SAÚDE: MOEDA DE TROCA POLÍTICA NO BRASIL!
Ministério da Saúde:
a tóxica moeda de troca política do Governo Dilma
Talita
Bedinelli
Maior Orçamento federal e gestor do maior sistema
público de saúde do mundo, o Ministério da Saúde tornou-se a grande novidade da
barganha política do Governo nesta crise atual.
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Arthur Chioro - médico sanitarista Ex-ministro da Saúde - demitido por telefone! |
A
pasta, que nos últimos anos tem sido gerida pelo PT [Partido dos Trabalhadores] por ser considerada
estratégica para as políticas sociais, deve parar nas mãos do aliado PMDB em
troca de um apoio político que permita alguma governabilidade à presidenta
Dilma Rousseff.
Nesta
terça-feira, o ministro Arthur Chioro
foi demitido pela presidenta, dando mais fôlego ao rumor. Oficialmente, o
ministério nega. Mas, segundo a imprensa local, a saída foi comunicada a ele em um telefonema frio. Rousseff teria
se incomodado com declarações à imprensa em que o sanitarista afirmou que o Sistema Único de Saúde (SUS) ficará sem verba a partir de outubro deste
ano devido aos cortes no Orçamento. Como ministro, ele sempre defendeu
publicamente a necessidade de mais verbas para o SUS.
O
nome mais cotado até o momento para assumir o ministério é o do deputado paraibano Manoel Junior.
Médico pela Universidade Federal da Paraíba, o parlamentar é rejeitado por
entidades de defesa do SUS, que nos últimos dias divulgaram notas de apoio a
Chioro. Nos bastidores, Chioro já dava como certa a sua saída da pasta desde a
semana passada, mas oficialmente evitou comentar o assunto, dizendo que o cargo
não é seu.
Manoel Junior é ligado ao
grupo do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que até o momento tem defendido
uma ruptura do PMDB com o Governo de Rousseff, o que inviabilizaria a aprovação de
qualquer projeto no Parlamento. Conforme a crise política aumenta, os
peemedebistas têm aumentado a fatura que cobram pelo apoio. A entrega do maior
Orçamento federal para o partido poderia acalmar os ânimos de Cunha, que é
acusado de trabalhar nos bastidores pelo impeachment
de Rousseff.
Outra
possibilidade é a indicação do deputado
federal Marcelo Castro, do Piauí, ligado ao grupo do líder do PMDB na
Câmara, Leonardo Picciani, que na semana passada começou a negociar com a
presidenta as indicações da base do partido na Câmara para a reforma
ministerial.
A possibilidade de rifar
politicamente uma das áreas mais vitais para o país causou um alvoroço entre as
entidades da área. Especialmente devido ao nome de Manoel
Junior, que defende posições conservadoras e tem fortes ligações com o
setor privado da saúde. Ele, inclusive, chegou
a fazer declarações contra a criação do programa Mais Médicos, o principal projeto do Governo federal para
tentar diminuir a ausência de profissionais de saúde em áreas de difícil acesso
por meio de médicos formados no exterior.
“Será a pá de cal do SUS”, lamenta o professor do
Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo (USP), Mário Scheffer. “É um nome de atuação conservadora, muito sensível ao lobby da indústria
farmacêutica e de planos de saúde”, ressalta ele, que é um dos autores de
um estudo que avaliou as doações de empresas privadas de saúde para candidatos
nas eleições passadas.
O parlamentar recebeu da
Bradesco Saúde, a maior operadora de saúde privada do país em número de
usuários, 100.000 reais por meio da direção de seu partido, além de outros 5.667,66 reais pela
campanha do candidato ao Governo da Paraíba, Vital do Rêgo Filho. Além disso, ele recebeu mais 100.000 reais da Biolab
Sanus Farmacêutica e outros 150.000 reais da Eurofarma – os dois aportes
financeiros partiram da direção nacional do partido. O financiamento do setor privado de saúde formaram, assim, quase um
terço do 1 milhão de reais recebido por ele durante a campanha.
O padrão segue o das
eleições de 2010, quando metade dos 828.802 reais arrecadados por ele vieram de
cinco laboratórios: Ache, Biolab Sanus, Eurofarma, Infan e Libbs. Cada uma dessas empresas fez três doações
do exato mesmo valor: 28.000 reais.
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Dr. Mário Scheffer - médico Professor do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo: "Será a pá de cal do SUS" |
A
atuação política do deputado também desagrada as entidades. Em 2014, ele foi
criticado por defender, como relator, a chamada MP das Farmácias, uma Medida
Provisória que desobrigava farmácias de menor porte a terem um farmacêutico
presente. A medida recebeu fortes críticas das entidades de saúde, porque,
segundo elas, a falta do profissional poderia aumentar o consumo de
medicamentos sem necessidade. A
proposta, segundo os críticos, foi feita para beneficiar os laboratórios, que
aumentariam as vendas.
Também
no ano passado, ele foi autor de outra proposta que desagradou as entidades de
defesa do SUS. Uma emenda de sua
autoria, aprovada, permitiu o investimento de capital estrangeiro em hospitais,
clínicas e outros serviços de saúde. “O
domínio pelo capital estrangeiro na saúde brasileira inviabiliza o projeto de
um Sistema Único de Saúde, tornando a saúde um bem comerciável, ao qual somente
quem tem dinheiro tem acesso”, afirmou um manifesto de sete entidades que
compõem o Movimento da Reforma Sanitária,
incluindo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e a Associação
Brasileira de Saúde Mental (Abrasme).
Comportamento conservador
A
ligação com a indústria privada de saúde não é a única preocupação das
entidades com a possível indicação de um nome peemedebista. O partido, por
exemplo, foi favorável à aprovação da Proposta de Emenda à Constituição 171,
que prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Manoel Júnior votou
favoravelmente a ela.
A posição conservadora é
considerada incompatível com a pasta da Saúde, que precisa implementar medidas como a
realização de campanhas anti-HIV junto aos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Travestis e Transexuais), por exemplo. Também podem ser prejudicadas políticas
de acesso ao sistema de aborto legal, algo que já vem sofrendo diversos golpes
na Câmara, inclusive pelo próprio presidente Eduardo Cunha, que se diz
“veementemente contra” o procedimento.
“Por meio do ministério, o ministro pode
instaurar portarias e paralisar uma série de políticas públicas importantes.
Podem passar coisas muito ruins”, afirma o professor Scheffer.
Desde
que a especulação em torno da troca ministerial ganhou fôlego, ao menos oito
entidades da área da saúde já divulgaram nota criticando a possibilidade. “Consideramos inaceitável que o SUS seja
usado como objeto de barganha política, por ser a maior e mais importante
política pública em curso no Brasil. Trata-se de um patrimônio e uma conquista
de décadas de luta do povo brasileiro”, afirmou o documento divulgado pela
Mesa Diretora do Conselho Nacional de Saúde.
Em
nota conjunta, a Abrasco e o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes)
também se posicionaram contrários a medida. “Repudiamos veementemente que a gestão do Ministério da Saúde seja
exercida por grupos e gestores que nunca demonstraram compromisso efetivo com o
SUS único, universal e que, ao contrário, compõe as forças cada vez mais
hegemônicas da mercantilização do setor.”
Procurado
por meio de sua assessoria de imprensa, o deputado, que já chegou a defender a
renúncia de Rousseff, não retornou para a reportagem até a conclusão desta
edição. Ao jornal O Estado de S. Paulo,
ele afirmou que não sabia de onde vinha o dinheiro. "Recebi do meu partido. Meu partido estava me designando aquilo e eu
aceitei de bom grado”, disse.
Fonte: EL PAÍS – Brasil –
Crise Política
– 29 de setembro de 2015 – 18h05 – Internet: clique aqui.
“Dilma Rousseff repete Collor ao entregar
cargos por apoio na reforma”
Entrevista
com Jarbas Vasconcelos
Deputado
Federal pelo PMDB–PE, ex-prefeito de Recife e ex-governador de Pernambuco
Afonso Benites
Um peemedebista dissidente analisa o atual cenário
político brasileiro
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JARBAS VASCONCELOS Deputado Federal pelo PMDB de Pernambuco |
Logo
ao cumprimentar o interlocutor o deputado
federal pernambucano Jarbas Vasconcelos pede desculpas pelo diminuto espaço
de sua sala anexo 4 da Câmara, em Brasília. Acostumado nos últimos anos a
ocupar gabinetes espaçosos do Senado, da prefeitura do Recife e da governadoria
de Pernambuco, o peemedebista dissidente de 73 anos não desistiu da política de
bastidor. No ano passado, quase deixou a
vida política, depois de 45 anos de atuação. Só não vestiu o pijama de
aposentado porque decidiu continuar fazendo o que fez nos últimos oito anos no
Senado, criticar o PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a atual
presidenta Dilma Rousseff.
Na
entrevista, concedida na última quarta-feira ao EL PAÍS, Vasconcelos explicou as razões que o fizeram ser, ao mesmo
tempo, amado e odiado por opositores e por aliados do atual Governo. Sem meias
palavras, diz o que pensa sobre colegas de partido, como Eduardo Cunha (“uma pessoa sem escrúpulos”), e sobre a gestão dilmista (“arruinou o país”).
Pergunta.
O senhor é um dos poucos deputados federais críticos ao presidente da Câmara,
Eduardo Cunha. Por qual razão resolveu assinar um manifesto contra a
permanência dele na presidência da Casa?
Resposta. Quando eu estava no Senado,
eu o imaginava apenas como um hábil lobista. O partido o apoiou, o Raul Henry –
que era deputado e hoje é vice-governador do Pernambuco pelo PMDB – disse a mim
que ele tem uma linha completamente diferente, mas que era um camarada que bem
cercado poderia conduzir a Câmara. Achei naquele momento exagerado ele atribuir
à Dilma e ao PT uma luta específica contra ele. Ele tentava levar isso muito na
fantasia.
P.
Quando o senhor fala naquele momento se refere a qual período?
R. No começo do ano, antes da
lista do Janot [5 de março]. E quando ele assumiu a Câmara ele começou a
trabalhar de forma atabalhoada. A Câmara não trabalhava. Era um trabalho
precário. Ele tem o mérito de ter feito a Câmara ter voltado a trabalhar, mas
de forma primária, por produção. Estamos trabalhando até tarde da noite para
passar uma falsa imagem de que se está trabalhando.
P.
Por que falsa imagem?
R. Aqui se votou reforma
política que foi uma piada. Uma reforma que não inseriu duas coisas básicas, o
fim da coligação para eleição proporcional e a cláusula de desempenho, que no
mundo inteiro varia de 3% a 5% para o partido ser representado, aqui deixou que
os partidos precisariam eleger só um deputado ou senador. Era melhor não ter.
Essas duas iniciativas iriam, se não resolver, ao menos melhorar em muito o
ambiente aqui. Poderia acabar com o toma lá e dá cá. Temos 34 partidos, e 28
com representantes aqui. Não há parlamento que funcione com essa bagunça toda.
P.
O único problema foi essa reforma política?
R. Não. Discutimos aqui
terceirização, que precisa ser regulamentada, e a maioridade penal, que ambos
os lados têm argumentos sólidos, plausíveis, que precisam ser ouvidos. O
Eduardo Cunha fez todas essas votações e discussões em uma tarde, em uma noite,
em uma madrugada. Isso tudo de forma precária.
P.
A sociedade ficou distante do debate?
R. Isso. E a imprensa local
não acompanhava. Não dava uma ênfase para mostrar que essa atitude é
inaceitável. É inconveniente, apressada, atabalhoada. Terminamos o primeiro
semestre desta maneira. Logo na sequência ele foi denunciado. Eu defendi o
afastamento dele da presidência. Fiz através da tribuna, de artigo na Folha de S. Paulo e de entrevistas. Ele
não se afasta. Eu não tenho dúvida de que as últimas delações premiadas, além
da do Fernando Baiano, vão mostrar muita coisa. Junta com essa última, que
mostrou que era ele (Cunha) quem dava a última palavra no esquema da Petrobras,
com as declarações do camarada (o lobista Júlio Camargo) de que pagou 5 milhões
de dólares para ele, é muita coisa. Quando essa denúncia se avolumar, se
encorpar e o Supremo Tribunal Federal acolher, a situação dele passa a ser
débil, difícil. Pessoas que antes não queriam nem assinar manifesto vão ficar à
vontade para assinar porque a suprema corte aceitou a denúncia. Um réu para
presidir a Câmara fica difícil.
P.
Na sua opinião, ele poderia conduzir o processo de impeachment?
R. Não acredito que uma pessoa
maculada, sem escrúpulos como Eduardo Cunha, possa presidir um processo de impeachment. É um processo complicado.
Um processo inovador, porque será no início de um mandato. Um processo
diferente do de [Fernando] Collor, porque ele era um aventureiro. Ela não é.
Collor não tinha partido. Ela tem. Collor tinha meia dúzia de deputados em um
tal de PRN, que não representava nada. Ela tem um partido que tem a maior
bancada da Câmara. Maculado, cheio de problemas, mas ainda é um partido. Essa
coisa mesma do PMDB, dos ministérios, atrapalha também.
P.
Esse era outro ponto interessante. Renan Calheiros, Eduardo Cunha e Michel
Temer disseram que não iriam indicar ministros nessa reforma que se aproxima.
Por outro lado, os deputados indicaram...
R. Quem está indicando é a
dupla de araque Leonardo Picciani, o líder do PMDB, e o [Eduardo] Cunha.
Picciani se juntou a Dilma e tem conversado com o governador [Luiz Fernando]
Pezão, do Rio de Janeiro. Como se isso fosse a contragosto de Eduardo [Cunha].
P.
E não é?
R. Não é. Nesta semana fui à
reunião da bancada do PMDB convocada pelo Picciani. Ele falou que a Dilma o
chamou para conversar, tiveram uma conversa longa, e ela teria prometido cinco
ministérios ao PMDB na reforma ministerial. Dois para a Câmara, dois para o
Senado e um para a direção do partido. Eu pedi a palavra pela ordem e disse que
isso era uma coisa altamente inconveniente, que a gente estava nos últimos
estertores do Governo Dilma e isso não era para discutirmos agora. Pedi para me
retirar e saí.
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Deputados Federais Leonardo Picciani (líder do PMDB na Câmara) e Eduardo Cunha (Presidente da Câmara): "Dupla de araque... negociando com o Governo [ministérios]", na visão de Jarbas Vasconcelos |
P.
Nem votou contra a indicação?
R. Não. Saí logo depois de
falar. Acredito que esse fato atrapalha. O Renan Calheiros tem sido cuidadoso.
O Michel Temer também dizendo que não se envolve. E essa dupla de araque
querendo aproveitar. Não tem como dar certo. Collor fez isso, quando estava
para cair.
P.
Isso o quê? Negociar apoio em troca de cargos?
R. Sim. Fez uma ampla reforma
do mundo político, econômico e social daquele momento. Eram pessoas altamente
qualificadas, o que não é o caso do PMDB. Não são nomes qualificados,
estrelados, referências. O PFL naquela época, que é o DEM de hoje, indicou
pessoas qualificadas para ajudar o Governo, e deu no que deu. O dólar
disparando, a economia afundando e a presidente fazendo esses movimentos. Eu
estava disposto a fazer uma revisão dos meus votos com relação aos vetos
presidenciais.
P.
O senhor votou pela derrubada dos vetos, certo?
R. Sim. Eu estava imaginando
mudar. Pensei em manter os vetos entendendo o argumento de corte de gastos. Mas
decidi não me misturar com essas pessoas que só iam votar com o Governo em
troca de cargos. Eu resolvi mostrar a minha disposição de que o Governo não tem
uma base e ela tem de resolver. Não eu, que sou oposição aqui. Quando assumi em
fevereiro deste ano, anunciou-se que a base aqui na Câmara era de 400 deputados
do Governo e 113 da oposição.
P.
Sim, era uma das maiores bases.
R. Tinha mais do que no
segundo mandato de Lula. Hoje, ela não tem base para sustentar as coisas delas,
nem veto. Tem de ir atrás da oposição. Tem de fazer as imoralidades dela,
negociando apoios por cargos. Essas coisas já deram em mensalão, em petrolão,
vai acabar dando em outro “ão”, de novo. A inflação está descontrolada, o dólar
disparando, o desemprego aumentando. Acho que ainda não chegamos ao fundo do
poço.
P.
Tem para onde afundar mais?
R. Tem e vai afundar. Os
pressupostos da economia estão todos desarranjados, desarticulados. Para onde
essa mulher vai nos levar? Aí você olha na Câmara dos Deputados somos
comandados por um camarada de nenhum nível, sem nenhuma confiança envolvido em
falcatruas de toda natureza. É um cara que se diz inimigo da presidente,
inimigo do PT e bota um pau mandado dele, o Picciani, para negociar com o
Governo. É uma leitura fácil de ser feita. Não precisa ter experiência e ser
mais velho, como eu sou. Está à vista de todos. E isso não vai a lugar nenhum.
É o desespero de quem está no fundo do poço e se agarra a um tronco pensando
que é uma pessoa.
P.
O PMDB tem muitas divisões, mas ainda assim é o seu partido. Como o senhor se
sente vendo-o fazer essas negociações?
R. Eu sou um dissidente há
mais de dez anos. Estou aqui na Câmara porque desisti de me aposentar. Eu tinha
decidido não concorrer mais. Estava no Senado, até o ano passado e estava
pensando em ir para minha casa no fim do mandato. Tive uma atuação toda ela
voltada para denunciar o Lula, o PT e Dilma. Os responsáveis por isso, pelo
toma lá e dá cá. O aparelhamento da máquina. Os espaços ocupados pelo PT e
apaniguados me chamava a atenção. E eu falava quase todos os dias no Senado.
Mas o PMDB em Pernambuco indicou o deputado Raul Henry para ser
vice-governador. Desisti de aposentar porque não ia ter o que fazer em casa e
parei para ajudar a chapa majoritária que eu estava apoiando. Foi aí que me
candidatei. Por ser dissidente votei contra o apoio ao PT na chapa para
presidente na primeira e na segunda vez. Já tive problemas com o Renan e com o
José Sarney.
P.
Então, por que não sai do partido?
R. Se tivesse uma reforma
política verdadeira, correta, eu pensaria em um novo partido. Em uma coisa
nova. Como ela não ocorreu, eu preferi ficar como dissidente.
P.
Nessa política de bastidores o senhor assinou os dois manifestos que passaram
pela Casa. Um que pede o afastamento do Cunha e outro que pede o impeachment da
Dilma. Por qual razão o senhor defende a saída dela?
R. Não acredito em uma solução
judicial. O Tribunal Superior Eleitoral e o Dias Toffoli [presidente do TSE]
não votariam contra o PT, Dilma e Lula. O impeachment
por si só é uma coisa dura, penosa, traumática porque nunca ocorreu em início
de mandato. Collor quando sofreu o impeachment já estava no segundo ano de
mandato. Se esse processo contra a Dilma tiver conclusão positiva, teremos uma
travessia de três anos. Se não for feito um governo de coalizão nacional, onde
as pessoas entrem para valer, essa travessia será tumultuada, penosa. Temos de
levar em conta um detalhe que ninguém tem se atentado, a Lava Jato não
terminou. Qual é a certeza que isso vá ou não bater dentro do Planalto? O Lula,
o Supremo vai decidir se ele vai ser ouvido ou não. Se ele está envolvido. Ele
pode ser preso. E se pode bater nele, por que não pode bater nela? A Lava Jato
ainda está em pleno funcionamento. O processo de impeachment é muito político e é preciso do corpo de delito. E ele
vai aparecer ou através do Tribunal de Contas da União ou com mais robustez,
mais musculatura, através da Lava Jato. Só falta o corpo de delito aparecer
para ela cair. A saída dela, então, é que ela poderia renunciar. Mas concordo
com quem diz que ela não tem formação para isso. Ela é dona da verdade. Essa
coisa de ex-guerrilheira mexe com a cabeça dela. Se eu acho que a crise não
chegou ao final, essa situação de degradação que vive o país vai piorar. Essa
pressão de dentro e fora do Planalto pode se avolumar e ela renunciar.
P.
Mas isso é difícil.
R. Sim. Concordo. Mas na minha
cabeça a situação está definida, ela sai ou através da renúncia ou do impeachment.
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DILMA ROUSSEFF - Presidente da República (PT): "Na minha cabeça a situação está definida, ela sai ou através da renúncia ou do impeachment." Afirma Jarbas Vasconcelos! |
P.
Independentemente de quem conduza o processo aqui na Câmara?
R. Isso. Ela está repetindo o
filme de Collor. O estardalhaço da reforma ministerial dele, os acordos para
tentar se salvar, mas não se salvou.
P.
O senhor como dissidente não tem o controle da bancada do seu partido. Mas tem
alguma ideia de quantos peemedebistas votariam a favor do impeachment?
R. Temos pouco mais de 65
deputados e eu acho que perto de 30 votariam a favor.
P.
Mas com esse acordo por mais ministérios, não reduz esse número?
R. Pode dar um abalo nisso aí.
Mas tem gente que está determinada a votar pelo impeachment. Você vai juntando aí e acha um pessoal grande.
P.
Se estivesse na pele de Dilma Rousseff, o senhor renunciaria?
R. Claro que sim. Se eu
presidisse o país e chegasse a um descalabro desses, uma falta de controle de
governo, eu sairia. O Fernando Henrique Cardoso disse isso, falando do gesto de
grandeza. O gesto de grandeza seria um gesto de dimensão política. Algo que ela
não tem. Não tem formação nem dimensão para saber que esse gesto a
engrandeceria perante a história. Vamos falar abertamente, porque não sei dizer
nada pela metade. Ela não tem formação nem para renunciar, como Jânio Quadros
fez [em 1961] nem para dar um tiro no próprio peito como fez Getúlio Vargas [em
1954]. A formação de guerrilheira, de resistente, ela acha que é um golpe, como
foi em 1964, e não vai fazer isso.
P.
Mas não tem nada a ver com 1964.
R. Em 1964 você tinha duas
forças, de direita e de esquerda brigando. Você acompanhava que teria um golpe
ou de direita ou de esquerda. O de direita com os militares e o Carlos Lacerda
mais o Adhemar de Barros. E o de esquerda, com Jango [João Goulart]. O Jango
tinha um falso esquema militar, que não era militar porra nenhuma. O primeiro
teste que teve ele caiu. Aí houve o golpe de direita e ficamos todos aqueles
anos em uma ditadura. Hoje, você está no imponderável. E o imponderável em
política não tem coisa pior. Eu sei o que vai acontecer, ou a renúncia ou o impeachment. O imponderável agora é
quando isso vai acontecer. Naquela época havia muito medo. E agora, quantas
pessoas você encontra com medo?
P.
Me diga o senhor.
R. Toda vez que volto ao
Recife e entro em um restaurante, vou para a rua, um camarada me pergunta
quando ela vai sair. Até de maneira áspera. Isso é perguntado por homem,
mulher, jovem. Gente com posse, sem posse. Está generalizado.
P.
O senhor vê uma possibilidade de golpe hoje?
R. Não. Zero. O país é outro
depois de 1964. É outro da época de Collor. O que é bom. Na América Latina
golpes são muito difíceis. Você tem o populismo. Na Argentina, na Venezuela, de
maneira exacerbada, e no Equador. Você tem a restrição à liberdade de imprensa.
Mas no Brasil é difícil ter um veto à imprensa, depois de 64.
P.
O PT fala que, se a Dilma sofrer impeachment,
será um golpe.
R. Isso é fácil de explicar ao
povo. É só mostrar didaticamente que a Constituição previu o impeachment e estamos recorrendo a ele.
Acho que devemos esperar um pouco para ter o corpo de delito. Ele vem ou através
do TCU ou da Lava Jato.
P.
Na sua carreira política, já viu cenário parecido com o atual?
R. Nunca vi nada parecido em
45 anos de carreira política. Vivi os últimos estertores da ditadura
diretamente aqui no Congresso. Hoje, tem uma situação de desqualificação, uma
mentira persistente, uma tentativa de emplacar essa ideia de que é golpe.
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Michel Temer - Vice-Presidente da República (PMDB-SP): "Eu não queria estar na pele do Michel" - diz Vasconcelos!!! |
P.
Como o senhor vê a postura do Michel Temer nessa crise?
R. Eu não queria estar na pele
do Michel. É uma situação difícil. Ele tem também que ajudar, não pode dar
declarações que não ajudam em nada. Dizer que Dilma, com 8% de aprovação,
dificilmente terminaria o mandato, não era necessário. Muito menos de que ela
chega ao último dia do mandato. São declarações que atrapalham o processo,
deixa o processo confuso. Atrapalha os dois lados, os que querem que ela fique
e que ela saia. Temer deveria cumprir seu papel institucional e se reunir com o
seu partido, conversar sobre os próximos passos. Ele deveria chamar o Renan, o
Eduardo e os dissidentes para dialogar. Eu já falei com ele sobre essa
situação.
P.
O que o senhor falou para o vice?
R. Isso que estou lhe dizendo.
Nós jantamos um dia e eu falei também que foi um erro ele assumir a coordenação
política do Governo e ele me disse que a deixaria, como o fez pouco tempo
depois. E eu disse que ele deveria se policiar nas declarações. Mas eu entendo,
tem uma questão ética também, de que não pode passar a imagem de que está
conspirando. Ele vai ter de chegar um momento e dizer: “não conte comigo. Não
posso estar nesses arranjos”. E ele tem de se reunir abertamente.
P.
Com quem? Com o PSDB e DEM?
R. Com todo mundo. Precisa
conversar sobre o país. O Brasil está indo para o caos e vamos ficar assim
porque o PT e o Lula dizem que é golpe? Qual a moral que Lula tem para dizer
que é golpe? Dilma tem de ser enfrentada nessa hora. Sem nenhuma coisa de baixo
calão, mas enfrentá-la respeitosamente e de maneira transparente. Ela arruinou
o país. Como já disse, só temos duas opções: a renúncia ou o impeachment. Todas as duas dão em Michel
[Temer]. E vamos fugir desse debate?
P.
Temer é a melhor solução?
R. Não sei. Mas em política se
faz o que se tem à mão. E o que temos à mão é Michel Temer. O que ele precisa é
de se cercar de pessoas corretas, de bem. Pessoas que vão para lá não visando
espaço político, espaço físico. Tem de ir para ali com a cabeça consciente de
que é uma travessia de três anos, não é algo curto, de seis meses. Isso não é
um jogo de damas, mas de xadrez. Se mexer uma peça errado, dá errado.
P.
Que diferença o senhor vê do PMDB que o senhor dirigiu no fim da década de 1980
e o de hoje?
R. O MDB e o PMDB foram o elo
entre o cidadão e a política nos tempos da ditadura. Quem queria fazer oposição
sem ir para a luta armada, seguia no PMDB. O partido carregou essa bandeira por
anos, mas se esgotou com o fim da ditadura. Teve um candidato, o doutor Ulysses
[Guimarães] que não esteve de acordo com a exigência eleitoral. Os eleitores
queriam uma renovação e elegeu o Collor. Pegou o lema de caçador de marajás e,
como um aventureiro, ganhou.
P.
E o PMDB de hoje?
R. O PMDB desde a eleição de
Collor ficou sem uma bandeira. Virou uma federação de partidos que em cada Estado
age de uma maneira. E hoje é essa confusão. Piorou ainda mais porque não há
posição unânime dentro do partido. É um partido com sede de poder, sem nomes
fortes. Ficou nessa de sempre ajudar ou o PSDB ou o PT. Aí se agarrou ao PT e
deu no que deu. Se o Brasil andar com uma reforma política, pode ser que o PMDB
mingue, se torne um partido médio e cada um crie partidos mais sérios.
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