UM SÍNODO QUE FEZ A IGREJA AVANÇAR
Um vocabulário do Sínodo
Alberto
Melloni
Jornal “Corriere della Sera”
Milão – Itália
26-10-2015
Publicamos aqui um "vocabulário" das palavras
do Sínodo de 2015, escolhidas pelo historiador italiano Alberto Melloni,
professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de
Ciências Religiosas João XXIII de Bolonha
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ALBERTO MELLONI Historiador e professor universitário italiano |
SINODALIDADE
Sem
modificar um único cânone, o Papa Francisco deu uma estatura inédita ao Sínodo
dos bispos: mesmo tendo sofrido a ausência dos peritos teólogos que desde
sempre alimentam cada conciliaridade, o Sínodo foi um órgão deliberante. E
todos, hoje, o percebem como tal. Ele colocou novamente na agenda da Igreja –
também das Igrejas nacionais e diocesanas – a sinodalidade como instrumento de
comunhão. "A colegialidade episcopal se manifesta em um caminho de
discernimento espiritual e pastoral" é um princípio operante.
BISPO
Não
é verdade que o Sínodo disse para se abordar a questão dos divorciados
recasados "caso a caso". Teria sido uma banalidade. Ele disse que o
"bispo" é "pastor e cabeça" da sua Igreja e, portanto,
"juiz". Por isso, os seus padres não são os terminais de ordens
centrais, mas produtores da "discretio"
[discernimento] com a qual devem
"acompanhar" as pessoas "de acordo com o ensinamento da Igreja e
as orientações do bispo". E é difícil imaginar que a orientação do bispo
ou dos bispos de uma nação não nasça sinodalmente, para escutar não os quadros,
mas as comunidades.
UNIVERSAL
No
Sínodo, há uma implícita, mas seca reformulação da categoria de
"universal". Não há um poder universal que é exercido em nome da
"Igreja universal" (nunca citada) através da monarquia pontifícia,
guardião da doutrina e hermeneuta da natureza. Tudo foi deslocado para as
comunidades. "Universal" é o adjetivo da fraternidade na família
humana e da declaração "universal" dos direitos humanos.
OBJETIVO
Antes
do Sínodo, em um livro-manifesto alarmado e alarmante, [o cardeal italiano] Ruini
dissera que os divorciados estavam em uma "condição objetiva" de
pecado. A bofetada do Sínodo é firme e implacável: ele diz que "o juízo sobre uma situação objetiva não deve
levar a um juízo sobre a imputabilidade subjetiva", com muitas
citações de um ato do cardeal Herránz do ano 2000. As implicações da tese de
Ruini eram muitas; as desta, ainda mais.
GÊNERO
O
Sínodo abandona as polêmicas sobre as "teorias" do gênero. Ele
denuncia uma "ideologia do gênero", que prospecta "uma sociedade
sem diferenças de sexo" (denúncia tão extrema que não tem imputados e é
politicamente inutilizável). Ele reconhece, contudo, que, "segundo o
princípio cristão, alma e corpo, bem como sexo biológico (sex) e papel sociocultural do sexo (gender) podem ser distinguidos, mas não separados". Se não
tivesse feito isso, a cristologia entraria em colapso.
REINO
"Cristo.
A palavra e a atitude de Jesus mostram claramente que o Reino de Deus é o
horizonte dentro do qual toda relação se define", diz o Sínodo. Contra
aqueles que, há um ano, diziam que bastava repetir "a doutrina",
Francisco mostrou que o trabalho do papa não é fazer repetições do catecismo,
mas compreender mais a fundo as exigências e a graça do Evangelho. Uma
"boa notícia" que supera as odiosas categorizações dos seres humanos
em namorados, noivos, casados, quase casados, não casados, pré-casados,
pós-casados, conviventes, divorciados etc.
PESSOAS HOMOSSEXUAIS
O
Sínodo não chamou de amor aquilo que é vivido entre pessoas do mesmo sexo (mas
reconheceu que, nas pessoas unidas pelo casamento civil e nas coabitações, pode
haver "aqueles sinais de amor que propriamente correspondem ao reflexo do
amor de Deus"). Mas disse que cada pessoa deve ser "respeitada na sua
dignidade e acolhida com respeito". Para alguns países, incluindo a
Itália, isso já seria um progresso.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos
– Notícias –
Terça-feira, 27 de outubro de 2015 – Internet: clique aqui.
FATO DECISIVO PARA
O SÍNODO
Os bispos alemães foram o
motor do Sínodo
Religión
Digital
25-10-2015
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Christoph Schönborn - Cardeal-arcebispo de Viena (Áustria): teve uma atuação fundamental no sentido de articular e dar unidade às diversas propostas, posturas e pensamentos dos bispos de língua alemã |
O
chamado grupo “Germânico” era um dos
treze grupos linguísticos que trabalhou, durante três semanas, no Vaticano, a
respeito dos desafios que a família moderna gera para a Igreja. Suas
contribuições foram apreciadas por unanimidade pelos cerca de 400 bispos e
cardeais convocados pelo Papa no Vaticano.
Diferente
do grupo de língua francesa, “Gallicus”,
onde a convivência entre prelados europeus, africanos e canadenses não foi
sempre fácil, com discussões em certas ocasiões azedas, os “germânicos” (alemães, austríacos, suíços) fizeram propostas
originais.
Os cardeais, todos teólogos
brilhantes e cultos, com posições muito variadas (conservadores,
progressistas, moderados), trabalharam
juntos “como uma grande família”, afirmaram vários observadores.
Os
cardeais Reinhard Marx, Walter Kasper, símbolo do progressismo
por suas posições de abertura, Christoph
Schönborn, promotor de uma igreja moderada que escuta o mundo, e Gerhard Ludwig Müller, intransigente
guardião do dogma como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, líder dos
conservadores, encontraram em quase um mês de deliberações o que se chamou de “via alemã” ao Sínodo.
Até
o inflexível Müller não se opôs à solução
alcançada no documento final que aceita
dar a comunhão, “de acordo com o caso” e após um processo de elaboração e “discernimento”,
aos divorciados em segunda união civilmente, que assim desejarem.
Trata-se
de acompanhar a pessoa em uma espécie de tomada de consciência para voltar a
ter acesso aos sacramentos: confissão e
comunhão, com o que não se violaria a doutrina da Igreja, que considera o
matrimônio indissolúvel.
Uma
comissão de teólogos estudará a proposta posteriormente.
Os cardeais e bispos de
língua alemã consideram que o conceito de matrimônio evoluiu e progrediu, em 2.000 anos de história
do cristianismo, e que continua nesse processo.
Portanto,
também propõem que se conceda um prazo
aos casais para que amadureçam a ideia de contrair matrimônio e pedem que
se deixe de forçá-los a tomar uma decisão: “ou tudo ou nada”.
Traduzido do espanhol pela Cepat. Acesse a versão original desse
artigo, clicando aqui.
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