UMA ARMADILHA PARA PAPA FRANCISCO: KIM DAVIS

Massimo Faggioli
Professor de História do Cristianismo na University of St. Thomas (EUA)
HUFFINGTON POST
01-10-2015

Estudioso comenta o incidente midiático causado pelo encontro entre o Papa Francisco e Kim Davis que, segundo ele, “risca obscurecer o sucesso da visita do Papa nos EUA”.
KIM DAVIS 
Tabeliã do condado de Rowan, Estado norte-americano de Kentucky,
que se recusou a emitir licenças de casamento para casais homossexuais por motivos religiosos.
Ela foi detida no dia 3 de setembro deste ano e, posteriormente, liberada.

O incidente midiático causado pelo encontro entre o Papa Francisco e Kim Davis risca obscurecer o sucesso da visita do Papa nos Estados Unidos da América (EUA).

É um incidente que diz muito do clima criado nos EUA em torno da visita do Papa e da incapacidade de algumas pessoas da Igreja receberem Papa Francisco. Não diz nada da posição do Papa nem sobre o caso concreto de Kim Davis nem sobre a questão homossexual em geral nem sobre os matrimônios na sociedade civil. Para compreender os contornos do incidente é preciso que se tenha presente algumas coisas.

Primeiro ponto. Os papas encontram muitas e variadas pessoas durante as audiências gerais e tanto mais durante as suas viagens. Os modo de organizar estes encontros varia muito, especialmente quando o Papa viaja. Um incidente pior coube a Bento XVI – ele não teve nenhuma culpa – quando encontrou no Vaticano, num dos encontros com milhares de peregrinos, Rebecca Kadaga, personagem político de Uganda que se projetou por ocasião do debate legislativo sobre a criminalização da homossexualidade.

Segundo ponto. É claro que o encontro reservado e não público entre o Papa e a funcionária pública de Kentucky [Kim Davis], presa por ter se negado a encaminhar o documento de matrimônio homossexual, foi arquitetado por alguém que forçou a mão do Papa e do seu “entourage” [equipe] mais próximo, de modo a fazê-lo dizer algo que o Papa sempre evitou de dizer durante toda a sua viagem nos EUA (como também precedentemente).

Os advogados de Kim Davis fizeram o resto, escolhendo o “timing” [momento] perfeito para a revelação: ou seja, quando o Papa já tinha deixado o país e numa hora em que era impossível para o Vaticano reagir. Mas o “never complain, never explain” [jamais reclamar, jamais explicar] da rainha Vitória não funciona mais, nem para o Papa, na era do “news cycle” [ciclo noticioso] 24 por 24 horas.

Terceiro ponto. Que o caso foi muito bem montado se revela não somente pela embaraçada relutância do Vaticano em comentar o encontro (depois de tê-lo confirmado), mas pelo clima precedente da visita do papa nos EUA.

No seu discurso aos bispos americanos o papa alertou-os para a tentação de se usar a cruz como símbolo para as lutas políticas.

A visita de Francisco foi uma desilusão para os ideólogos das “guerras culturais” político-religiosas nos EUA. Ou seja, ele desiludiu aqueles (também católicos) que tentaram fazer de Kim Davis uma mártir do contratestemunho da Igreja contra o matrimônio homossexual.

Talvez na Itália (ou quem organizou o encontro por parte do Vaticano) ignorou-se ou não se sabia das ligações de Kim Davis com vários candidatos republicanos à presidência dos EUA. Francisco nos seus discursos públicos evitou acuradamente se apresentar com um “cultural war” [guerra cultural]. Mas alguns planejaram de colocar na mesma sala e na frente do papa a testemunha de um estilo cristão exatamente contrário ao de Francisco.

Quarto ponto. Por mais que o Papa seja informado sobre o mundo, é muito improvável que estivesse a par de quem era a personagem [Kim Davis] e da controvérsia gerada pela sua recusa em obedecer à lei do Estado. Seria interessante conhecer quantos sabiam, na Itália, dois dias antes, quem era a personagem. Mas, certamente, quem organizou o encontro com o Papa Francisco sabia.

Quinto ponto. Não sabemos o que o Papa disse para Kim Davis – a não ser que acreditemos (sem evidências concretas) no que os advogados dela disseram. O presente de um rosário e o apelo a “stay Strong” [fique firme] é algo que o Papa daria e diria a todos.

Papa João XIII, em 1963, também presenteou um rosário para a filha de Kruschev [Primeiro-Secretário do Partdido Comunista da União Soviética] recebida em audiência, no Vaticano, juntamente com o marido. Rada Kruschev guardou aquele rosário para sempre.

Concluindo, que mensagens o encontro transmite? (Que teve uma repercussão muito maior nos EUA que no exterior)
PAPA FRANCISCO
Encontra-se, privadamente, com seu amigo Yayo Grassi (à esquerda), um homem abertamente gay,
o qual trouxe o seu parceiro, Iwan Bagus (no centro da foto), bem vários outros amigos
até a Embaixada do Vaticano em Washington, em 23 de setembro de 2015

DUAS COISAS

Em primeiro lugar, não diz nada do que o Papa pensa dos homossexuais nem do que pensa sobre o matrimônio homossexual. Também as suas afirmações sobre o direito de objeção de consciência, referida na entrevista concedida no voo de volta para Roma, nunca fizeram referência ao caso de Kim Davis. Para compreender Francisco e a questão da homossexualidade na Igreja e na sociedade há os discursos, recentes como Papa e menos recentes como bispo e cardeal. O Sínodo dos bispos que se abre no domingo [04/10/2015] em Roma falará sobre isto.

Em segundo lugar, o encontro entre o Papa e Kim Davis confirma os riscos correlatos à visita de Francisco num país onde os liberais progressistas fazem um esforço para compreender o Papa e onde os conservadores tradicionalistas o entendem bem e tentam calar a mensagem e emitir sinais de confusão, que paradoxalmente são acolhidos mais pelos liberais progressistas que pelos tradicionalistas (que sabem muito sobre o poder na Igreja). A luta interna na Igreja acerca da novidade do pontificado é um elemento essencial para compreender o Papa em geral, e hoje Francisco.

A coisa alarmante – para quem vive a Igreja e conhece o seu tecido institucional – é a tentativa cínica e despudorada de usar a pessoa do papa para marcar um gol ideológico a favor dos opositores do Papa.

Não é estranho que o façam Kim Davis e os seus advogados, mas o estranho é que isto é feito por membros da Igreja – em alguns casos também nas instâncias do poder eclesiástico. O desafio de Francisco é reorientar a Igreja, à luz das questões atuais, sem usar o método de expurgos [dos adversários] e sem nomear os "entusiastas de Bergoglio" para os postos-chave no governo da Igreja. A misericórdia do Papa Francisco se estende também aos opositores.

O incidente de Kim Davis faz parte de um cenário mais amplo da luta entre o pontificado da reforma com misericórdia e um leninismo clerical agonizante.

Traduzido do italiano pelo IHU On-Line. Para acessar a versão original deste artigo, clique aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 2 de outubro de 2015 – Internet: clique aqui.

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