Francisco anuncia a urgência de “uma sã descentralização” da Igreja e uma “conversão do Papado”
Jesús Bastante
Religión Digital
17-10-2015
“A única autoridade, também a do Bispo de Roma, é
a do serviço:
o único poder é o poder da cruz...
O caminho da sinodalidade é o que Deus espera para a
Igreja no terceiro milênio.”
afirmou papa Francisco
E,
de imediato, soprou o Espírito na metade da Aula Paulo VI. Com todos os Padres Sinodais, e durante a celebração do 50º aniversário do Sínodo dos Bispos, o
Papa Francisco anunciou a urgência de “uma
sadia descentralização” da Igreja que leve a “uma conversão do Papado” e da autoridade na Igreja, onde se escute, primeiro e acima de tudo, o
povo de Deus, “que participa da
função profética de Cristo”.
Francisco
entrou na aula enquanto o coro entoava “Heal
the World” [Cure o Mundo], o hino
que Michael Jackson compôs para lutar
por um mundo mais unido contra as injustiças. Era raro escutar o “rei do pop”
na Aula Paulo VI, mas logo surgiu uma anedota quando, após uma espécie de
intermináveis intervenções (desde Baldisseri e Schönborn, passando por
representantes das igrejas dos cinco continentes), Bergoglio tomou a palavra para assinalar que “a única autoridade, também a do Bispo de Roma, é a do serviço: o único
poder é o poder da cruz”.
“Desde o início do meu
ministério como Bispo de Roma eu quis valorizar o Sínodo, uma das heranças mais
bonitas do Concílio Vaticano II”, iniciou o Papa, destacando a beleza da “colegial
responsabilidade pastoral”. “O mundo no qual vivemos e onde somos chamados a
servir, mesmo com suas contradições, exige da Igreja potenciar as sinergias, em
todos os âmbitos de sua missão”, sublinhou, indicando que “o caminho da sinodalidade é o que Deus espera para a Igreja no
terceiro milênio”.
Um
caminho cujo significado “está contido na palavra ‘Sínodo’. Caminhar juntos: leigos, pastores, bispo de
Roma. É um conceito fácil de expressar as palavras, mas difícil de levar à
prática”, constatou Bergoglio, o qual deixou claro, face aos profetas de
desventuras e os peritos em descartes, que “o
Povo de Deus está constituído por todos os batizados, chamados a um sacerdócio
santo”.
Trata-se
da “infalibilidade dos que creem”,
do povo santo, ao qual já se referira Bergoglio na Evangelii Gaudium. “O povo de Deus é santo em razão desta unção que
o torna infalível. Qualquer batizado, seja qual for sua função na Igreja, ou
seu grau de instrução, é um sujeito ativo de evangelização. É inadequado um
esquema de evangelização com ‘atores qualificados’; no qual o restante do povo
de Deus seja mero receptor de suas ações”, criticou o Papa, que recordou que o “sensus fidei” impede “separar
rigidamente os mestres e os discípulos”. É por isso que “quis consultar o Povo de Deus” nos
questionários que precederam o Sínodo da Família.
“Uma
consulta de nenhum modo poderia bastar para escutar o ‘sensus fidei’. Mas, não é possível falar de família sem
interpelar as famílias, ver suas dores, esperanças e angústias”, justificou
Francisco, o qual acrescentou que através das respostas aos dois questionários
“tivemos a possibilidade de escutar pelo menos algumas dessas questões que a
tocam acerca da qual e sobre a qual têm tanto a dizer”.
"Uma
Igreja sinodal é uma Igreja que escuta.
Escutar e sentir. É uma escuta recíproca: povo fiel, colégio episcopal, bispo
de Roma. Uns escutando os outros e todos
à escuta do Espírito Santo, o Espírito de verdade, para saber o que diz Ele à
Igreja”.
Neste
ponto, “o Sínodo de Bispos é o ponto de convergência deste dinamismo”. “O
caminho sinodal se inicia escutando o povo, que pode participar na função
profética de Cristo, seguindo o princípio da Igreja do primeiro milênio. O
caminho continua escutando os pastores através dos Padres Sinodais, autênticos responsáveis
e intérpretes da fé de toda a Igreja, que devemos saber distinguir da espessura
da opinião pública”.
“Na
véspera do Sínodo do ano passado – recordou o Papa -, afirmava que pelo
Espírito Santo, tenhamos o dom da escuta. Escuta
de Deus, para ouvir o grito do povo. Escuta do povo, para respirar a vontade à
qual Deus nos chama”.
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PAPA FRANCISCO Discursando durante cerimônia de comemoração do 50º Aniversário de Instituição do Sínodo dos Bispos Vaticano, 17 de outubro de 2015 |
Finalmente,
o caminho sinodal “culmina na escuta do Bispo de Roma, chamado a pronunciar-se
como pastor de todos os cristãos, não a partir de sua pessoal convicção, mas
sim como supremo garante da obediência e conformidade da Igreja à vontade de
Deus, ao Evangelho de Cristo e à tradição da Igreja”, explicou o Papa.
“O fato de que o Sínodo atue sempre cum Petro et sub Petro – não só cum Petro, também sub Petro – não é uma limitação da liberdade, senão uma garantia da
unidade”, a Igreja ”é necessária para entender o ministério hierárquico. “Se sustentamos que Igreja e Sínodo são
sinônimos, nenhum pode ser elevado por cima do outro. Na Igreja é necessário
que qualquer um se abaixe para estar a serviço dos irmãos durante o caminho”.
Do Papa até os fiéis.
“Jesus
constituiu a Igreja pondo em seu vértice o colégio apostólico, no qual Pedro é
a rocha que deve confirmar seus irmãos na fé. Porém nesta Igreja, como numa
pirâmide dada a volta, o vértice se coloca no lugar da base, por isso os que exercem a autoridade se chamam
“ministros”, porque são os mais pequenos de todos. Servindo ao povo de
Deus”, recordou o Papa aos bispos. E colocou a si mesmo como exemplo, como
vigário de Cristo, “vigário do mesmo Jesus que na Última Ceia se rebaixou a
lavar os pés dos apóstolos”.
“Os sucessores de Pedro não
são senão os servos dos servos de Deus”, recordou o Papa. E foi além: “a única autoridade é a autoridade do serviço, o único poder é o poder
da cruz”. As palavras de Jesus, ‘Quem quiser ser o primeiro, seja o
servidor”, resultam fundamentais.
“Aqui
radica o ministério da Igreja”, sublinhou. “Numa Igreja sinodal o Sínodo de
Bispos é somente a manifestação mais evidente de um dinamismo de comunhão que
inspira todas as decisões eclesiais (...). Assim, o Sínodo, que representa o
episcopado católico, se converte em expressão da colegialidade episcopal,
dentro de uma Igreja toda sinodal”, reclamou Francisco, que pôs como exemplo as
igrejas particulares, as províncias e regiões episcopais, as conferências
episcopais... e o Papado.
“Numa Igreja sinodal não é
oportuno que o Papa substitua o episcopado local no discernimento de cada
problemática. Neste sentido, vejo a necessidade de se proceder a uma saudável
descentralização”, proclamou Francisco, arrancando a única ovação que interrompeu o seu
discurso.
Por
isso, o Papa mostrou seu empenho em “edificar uma Igreja sinodal em missão, à
qual todos sejamos chamados, segundo a função que o Senhor nos diga”. Leigos,
bispos, Papa de Roma. Com implicações ecumênicas, que implicam o próprio
“exercício do primado petrino”.
“Estou
convencido de que, numa Igreja sinodal, também o exercício do primado petrino
receberá maior luz. O Papa não está por
si mesmo, por cima da Igreja, e sim dentro dela como batizado entre batizados;
dentro do colégio episcopal como bispo de bispos, e chamado, por sua vez,
como sucessor de Pedro, a guiar a Igreja de Roma, a qual preside no amor a toda
a Igreja”.
Por
isso, ele reclamou “a necessidade, a
urgência de pensar numa conversão do Papado”, para chegar “a uma igreja sinodal
num mundo que invoca a participação, a solidariedade e a transparência”.
“Como
Igreja que caminha junto aos homens, participe dos trabalhos da História,
custodiamos o sonho da dignidade inviolável do povo e do serviço da autoridade,
poderão ajudar-nos a que a sociedade civil se edifique na justiça e na
fraternidade, gerando um mundo mais belo para as gerações posteriores”,
concluiu, num discurso histórico.
Traduzido do
espanhol por Benno Dischinger.
Para acessar a versão original deste artigo, clique aqui.
COMEMORAÇÃO DO CINQUENTENÁRIO DA INSTITUIÇÃO DO
SÍNODO DOS BISPOS
DISCURSO DO SANTO PADRE FRANCISCO
Sala Paulo VI – Vaticano
Sábado, 17 de Outubro de 2015
Beatitudes,
Eminências, Excelências, Irmãos e Irmãs!
A
comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, em pleno
andamento da Assembleia Geral Ordinária, é para todos nós motivo de alegria,
louvor e agradecimento ao Senhor. Desde o Concílio Vaticano II até à atual
Assembleia, temos vindo a experimentar de forma cada vez mais intensa a
necessidade e a beleza de «caminhar juntos».
Nesta
feliz circunstância, desejo saudar cordialmente o Senhor Cardeal Lorenzo
Baldisseri, Secretário-Geral, juntamente com o Subsecretário D. Fabio Fabene,
os oficiais, os consultores e restantes colaboradores da Secretaria Geral do
Sínodo dos Bispos, pessoas que, nos bastidores, trabalham todos os dias pela
noite adentro. Juntamente com eles, saúdo e agradeço pela sua presença os
padres sinodais, os outros participantes na Assembleia em curso e ainda quantos
estão presentes nesta Sala.
Neste
momento, queremos recordar também aqueles que, ao longo de cinquenta anos,
trabalharam ao serviço do Sínodo, começando pelos sucessivos
Secretários-Gerais: os Cardeais Władysław Rubin, Jozef Tomko, Jan Pieter
Schotte e o Arcebispo Nikola Eterović. Aproveito esta ocasião para expressar do
fundo do coração a minha gratidão a quantos, vivos ou mortos, contribuíram com
generoso e competente empenho para o desenrolar da atividade sinodal.
Desde
o início do meu ministério como Bispo de Roma, pretendi valorizar o Sínodo, que constitui um dos legados mais preciosos da
última sessão conciliar. [1] Segundo o Beato
Paulo VI, o Sínodo dos Bispos devia
repropor a imagem do Concílio Ecumênico e refletir o seu espírito e o seu
método. [2] O mesmo Pontífice previa que o
organismo sinodal, «com o passar do tempo, poderia ser aperfeiçoado». [3] Fazia-lhe eco, vinte anos depois, São João Paulo
II ao afirmar que «talvez este instrumento possa tornar-se ainda melhor. Talvez a responsabilidade colegial possa
expressar-se no Sínodo de uma forma ainda mais plena». [4] Por fim, em 2006, Bento XVI aprovava algumas
variações no Ordo Synodi Episcoporum,
à luz também das disposições do Código de Direito Canônico e do Código dos
Cânones das Igrejas Orientais, nesse ínterim promulgados. [5]
Devemos
continuar por esta estrada. O mundo, em que vivemos e que somos chamados a amar
e servir mesmo nas suas contradições, exige da Igreja o reforço das sinergias
em todas as áreas da sua missão. O
caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do
terceiro milênio.
* * *
Aquilo
que o Senhor nos pede, de certo modo está já tudo contido na palavra «Sínodo». Caminhar juntos – leigos, pastores, Bispo de Roma – é um conceito
fácil de exprimir em palavras, mas não é assim fácil pô-lo em prática.
Depois
de ter reafirmado que o Povo de Deus é constituído por todos os batizados
chamados a «serem casa espiritual, sacerdócio santo», [6]
o Concílio Vaticano II proclama que «a totalidade dos fiéis que receberam a
unção do Santo (cf. 1Jo 2,20.27), não pode enganar-se na fé; e esta sua
propriedade peculiar manifesta-se por meio do sentir sobrenatural da fé do Povo
todo, quando este, desde os bispos até ao último dos leigos fiéis, manifesta
consenso universal em matéria de fé e costumes». [7]
Aquele famoso infalível «in credendo»: não pode enganar-se na fé.
Na
exortação apostólica Evangelii gaudium,
sublinhei como «o povo de Deus é santo em virtude desta unção, que o torna
infalível “in credendo”», [8] acrescentando que «cada um dos batizados,
independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé,
é um sujeito ativo de evangelização, e seria
inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes
qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas ações».
[9] O sensus
fidei impede uma rígida separação entre Ecclesia
docens e Ecclesia discens [trad.:
Igreja docente / que ensina =
hierarquia e Igreja discente / que
aprende = os leigos], já que também
o Rebanho possui a sua «intuição» para discernir as novas estradas que o Senhor
revela à Igreja. [10]
Foi
esta convicção que me guiou ao querer que o Povo de Deus fosse consultado na
preparação do duplo encontro sinodal sobre a família, como habitualmente se tem
feito e faz com qualquer «Lineamenta».
Certamente, uma consulta do gênero não poderia de modo algum ser suficiente
para auscultar o sensus fidei [trad.:
sentido da fé]. Mas, como teria sido possível falar da família sem interpelar as
famílias, auscultando as suas alegrias e as suas esperanças, os seus
sofrimentos e as suas angústias? [11]
Através das respostas aos dois questionários enviados às Igrejas particulares,
tivemos a possibilidade de ouvir pelo menos algumas delas a propósito de
questões que lhes tocam de perto e sobre as quais têm muito a dizer.
Uma Igreja sinodal
é uma Igreja da escuta, ciente de que escutar «é mais do que ouvir». [12] É uma escuta
recíproca, onde cada um tem algo a
aprender. Povo fiel, Colégio Episcopal, Bispo de Roma: cada um à escuta dos
outros; e todos à escuta do Espírito Santo, o «Espírito da verdade» (Jo 14,17),
para conhecer aquilo que Ele «diz às Igrejas» (Ap 2,7).
O Sínodo dos Bispos
é o ponto de convergência deste dinamismo de escuta, efetuado a todos os níveis
da vida da Igreja.
O caminho sinodal começa por escutar o
povo, que «participa também da função profética de Cristo», [13] de acordo com um princípio caro à Igreja do
primeiro milênio: «Quod omnes tangit ab
omnibus tractari debet» [trad.: Tudo
deve ser tratado por todos]. O
caminho do Sínodo continua escutando os pastores. Através dos padres
sinodais, os bispos agem como autênticos guardiões, intérpretes e testemunhas
da fé de toda a Igreja, que devem saber cuidadosamente distinguir dos fluxos
frequentemente mutáveis da opinião pública. Na véspera do Sínodo do ano
passado, afirmava: «Para os padres
sinodais pedimos antes de mais nada, do Espírito Santo, o dom da escuta: escuta
de Deus até ouvir com Ele o grito do povo; escuta do povo, até respirar nele a
vontade a que Deus nos chama». [14]
Finalmente, o caminho sinodal culmina na
escuta do Bispo de Roma, chamado a pronunciar-se como «Pastor e Doutor de
todos os cristãos»: [15] não a partir das suas convicções
pessoais, mas como suprema testemunha da fides
totius Ecclesiae [trad.: fé de toda a
Igreja], «garante da obediência e da conformidade da Igreja com a vontade
de Deus, o Evangelho de Cristo e a Tradição da Igreja». [16]
O
fato de o Sínodo agir sempre cum Petro et
sub Petro [trad.: com Pedro e sob
Pedro] – por conseguinte, não só cum
Petro, mas também sub Petro – não é uma restrição da liberdade, mas uma
garantia da unidade. Com efeito, o
Papa é, por vontade do Senhor, «perpétuo e visível fundamento da unidade, não
só dos bispos, mas também da multidão dos fiéis». [17]
Ligado a isto está o conceito de «ierarchica
communio» [trad.: comunhão
hierárquica], usado pelo Concílio Vaticano II: os bispos estão unidos ao Bispo de Roma pelo vínculo da comunhão
episcopal (cum Petro) e, ao mesmo
tempo, estão hierarquicamente sujeitos a ele como Cabeça do Colégio (sub Petro). [18]
* * *
A
sinodalidade, como dimensão constitutiva da Igreja, oferece-nos o quadro interpretativo mais
apropriado para compreender o próprio ministério hierárquico. Se
compreendermos que, como diz São João Crisóstomo, «Igreja e Sínodo são sinônimos», [19]
– pois a Igreja nada mais é do que este
«caminhar juntos» do Rebanho de Deus pelas sendas da história ao encontro de
Cristo Senhor –, entenderemos também que dentro dela ninguém pode ser «elevado» acima dos outros. Pelo
contrário, na Igreja, é necessário que alguém «se abaixe» pondo-se ao serviço
dos irmãos ao longo do caminho.
Jesus
constituiu a Igreja, colocando no seu vértice o Colégio Apostólico, no qual o
apóstolo Pedro é a «rocha» (cf. Mt 16,18), aquele que deve «confirmar» os
irmãos na fé (cf. Lc 22,32). Mas nesta
Igreja, como numa pirâmide invertida, o vértice encontra-se abaixo da base.
Por isso, aqueles que exercem a
autoridade chamam-se «ministros», porque, segundo o significado original da
palavra, são os menores no meio de todos.
É servindo o Povo de Deus que cada bispo se torna, para a porção do Rebanho que
lhe está confiada, vicarius Christi
[trad.: vigário de Cristo = aquele
que faz as vezes de Cristo], [20] vigário
daquele Jesus que, na Última Ceia, Se ajoelhou a lavar os pés dos Apóstolos
(cf. Jo 13,1-15). E, num tal horizonte, o Sucessor de Pedro nada mais é do que servus servorum Dei [trad.: servo dos servos de Deus]. [21]
Nunca nos
esqueçamos disto! Para os discípulos de Jesus, ontem, hoje e sempre, a única
autoridade é a autoridade do serviço, o único poder é o poder da cruz, segundo
as palavras do Mestre: «Sabeis que os
chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem
sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre
vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser
ser o primeiro, seja vosso servo» (Mt 20,25-27). «Não seja assim entre vós»:
nesta frase, chegamos ao próprio coração do mistério da Igreja – «não seja
assim entre vós» – e recebemos a luz necessária para compreender o serviço
hierárquico.
* * *
Numa
Igreja sinodal, o Sínodo dos Bispos
é apenas a manifestação mais evidente dum dinamismo de comunhão que inspira
todas as decisões eclesiais.
O
primeiro nível de exercício da sinodalidade realiza-se nas Igrejas particulares [dioceses
/ arquidioceses / prelazias]. Depois de recordar a nobre instituição do Sínodo diocesano, no qual presbíteros e
leigos são chamados a colaborar com o bispo para o bem de toda a comunidade
eclesial, [22] o Código de Direito Canônico dedica amplo espaço aos habitualmente
chamados «organismos de comunhão» da
Igreja particular: o Conselho Presbiteral, o Colégio dos Consultores, o
Cabido de Cônegos e o Conselho Pastoral. [23]
Somente na medida em que estes organismos permanecerem ligados com «a base» e
partirem do povo, dos problemas do dia-a-dia, é que pode começar a tomar forma
uma Igreja sinodal: tais instrumentos,
que por vezes se movem com fadiga, devem ser valorizados como ocasião de escuta
e partilha.
O
segundo nível é o das Províncias e das Regiões Eclesiásticas,
dos Concílios Particulares e, de
modo especial, das Conferências
Episcopais. [24] Devemos refletir para se
realizarem ainda mais, através destes organismos, as instâncias intermédias da
colegialidade, talvez integrando e atualizando alguns aspectos do ordenamento
eclesiástico antigo. O desejo do
Concílio de que tais organismos possam contribuir para aumentar o espírito da
colegialidade episcopal ainda não se realizou plenamente. Estamos a meio do
caminho, com uma parte do caminho. Numa Igreja sinodal, como disse, «não convém que o Papa substitua os
episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem
nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma
salutar “descentralização”». [25]
O
último nível é o da Igreja universal. Aqui o Sínodo dos
Bispos, representando o episcopado católico, torna-se expressão da
colegialidade episcopal dentro duma Igreja toda sinodal. [26] Duas palavras diferentes: «colegialidade episcopal» e «Igreja
toda sinodal». Isto manifesta a collegialitas affectiva [trad.: colegialidade afetiva], a qual pode
mesmo tornar-se, nalgumas circunstâncias, «efetiva»,
que une os Bispos entre si e com o Papa na solicitude pelo Povo de Deus. [27]
* * *
O
compromisso de edificar uma Igreja
sinodal – missão a que todos somos chamados, cada qual na função que o
Senhor lhe confia – está cheio de implicações
ecumênicas. Por esta razão ainda recentemente, ao dirigir-me a uma
delegação do patriarcado de Constantinopla, reafirmei a convicção de que «o
exame atento do modo como se entrelaçam na vida da Igreja o princípio da
sinodalidade e o serviço daquele que preside oferecerá uma contribuição
significativa para o progresso das relações entre as nossa Igrejas». [28]
Estou
convencido de que, numa Igreja sinodal, também o exercício do primado petrino
poderá receber maior luz. O Papa não
está, sozinho, acima da Igreja; mas, dentro dela, como batizado entre batizados
e, dentro do Colégio Episcopal, como bispo entre os bispos, chamado
simultaneamente – como Sucessor do apóstolo Pedro – a guiar a Igreja de Roma
que preside no amor a todas as Igrejas. [29]
Ao
mesmo tempo em que reitero a necessidade e a urgência de pensar «numa conversão do papado», [30] de bom grado repito as palavras do meu
predecessor, o Papa João Paulo II: «Como Bispo de Roma sei bem (…) que a
comunhão plena e visível de todas as Comunidades, nas quais em virtude da
fidelidade de Deus habita o seu Espírito, é o desejo ardente de Cristo. Estou
convicto de ter a este propósito uma responsabilidade particular, sobretudo
quando constato a aspiração ecumênica da maior parte das Comunidades cristãs, e
quando ouço a solicitação que me é dirigida para encontrar uma forma de
exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao que é essencial da sua
missão, se abra a uma situação nova». [31]
O
nosso olhar estende-se também para a humanidade. Uma Igreja sinodal é como estandarte erguido entre as nações (cf.
Is 11,12) num mundo que, apesar de invocar participação, solidariedade e
transparência na administração dos assuntos públicos, frequentemente entrega o
destino de populações inteiras nas mãos gananciosas de grupos restritos de
poder. Como Igreja que «caminha junta» com os homens, compartilhando as
dificuldades da história, cultivamos o sonho de que a redescoberta da dignidade inviolável dos povos e da função de serviço
da autoridade poderá ajudar também a sociedade civil a edificar-se na justiça e
na fraternidade, gerando um mundo mais belo e mais digno do homem para as
gerações que hão de vir depois de nós. [32]
Obrigado.
N
O T A S
[1]
Cf. FRANCISCO, Carta ao Secretário-Geral
do Sínodo dos Bispos, Card. Lorenzo Baldisseri, por ocasião da elevação à
dignidade episcopal do Subsecretário, Mons. Fabio Fabene, 1 de Abril de
2014.
[2]
Cf. BEATO PAULO VI, Discurso no início
dos trabalhos da I Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, 30 de
Setembro de 1967.
[3]
BEATO PAULO VI, Motu proprio Apostolica
sollicitudo, 15 de Setembro de 1965, proêmio.
[4]
SÃO JOÃO PAULO II, Discurso no
encerramento da VI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, 29 de
Outubro de 1983.
[5]
Cf. AAS 98 (2006), 755-779.
[6]
CONC. ECUM. VAT. II, Constituição dogmática Lumen
gentium, 21 de Novembro de 1964, 10.
[7]
Ibid., 12.
[8]
FRANCISCO, Exortação apostólica Evangelii
gaudium, 24 de Novembro de 2013, 119.
[9]
Ibid., 120.
[10]
Cf. FRANCISCO, Discurso no Encontro com
os Bispos responsáveis do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) reunidos
em Comissão de Coordenação, Rio de Janeiro, 28 de Julho de 2013, 5, 4;
IDEM, Discurso no Encontro com o Clero,
Pessoas de Vida Consagrada e Membros dos Conselhos Pastorais, Assis, 4 de
Outubro de 2013.
[11]
Cf. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Constituição pastoral Gaudium et spes, 7 de Dezembro de 1965, 1.
[12]
FRANCISCO, Exortação apostólica Evangelii
gaudium, 171.
[13]
CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Constituição dogmática Lumen gentium, 12.
[14]
FRANCISCO, Discurso na Vigília de Oração
de preparação para o Sínodo sobre a Família, 4 de Outubro de 2014.
[15]
CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO I, Constituição dogmática Pastor Aeternus, 18 de Julho de 1870, cap. IV: Denz. 3074. Cf. Código de Direito Canônico, cân. 749, § 1.
[16]
FRANCISCO, Discurso na conclusão da III
Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, 18 de Outubro de
2014.
[17]
CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Constituição dogmática Lumen gentium, 23. Cf. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO I, Constituição
dogmática Pastor Aeternus, Prólogo: Denz. 3051.
[18]
Cf. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Constituição dogmática Lumen gentium, 22; Decreto Christus
Dominus, 28 de Outubro de 1965, 4.
[19]
SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, Explicatio in
Psalmos, 149: PG 55, 493.
[20]
Cf. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Constituição dogmática Lumen gentium, 27.
[21]
Cf. FRANCISCO, Discurso na conclusão da
III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, 18 de Outubro de
2014.
[22]
Cf. Código de Direito Canônico, câns. 460-468.
[23]
Cf. ibid., câns. 495-514.
[24]
Cf. ibid., câns. 431-459.
[25]
FRANCISCO, Exortação apostólica Evangelii
gaudium, 16. Cf. ibid., 32.
[26]
Cf. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Decreto Christus
Dominus, 5; Código de Direito Canônico, câns. 342-348.
[27]
Cf. SÃO JOÃO PAULO II, Exortação apostólica pós-sinodal Pastores gregis, 16 de Outubro de 2003, 8.
[28]
FRANCISCO, Discurso à Delegação Ecumênica
do Patriarcado de Constantinopla, 27 de Junho de 2015.
[29]
Cf. SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA, Epistula
ad Romanos, Proêmio: PG 5, 686.
[30]
FRANCISCO, Exortação apostólica Evangelii
gaudium, 32.
[31]
SÃO JOÃO PAULO II, Carta encíclica Ut
unum sint, 25 de Maio de 1995, 95.
[32]
Cf. FRANCISCO, Exortação apostólica Evangelii
gaudium, 186-192; Carta encíclica Laudato
si’, 24 de Maio de 2015, 156-162.
Fonte: Santa Sé – Francisco – Discursos – 2015 – Outubro – Internet: clique aqui.
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