É possível ser otimista em 2016?
O pior está por vir
Editorial
Em um ano, mais 2,5 milhões de brasileiros entraram
para a lista de desempregados, elevando para 9,1 milhões o total de
trabalhadores procurando emprego.
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EM 2015 1 MILHÃO, CENTO E OITENTA E QUATRO MIL TRABALHADORES COM CARTEIRA ASSINADA PERDERAM SEU EMPREGO!!! |
Esses
números, que constam da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad)
Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referente ao
trimestre agosto-outubro de 2015, mostram a rapidez com que o desemprego se alastra e dão a dimensão social da
crise em que o País está mergulhado.
O
pior é que não há indicações de melhora no horizonte. Com o agravamento da
crise a partir do início do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, o desemprego parece ter adquirido força
própria. Foram rompidos padrões observados em anos anteriores, quando o
número de desempregados aumentava no início do ano, por causa das demissões dos
trabalhadores temporários contratados para atender ao aquecimento dos negócios
no fim do ano anterior, mas decrescia rapidamente nos meses seguintes.
Colocados
num gráfico, os números da Pnad Contínua mostram que o desemprego não diminuiu em nenhum período do ano passado. O que
se observa nesse gráfico é o crescimento ininterrupto do número de
desempregados desde o trimestre móvel setembro-novembro de 2014, com a
eliminação do pico normalmente atingido no primeiro semestre do ano seguinte.
No trimestre setembro-novembro de 2014, havia 6,45 milhões de desempregados, o
que significa que, até o trimestre agosto-outubro de 2015 (9,1 milhões de
desempregados), o aumento foi de 40,7%.
Observe-se
que esse aumento decorre principalmente do fato de que pessoas que antes não estavam à procura de trabalho, e por isso não
eram contabilizadas na população economicamente ativa, passaram a buscar uma
ocupação, incorporando-se imediatamente à lista dos desempregados. Este é
outro efeito da crise. Entre os fatores que levaram essas pessoas a procurar
trabalho está um dos aspectos mais nocivos da crise do mercado de trabalho: o fechamento de vagas no mercado formal,
que oferece melhores salários e garantias como férias remuneradas, previdência
social e décimo terceiro salário.
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HÁ UMA ESTREITA RELAÇÃO ENTRE QUEDA DO PIB (Produto Interno Bruto = a soma de todas as riquezas produzidas pelo País) e o AUMENTO DO DESEMPREGO VEJA ESTE GRÁFICO |
Em
um ano, 1,184 milhão de pessoas perderam
emprego com carteira assinada, de acordo com a Pnad Contínua. “Diante
disso, outros membros da família, antes inativos, acabam saindo para buscar
emprego”, na interpretação do coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE,
Cimar Azeredo. É um fenômeno que deve se manter nos próximos meses. “Enquanto ocorrer redução na carteira
assinada, a tendência é (a procura por vaga) aumentar”, previu Azeredo. Ou
seja, o número de desempregados deve
continuar crescendo, pois, ao aumento do desemprego no mercado formal, há,
no início de cada ano, o fechamento das vagas temporárias. O pior ainda está
por vir.
Esse
efeito é parcialmente mitigado pelo fato de que muitos dos que perderam emprego passam a trabalhar por conta própria e
aparecem nas estatísticas como pessoas ocupadas. Em um ano, o número de
trabalhadores por conta própria aumentou 913 mil. Mas é um número que deve ser
analisado com cuidado. Trabalhar por
conta própria na situação atual “não é uma opção, é uma falta de opção”,
destacou o funcionário responsável pelas estatísticas do mercado de trabalho do
IBGE. O trabalhador passa a trabalhar
por conta própria porque perdeu emprego e renda.
Mesmo
quem continua trabalhando sente os efeitos da crise. A renda real média do trabalhador até outubro era 1,0% menor do que a
de um ano antes. A massa real habitual paga aos ocupados, por sua vez, teve
queda de 1,2% em um ano até outubro.
O
desemprego tornou-se um problema mundial. Mas é pior no Brasil do que na
maioria dos países com nível de desenvolvimento igual ou superior ao nosso.
Numa lista de 34 países, o desemprego no Brasil é maior do que o de 25 deles,
de acordo com estatísticas referentes ao terceiro trimestre de 2015 divulgadas
há pouco pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Notas e Informações – Domingo, 17 de janeiro de 2016 – Pg. A3 – Internet: clique aqui.
Pessimismo em alta
José Roberto
de Toledo
Na comparação mundial, Brasil deixou de ser um dos
países mais otimistas,
mas há motivos de sobra para isso, entre eles:
cerca de 1 em cada 5 brasileiros sofreu uma perda de
poder de consumo grande o suficiente para mudar de classe
O
pessimismo dos brasileiros é o dobro de outros terráqueos. Na média mundial, 16% apostam que 2016 será pior do que 2015. No
Brasil, a parcela pessimista chega a 32%. Não somos um Iraque, onde 56% da
população acha que tudo vai piorar, mas tampouco estamos em guerra. Os dados
são de pesquisa feita pela rede WIN
em 68 países, a ser divulgada nesta segunda. Aqui, a sondagem foi conduzida
pelo Ibope. A coluna antecipa alguns
resultados.
Como
no Brasil ainda prefere-se o Carnaval ao ISIS [grupo terrorista “Estado
Islâmico”], e homem-bomba é apenas uma expressão reservada a delatores
premiados, a fatia de otimistas continua sendo a maior do bolo nacional: 50% esperam um 2016 melhor do que foi 2015.
É mais do que nos Estados Unidos (36%) e em outros 51 países, diria Pollyanna.
Mas está pouco abaixo da média mundial (54%), que é puxada pelos novos campeões do otimismo: China (76%), Nigéria (78%) e Bangladesh
(81%).
Outros
13% de brasileiros acham que tudo vai ficar como está, e o resto não soube ou
não quis responder a pergunta do Ibope.
Se
na comparação internacional o Brasil deixou de ser um dos países mais otimistas
do mundo, é indisfarçável o rápido
crescimento do pessimismo tupiniquim ao longo tempo. Seis anos atrás, só 6%
dos brasileiros acreditavam que 2011 seria pior, enquanto 73% achavam que seria
um ano ainda melhor do que 2010 já havia sido. Desde então, os pessimistas
passaram para 8% (em 2011 e 2012), cresceram para 14% em 2013, pularam para 26%
em 2014 e chegaram a inéditos 32% no final do ano passado.
Ao
mesmo tempo, os otimistas saíram do patamar chinês (acima de 70%) de 2010 a
2012, para 57% em 2013, 49% em 2014 e 50% em 2015. Então o otimismo parou de
cair? Em termos absolutos, sim. Mas, proporcionalmente ao pessimismo, ficou
menor.
As
causas dessa súbita mudança de humor dos brasileiros devem ser mais bem
explicadas pelos demais itens da pesquisa a serem divulgados nesta segunda, mas
não é preciso ser clarividente para
saber que o problema é a economia do País. Nesse período, a curva de
ascensão social da maioria da população foi perdendo força até inverter sua
trajetória. Gente que estava melhorando
no começo da década está, agora, andando para trás.
Isso
fica claro em um dos cruzamentos da pesquisas Ibope. No final de 2014:
a.
as classes de consumo A+B
somavam 30% da população.
b.
Um ano depois [2015], seu peso
caiu para 23%.
c.
No mesmo período [2014-2015], a classe
C emagreceu de 54% para 50%, e
d.
as classes D+E voltaram a
engrossar o estrato mais baixo e vulnerável. De 16% da população em 2014, passaram
a representar 27% em 2015.
Essa
movimentação significa que em apenas um
ano, cerca de 7% dos brasileiros caíram do topo para o meio da pirâmide de
consumo, e 11% escorregaram do miolo de volta para a base da estrutura. Em
outras palavras, cerca de 1 em cada 5
brasileiros sofreu uma perda de poder de consumo grande o suficiente para mudar
de classe. Visto dessa perspectiva, o aumento de seis pontos do pessimismo
dos brasileiros até que foi pequeno.
É
como se apenas 1 em cada 3 dos que perderam status social ao longo de 2015
tivesse traduzido esse passo atrás em mais pessimismo. Há duas maneiras de
interpretar esses números.
Na
perspectiva do copo meio cheio, pode-se dizer que o brasileiro é, antes de
tudo, um otimista, porque mesmo sofrendo revezes de renda e eventualmente
perdendo o emprego ele ainda assim continua a acreditar em um futuro melhor.
Na
perspectiva do copo meio vazio, pode-se projetar que o desastre de opinião
pública é questão de tempo. Quando os outros dois terços que andaram para trás
em 2015 perceberem que não estão conseguindo recuperar o terreno perdido,
também devem aderir ao pessimismo, e a onda de mau humor crescerá mais.
Se
esta última interpretação estiver correta, o Brasil deve continuar caindo no
ranking mundial do otimismo em 2016.
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