimonial sofreu a
crise. Tentou-se a reconciliação? Qual é a situação da pessoa abandonada? Quais
são os efeitos da nova relação sobre a família mais ampliada e sobre a
comunidade dos fiéis? Qual é o exemplo oferecido aos mais jovens que devem
decidir pelo matrimônio?”
O texto passa a apresentar
alguns critérios para “discernir” as diferentes situações, em relação com a
união matrimonial anterior, com os filhos e com a comunidade cristã. Um maior aprofundamento
tem a ver com a relação com o confessor: “Uma reflexão sincera pode reforçar a
confiança na misericórdia de Deus, que não deve ser negada a ninguém. Além
disso, não se pode negar que em algumas circunstâncias ‘a imputabilidade e a
responsabilidade de uma ação podem ficar diminuídas ou suprimidas’ devido a
diferentes condicionamentos”, citando o n. 1735 do Catecismo da Igreja
Católica.
“Em consequência – continua o texto –, o juízo sobre uma situação objetiva não
deve levar a um juízo sobre a imputabilidade subjetiva” (Pontifício
Conselho para os Textos Legislativos, Declaração de 24 de junho de 2000, 2a). Em determinadas circunstâncias, as pessoas
encontram grandes dificuldades para agir de maneira diferente. Por isso,
mesmo defendendo uma norma geral a ser seguida, é necessário reconhecer que a responsabilidade com respeito a
determinadas ações ou decisões não é a mesma em todos os casos. O
discernimento pastoral, mesmo tendo em conta a consciência retamente formada
das pessoas, deve encarregar-se destas situações. Também as consequências dos atos realizados não são necessariamente as
mesmas em todos os casos”. Com base na doutrina tradicional, os padres
sinodais recordam que, além da situação objetiva na qual vivem os divorciados
recasados, deve-se levar em consideração também as situações subjetivas, que
podem reduzir sensivelmente o nível de responsabilidade.
Desta
forma, explica-se no parágrafo 86 do texto final, “o percurso de acompanhamento
e discernimento orienta estes fiéis para a tomada de consciência de sua
situação diante de Deus. O colóquio com o padre, em foro interno, ajuda na
formação de um juízo correto sobre o que obstaculiza a possibilidade de uma
participação mais plena na vida da Igreja e sobre as etapas que podem ser
tomadas para avançar nesta direção e ajudar a crescer”. Este discernimento,
precisa-se, “não poderia prescindir nunca das exigências da verdade e da caridade
do Evangelho propostas pela Igreja. Para que isto aconteça, é preciso garantir
as necessárias condições de humildade, discrição, amor à Igreja e ao seu
ensinamento, na busca sincera da vontade de Deus e a disposição para responder
a isto de uma maneira melhor”.
Ou
seja, os padres sinodais entregam ao
Papa um texto que contém um caminho de prudente abertura para permitir avaliar
as situações caso a caso, deixando-lhe, para um eventual documento futuro, as
decisões pertinentes.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Domingo, 25 de outubro de 2015 – Internet: clique aqui.
Discurso do Santo Padre no encerramento da
XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos
Vaticano – Sala do Sínodo
Sábado, 24 de outubro de 2015
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PAPA FRANCISCO Conclui os trabalhos da Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a Família com um memorável e profundo Discurso |
Amadas
Beatitudes, Eminências, Excelências,
Queridos
irmãos e irmãs!
Quero, antes de mais, agradecer ao Senhor
por ter guiado o nosso caminho sinodal nestes anos através do Espírito Santo,
que nunca deixa faltar à Igreja o seu apoio.
Agradeço de todo o coração ao Cardeal
Lorenzo Baldisseri, Secretário-Geral do Sínodo, a D. Fabio Fabene,
Subsecretário e, juntamente com eles, agradeço ao Relator, o Cardeal Peter
Erdö, e ao Secretário Especial, D. Bruno Forte, aos presidentes delegados, aos
secretários, consultores, tradutores e todos aqueles que trabalharam de forma
incansável e com total dedicação à Igreja: um cordial obrigado! E quero
agradecer também à Comissão que fez a Relação; alguns passaram a noite em
branco.
Agradeço a todos vós, amados padres
sinodais, delegados fraternos, auditores, auditoras e conselheiros, párocos e
famílias pela vossa ativa e frutuosa participação.
Agradeço ainda a todas as pessoas que se
empenharam, de forma anônima e em silêncio, prestando a sua generosa
contribuição para os trabalhos deste Sínodo.
Estai certos de que a todos recordo na
minha oração ao Senhor para que vos recompense com a abundância dos seus dons e
graças!
Enquanto acompanhava os trabalhos do
Sínodo, pus-me esta pergunta: Que há de
significar, para a Igreja, encerrar este Sínodo dedicado à família?
Certamente não significa que esgotamos todos os temas inerentes à família, mas
que procuramos iluminá-los com a luz do Evangelho, da tradição e da história
bimilenária da Igreja, infundindo neles a alegria da esperança, sem cair na
fácil repetição do que é indiscutível ou já se disse.
Seguramente não significa que encontramos soluções exaustivas para todas as
dificuldades e dúvidas que desafiam e ameaçam a família, mas que colocamos
tais dificuldades e dúvidas sob a luz da Fé, examinamo-las cuidadosamente,
abordamo-las sem medo e sem esconder a cabeça na areia.
Significa que solicitamos todos a compreender a importância da instituição da família
e do Matrimônio entre homem e mulher, fundado sobre a unidade e a
indissolubilidade e a apreciá-la como base fundamental da sociedade e da vida
humana.
Significa que escutamos e fizemos escutar as vozes das famílias e dos pastores da
Igreja que vieram a Roma carregando sobre os ombros os fardos e as
esperanças, as riquezas e os desafios das famílias do mundo inteiro.
Significa que demos provas da vitalidade da Igreja Católica, que não tem medo de abalar as consciências
anestesiadas ou sujar as mãos discutindo, animada e francamente, sobre a família.
Significa que procuramos olhar e ler a realidade, melhor dito as realidades, de hoje
com os olhos de Deus, para acender e iluminar, com a chama da fé, os corações
dos homens, num período histórico de desânimo e de crise social, econômica,
moral e de prevalecente negatividade.
Significa que testemunhamos a todos que o Evangelho continua a ser, para a Igreja,
a fonte viva de novidade eterna, contra aqueles que querem «endoutriná-lo» como
pedras mortas para jogá-las contra os outros.
Significa também que espoliamos os corações fechados que, frequentemente, se escondem mesmo
por detrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções para se sentar
na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade,
os casos difíceis e as famílias feridas.
Significa que afirmamos que a Igreja é Igreja dos pobres em espírito e
dos pecadores à procura do perdão e não apenas dos justos e dos santos, ou
melhor, dos justos e dos santos quando se sentem pobres e pecadores.
Significa que procuramos abrir os horizontes para superar toda a hermenêutica
conspiradora ou perspectiva fechada, para defender e difundir a liberdade
dos filhos de Deus, para transmitir a
beleza da Novidade cristã, por vezes coberta pela ferrugem duma linguagem
arcaica ou simplesmente incompreensível.
No caminho deste Sínodo, as diferentes
opiniões que se expressaram livremente – e às vezes, infelizmente, com métodos
não inteiramente benévolos – enriqueceram e animaram certamente o diálogo,
proporcionando a imagem viva duma Igreja que não usa «impressos prontos», mas
que, da fonte inexaurível da sua fé, tira água viva para saciar os corações
ressequidos. [1]
E vimos também – sem entrar nas questões
dogmáticas, bem definidas pelo Magistério da Igreja – que aquilo que parece
normal para um bispo de um continente, pode resultar estranho, quase um
escândalo – quase! –, para o bispo doutro continente; aquilo que se considera
violação de um direito numa sociedade, pode ser preceito óbvio e intocável
noutra; aquilo que para alguns é liberdade de consciência, para outros pode ser
só confusão. Na realidade, as culturas
são muito diferentes entre si e cada princípio geral – como disse, as questões
dogmáticas bem definidas pelo Magistério da Igreja – cada princípio geral, se
quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado. [2] O Sínodo de 1985, que comemorava o vigésimo
aniversário do encerramento do Concílio Vaticano II, falou da inculturação como
da «íntima transformação dos autênticos valores culturais mediante a integração
no cristianismo e a encarnação do cristianismo nas várias culturas humanas». [3] A
inculturação não debilita os valores verdadeiros, mas demonstra a sua
verdadeira força e a sua autenticidade, já que eles adaptam-se sem se alterar,
antes transformam pacífica e gradualmente as várias culturas. [4]
Vimos, inclusive através da riqueza da
nossa diversidade, que o desafio que temos pela frente é sempre o mesmo:
anunciar o Evangelho ao homem de hoje, defendendo a família de todos os ataques
ideológicos e individualistas.
E, sem nunca cair no perigo do relativismo
ou de demonizar os outros, procuramos abraçar plena e corajosamente a bondade e
a misericórdia de Deus, que ultrapassa os nossos cálculos humanos e nada mais
quer senão que «todos os homens sejam salvos» (1Tm 2,4), para integrar e viver
este Sínodo no contexto do Ano
Extraordinário da Misericórdia que a Igreja está chamada a viver.
Amados irmãos!
A experiência do Sínodo fez-nos compreender
melhor também que os verdadeiros
defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as
ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu
perdão. Isto não significa de forma alguma diminuir a importância das
fórmulas – são necessárias –, a importância das leis e dos mandamentos divinos,
mas exaltar a grandeza do verdadeiro Deus, que não nos trata segundo os nossos
méritos nem segundo as nossas obras, mas unicamente segundo a generosidade sem
limites da sua Misericórdia (cf. Rm 3,21-30; Sal 129/130; Lc 11,47-54). Significa vencer as tentações constantes do
irmão mais velho (cf. Lc 15,25-32) e dos
trabalhadores invejosos (cf. Mt 20,1-16). Antes, significa valorizar ainda mais as leis e os mandamentos, criados para o
homem e não vice-versa (cf. Mc 2,27).
Neste sentido, o necessário arrependimento, as obras e os esforços humanos ganham um
sentido mais profundo, não como preço da Salvação – que não se pode
adquirir – realizada por Cristo gratuitamente na Cruz, mas como resposta Àquele
que nos amou primeiro e salvou com o preço do seu sangue inocente, quando ainda
éramos pecadores (cf. Rm 5,6).
O
primeiro dever da Igreja não é aplicar condenações ou anátemas, mas proclamar a
misericórdia de Deus, chamar à conversão e conduzir todos os homens à salvação
do Senhor (cf. Jo 12,44-50).
Do Beato
Paulo VI temos estas palavras estupendas: «Por conseguinte podemos pensar
que cada um dos nossos pecados ou fugas de Deus acende n’Ele uma chama de amor
mais intenso, um desejo de nos reaver e inserir de novo no seu plano de
salvação (...). Deus, em Cristo, revela-Se infinitamente bom (...). Deus é bom.
E não apenas em Si mesmo; Deus – dizemo-lo chorando – é bom para nós. Ele nos
ama, procura, pensa, conhece, inspira e espera… Ele – se tal se pode dizer –
será feliz no dia em que regressarmos e Lhe dissermos: Senhor, na vossa
bondade, perdoai-me. Vemos, assim, o
nosso arrependimento tornar-se a alegria de Deus». [5]
Por sua vez São João Paulo II afirmava que «a Igreja vive uma vida autêntica, quando professa e proclama a
misericórdia, (...) e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia
do Salvador das quais ela é depositária e dispensadora». [6]
Também o Papa Bento XVI disse: «Na
realidade, a misericórdia é o núcleo da
mensagem evangélica, é o próprio nome de Deus (...). Tudo o que a Igreja diz e realiza, manifesta a misericórdia que Deus
sente pelo homem, portanto, por nós. Quando a Igreja deve reafirmar uma
verdade menosprezada, ou um bem traído, fá-lo sempre estimulada pelo amor
misericordioso, para que os homens tenham vida e a tenham em abundância (cf. Jo
10,10)». [7]
Sob esta luz e graça, neste tempo de graça
que a Igreja viveu dialogando e discutindo sobre a família, sentimo-nos
enriquecidos mutuamente; e muitos de nós experimentaram a ação do Espírito
Santo, que é o verdadeiro protagonista e artífice do Sínodo. Para todos nós, a
palavra «família» já não soa como antes do Sínodo, a ponto de encontrarmos nela
o resumo da sua vocação e o significado de todo o caminho sinodal. [8]
Na verdade, para a Igreja, encerrar o Sínodo significa voltar realmente a «caminhar
juntos» para levar a toda a parte do mundo, a cada diocese, a cada comunidade e
a cada situação a luz do Evangelho, o abraço da Igreja e o apoio da
misericórdia Deus!
Obrigado!
N O T A S
[1] Cf. PAPA
FRANCISCO, Carta ao Magno Chanceler da
"Pontificia Universidad Católica Argentina", no centenário da
Faculdade de Teologia, 3 de Março de 2015.
[2] Cf.
PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA, Fé e cultura
à luz da Bíblia. Atas da Sessão
Plenária de 1979 da Pontifícia Comissão Bíblica, LDC, Leumann 1981; CONCÍLIO
ECUMÊNICO VATICANO II, Gaudium et spes,
44.
[3] Relação final (7 de Dezembro de 1985),
II/D.4: L’Osservatore Romano (ed.
portuguesa de 22/XII/1985), 652.
[4] «Em virtude
da sua missão pastoral, a Igreja deve manter-se sempre atenta às mudanças
históricas e à evolução das mentalidades. Certamente, não para se submeter a
elas, mas para superar os obstáculos que possam opor-se à recepção das suas
recomendações e das suas diretrizes» (Entrevista do Cardeal Georges Cottier, La Civiltà Cattolica, 3963-3964, 8 de
Agosto de 2015, p. 272).
[5] Homilia, 23 de Junho de 1968: Insegnamenti 6, 1968, 1177-1178.
[6] Carta.
encíclica Dives in misericordia, 30
de Novembro de 1980, 13. Disse também: «No mistério pascal, (…) Deus
mostra-Se-nos por aquilo que é: um Pai de coração terno, que não se rende
diante da ingratidão dos seus filhos, e está sempre disposto ao perdão» (JOÃO
PAULO II, Alocução do «Regina Caeli»,
23 de Abril de 1995: Insegnamenti
18/1, 1995, 1035). E descrevia a resistência à misericórdia com estas palavras:
«A mentalidade contemporânea, talvez mais do que a do homem do passado, parece
opor-se ao Deus de misericórdia e, além disso, tende a separar da vida e a
tirar do coração humano a própria ideia da misericórdia. A palavra e o conceito
de misericórdia parecem causar mal-estar ao homem» (Carta encíclica Dives in misericordia, 2).
[7] Alocução do «Regina Caeli», 30 de Março
de 2008: Insegnamenti 4/1, 2008,
489-490. E, referindo-se ao poder da misericórdia, afirma: «É a misericórdia
que põe um limite ao mal. Nela expressa-se a natureza muito peculiar de Deus -
a sua santidade, o poder da verdade e do amor» (Homilia no Domingo da Divina Misericórdia, 15 de Abril de 2017: Insegnamenti 3/1, 2007, 667).
[8] Uma
análise, em acróstico, da palavra «família» [mas o papa utilizou esta palavra em italiano “famiglia” para formar
o acróstico] ajuda-nos a resumir a missão da Igreja na sua tarefa de: Formar
as novas gerações para viverem seriamente o amor, não como pretensão
individualista baseada apenas no prazer e no «usa e joga fora», mas para
acreditarem novamente no amor autêntico, fecundo e perpétuo, como o único
caminho para sair de si mesmo, para se abrir ao outro, para sair da solidão,
para viver a vontade de Deus, para se realizar plenamente, para compreender que
o matrimônio é o «espaço onde se manifesta o amor divino, para defender a
sacralidade da vida, de toda a vida, para defender a unidade e a
indissolubilidade do vínculo conjugal como sinal da graça de Deus e da
capacidade que o homem tem de amar seriamente» (Homilia na Missa de Abertura do Sínodo, 4 de Outubro de 2015) e
para valorizar os cursos pré-matrimoniais como oportunidade de aprofundar o
sentido cristão do sacramento do Matrimônio; Aviar-se ao encontro dos outros,
porque uma Igreja fechada em si mesma é uma Igreja morta; uma Igreja que não
sai do seu aprisco para procurar, acolher e conduzir todos a Cristo é uma
Igreja que atraiçoa a sua missão e vocação; Manifestar e estender a misericórdia
de Deus às famílias necessitadas, às pessoas abandonadas, aos idosos
negligenciados, aos filhos feridos pela separação dos pais, às famílias pobres
que lutam para sobreviver, aos pecadores que batem às nossas portas e àqueles
que se mantêm longe, aos deficientes e a todos aqueles que se sentem feridos na
alma e no corpo e aos casais dilacerados pela dor, a doença, a morte ou a
perseguição; Iluminar
as consciências, frequentemente rodeadas por dinâmicas nocivas e sutis que
procuram até pôr-se no lugar de Deus criador: tais dinâmicas devem ser
desmascaradas e combatidas no pleno respeito pela dignidade de cada pessoa; Ganhar e
reconstruir com humildade a confiança na Igreja, seriamente diminuída por causa
da conduta e dos pecados dos seus próprios filhos; infelizmente, o
contratestemunho e os escândalos cometidos dentro da Igreja por alguns clérigos
afetaram a sua credibilidade e obscureceram o fulgor da sua mensagem salvífica;
Labutar
intensamente por apoiar e incentivar as famílias sãs, as famílias fiéis, as
famílias numerosas que continuam, não obstante as suas fadigas diárias, a dar
um grande testemunho de fidelidade aos ensinamentos da Igreja e aos mandamentos
do Senhor; Idear
uma pastoral familiar renovada, que esteja baseada no Evangelho e respeite as
diferenças culturais; uma pastoral capaz de transmitir a Boa Nova com linguagem
atraente e jubilosa e tirar do coração dos jovens o medo de assumir
compromissos definitivos; uma pastoral que preste uma atenção particular aos
filhos que são as verdadeiras vítimas das lacerações familiares; uma pastoral
inovadora que implemente uma preparação adequada para o sacramento do Matrimônio
e ponha termo a costumes vigentes que muitas vezes se preocupam mais com a
aparência duma formalidade do que com a educação para um compromisso que dure a
vida inteira; Amar
incondicionalmente todas as famílias e, de modo particular, aquelas que
atravessam um período de dificuldade: nenhuma família deve sentir-se sozinha ou
excluída do amor e do abraço da Igreja; o verdadeiro escândalo é o medo de amar
e de manifestar concretamente este amor.
Fonte: Santa Sé – Sínodo
para a Família 2015 – Papa Francisco – Discursos – Internet: clique aqui.
“Uma fé que não sabe radicar-se na vida das pessoas,
permanece árida e, em vez de oásis, cria outros desertos” – afirma o Papa
Redação
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Missa pela Conclusão dos Trabalhos da XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos que abordou o tema da Família. Basílica de São Pedro - Vaticano Domingo, 25 de outubro de 2015 |
Na celebração eucarística, na manhã deste
domingo, 25 de outubro, concluindo o
Sínodo dos Bispos sobre a Família, o Papa Francisco retomou o tema das tentações. Inspirado pelas leituras da missa
deste domingo, descreveu duas. A primeira que intitula como «espiritualidade da miragem»: "Podemos caminhar através dos
desertos da humanidade não vendo aquilo que realmente existe, mas o que nós
gostaríamos de ver; somos capazes de construir visões do mundo, mas não
aceitamos aquilo que o Senhor nos coloca diante dos olhos. Uma fé que não sabe radicar-se na vida das pessoas, permanece árida e,
em vez de oásis, cria outros desertos".
A segunda,
segundo Francisco, é cair numa «fé de
tabela». "Podemos caminhar com o povo de Deus, mas temos já a nossa
tabela de marcha, onde tudo está previsto: sabemos aonde ir e quanto tempo
gastar; todos devem respeitar os nossos ritmos e qualquer inconveniente
perturba-nos. Corremos o risco de nos tornarmos como «muitos» do Evangelho que
perdem a paciência e repreendem Bartimeu. Pouco antes repreenderam as crianças
(cf. Mc 10,13), agora o mendigo cego: quem
incomoda ou não está à altura há que excluí-lo".
Eis a íntegra da homilia.
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PAPA FRANCISCO Conduz o Evangeliário durante a Santa Missa pela Conclusão do Sínodo dos Bispos Domingo, 25 de outubro de 2015 |
SANTA MISSA PELA CONCLUSÃO
DA XIV ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS
HOMILIA DO SANTO PADRE FRANCISCO
Basílica Vaticana
XXX Domingo do Tempo Comum – 25 de outubro de 2015
As três leituras deste domingo
apresentam-nos a compaixão de Deus, a sua paternidade, que se revela
definitivamente em Jesus.
O profeta
Jeremias, em pleno desastre nacional, enquanto o povo é deportado pelos
inimigos, anuncia que «o Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel» (31,7). E
por que o fez? Porque Ele é Pai (cf. 31,9); e, como Pai, cuida dos seus filhos,
acompanha-os ao longo do caminho, sustenta «o cego e o coxo, a mulher grávida e
a que deu à luz» (31,8). A sua paternidade abre-lhes um caminho desimpedido, um
caminho de consolação depois de tantas lágrimas e tantas amarguras. Se o povo
permanecer fiel, se perseverar na busca de Deus mesmo em terra estrangeira,
Deus mudará o seu cativeiro em liberdade, a sua solidão em comunhão: e aquilo
que o povo semeia hoje em lágrimas, recolhê-lo-á amanhã com alegria (cf. Sl
125,6).
Com o Salmo,
também nós manifestamos a alegria que é fruto da salvação do Senhor: «A nossa
boca encheu-se de sorrisos e a nossa língua de canções» (125,2). O crente é uma
pessoa que experimentou na sua vida a ação salvífica de Deus. E nós, pastores,
experimentamos o que significa semear com fadiga, por vezes em lágrimas, e
alegrar-se pela graça duma colheita que sempre ultrapassa as nossas forças e as
nossas capacidades.
O trecho da Carta aos Hebreus apresentou-nos a compaixão de Jesus. Também Ele
«Se revestiu de fraqueza» (cf. 5,2), para sentir compaixão por aqueles que
estão na ignorância e no erro. Jesus é o Sumo Sacerdote grande, santo,
inocente, mas ao mesmo tempo é o Sumo Sacerdote que tomou parte nas nossas
fraquezas e foi provado em tudo como nós, exceto no pecado (cf. 4,15). Por
isso, é o mediador da nova e definitiva aliança, que nos dá a salvação.
O Evangelho
de hoje liga-se diretamente à primeira Leitura: como o povo de Israel foi
libertado graças à paternidade de Deus, assim Bartimeu foi libertado graças à
compaixão de Jesus. Jesus acaba de sair de Jericó. Mas Ele, apesar de ter
apenas iniciado o caminho mais importante, o caminho para Jerusalém, detém-Se
ainda para responder ao grito de Bartimeu. Deixa-Se comover pelo seu pedido,
interessa-Se pela sua situação. Não Se
contenta em dar-lhe uma esmola, mas quer encontrá-lo pessoalmente. Não lhe dá instruções nem respostas, mas
faz uma pergunta: «Que queres que te faça?» (Mc 10,51). Poderia parecer uma
pergunta inútil: que poderia um cego desejar senão a vista?
E, todavia, com esta pergunta feita «face a
face», direta mas respeitosa, Jesus
manifesta que quer escutar as nossas necessidades. Deseja um diálogo com
cada um de nós, feito de vida, de situações reais, que nada exclua diante de
Deus. Depois da cura, o Senhor diz àquele homem: «A tua fé te salvou» (10,52). É belo ver como Cristo admira a fé de
Bartimeu, confiando nele. Ele acredita em nós, mais de quanto nós acreditamos
em nós mesmos.
Há um detalhe interessante. Jesus pede aos
seus discípulos que vão chamar Bartimeu. Estes dirigem-se ao cego usando duas
palavras, que só Jesus utiliza no resto do Evangelho. Primeiro, dizem-lhe «coragem!», uma palavra que significa,
literalmente, «tem confiança, faz-te ânimo!» É que só o encontro com Jesus dá ao homem a força para enfrentar as
situações mais graves. A segunda palavra é «levanta-te!», como Jesus dissera a tantos doentes, tomando-os pela
mão e curando-os.
Os seus [discípulos] limitam-se a repetir as palavras encorajadoras e
libertadoras de Jesus, conduzindo diretamente a Ele sem fazer sermões. A isto
são chamados os discípulos de Jesus, também hoje, especialmente hoje: pôr o homem em contacto com a Misericórdia
compassiva que salva. Quando o grito da humanidade se torna, como o de
Bartimeu, ainda mais forte, não há outra resposta senão adotar as palavras de
Jesus e, sobretudo, imitar o seu coração. As
situações de miséria e de conflitos são para Deus ocasiões de misericórdia.
Hoje é tempo de misericórdia!
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PAPA FRANCISCO Durante a Missa pelo Encerramento do Sínodo dos Bispos Basília São Pedro - Vaticano |
Mas há
algumas tentações para quem segue Jesus. O Evangelho põe em evidência pelo
menos duas.
Nenhum
dos discípulos para, como faz Jesus. Continuam a caminhar, avançam como se nada
fosse. Se Bartimeu é cego, eles são surdos: o seu problema não é problema
deles. Pode ser o nosso risco: face aos contínuos problemas, o melhor é
continuar para diante, sem se deixar perturbar. Desta maneira, como aqueles
discípulos, estamos com Jesus, mas não
pensamos como Jesus. Está-se no seu grupo, mas perde-se a abertura do
coração, perdem-se a admiração, a gratidão e o entusiasmo e corre-se o risco de
tornar-se «consuetudinários da graça». Podemos
falar d’Ele e trabalhar para Ele, mas viver longe do seu coração, que Se
inclina para quem está ferido. Esta é a tentação duma «espiritualidade da miragem»: podemos caminhar através dos desertos
da humanidade não vendo aquilo que realmente existe, mas o que nós gostaríamos
de ver; somos capazes de construir visões do mundo, mas não aceitamos aquilo
que o Senhor nos coloca diante de olhos. Uma fé que não sabe radicar-se na vida
das pessoas, permanece árida e, em vez de oásis, cria outros desertos.
Há uma segunda tentação: cair numa «fé de tabela». Podemos
caminhar com o povo de Deus, mas temos já a nossa tabela de marcha, onde tudo
está previsto: sabemos aonde ir e quanto tempo gastar; todos devem respeitar os
nossos ritmos e qualquer inconveniente perturba-nos. Corremos o risco de nos
tornarmos como «muitos» do Evangelho que perdem a paciência e repreendem
Bartimeu. Pouco antes repreenderam as crianças (cf. 10,13), agora o mendigo
cego: quem incomoda ou não está à altura há que excluí-lo. Jesus, pelo contrário, quer incluir, sobretudo quem está relegado para
a margem e grita por Ele. Estes, como Bartimeu, têm fé, porque saber-se necessitado de salvação é a melhor
maneira para encontrar Cristo.
E, no fim, Bartimeu põe-se a seguir Jesus
ao longo da estrada (cf. 10,52). Não só recupera a vista, mas une-se à comunidade daqueles que caminham
com Jesus.
Queridos Irmãos sinodais, nós caminhamos
juntos. Agradeço-vos pela estrada que compartilhamos tendo o olhar fixo no
Senhor e nos irmãos, à procura das sendas que o Evangelho indica, no nosso
tempo, para anunciar o mistério de amor da família. Continuemos pelo caminho que o Senhor deseja. Peçamos-Lhe um olhar
são e salvo, que saiba irradiar luz, porque recorda o esplendor que o iluminou.
Sem nos deixarmos jamais ofuscar pelo
pessimismo e pelo pecado, procuremos e vejamos a glória de Deus que resplandece
no homem vivo.
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