SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS - Homilia
Naquele tempo:
1
Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos
aproximaram-se,
2
e Jesus começou a ensiná-los:
3
«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
4
Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados.
5
Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
6
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
7
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
8
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
9
Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
10
Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o
Reino dos Céus.
11
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem
todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
12a
Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus. »
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
CRER NO CÉU
Na
festa cristã de Todos os Santos, quero dizer como entendo e trato de viver
algumas características de minha fé na vida eterna. Quem conhece e segue Jesus
Cristo me compreenderá.
Crer no céu é, para mim, resistir a
aceitar que a vida de todos e de cada um de nós é somente um pequeno parêntesis
entre dois imensos vazios. Apoiando-me em Jesus, intuo, pressinto, desejo e
creio que Deus está conduzindo para sua verdadeira plenitude o desejo de vida,
de justiça e de paz que se encerra na criação e no coração da humanidade.
Crer no
céu é, para mim, rebelar-me com todas as minhas forças que ficará enterrada
e esquecida para sempre essa imensa maioria de homens, mulheres e crianças que
somente conheceram, nesta vida, a miséria, a fome, a humilhação e os sofrimentos.
Confiando em Jesus, creio numa vida onde já não haverá pobreza nem dor, ninguém
estará triste, ninguém terá de chorar. Finalmente, poderei ver aqueles que vêm
em barcos chegar à sua verdadeira pátria.
Crer no céu é, para mim, aproximar-me com
esperança de tantas pessoas sem saúde, enfermos crônicos, deficientes físicos e
mentais, pessoas mergulhadas na depressão e angústia, cansadas de viver e de
lutar. Seguindo Jesus, creio que, um dia, conhecerão o que é viver com paz e
saúde total. Escutarão as palavras do Pai: Entra
para sempre na alegria do teu Senhor.
Não me resigno aceitar que
Deus seja, para sempre, um "Deus oculto", do qual não podemos
conhecer jamais seu olhar, sua ternura e seus abraços. Não posso aceitar a ideia de não encontrar-me nunca com Jesus. Não
me resigno a que tantos esforços por um mundo mais humano e feliz se percam no
vazio. Quero que um dia os últimos sejam os primeiros e que as prostitutas nos
precedam. Quero conhecer os verdadeiros
santos de todas as religiões e de todos os ateísmos, aqueles que viveram amando
no anonimato, sem esperar nada.
Um
dia poderemos escutar estas incríveis palavras que o Apocalipse põe na boca de Deus: «Para aquele que tem sede, eu
darei de beber gratuitamente da fonte da vida». Grátis! Sem merecê-lo.
Assim Deus saciará a sede de vida que há em nós.
A FELICIDADE NÃO SE COMPRA
Ninguém
sabe dar uma resposta demasiado clara quando se nos pergunta pela felicidade. O que é, de verdade, a felicidade? Em
que consiste realmente? Como alcançá-la? Por quais caminhos?
Certamente,
não é fácil encontrar a felicidade.
Não se consegue a felicidade de qualquer maneira. Não basta obter aquilo que
alguém estava buscando. Não é suficiente satisfazer os desejos. Quando alguém conseguiu o que desejava,
descobre que está, de novo, buscando ser feliz!
Está
claro, também, que a felicidade não se pode comprar. Não se pode adquiri-la em
uma seção de alguma loja de departamentos, como tampouco a alegria, a amizade
ou a ternura. Com dinheiro somente
podemos comprar a aparência de felicidade.
Por
isso, há tantas pessoas tristes em nossas ruas. A felicidade foi substituída pelo prazer, a comodidade e o bem-estar.
No entanto, ninguém sabe como devolver ao homem de hoje a alegria, a liberdade,
a experiência de plenitude.
Nós temos nossas «bem-aventuranças». Soam assim: Felizes os que
têm uma boa conta-corrente; aqueles que podem comprar o último modelo; os que
sempre triunfam, custe o que custar; aqueles que são aplaudidos; os que
desfrutam da vida sem escrúpulos; aqueles que não têm problemas...
Jesus colocou nossa «felicidade»
de cabeça para baixo! Ele deu uma reviravolta em nossa maneira de compreender a vida e nos revelou que estamos correndo «em
direção contrária».
Há
outro caminho para ser feliz, o qual é verdadeiro, apesar de nos parecer falso
e inacreditável. A verdadeira felicidade
é algo que se encontra de passagem [por acaso], como fruto de um seguimento
simples e fiel a Jesus.
Em que acreditar? Nas
bem-aventuranças de Jesus ou nos reclamos de felicidade de nossa sociedade?
Temos
de escolher entre estes dois caminhos. Ou,
tentar garantir nossa pequena felicidade e sofrer o menos possível, sem amar,
sem ter piedade de ninguém, sem compartilhar... Ou, amar... buscar a justiça,
estar próximo daquele que sofre e aceitar o sofrimento que for necessário,
crendo numa felicidade mais profunda.
Alguém
se torna crente quando descobre, na prática, que o homem é mais feliz quando ama, mesmo sofrendo, que quando não ama
e não sofre por isso.
É
um equívoco pensar que o cristão é chamado a viver aborrecendo-se mais que os
demais, de modo mais infeliz que os outros. Ser cristão, pelo contrário, é buscar a verdadeira felicidade pelo
caminho indicado por Jesus. Uma felicidade que começa aqui, ainda que
alcance sua plenitude no encontro final com Deus.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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