O QUE SE PASSA ENTRE PAIS E FILHOS HOJE?
Falhas nossas
Lee Siegel*
Por que os pais estão tão controladores e obcecados com
a perfeição dos filhos?
Talvez porque eles estejam perdendo o controle
de si mesmos.
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MUNDO BOLHA No fundo é isso que muitos pais e instituições de ensino pretendem fazer! Porque, lá fora, as coisas se tornam bárbaras, cruéis, implacáveis! |
Hoje,
nos Estados Unidos existe uma nova
cultura da guerra, que não tem muito a ver com a velha cultura da guerra.
Nos anos 90, as pessoas discutiam a respeito do número excessivo de “autores
brancos mortos” nas listas de leituras do currículo da faculdade. Agora, este
conflito parece bizarro. A inclusão de escritores de diferentes gêneros e
raças, e de diferentes países no que se refere a grandes obras literárias,
evidentemente não prejudicou de modo algum o espírito americano.
Esta
nova cultura na realidade tem menos a ver com cultura do que com psicologia.
Ela nasce de determinadas tendências
sociais inquietantes. As taxas de
suicídios entre adolescentes são mais elevadas de que nunca. O mesmo se pode
dizer da taxa de doenças mentais. Ambas se aplicam particularmente aos
estudantes universitários, que lotam os centros de saúde mental dos câmpus em
busca de ajuda.
Um
artigo publicado recentemente pela revista Psychology
Today pinta um quadro preocupante do que está ocorrendo com os
universitários nos Estados Unidos. O artigo trata do fenômeno que chama de “declínio da resistência dos estudantes”.
Eles aparentemente não são capazes de
tolerar qualquer surpresa adversa que a vida possa colocar em seu caminho.
Uma estudante corre para o psicólogo da escola afirmando que ficou traumatizada
com a colega que a chamou de “puta”. Duas estudantes que moravam juntas no
mesmo apartamento fora do câmpus chamaram a polícia ao ver um camundongo. Os policiais
chegaram e montaram uma ratoeira. O artigo prossegue contando em detalhes a causa mais comum da ansiedade que afeta
os estudantes universitários: o medo de serem reprovados. Qualquer nota que
não seja A, qualquer revés acadêmico ou mesmo pessoal, faz com que estes jovens
caiam num abismo de ansiedade que às vezes acaba em suicídio.
Outro
artigo, publicado recentemente na revista Atlantic,
tratava da questão do aumento da sensibilidade entre os jovens de uma maneira
diferente. O artigo da Psychology Today
enfatizava o quanto estes estudantes sofrem. O da Atlantic alertava contra o fato de que algumas faculdades e universidades estão tentando proteger os egos
frágeis destes jovens. E referia-se principalmente a dois recentes
fenômenos: as microagressões e as advertências. As microagressões são
afirmações ou perguntas que parecem inócuas, mas podem implicar algum tipo de
violência. Perguntar a um estudante latino ou asiático onde ele nasceu é
considerado uma microagressão.
As
advertências são sugestões de que o estudante deve tomar cuidado com o livro
que vai ler ou o filme que escolheu para ver, porque poderá ofendê-lo ou
perturbá-lo. O ensaio usa o exemplo do romance O Grande Gatsby. Como o livro de Fitzgerald contém exemplos de
misoginia e abuso psicológico, qualquer professor que desse o romance como
matéria seria obrigado, antes de mais nada, a avisar os estudantes a respeito
do assunto de que ele trata.
As tentativas mais
consequentes e dramáticas de proteger os estudantes do perigo psicológico ocorrem,
evidentemente, a respeito do sexo. A incidência de estupros - ou, segundo os céticos,
a percepção das jovens de serem estupradas - também está aumentando nas
universidades. Em razão disso, faculdades e universidades decidiram adotar o
que chamam de “consentimento afirmativo” entre dois parceiros sexuais. Ele é
definido como uma “decisão afirmativa, inequívoca e consciente de cada
participante de envolver-se numa atividade sexual mutuamente aceita”. O
consentimento precisa ocorrer ao longo de todo o encontro sexual.
Tudo
isso é facilmente ridicularizado. Se você tiver de emitir uma advertência para
cada grande obra literária que leu, jamais começará a ler o que quer que seja.
Emitir uma advertência para a Ilíada
de Homero exigiria dias para que ela fosse concluída. Ou para Rei Lear, de Shakespeare, poderia levar
meses. Na época em que os estudantes estivessem preparados para sentar e ler,
já teriam saído da faculdade.
As
microagressões exigiriam que cada estudante fosse acompanhado por um advogado
no trajeto de uma classe para outra, sem falar para participar de festas e de
outros eventos sociais. Quanto às leis sobre consentimento afirmativo, cada
encontro sexual consistiria de dezenas de pessoas: os dois participantes, seus
respectivos advogados, os advogados dos advogados - que ficariam em alerta com
a possibilidade de uma microagressão contra os principais advogados - e uma
multidão de tabeliães, taquígrafos e mensageiros. Seria preciso alugar um salão
somente para ter uma relação sexual.
Tudo
muito engraçado, é claro. Mas o
constante aumento da ansiedade, da depressão e dos suicídios entre os jovens
não é nada divertido.
Os
especialistas explicaram quais são as forças que, em sua opinião, estão por
trás destas terríveis tendências. Na maioria das vezes, tudo remonta aos pais, que pressionam incrivelmente os filhos a terem
sucesso. Logo, os filhos não se
perdoam quando falham. E como pais
controladores tomam conta da vida dos filhos, deixando-lhes pouca
autonomia, os filhos crescem e se tornam adultos jovens, desamparados. Eles não sabem tolerar agressões de outras
pessoas, ou os contratempos normais da vida.
Tudo
isso me parece a pura verdade, só isso. Entretanto, não leva em conta o motivo pelo qual os pais se tornaram tão
obcecados com a perfeição dos filhos e tão controladores.
A
verdade mesmo, que poucas pessoas se dispõem a considerar, é que a ansiedade e a depressão estão se tornando
mais predominantes também entre os adultos. Há poucos indivíduos nos
Estados Unidos com mais de 30 anos que não tomam algum tipo de medicamento para
inibir a ansiedade e a depressão. Parte do motivo disso é que a própria sociedade espera a perfeição.
Cada vez mais, somente as pessoas mais inteligentes, as mais agressivas, as
mais atraentes e as mais jovens e mais saudáveis são bem-sucedidas no mercado.
Se Darwin estivesse vivo hoje, não viajaria para as Ilhas Galápagos para aprender
sobre a sobrevivência do mais apto. Ele compraria um apartamento em Manhattan -
se pudesse pagar por isso. Se os pais
querem controlar os filhos, é porque eles estão cada vez mais perdendo o
controle de si mesmos.
Outro
motivo é simplesmente o caráter inevitável da história. O Iluminismo estabeleceu a quimera da perfectibilidade da espécie
humana. Desde então, a sociedade no Ocidente se tornou cada vez mais
racionalizada e organizada. No campo da medicina e da tecnologia, e das
próprias conquistas sociais, isso é ótimo, é claro. No entanto, há cada vez menos tolerância pelo erro humano. Na
realidade, à medida que o Google e outras super corporações conseguem rápidos
avanços na robótica em tantas áreas da existência humana, parece haver sempre
menos tolerância pelo ser humano em geral.
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LEE SIEGEL Autor deste artigo |
Acaso
as advertências, as microagressões, o consentimento afirmativo são normas
excessivas e frequentemente absurdas? É claro que são. Mas quatro anos de
faculdade, durante os quais os professores procuram conscienciosamente cuidar
dos crescentes temores dos estudantes a respeito do mundo, não me preocupam. O que me preocupa é o mundo no qual estes
estudantes se matricularão, o mundo fora das paredes protetoras da faculdade ou
universidade. Lá fora, as coisas estão se tornando sempre mais bárbaras,
mais cruéis, mais implacáveis. Portanto, aproveitem seus quatro anos de
proteção, meus queridos, e sintam-se seguros quando saírem.
Traduzido do inglês por Anna Capovilla.
*
LEE SIEGEL é escritor e crítico cultural
norte-americano, escreve no jornal The New
York Times e em revistas como New
Yorker e The Nation. É também
autor de Você está Falando Sério? (Panda
Books).
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