GRANDES MUDANÇAS VÊM PELA FRENTE!
Entrevista
com Manuel Castells*
Sociólogo
catalão
Alex Rodriguez
É cedo demais para chorar a suposta “morte” da série de
grandes rebeliões
iniciadas em 2011, pois o mundo está passando por
profundas mudanças no campo político e institucional.
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MANUEL CASTELLS Sociólogo espanhol especializado na pesquisa da interação: internet e sociedade. |
Num
texto traduzido por “Outras Palavras”,
e que pareceu para alguns espantoso, o sociólogo Immanuel Wallerstein sustentou, há dias: vivemos, em plano global, um giro – ainda que leve – à esquerda. Na
entrevista a seguir, este pensamento é complementado por outro sociólogo. O catalão Manuel Castells diz que é cedo
demais para chorar a suposta “morte” da série de grandes rebeliões iniciadas em
2011: Primaveras Árabes, Indignados (Espanha), Occupy
(EUA), Parque Gezy (Turquia), Jornadas de Junho (Brasil) e outras.
Seria
delírio? Occupy e Indignados não acabaram? As Primaveras Árabes e as Jornadas de Junho não degeneraram ou em
regimes ultra-autoritários ou num movimento claramente conservador?
Castells
pede que observemos: as grandes mudanças
sociais têm sua própria dinâmica e tempo. Foi assim, frisa ele, com a série
de revoluções democrático-populares na Europa, a partir de 1830. Por que
deveríamos, agora, esquecer que ainda podem estar rolando os dados.
Para
o catalão, autor de “Redes de indignação
e esperança” (agora com nova edição ampliada), há base material por trás da
possível rebeldia. A inovação
tecnológica tornou possível a democracia em rede; a classe política tradicional
não a acolheu; surgiu uma nova crise de representação; esta pode ser
resolvida ou pelo triunfo de formações originais, como o Podemos [Espanha] e o Syriza [Grécia],
ou pela direita xenófoba, que cresce em diversos países. Optar pela desesperança, ou agarrar-se à institucionalidade seria,
segundo este raciocínio, entregar antecipadamente os pontos.
Em
suas respostas ao jornalista Alex Rodriguez, da revista argentina “Ñ”, Castells também recomenda ter
cuidado com as análises segundo as quais a internet está perdida, tendo se
convertido em ferramenta global de espionagem contra os cidadãos. É apenas
parte da verdade, sugere ele: a disputa está se dando agora, diante de nossos
olhos. Não nos limitemos a condição de espectadores…
Eis
a entrevista:
Estamos
começando uma nova era?
Castells: Em termos tecnológicos,
econômicos e culturais, começamos faz tempo. Agora iniciamos uma nova era em
termos políticos e institucionais.
E
como será?
Castells: O que sabemos é que não
será como antes. As instituições atuais
não têm legitimidade, e isso, nas sociedades democráticas, não pode durar muito
tempo. De fato, não está durando. As instituições serão, por um lado, cada
vez mais supranacionais, como a União Europeia (UE), mas, por outro lado, as
identidades, em sua maioria, serão cada vez mais locais, específicas, nacionais
ou religiosas, ou étnicas. E aqui há uma contradição fundamental: há uma sociedade global, uma economia
global conectada em rede, mas ao mesmo tempo as pessoas, diante dessa mudança
vertiginosa do que eram as coordenadas da vida, refugiam-se em suas identidades
e, em meio a isso, as instituições precisam relacionar-se cada vez mais. Os
Estados europeus não podem funcionar por sua conta sem a União Europeia, mas
para fazer isso se distanciam de seus cidadãos. Se não se estabelecem
mecanismos de participação, controle, representação etc, então a europeização,
que é a forma de globalização na Europa, se converterá em uma ameaça para o que
as pessoas pensam sobre sua própria vida. Eles veem-se sem controle.
Uma
contradição…
Castells: Sim, e como não pode durar
muito tempo, estamos assistindo à formação de novos atores políticos, de novas
redes institucionais e de novas crises, porque ninguém diz que tudo acaba com a
consolidação de uma União Europeia mais democrática e participativa. Pode-se
romper. Pode-se romper por identidades nacionais fracionadas que não aceitam a
soberania compartilhada porque essa cossoberania nunca é igual, porque alguns
poderes são maiores que outros.
E
tudo ocorre com uma União Europeia fraca e que enfrentará novas crises: Rússia
e Ucrânia, a acolhida de imigrantes, a Grécia…
Castells: E além disso estão as
identidades subnacionais, como ocorre na Catalunha ou na Escócia. Na Escócia o
referendo pró-independência não venceu, mas a política escocesa se transformou
e há tensões muito fortes com a Inglaterra.
O
Reino Unido vai convocar um referendo e pode sair da Europa, e a Escócia do
Reino Unido…
Castells: Se o referendo fosse hoje,
a Europa perderia. Mas se a hegemonia alemã sobre a UE se acentuar, ela não
será aceita nem no Reino Unido, nem na França. E Marine Le Pen [na França] está
empatada em primeiro lugar, na disputa pelas eleições presidenciais. Em seu
programa, consta sair da UE ou renegociar tudo, e não aceitar a hegemonia da
Alemanha. Além disso, ela faz alianças para criar uma frente anti-europeia
dentro da Europa. Estariam nela a França e o Reino Unido, marginalizados ou com
muito pouca relação institucional com a UE, onde a Alemanha tem seus súditos.
Isso não seria sustentável. Portanto, creio que esse tema da não legitimidade das instituições que foram criadas nas
últimas décadas é o que vai marcar a mudança nos próximos anos, mais que a
tecnologia, porque o corte tecnológico já se produziu.
Entramos
numa época de mudanças…
Castells: Uma coisa importante na
Europa é que há dois processos de mudança: um deriva dos movimentos sociais e
para isso aposta em novos atores, e outro deriva de posições nacionalistas,
xenófobas e defensivas contra a globalização, contra o estrangeiro e em defesa
da nação. Hoje na Europa essas posições são majoritárias. A Europa do norte é
diferente da Europa do sul, a Europa se apartou cultural e politicamente entre
o norte e o sul, e a França se encontra no meio por razões de história e
cultura política.
Surpreende
que, apesar da crise econômica e de legitimidade das instituições e dos
políticos, os cidadãos tenham recorrido às urnas, como na Espanha, para
expressar sua vontade de mudança, escolhendo opções praticamente recém-nascidas.
É a revolução nas urnas, não nas ruas…
Castells: Sim, mas ao mesmo tempo
lembremos que, primeiro, eles saíram das ruas e, segundo, estão nas redes. As
urnas são a consequência disso. Saíram às ruas, estão nas redes e constituíram
movimentos sociais que criaram pressão sobre a opinião pública. Uma mudança política tornou-se possível
como consequência de uma mudança de mentalidade ligada aos movimentos sociais.
Essa mudança logo vai se expressar de alguma forma. Como os partidos tradicionais não aparecem, aos
olhos de muitos cidadãos, como canais possíveis para essa mudança,
buscam-se outras opções. Além disso, também ocorrem mudanças nos próprios
partidos tradicionais, porque algo está mudando: primárias, medidas anticorrupção…
Note-se bem: a busca de novas opções ocorre, ainda, dentro de marcos que não
funcionam legal e constitucionalmente.
Em
seu livro Comunicação e poder você
fala das mídias como instrumentos para mudar a mente das pessoas. E recordo que
Pablo Iglesias, líder do Podemos,
disse que o triunfo do partido foi possível graças à combinação do novo – as
redes sociais – com o velho, a tevê. Até que ponto as mídias podem criar
estados de opinião que gerem revoluções?
Castells: Sempre defendi a ideia de
que as mídias não são expressão do
poder, mas o espaço onde se joga o poder, que não é um espaço neutro. O que
mudou é que além dos meios de massa surgiram as redes, onde também se joga o
poder. O espaço da comunicação é o
espaço onde se joga o poder porque é através do qual se constroem e difundem as
ideias. As mídias são essenciais, além das redes, porque atualmente, para
uma parte substancial da população a partir dos cinquenta anos, os meios
importantes são a televisão e o rádio, um pouco menos os jornais diários. O
exemplo do Podemos foi chave porque a
intervenção de uma pessoa — mas uma pessoa que teve um discurso articulado e a
capacidade de comunicá-lo — satisfez uma demanda social que se viu refletida
naquilo que pensava.
Um
discurso baseado no populismo do cientista político argentino Ernesto Laclau,
de bons e maus, do povo e seu inimigo, da casta.
Castells: Agora tudo isso está mais
moderado. Mas foi uma estratégia muito inteligente com um discurso claro e de
ruptura.
A
mudança também chegou a países como Tunísia, Islândia, EUA, Brasil… São
movimentos que se criam em comunidade, fazem comunidade, ajudam a perder medos
e a superar indecisões. Acredita que se perdeu o medo?
Castells: Não, mas está se perdendo. O medo nunca se perde, no fundo, mas
todos esses movimentos que houve nestes anos indicam uma perda do medo. É
quando as pessoas dizem sim, podemos, ainda que seja uma chama e logo se
apague. Bem, não desaparece, quase nunca
desaparece. Se transforma. Por exemplo, nas revoluções que mudaram
completamente o mundo árabe. O que acontece é que logo há atores geopolíticos,
interesses, islamitas que se aproveitaram do vazio criado pelos EUA, todas
essas coisas degeneraram em violência e barbárie.
Há
quem acredite que as primaveras árabes fracassaram, e você foi questionado
sobre isso mais de uma vez. Você defende o contrário.
Castells: Estou de acordo. As
revoluções de verdade são um logo processo, recordemos as revoluções europeias
do século XIX. Este é um processo que começou e continua, que não sabemos aonde
vai dar. Não parou. Está na mente e nos corações das pessoas. O mesmo se passou
nos EUA. O Occupy não acabou, acabou
apenas como forma de ocupação, porque as ocupações físicas do espaço têm um
limite. As últimas ocupações pararam em dezembro porque as pessoas estavam
congeladas. Empiricamente, todas as revoltas de 2014 e 2015, de Ferguson a Nova
York e Baltimore, contra os abusos da polícia, a campanha “as vidas negras também valem”, são feitas pelos mesmos ativistas
que as organizaram e saíram às ruas, em contato com movimentos negros e brancos.
Isso é o Occupy Wall Street de outro
modo.
Hillary
Clinton advogava em 2010 o papel democratizador da internet. Seria a internet o
apóstolo da democracia?
Castells: Não é o apóstolo, mas um
instrumento chave de democracia, no sentido de que se comunicação é poder e a internet é comunicação livre, a internet
pode difundir, expressar e organizar projetos fora das instituições. Isso é
um papel fundamental. E por outro lado permite a informação, uma participação
prática na gestão, sobretudo local, muito importante. Claro que sim, é um
instrumento de democracia, mas quem a faz são os atores sociais e políticos.
Traduzido do espanhol por Inês Castilho. Acesse a versão original
desta entrevista, clicando aqui.
* Quem
é Manuel Castells?
Manuel
Castells Oliván (nasceu em Hellín, no ano de 1942) é
um sociólogo espanhol. Entre 1967 e 1979 lecionou na Universidade de Paris, primeiro no campus de Nanterre e, em 1970,
na "École des Hautes Études en
Sciences Sociales". No livro "A
sociedade em rede", o autor defende o conceito de "capitalismo
informacional". Foi nomeado em 1979 professor de Sociologia e Planejamento
Regional na Universidade de Berkeley,
Califórnia (EUA). Em 2001, tornou-se pesquisador da Universidade Aberta da Catalunha em Barcelona. Em 2003, juntou-se à
Universidade da Califórnia do Sul,
como professor de Comunicação. Segundo o Social
Sciences Citation Index Castells foi o quarto cientista social mais citado
no mundo no período 2000-2006 e o mais citado acadêmico da área de comunicação,
no mesmo período. Atualmente Castells vive entre Barcelona e Santa Mônica.
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