REVIRAVOLTA DO SÍNODO: ninguém está excluído, por antecipação, da comunhão
O cardeal Pell e a economia (eucarística)
Andrea Grillo*
Alguns posicionamentos deste cardeal, bem como, de
outros, não passam de “desejos pessoais” que exprimem sobre o Sínodo.
Mas, o Sínodo está apontado em outra direção...
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PAPA FRANCISCO Faz um pronunciamento durante uma Plenária do Sínodo dos Bispos Sala Sinodal - Vaticano |
Desde que o Sínodo se concluiu, o cardeal George Pell concede entrevistas em que defende:
- o magistério sobre a família saiu totalmente confirmado da Relatio [o relatório final do Sínodo sobre a família], cujo texto, na sua opinião, repetiria totalmente a Familiaris consortio;
- acima de tudo o tema dos "divorciados recasados" teria sido resolvido, na sua opinião, negando mais uma vez toda possibilidade de acesso à comunhão eucarística.
a) Comecemos
de longe. É legítimo ter desejos. Ou, melhor, os desejos são algo muito sério.
O problema nasce quando se pretende projetar os desejos na realidade, criando
irrealidades muito perigosas. Não falo aqui do desejo de ser Napoleão e de se comportar como se fosse. Mas
do desejo, por exemplo, de que alguém esteja doente, doente grave. Enquanto
desejamos isso, fazemos o mal a nós mesmos. Mas, se pusermos em circulação a
notícia de que alguém está doente, e não for verdade, então o problema se torna
mais sério, e não para o doente imaginário.
Analogamente,
posso entender o desejo do cardeal Pell: é claro que ele gostaria que o texto da Relatio tivesse no capítulo 85 esta frase:
“Se
alguém diz que um fiel batizado, validamente casado, que depois se separou e
recasou civilmente, pode ter acesso à comunhão sacramental, anathema sit."
Eu
procurei com cuidado, mas esse texto não se encontra na Relatio.
Infelizmente,
na mesma Relatio, também não é
possível encontrar a versão “moderada e atenuada” que lemos na Familiaris consortio, onde se diz:
"A
Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não
admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não
podem ser admitidos a partir do momento em que o seu estado e condições de vida
contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja,
significada e atuada na Eucaristia" (n. 84).
Essa
falta, essa ausência é uma reviravolta do magistério. Dizer simplesmente que o magistério está “confirmado”
significa ignorar essa “ausência” que é muito pesada. O que importa não é que “não se fale de comunhão”, mas que “não se
exclua da comunhão”.
b) Mas
passemos para a economia: um Sínodo não
pode ser interpretado como um “balanço econômico”. É óbvio que, se em um
balanço não “entra” um item, este também não pode “sair”. Se em um balanço não
entra “comunhão” [dos católicos recasados], também não pode sair
"comunhão": isso é pacífico.
Infelizmente, para o cardeal Pell, um Sínodo não pode ser lido como um balanço: em
um Sínodo, pode acontecer que um “assunto”,
que não “entra” no documento final, apareça na Exortação Apostólica. Mas
também pode acontecer que o que entra no documento final não apareça na
Exortação.
c) No
entanto, eu gostaria de dizer que Pell tem
razão ao reivindicar uma lógica “econômica” também do Sínodo.
Contanto que o cardeal queira assumir – estou convencido disto – que a “economia”,
em sentido original, seja uma noção muito mais ampla e profunda do “ajuste de
contas”, embora importante. Existe uma “economia
doméstica” e uma “economia eucarística”, que devem responder a critérios muito
diferentes dos do simples “balanço econômico”.
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Cardeal George Pell (australiano) Secretário da Economia - Vaticano |
d) Talvez, sobre esse ponto, devamos reconhecer que o Sínodo fez uma verdadeira reviravolta: ele assumiu uma “leitura econômica” da
tradição. É compreensível que Pell não
possa suportar isso facilmente: ele vive isso, provavelmente, como uma forma de
“concorrência desleal”. O monopólio “econômico”
de uma abordagem quantitativa à Eucaristia é ameaçado por uma “economia
qualitativa”, que se centra na Eucaristia. Sobre isso, é preciso refletir a
fundo.
e) O que significa “visão econômica” da Eucaristia? É o que o Papa Francisco disse
muitas vezes, quando ressaltou que a Eucaristia não é apenas para os sãos, mas também para os
doentes. Não
é o prêmio para os puros, mas o remédio para quem está a caminho. Isso significa, traduzido nas categorias “econômicas”,
que o caminho do cristão se nutre da
Eucaristia não só no fim, mas também "a caminho".
f) A “reviravolta”
do Sínodo está justamente nisto: em não excluir a priori [antecipadamente] que
o divorciado recasado, permanecendo na irreversibilidade da sua própria
condição nova, possa, com o tempo, ter acesso de novo à Eucaristia, como “medium salutis” [meio de salvação], como “remédio” para viver a comunhão
cada vez melhor e com força renovada. Para
a Eucaristia, recuperar uma “visão econômica” significa fazer com que ela se
encaixe na “lógica da casa”: as casas das famílias podem se alimentar da
comunhão em que a Eucaristia participa: comunhão
de reunião, comunhão de escuta, comunhão de confissão de fé, comunhão de canto,
comunhão de oração, comunhão de perdão, comunhão de refeição.
*
Andrea Grillo, teólogo italiano, leigo casado, professor
do Pontifício Ateneu Santo Anselmo,
de Roma, do Instituto Teológico
Marchigiano, de Ancona, e do Instituto
de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.
Traduzido do original italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
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