É preciso clarear as ideias, os conceitos e as posições para o Sínodo ser eficaz!
O cardeal Müller e “aquela feia confusão...”
Andrea Grillo*
Teólogo
italiano
As repercussões do vazamento da carta com várias
críticas, que cardeais
escreveram ao Papa sobre o Sínodo dos Bispos, são
comentadas
por um daqueles que supostamente a assinaram
e analisadas por este renomado teólogo italiano
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GERHARD LUDWIG MÜLLER Cardeal-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé concede entrevista e comenta sobre o Sínodo e a carta que "vazou" escrita por alguns cardeais ao Papa |
Uma
declaração do cardeal Müller (no
jornal Il Corriere della Sera de 13
de outubro de 2015, sob o título «Há quem deseja semear discórdia») merece uma
reflexão. Aparece como um julgamento articulado sobre o «caso» de ontem
[12/10/2015] e exprime uma opinião alarmada sobre a gravidade do incidente e
sobre as dinâmicas negativas que pretendia desencadear na Assembleia sinodal.
Todavia,
quando o cardeal prefeito [da Congregação para a Doutrina da Fé] passa,
brevemente, a considerações sobre a «matéria» em discussão, deixa escapar duas
afirmações sobre as quais é preciso refletir, para uma necessária avaliação
crítica. Vejamos, antes de tudo, a declaração do cardeal, com os devidos
destaques evidenciados em negrito [e as palavras de Müller estão entre aspas]:
«Uma carta privada que pertence ao Papa!
Como é possível que tenha sido publicada?». O cardeal Gerhard Ludwig Müller,
prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, está em pé diante do portão de
ferro pontiagudo do Santo Ofício, um metro e noventa abundantes de indignação,
mais ainda que irritação. Em São Pedro há o crepúsculo, os Padres Sinodais
desfilam na penumbra.
Corriere
della Sera: Eminência, o senhor também assinou a
carta?
«Veja, eu não digo se assinei ou não. O
escândalo é que se torne pública uma missiva privada do Pontífice. Isto é um
novo Vatileaks: os atos privados do
Papa são propriedade privada do Papa e de ninguém mais. Ninguém pode
publicá-la, não sei como pode acontecer. E quem o fez tem o dever de justificar».
Corriere:
Por que ela saiu?
«A intenção de quem quis esta publicação é
semear discórdias, criar tensões. Parece-me claro».
Corriere:
Francisco, na sala [do Sínodo], havia solicitado aos Padres de “não ceder” a
uma “hermenêutica conspiratória”.
«Eu penso que ele falasse de quem sustenta
que, na Cúria Romana, haja uma oposição contra o papa. Aqueles que dizem e
escrevem que existem os lobos, que Francisco está cercado de lobos. É uma expressão ofensiva e criminosa. Eu não sou um lobo
contra o papa. Conheço quem é o papa e aquilo que
significa o primado mil vezes mais de quem diz estas coisas. Como prefeito da
Congregação, sou o primeiro colaborador do Santo Padre, não somente eu, mas
todos que pertencem a ela. E não permito que se ponha em dúvida a minha
obediência e o meu serviço ao Papa e à Igreja».
Corriere:
Mas qual seria, neste caso, a conspiração?
«Dizer: nós somos amigos do Papa e aqueles
lá são os inimigos! Esta é a hermenêutica conspiratória. Não conheço ninguém,
aqui [na Cúria Romana], que seja contra o Papa».
Corriere:
Não é um segredo que no Sínodo houvesse objeções à metodologia, o temor que o
êxito fosse prefixado...
«Há muito, o Sínodo discute sobre como melhorar
os procedimentos, todos têm liberdade de dizer a sua opinião sobre isto: o
regulamento é humano, não uma lei divina!».
Corriere:
Os “círculos menores” [grupos de trabalho] ajudam no aprofundamento?
«Direi que sim. Cada um tem liberdade de
exprimir-se mais difusamente. Em sala [plenário] haviam somente três minutos
para cada intervenção e uma síntese de todos os aspectos não se pode fazer».
Corriere:
Tensões?
«Havia tensão entre a doutrina e a
abordagem pastoral, mas é tarefa do Sínodo ver estes aspectos juntos. Todo
bispo católico, na sua pessoa, é mestre da fé e também pastor do rebanho».
Corriere:
Mas como se conciliam doutrina e misericórdia?
«A ortodoxia deve realizar-se na pastoral,
mas não há uma pastoral saudável sem doutrina: que é o ensinamento de Jesus,
não uma doutrina acadêmica de teólogos. Não é possível que tudo seja representado
como sendo um confronto entre aqueles que dizem “somos mais liberais” e
encontram o aplauso das pessoas, e aqueles que, ao invés, devem defender a
doutrina revelada por Jesus e são os maus, os “conservadores”!»
Corriere:
E, então?
«Acreditamos em um só Deus, não pode haver contradição.
Não é que haja alguém do Decálogo e outro da misericórdia. E o Evangelho exige
também a conversão da nossa vida. A porta é estreita».
Corriere:
Como se faz, por exemplo, com os divorciados que se casaram novamente?
«As pessoas sofrem porque os seus
matrimônios se romperam, não porque não possam receber a comunhão. Para nós, o
centro da eucaristia é a consagração, todo cristão tem o dever de vir à missa,
mas não de comungar. Concentrar-se somente sobre um ponto não resolve nada».
Corriere: E as situações concretas?
«Pode-se discutir sobre as condições dos
casos individuais, mas um regulamento geral não é possível. O matrimônio é um
sacramento e a Igreja não tem autoridade sobre um sacramento».
Corriere:
Como terminará [o Sínodo]?
«Penso que se chegará a uma boa síntese».
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ANDREA GRILLO Teólogo italiano especializado em Teologia Litúrgica e Sacramental |
A
ocasião da entrevista é, evidentemente, a misteriosa carta de protesto, cujos
signatários não são confirmados e cujo texto foi colocado em discussão. Mas, em
meio a esta poeira, que Müller fotografa com justificada preocupação, emergem
duas «teses» – respectivamente sobre a eucaristia e sobre o matrimônio – que não
ajudam a chegar a uma «boa síntese». Caso não esclareçamos estas ideias – e para
fazê-lo é preciso exercitar o pensamento teológico e o confronto eclesial –
deixaremos espaço a quem deseja somente dividir para que nada aconteça.
A
primeira «tese» diz respeito à eucaristia. É necessário dizer que a afirmação
deve ser contextualizada no discurso do cardeal, que tem as suas
justificativas. Ele diz, de fato:
«As pessoas sofrem porque os seus matrimônios
se romperam, não porque não possam receber a comunhão. Para nós, o centro da
eucaristia é a consagração, todo cristão tem o dever de vir à missa, mas não de
comungar. Concentrar-se somente sobre um ponto não resolve nada».
O
bom senso aconselha a não sobrepor simplesmente «falimento matrimonial» e
«falta de acesso à comunhão». Mas é preciso, também, prestar atenção para não se
descuidar que, numa condição de forte sofrimento, esta «proibição» não venha
sobrecarregar, ainda mais, as pessoas.
Em
todo caso, para resolver a questão, não
é certamente útil colocar, lado a lado, uma disciplina matrimonial digna de
revisão e uma concepção superada e inadequada de eucaristia. Há, pelo
menos, 100 anos – desde Pio X em diante – que a «participação à missa» como
preceito não corresponde mais ao «dever» do cristão católico.
E o
cardeal parece oferecer como solução aquilo que, talvez, seja um problema ainda
mais grave: a separação entre sacramento
e sacrifício não pode ser uma solução para quem vive a separação matrimonial.
Uma separação não cura a outra. Além do mais, que «para nós» [como diz Müller]
o centro da eucaristia seja a consagração – contraposta à comunhão numa
inesperada recuperação do espírito antiluterano – parece-me, francamente, uma solução
pior que o mal. É verdade: concentrar-se somente sobre um ponto não resolve
nada. Tirar fora do armário a «consagração» contra a «comunhão» para consolar
os divorciados recasados é uma aposta azarada, sem perspectivas, puramente autorreferencial
e privada de qualquer eficácia.
A
segunda «tese» diz respeito ao matrimônio e soa assim:
«Pode-se discutir sobre as condições dos
casos individuais, mas um regulamento geral não é possível. O matrimônio é um
sacramento e a Igreja não tem autoridade sobre um sacramento».
Esta
afirmação, tão seca, parece-me que confunda, no matrimônio, aquilo sobre o qual
a Igreja não tem poder e aquilo que, ao contrário, depende exatamente da
autoridade da Igreja. Justamente porque
é um «sacramento», o matrimônio tem uma «substância doutrinal» que escapa do
poder da Igreja. Mas, uma vez que haja uma «disciplina», tal disciplina pode e
deve ser objeto de clarificação, reformulação, adaptação, restrição ou
ampliação, de acordo com os tempos e as contingências. Mesmo nos
sacramentos, de fato, «uma coisa é a substância da antiga doutrina do depositum fidei, e outra é a formulação
do seu revestimento».
A Igreja teve e continua a
ter autoridade sobre a disciplina do sacramento. Negar isso seria somente um
modo de fazer coincidir a disciplina [legislação, normas práticas] com a doutrina, o que prestaria um péssimo serviço à verdade de fé e
ao testemunho eclesial.
O
cardeal Müller tem plenamente razão quando deseja uma «boa síntese final». Mas
para chegar nela, haverá necessidade de rever cada uma das duas teses que, per transennam [trad.: de passagem], ele
pretendeu avançar em sua entrevista. São «teses infundadas» como estas que
corre o risco de confundir o Sínodo e de «semear discórdias», talvez ainda mais
que a revelação de notícias reservadas.
Traduzido do italiano por Telmo José Amaral de Figueiredo.
*
ANDREA GRILLO é professor do Pontifício Ateneu Santo
Anselmo, de Roma; do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona e do Instituto
de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.
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