OS BASTIDORES DO SÍNODO SOBRE A FAMÍLIA
Papa depara-se com uma tenaz oposição a
mudanças no Sínodo da Família
Pablo Ordaz
Jornal
EL PAÍS
Espanha
05-10-2015
Os setores mais conservadores, liderados por cardeais
como Müller ou Rouco,
procuram bloquear qualquer abertura na Igreja.
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Antonio María Rouco Varela Cardeal-arcebispo-emérito de Madrid, foi Presidente da Conferência Episcopal Espanhola |
Como
se se tratasse de uma adaptação do conto de Monterroso, quando o Papa Francisco
chegou à Filadélfia, no dia 26 de setembro, para presidir o Encontro Mundial
das Famílias, os dinossauros da Igreja já estavam ali. Os cardeais Gerhard L. Müller e Antonio
María Rouco tomaram café da manhã no luxuoso Hotel Marriot – mais de 400
euros a diária –, e sua única vontade de se exibir juntos nos Estados Unidos às
vésperas do início, em Roma, do Sínodo dos Bispos representava por si só uma
advertência: a intenção de Jorge Mario
Bergoglio de abrir a Igreja para novos modelos de família se depararia com uma
oposição forte e bem organizada.
Tanto
que, no sábado, exatamente um dia antes da abertura do Sínodo sobre a Família,
uma muito oportuna bomba informativa obscureceu as duas intervenções com as
quais o Papa tinha previsto marcar, aos 270 padres sinodais – bispos, cardeais
e religiosos com direito a voto –, sua linha de aberturas. O padre polonês Krzysztof Charamsa, de 43 anos,
declarava aos quatro ventos sua homossexualidade, deixava-se fotografar – de
preto rigoroso e sem largar o colarinho – ao lado do seu noivo Eduard e denunciava “a homofobia do
Vaticano” [veja a outra matéria abaixo].
O
mais curioso é que tanto o padre gay
como o cardeal Gerhard L. Müller – o amigo de Rouco, a tradição e o luxo – são teólogos e trabalham há muitos anos
juntos na Congregação para a Doutrina da Fé, o ex-Santo Ofício. Embora por
motivos aparentemente contrários, a ambos interessava que a notícia bomba
explodisse às vésperas do Sínodo.
O padre polonês não ocultou suas
intenções: “Eu queria dizer ao Sínodo que o amor homossexual é um amor
familiar, que tem necessidade da família. Todas as pessoas, incluindo os gays,
as lésbicas ou os transexuais, trazem no coração o desejo de amar e de ter
relações familiares. Todas as pessoas têm direito ao amor e esse amor deve ser
protegido pela sociedade, pelas leis. Mas, sobretudo, deve ser cuidado pela
Igreja”.
O
cardeal Müller não fez declarações, mas a confissão do padre Charamsa deu-lhe
motivos para satisfação. Em primeiro lugar, ficou claro que, apesar da mensagem de Francisco, o Vaticano
segue sendo intransigente com a homossexualidade. O porta-voz, Federico
Lombardi, reagiu de forma fulminante qualificando a confissão do padre polonês
como “muito grave” e anunciando a expulsão imediata de suas funções na Congregação para a Doutrina da Fé e na Pontifícia Universidade Gregoriana.
Em
segundo lugar, quem, como Müller ou Rouco, se opõe a qualquer abertura, tem em
suas mãos outro suposto argumento: a mensagem compreensiva de Bergoglio – “quem
sou eu para julgar os gays?” – contribui para abrir a porta a alardes de
sinceridade jamais apreciados no Vaticano, onde a discrição sempre foi mais bem
considerada do que a virtude.
Há,
na inesperada saída do armário do monsenhor Charamsa, outro motivo de
satisfação para seu chefe Müller. Qualquer abertura que possa ser adotada pelo
Sínodo nas próximas três semanas sob o influxo de Francisco será excessiva para
os tradicionalistas, mas – à vista dos desafios que o padre polonês colocou
sobre a mesa – insuficiente para a maioria.
Isto
é, o Sínodo discutirá sobre o acesso aos
sacramentos dos divorciados recasados, os novos tipos de família, a compreensão
dos homossexuais... ao passo que, dentro do próprio Vaticano, acaba-se de
demonstrar que existem estes outros assuntos mais candentes – a porta fechada
ao sacerdócio da mulher, a guerra efetiva contra a pederastia, a estigmatização
da homossexualidade – que seguem dormindo o sonho dos justos.
Traduzido do espanhol por André Langer. Acesse a versão original
deste artigo, clicando aqui.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Terça-feira, 6 de outubro de 2015 – Internet: clique aqui.
Um teólogo do Vaticano revela:
“Sou feliz de ser gay e tenho um parceiro”
Redação
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Página do jornal italiano Corriere della Sera que trouxe a entrevista-revelação do: padre e teólogo polonês Krzysztof Olaf Charamsa. Sábado, 3 de outubro de 2015 |
Um
padre polonês, Krzysztof Olaf Charamsa,
membro da Congregação para a Doutrina da
Fé, revelou sua homossexualidade neste sábado, dia 3 de outubro de 2015, nos jornais, um dia antes do Sínodo sobre a
família, para sacudir a uma Igreja “paranoica” sobre este tema.
O
padre nasceu em Gdymia, Polônia, e tem 43 anos. Ele reconhece que tem um
parceiro. “Sei que terei que renunciar ao meu ministério, ainda que é toda
minha vida”, afirma em entrevista concedida ao jornal Corriere della Sera.
Acesse
esta “bombástica” entrevista em duas versões:
a) versão original, em italiano,
clique aqui (inclusive com vídeos);
b) versão em inglês, incluindo vídeos da entrevista,
clique aqui.
“Sei
que a Igreja me verá como alguém que não soube cumprir com o seu dever (de
castidade), que se extraviou e, como se não fosse pouco, não como uma mulher,
mas com um homem”, exclama. Mas “não faço isto para viver com meu parceiro.
Faço-o por mim, por minha comunidade, para a Igreja. É uma decisão muito mais
profunda que nasce da minha reflexão sobre o que prega a Igreja”.
Sobre
o tema da homossexualidade, “a Igreja
está atrasada em relação aos conhecimentos que alcançou a humanidade”,
opina, e assegura que “não se pode
esperar por outros 50 anos”.
“Está na hora da Igreja
abrir os olhos frente aos homossexuais crentes e entenda que a solução que
propõe, ou seja, a abstinência total e uma vida sem amor, não é humana”, declara.
“O clero é amplamente
homossexual e também, infelizmente, homófobo até a paranoia, porque está
paralisado pela falta de aceitação para sua própria orientação sexual”, acrescenta na edição
polaca da revista Newsweek.
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Padre Krzysztof Olaf Charamsa (43 anos) ao lado de seu parceiro Eduard Planas (44 anos) durante entrevista num restaurante de Roma |
“Desperta,
Igreja, deixa de perseguir os inocentes. Não quero destruir a Igreja, quero
ajudá-la e, sobretudo, quero ajudar a quem ela persegue. Minha saída do armário deve ser um chamado ao sínodo para que a Igreja
cesse suas ações paranoicas contra as minorias sexuais”, afirma.
“Gostaria de dizer ao sínodo
que o amor homossexual é um amor familiar, que necessita da família. Todos,
incluídos os gays, as lésbicas e os transexuais, levam no coração um desejo de
amor e de família”, disse ao jornal italiano, numa mensagem dirigida aos 360
participantes do sínodo que se reunirá a partir do domingo, 4 de outubro, no
Vaticano.
O
padre polaco confessa que sempre se sentiu homossexual, mas que, no princípio,
não o aceitava e repetia o que a Igreja impunha, “o princípio segundo o qual ‘a
homossexualidade não existe’”. Depois de conhecer o seu parceiro, teve “o
sentimento de se converter num padre melhor, de fazer homilias melhores, de
ajudar melhor os outros e de ser cada vez mais feliz”, narra para a revista
Newsweek.
Ao
tomar conhecimento das suas declarações, o porta-voz
do Vaticano [Pe. Federico Lombardi], segundo nota divulgada pela Sala de
Imprensa do Vaticano, afirmou na manhã de hoje:
“Acerca
das declarações e entrevistas concedidas por Mons. Krzysztof Charamsa cabe
assinalar que - apesar do respeito que
merecem os fatos e as circunstâncias pessoais e as reflexões sobre elas – a decisão de declarar algo tão clamoroso na
véspera da abertura do Sínodo resulta muito grave e não responsável, já que
aponta na direção de submeter a Assembleia sinodal a uma pressão midiática
injustificada. Certamente Mons. Charamsa não poderá mais desempenhar as
tarefas precedentes na Congregação para a Doutrina da Fé e nas universidades
pontifícias, enquanto que outros aspectos da sua situação competem ao seu
Ordinário diocesano”.
Charamsa
trabalha na Congregação para a Doutrina da Fé desde 2003, é secretário
adjunto da Comissão Teológica
Internacional do Vaticano e leciona
teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana e no Pontifício Ateneu Regina Apostolorum, em Roma.
Nunca
até hoje, segundo o jornal Corriere della
Sera, um religioso com uma função tão ativa no Vaticano tinha feito uma
declaração do gênero.
Hoje
Charamsa participa em Roma da
primeira assembleia internacional dos católicos LGBT organizada por
Global Network of Rainbow Catholics, na véspera do Sínodo sobre a
família, na busca de aprofundar o diálogo com os gays católicos.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 5 de outubro de 2015 – Internet: clique aqui.
REPERCUSSÕES DESTA
ENTREVISTA:
Os temores do Papa Francisco
Massimo Franco
Jornal CORRIERE DELLA SERA
Milão – Itália
04-10-2015
Uma polêmica sobre a homossexualidade tão clamorosa
significa ofuscar a obra-prima feita pelo papa em Cuba e nos EUA, e esmagar o
Sínodo sobre temas espinhosos impostos de modo não ritual.
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PAPA FRANCISCO Celebra a Santa Missa de Abertura da 14ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos Basílica de São Pedro no Vaticano Domingo, 4 de outubro de 2015 |
Está
acontecendo exatamente aquilo que o papa temia: algumas minorias da Igreja
tentam hipotecar o Sínodo, polarizando
artificialmente as posições, e radicalizar uma discussão que Francisco gostaria
que fosse, o máximo possível, unitária.
A
irritação do Vaticano diante da entrevista ao jornal Corriere della Sera do teólogo polonês Krzysztof Charamsa nasce dessa preocupação. Uma polêmica sobre a
homossexualidade aberta de forma tão flagrante e controversa, de fato,
significa ofuscar a obra-prima diplomática feita pelo pontífice na última
viagem a Cuba e aos EUA; e esmagar o Sínodo sobre temas não só espinhosos, mas
também impostos de modo, no mínimo, não ritual.
Nos EUA, o papa tinha
conseguido ziguezaguear as divisões do episcopado e as divisões entre
republicanos e democratas. O resultado
foi um fortalecimento objetivo do pontificado, porque a fronteira
norte-americana se apresentava como a mais insidiosa: pelas relações com as
instituições seculares e pelas com um episcopado católico na sua maioria
conservador e hostil ao presidente Barack Obama.
Trata-se de um crédito em
termos de legitimação internacional e de recompactamento entre papado e bispos, que também tem o seu peso
em um Sínodo precedido por tensões palpáveis justamente sobre as questões da
família: do casamento dos divorciados à homossexualidade.
Agora,
o risco é que o caso Charamsa acabe
forçando Jorge Mario Bergoglio a seguir uma agenda imposta, de alguma
forma, de fora e totalmente excêntrica em relação ao seu estilo inclusivo e à possibilidade de pilotar o Sínodo rumo a
uma posição compartilhada, sem divisões.
Não
é evidente que, no fim, a operação não corra o risco de fracassar. A habilidade
de Bergoglio é reconhecida, principalmente, pelos seus adversários. Mas, paradoxalmente, o movimento do teólogo
da Congregação para a Doutrina da Fé promete dar força e poder justamente para
o componente mais conservador.
Existe
uma espécie de “Internacional
Tradicionalista” que, há muito tempo, não esconde a sua inquietação diante
das aberturas papais sobre essas questões: embora sejam concessões que
Francisco faz em termos de tom, não de substância doutrinal.
É o
descontentamento refletido pelo livro de
nove cardeais "ortodoxos" publicado para coincidir com o Sínodo e
bem evidente no confronto sobre gays entre católicos conservadores e
progressistas. Mas é difícil que aqueles que gostariam de uma abertura sobre
essas questões consigam convencer a grande maioria da Igreja Católica. É mais
provável que provoquem uma reação defensiva e uma severa tomada de posição de
um pontífice forçado a enfrentar as forças centrífugas das alas extremas que
instrumentalizam cada palavra sua.
Será um Sínodo movimentado,
porque toca em questões que dividem não só a Igreja, mas também o Ocidente, e que, em continentes como
África e Ásia, recebem respostas radicais, com um chamado peremptório para a
fidelidade doutrinal. As palavras do
teólogo polonês, provavelmente, não ajudaram a sua causa. No máximo, permitirão
que a frente conservadora passe para a ofensiva.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
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