SÍNODO DOS BISPOS: Surgem propostas concretas!
Grupo de cardeais defende
ordenação de diaconisas
José MARIA MAYRINK
Proposta apresentada no Sínodo sobre a
Família enfrenta resistência;
religiosas poderiam exercer funções pastorais
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Cardeal Paul-André Durocher - Canadá Propõe o diaconato feminino na Igreja Romana |
O cardeal Paul-André Durocher, arcebispo
de Gatineau, no Canadá, surpreendeu o plenário do Sínodo sobre a Família, no
Vaticano, com a proposta de criação do diaconato feminino, que permitiria às
mulheres proclamar o Evangelho, fazer a homilia, celebrar batismos, abençoar
casamentos, administrar unção dos enfermos e presidir cerimônias de funerais.
Hoje, essas funções são exercidas pelos diáconos permanentes, em geral homens
casados.
A
proposta poderá ser formalizada no documento final do Sínodo, que se encerrará
no próximo domingo, após três semanas de discussão sobre os principais desafios
que a família apresenta no século 21.
Mesmo
que não venha a ser aprovado, o pedido de d. Durocher abre caminho para exame
posterior de questão tabu na história da Igreja. Parece certo que tenha havido
diaconisas no cristianismo primitivo, como deixa a entender o apóstolo Paulo
na Carta aos Romanos, capítulo 16, mas a restauração do diaconato
feminino encontra resistência entre conservadores.
O cardeal brasileiro dom João Braz de Aviz,
prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades
de Vida Apostólica, disse que nada impede que a sugestão seja incluída no
relatório do encontro. O Sínodo não tem poder deliberativo, mas o objetivo de
encaminhar propostas ao papa Francisco, a quem cabe dar a palavra final.
O bispo de Jales, no interior paulista, dom Demétrio Valentini, vê a proposta
com simpatia, mas teme que a sugestão do diaconato feminino não avance nas
discussões e ainda atravanque outras questões, como o acesso aos sacramentos
dos casados em segunda união. O fato, porém, de o diaconato feminino ter sido
lembrado abre portas para o futuro, observou.
A
principal objeção à aprovação de diaconisas é que, assim como não podem ser
ordenadas para o ministério sacerdotal, as mulheres não poderiam receber o
diaconato, que também é uma ordem. Esse obstáculo, argumentam alguns teólogos,
poderia ser removido com uma sugestão feita pelo cardeal alemão Walter Kasper,
que propôs a concessão de uma bênção, e não a ordenação, para autorizar as
diaconisas a exercer funções pastorais, incluindo a direção de paróquias.
Falta de padres
Além
de valorizar o papel da mulher na Igreja, o diaconato feminino ajudaria a
resolver o problema de falta de padres. “Em
algumas dioceses brasileiras, já há centenas de mulheres que exercem todas
essas funções permitidas aos diáconos permanentes desde o Concílio Vaticano II,
celebrado há 50 anos”, disse o padre
José Oscar Beozzo, teólogo, historiador e coordenador do Centro Ecumênico
de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Cesep). São freiras e leigas,
casadas ou não, que se dedicam à pastoral, principalmente nos bairros de
periferia e na zona rural.
Se
o diaconato feminino fosse aprovado, Liz
Marques, casada e mãe de dois filhos, seria candidata. “Claro que conforme
as circunstâncias, pois eu não entraria se fossem admitidas só mulheres
solteiras”, disse ela, ao ouvir falar da proposta apresentada no Sínodo.
Colaboradora, com o marido, da Comunidade Moisés Libertador, criada por d.
Luciano Mendes de Almeida e pelo cardeal d. Paulo Evaristo Arns, na zona leste,
Liz já exerce quase todas as funções reservadas aos diáconos. “Acho que as diaconisas deveriam ser
ordenadas, como os homens, para fazer parte da estrutura da Igreja, e não
receber apenas uma bênção”, disse.
Não
faltariam candidatas à função: cerca de 40 mil comunidades eclesiais de base
(CEBs), de um total de 100 mil no Brasil, são dirigidas por mulheres e centenas
delas aceitariam assumir o diaconato. Para Liz, o mais importante nesse quadro
é as mulheres assumirem na Igreja um papel de destaque e de autoridade, até
agora exercido por homens – bispos, padres e diáconos.
Dom Angélico Sândalo
Bernardino,
bispo emérito de Blumenau, em Santa Catarina, e ex-bispo auxiliar de São Paulo,
gostaria que as mulheres assumissem
postos de decisão na Cúria Romana, por exemplo na Congregação para os
Institutos de Vida Consagrada e nas Sociedades de Vida Apostólica, onde as
religiosas são a grande maioria. “Por que não nomear uma prefeita ao lado
do prefeito para essa congregação?”
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Dom Angélico Sândalo Bernardino Foi bispo-auxiliar de São Paulo e bispo de Blumenau (SC) |
Recasados
Outro
assunto que ocupou boa parte dos debates nas duas primeiras semanas do Sínodo
sobre a Família e que agora exigirá uma definição a ser entregue ao papa
Francisco é o acesso aos sacramentos dos
casais divorciados que tornaram a se casar.
“Há
muitos casais católicos que não estão regularmente casados na Igreja, não se
trata só dos divorciados recasados. E há a questão do acesso dessas pessoas à
comunhão e à confissão”, advertiu em entrevista no Vaticano o cardeal d. Odilo
Scherer.
Ele
classificou a situação como “angustiante” e revelou que, embora os padres
sinodais concordem neste ponto, “ainda
está difícil de se ver solução que tenha aceitação da maioria”.
“Espero
muito que o Espírito Santo ilumine os padres sinodais para que possam, de fato,
dar um apoio ao papa naquilo que ele vai decidir sobre as grandes questões,
seja da pastoral familiar, seja das questões mais específicas de dificuldades,
por exemplo, sobretudo o que mais se foca, a situação dos casais em segunda
união. Espero, sem dúvida nenhuma, muito disto”, disse o cardeal dom Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e
prefeito emérito da Congregação para o Clero. “Apoio plenamente que se encontre um caminho penitencial para os casais
em segunda união, para que possam participar mais dos sacramentos da Igreja.”
Nessa
hipótese, aos casais em segunda união seriam admitidos os sacramentos, a
critério do bispo de sua diocese. Seria um meio-termo entre dois extremos –
liberar tudo ou deixar tudo como está.
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