Decepcionado, padre ligado ao PT rompe com prefeito Fernando Haddad
Catia Seabra
Símbolo da “Pastoral do Povo de Rua”, em São Paulo,
o padre Júlio Lancellotti se diz decepcionado com a
gestão do
prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, na assistência
social
e admite até votar contra sua reeleição.
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PADRE JÚLIO LANCELLOTTI Pastoral do Povo de Rua - Arquidiocese de São Paulo (SP) |
"Não
sei que quadro vai se pôr [na disputa eleitoral de 2016], mas não gostaria de
repetir essa experiência", afirma.
Lancellotti – tradicionalmente apontado
como apoiador do PT – se queixa do estilo
centralizador de Haddad e de sua administração "compartimentada" na
área social. "A sociedade merecia resposta mais articulada", diz.
Ao
reconhecer sua frustração, ele relata uma conversa com o secretário de
Habitação, João Withaker, de quem
teria ouvido ser “melhor Haddad do que Datena (PP)”.
"Eu
disse para o Withaker: 'melhor um
inimigo declarado do que um inimigo disfarçado'", conta.
Sentado
num banco da paróquia São Miguel Arcanjo,
Lancellotti descreveu, na quinta-feira (7 de janeiro), suas tensas reuniões com
o Haddad. Ao final de uma delas, tomou uma atitude que admite impulsiva: bateu
com a ponta dos dedos na têmpora de Haddad e perguntou:
"As coisas não entram
na sua cabeça, prefeito?".
Em
outra discussão com Haddad, Lancellotti o comparou ao ex-prefeito e hoje
senador José Serra (PSDB) para reclamar do uso de força para a remoção de
população na rua. "Não levei gás de
pimenta na cara na gestão do Serra, mas levei na sua".
Seu
desabafo expressa uma insatisfação com o setor hoje comandado pela secretária Luciana Temer. Titular da
pasta de Desenvolvimento e Ação Social,
Luciana é filha do vice-presidente
Michel Temer (PMDB).
Segundo
o censo Fipe (Fundação Instituto de
Pesquisa Econômica), no governo Haddad,
houve um aumento da população em situação de rua na cidade –passou de 14.478 em
2011 para os atuais 15.905.
Por
intermédio de sua assessoria, Luciana Temer afirma que o aumento desse número
acompanha o crescimento populacional.
O
argumento não agrada aos movimentos sociais, que se queixam não só da
secretária, mas da desarticulação do
time de Haddad.
Atualmente,
a Guarda Civil Metropolitana tem
sido destacada para negociar com os moradores de rua, o que incomoda os
tradicionais apoiadores do PT.
Há
dois meses, o prefeito pediu que o secretário
de Direitos Humanos, Eduardo Suplicy
(PT), não vá mais às tendas ocupadas pelos sem-teto, depois que o petista
deu dois cheques a duas famílias de moradores de rua durante uma remoção no
bairro da Mooca.
Suplicy
diz que os cheques – um de R$ 800 e outro de R$ 400 – foram uma contribuição
pessoal. Ele explica ainda que o prefeito o orientou a não ir às áreas ocupadas
porque sua presença "gerava maiores demandas".
Outras
críticas
Lancellotti
não é o único a criticar. "A
realidade terrível do povo das ruas nunca será caso de polícia. É uma questão
de humanização dos excluídos e humanização da cidade mais rica do Brasil",
diz Antônio Marchioni, o padre
"Ticão", da Pastoral da
Moradia.
Ticão
diz ter trabalhado bastante pela eleição de Haddad. "Sobre a eleição de
2016 estamos debatendo aqui na Comunidade. Vamos ver nos próximos meses",
afirma.
Já
o coordenador do Movimento pela Moradia Leste
II, Dalcides Neto, afirma que a relação com Haddad melhorou após a saída do
PP do comando da secretaria de Habitação de São Paulo.
Ainda
segundo Neto, o prefeito anunciou para este ano R$ 700 milhões em estoque de
terra para projetos habitacionais a serem fechados com a União. "Ainda
temos problemas. Mas o governo avançou", elogia ele.
Para Lancellotti, a marca do
governo Haddad ficará centrada nas CICLOVIAS.
Assista ao vídeo com trechos da entrevista com
Padre Júlio Lancellotti, clicando abaixo sobre a
imagem:
Fonte: Folha de S. Paulo –
Poder – 10/01/2016
– 02h00 – Internet: clique aqui.
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