UMA ARMADILHA PARA PAPA FRANCISCO: KIM DAVIS
Massimo
Faggioli
Professor
de História do Cristianismo na University of St. Thomas (EUA)
HUFFINGTON
POST
01-10-2015
Estudioso comenta o incidente midiático causado pelo
encontro entre o Papa Francisco e Kim Davis que, segundo ele, “risca obscurecer
o sucesso da visita do Papa nos EUA”.
O
incidente midiático causado pelo encontro entre o Papa Francisco e Kim Davis
risca obscurecer o sucesso da visita do Papa nos Estados Unidos da América
(EUA).
É
um incidente que diz muito do clima criado nos EUA em torno da visita do Papa e
da incapacidade de algumas pessoas da Igreja receberem Papa Francisco. Não diz
nada da posição do Papa nem sobre o caso concreto de Kim Davis nem sobre a
questão homossexual em geral nem sobre os matrimônios na sociedade civil. Para compreender os contornos do incidente
é preciso que se tenha presente algumas coisas.
Primeiro ponto. Os papas encontram muitas e
variadas pessoas durante as audiências gerais e tanto mais durante as suas
viagens. Os modo de organizar estes encontros varia muito, especialmente quando
o Papa viaja. Um incidente pior coube a Bento
XVI – ele não teve nenhuma culpa – quando encontrou no Vaticano, num dos
encontros com milhares de peregrinos, Rebecca
Kadaga, personagem político de Uganda que se projetou por ocasião do debate
legislativo sobre a criminalização da
homossexualidade.
Segundo ponto. É claro que o encontro
reservado e não público entre o Papa e a funcionária pública de Kentucky [Kim
Davis], presa por ter se negado a encaminhar o documento de matrimônio
homossexual, foi arquitetado por alguém
que forçou a mão do Papa e do seu “entourage” [equipe] mais próximo, de modo a fazê-lo dizer algo que o Papa sempre evitou de
dizer durante toda a sua viagem nos EUA (como também precedentemente).
Os advogados de Kim Davis
fizeram o resto, escolhendo o “timing” [momento] perfeito
para a revelação: ou seja, quando o Papa já tinha deixado o país e numa hora em
que era impossível para o Vaticano reagir. Mas o “never complain, never
explain” [jamais reclamar, jamais explicar]
da rainha Vitória não funciona mais, nem para o Papa, na era do “news cycle” [ciclo
noticioso] 24 por 24 horas.
Terceiro ponto. Que o caso foi muito bem montado se revela não somente pela embaraçada
relutância do Vaticano em comentar o encontro (depois de tê-lo confirmado), mas
pelo clima precedente da visita do papa nos EUA.
No seu discurso aos bispos
americanos o papa alertou-os para a tentação de se usar a cruz como símbolo
para as lutas políticas.
A
visita de Francisco foi uma desilusão para os ideólogos das “guerras culturais”
político-religiosas nos EUA. Ou seja, ele
desiludiu aqueles (também católicos) que tentaram fazer de Kim Davis uma mártir
do contratestemunho da Igreja contra o matrimônio homossexual.
Talvez na Itália (ou quem organizou o
encontro por parte do Vaticano) ignorou-se
ou não se sabia das ligações de Kim Davis com vários candidatos republicanos à
presidência dos EUA. Francisco nos seus discursos públicos evitou acuradamente
se apresentar com um “cultural war” [guerra cultural]. Mas alguns planejaram de colocar na mesma sala e na frente do papa a
testemunha de um estilo cristão exatamente contrário ao de Francisco.
Quarto ponto. Por mais que o Papa seja
informado sobre o mundo, é muito improvável que estivesse a par de quem era a
personagem [Kim Davis] e da controvérsia gerada pela sua recusa em obedecer à
lei do Estado. Seria interessante conhecer
quantos sabiam, na Itália, dois dias antes, quem era a personagem. Mas,
certamente, quem organizou o encontro com o Papa Francisco sabia.
Quinto ponto. Não sabemos o que o Papa
disse para Kim Davis – a não ser que acreditemos (sem evidências concretas) no
que os advogados dela disseram. O
presente de um rosário e o apelo a “stay Strong” [fique firme] é algo que o Papa daria e diria a todos.
Papa João XIII, em 1963, também presenteou
um rosário para a filha de Kruschev [Primeiro-Secretário
do Partdido Comunista da União Soviética] recebida em audiência, no Vaticano,
juntamente com o marido. Rada Kruschev
guardou aquele rosário para sempre.
Concluindo, que mensagens o
encontro transmite? (Que teve uma repercussão muito maior nos EUA que no exterior)
DUAS
COISAS
Em primeiro lugar, não diz nada do que o Papa
pensa dos homossexuais nem do que pensa sobre o matrimônio homossexual. Também as suas afirmações sobre o direito de
objeção de consciência, referida na entrevista concedida no voo de volta para
Roma, nunca fizeram referência ao caso de Kim Davis. Para compreender
Francisco e a questão da homossexualidade na Igreja e na sociedade há os
discursos, recentes como Papa e menos recentes como bispo e cardeal. O Sínodo
dos bispos que se abre no domingo [04/10/2015] em Roma falará sobre isto.
Em segundo lugar, o encontro entre o Papa e
Kim Davis confirma os riscos correlatos
à visita de Francisco num país onde os liberais
progressistas fazem um esforço para compreender o Papa e onde os conservadores tradicionalistas o
entendem bem e tentam calar a mensagem e
emitir sinais de confusão, que paradoxalmente são acolhidos mais pelos liberais
progressistas que pelos tradicionalistas (que sabem muito sobre o poder na
Igreja). A luta interna na Igreja acerca
da novidade do pontificado é um elemento essencial para compreender o Papa em
geral, e hoje Francisco.
A coisa alarmante – para quem vive a Igreja e
conhece o seu tecido institucional – é a tentativa
cínica e despudorada de usar a pessoa do papa para marcar um gol ideológico a
favor dos opositores do Papa.
Não é estranho que o façam
Kim Davis e os seus advogados, mas o estranho é que isto é feito por membros da
Igreja – em
alguns casos também nas instâncias do poder eclesiástico. O desafio de
Francisco é reorientar a Igreja, à luz das questões atuais, sem usar o método
de expurgos [dos adversários] e sem nomear os "entusiastas de Bergoglio"
para os postos-chave no governo da Igreja. A
misericórdia do Papa Francisco se estende também aos opositores.
O
incidente de Kim Davis faz parte de um cenário mais amplo da luta entre o pontificado da reforma com misericórdia
e um leninismo clerical agonizante.
Traduzido do italiano pelo IHU On-Line. Para acessar a versão
original deste artigo, clique aqui.
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