PUBLICADO O PRIMEIRO LIVRO DO PAPA - Comentário
Do infiel devoto à prostituta forçada:
anedotas papais de misericórdia
Vito Mancuso*
Jornal “La Repubblica” – Roma (Itália)
10-01-2016
O livro-entrevista com o Papa Francisco é uma amostra
exemplar da espiritualidade de Bergoglio: a vida é uma guerra, há muitos
feridos, a Igreja é um hospital de campanha, os seus ministros devem operar
como médicos e enfermeiros.
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ANDREA TORNIELLI (à esquerda) e PAPA FRANCISCO: o jornalista especializado em Vaticano entrevistou, longamente, o papa. |
Não
se deve pedir aquilo que não pode dar esse livro-entrevista com o Papa Francisco
com Andrea Tornielli, de cujas 120
páginas impressas mais de um terço são brancas ou de instrumentos redacionais [título
do livro: O nome de Deus é misericórdia, edição em português: Planeta
Editora – nas livrarias ao final deste mês].
O
que o livro pode dar e efetivamente dá é a sabedoria
vivida de um homem de Deus que crê profundamente no Evangelho e na sua capacidade
de renovar a vida. Da sua longa experiência, o papa traz uma série de
anedotas, uma mais cheia de frescor do que a outra, contadas sempre com graça e
delicadeza.
Existe
a velhinha argentina, que diz que Deus perdoa sempre, porque, senão, o mundo
não existiria; a mulher solteira que, para manter os filhos, se prostitui e que
agradece por, mesmo assim, ser chamada de "senhora"; o homem devoto
que não perde uma missa e tem uma relação com a empregada e se justifica
dizendo que as empregadas domésticas também existem para isso; a mulher que não
se confessa desde que tinha 13 anos, porque na época o padre lhe perguntou onde
ela mantinha as mãos enquanto dormia; a senhora à qual são pedidos, em primeiro
lugar, 5.000 dólares para a causa de nulidade matrimonial; a garota que, no
prostíbulo, encontra o homem com que talvez vai casar e, por isso, vai em
peregrinação; e outros exemplos vivos de
uma humanidade muito concreta.
Todo
o progresso do livro é marcado pela experiência
do pecado, a qual o papa dá uma
importância decisiva, tornando-a quase uma condição indispensável da
experiência espiritual: se o nome de
Deus, de fato, é misericórdia, só quem precisa de misericórdia, isto é, o
pecador, pode encontrá-la.
O
pecado, a partir do pecado original considerado "algo que realmente
aconteceu nas origens da humanidade" (p. 58), funciona, portanto, como um
pré-sacramento paradoxal. Por isso, aqueles que não têm remorso disso são o
verdadeiro alvo polêmico, ao qual o papa chega até mesmo a desejar que pequem: "A algumas pessoas tão rígidas seria
bom um deslize, porque, assim, reconhecendo-se pecadoras, encontrariam
Jesus" (p. 82).
O
outro aspecto sobre o qual o livro se detém longamente é o sacramento da confissão, que, para o papa, é o lugar concreto para
encontrar a misericórdia de Deus e a cujo respeito não faltam conselhos aos
confessores.
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CHEGA NO FINAL DE JANEIRO ÀS LIVRARIAS DO BRASIL |
O
livro é uma amostra exemplar da espiritualidade
de Bergoglio: a vida é uma guerra, há muitos feridos, a Igreja é um
hospital de campanha, os seus ministros devem operar como médicos e
enfermeiros. A misericórdia de que o
papa fala se configura, portanto, como uma operação estritamente eclesiástica.
Mesmo
o seu Deus é o da mais tradicional doutrina católica baseada no nexo entre
pecado original e redenção por meio do sacrifício: "O Pai sacrificou Seu
Filho".
Em
vez disso, o que não se deve pedir ao
livro porque ele não o dá?
Não
se deve pedir a discussão, nem mesmo apenas como menção, das capitais questões
filosóficas e teológicas subjacentes ao assunto tratado. Quanto à dimensão
filosófica, a questão do pecado e do seu perdão remete à relação entre consciência, liberdade e julgamento moral.
E as perguntas que surgem do
contexto contemporâneo são:
·
existe realmente a consciência?
·
Somos verdadeiramente livres e, portanto, responsáveis pelo bem e pelo
mal cometidos?
·
O bem e o mal existem como algo objetivo ou se trata de convenções
culturais que o homem mais evoluído pode superar indo "além do bem e do mal"?
Quanto à teologia, a principal questão
concerne à relação entre graça e
liberdade: a misericórdia de Deus se
dá de forma totalmente gratuita ou, para torná-la eficaz, é necessário um
primeiro passo do homem? A doutrina eclesiástica condenou como herética
(definindo-a, especificamente, como semipelagiana)
a perspectiva segundo a qual a misericórdia divina depende de um primeiro e
pequeno passo do homem. Porém, essa é exatamente a tese defendida várias vezes
pelo papa (nas páginas 15, 50 e 72), alinhado com a tradição da teologia
jesuíta que, entre o fim do século XVI e o início do XVII desencadeou uma
violenta e inconclusa polêmica com os dominicanos mais tradicionais, chamada
"controversia de auxiliis".
Depois,
há a questão da vida futura:
·
se a misericórdia é realmente o nome de Deus, como justificar a condenação eterna do inferno?
·
Mesmo que fosse apenas para uns poucos, ou mesmo somente para o anjo
decaído que se tornou o Diabo, a
existência do inferno eterno torna aporética [situação insolúvel, sem saída]
a afirmação da misericórdia como nome de
Deus.
·
Se a tese do papa, como eu acredito, é verdadeira, ela impõe
logicamente a doutrina chamada de "apocatástase",
ou seja, o perdão final para todos.
Esta, ao longo da história, foi defendida por grandes teólogos, mas,
infelizmente, é herética para a doutrina oficial da Igreja.
Tais
questões não devem ser feitas a essa publicação de ocasião, mas eu considero
que, sim, devem ser feitas ao papa e à sua sabedoria.
*
VITO MANCUSO é um teólogo leigo italiano. Foi professor
de Teologia Moderna e Contemporânea na Faculdade de Filosofia da Universidade
San Raffaele de Milão (Itália) de 2004 a 2011. Desde março de 2013, é professor
de História das Doutrinas Teológicas na Universidade “degli Studi” de Pádua
(Itália).
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Para acessar a
versão original deste artigo, clique aqui.
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