CATEQUESE DE PAPA FRANCISCO SOBRE A MISERICÓRIA
“A misericórdia não pode ficar indiferente
diante do sofrimento dos oprimidos”
Rocío Lancho
García
Francisco explicou que a misericórdia do Senhor torna o
homem precioso, como uma riqueza pessoal que Lhe pertence,
que Ele protege e com a qual se alegra
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PAPA FRANCISCO Recebe de um artista de circo uma lembrança durante a Audiência Geral desta Quarta-feira, 27 de janeiro de 2016 |
O
Papa Francisco se encontrou nesta quarta-feira com milhares de pessoas
provenientes de todo o mundo, na Praça de São Pedro para a tradicional Audiência Geral. Depois de algumas
semanas realizando a Audiência na Sala Paulo VI por causa do frio, esta semana voltou à Praça, para receber
mais pessoas.
Com
grande entusiasmo e emoção, os peregrinos receberam o Santo Padre em sua
chegada a bordo do papamóvel. Depois de passar pelos corredores da Praça de São
Pedro abençoando aos presentes, o Papa
prosseguiu sua série de catequeses sobre a misericórdia.
Além
disso, fez hoje um anúncio. O Pontifício
Conselho Cor Unum, por ocasião do Jubileu da Misericórdia, promove um dia de retiro espiritual para grupos que se
dedicam ao serviço da caridade. A jornada, que deve ser realizada em todas
as dioceses durante Quaresma, será uma “ocasião
para refletir sobre o chamado a ser misericordioso como o Pai”, explicou.
Por isso, Francisco convidou a acolher esta proposta utilizando as instruções e
manuais elaborados pelo Cor Unum.
No
resumo feito em português, o Santo Padre Francisco indicou que como no texto da
Sagrada Escritura lido ao início da catequese, “Deus escutou os gemidos dos filhos de Israel na servidão”: “Na sua misericórdia, atende o grito de
socorro; não desvia o olhar para não ver, não é indiferente ao sofrimento
humano”.
Ele
explicou que “o Senhor intervém para
salvar, suscitando homens capazes de ouvir o gemido do sofrimento e agir em
favor dos oprimidos”. Como mediador de libertação para o seu povo, envia
Moisés, “que vai ter com o Faraó para o convencer a deixar partir Israel e
depois guia-o no caminho para a liberdade”.
Ele
recordou que Moisés, quando era menino, “fora salvo das águas do rio Nilo pela
misericórdia divina; e agora é feito mediador daquela mesma misericórdia a
favor do seu povo, permitindo-lhe nascer para a liberdade salvo das águas do
Mar Vermelho”.
E
sublinhou que “a misericórdia de Deus
atua sempre para salvar”. Através do seu servo Moisés, o Senhor guia Israel
no deserto como se fosse um filho, educa-o na fé e faz aliança com ele criando
um vínculo fortíssimo de amor, uma relação semelhante à que existe entre pai e
filho e entre marido e esposa. “É uma relação particular, exclusiva,
privilegiada de amor, fazendo dos israelitas «um reino de sacerdotes e uma
nação santa», afirmou Francisco. [. . . ]
“A
misericórdia divina torna o homem precioso, como um tesouro pessoal que
pertence ao Senhor, que Ele guarda e no qual Se compraz. Tornamo-nos joias preciosas nas mãos do Pai bom e misericordioso”,
afirmou Francisco.
Para
encerrar a audiência, o Santo Padre dedicou algumas palavras aos jovens,
doentes e recém-casados. Lembrando que amanhã [quinta-feira, 28 de janeiro] celebra-se
a festa de São Tomás de Aquino,
patrono das escolas católicas, o
Papa pediu que seu exemplo impulsione os
jovens “a enxergarem em Jesus misericordioso, o único mestre da vida”. Aos
doentes expressou o desejo que a intercessão do santo obtenha para eles “a
serenidade e a paz presentes no mistério da cruz”. Concluindo, pediu que a
doutrina de São Tomás encoraje os recém-casados, a confiar na sabedoria do
coração para realizar a missão confiada a eles.
PAPA FRANCISCO
Audiência Geral
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Queridos
irmãos e irmãs, bom dia!
Na Sagrada Escritura, a misericórdia de
Deus está presente ao longo de toda a história do povo de Israel.
Com
a sua misericórdia, o Senhor acompanha o caminho dos Patriarcas,
dá a eles filhos apesar da condição de esterilidade, os conduz por caminhos de
graça e de reconciliação, como demonstra a história de José e dos seus irmãos
(cf. Gn 37-50). E penso em tantos irmãos que se afastaram em uma família e não
se falam. Mas esse Ano da Misericórdia é
uma boa ocasião para se reencontrar, para se abraçar e se perdoar e esquecer as
coisas ruins. Mas, como sabemos, no Egito a vida para o povo foi dura. E
justamente quando os israelitas estão para sucumbir que o Senhor intervém e
traz a salvação.
Lê-se no livro do Êxodo: “Muito tempo
depois morreu o rei do Egito. Os israelitas, que gemiam ainda sob o peso da
servidão, clamaram, e, do fundo de sua escravidão, subiu o seu clamor até Deus.
Deus ouviu seus gemidos e lembrou-se de sua aliança com Abraão, Isaac e Jacó.
Olhou para os israelitas e os reconheceu” (2,23-25). A misericórdia não pode ficar indiferente diante do sofrimento dos
oprimidos, ao grito de quem está submetido à violência, reduzido à escravidão,
condenado à morte. É uma dolorosa realidade que afeta toda época, inclusive
a nossa, e que faz sentir muitas vezes impotentes, tentados a endurecer o
coração e pensar em outra coisa. Deus, em vez disso, “não é indiferente” (Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2016,
1), nunca tira o olhar da dor humana. O
Deus de misericórdia responde e cuida dos pobres, daqueles que gritam em seu
desespero. Deus escuta e intervém para salvar, suscitando homens capazes de
ouvir o gemido do sofrimento e de trabalhar em favor dos oprimidos.
É assim que começa a história de Moisés
como mediador de libertação para o povo. Ele enfrenta o Faraó para convencê-lo
a deixar partir Israel; e depois guiará o povo, pelo Mar Vermelho e pelo
deserto, rumo à liberdade. Moisés, que a
misericórdia divina salvou, logo que nascido, da morte nas águas do Nilo, se
faz mediador dessa mesma misericórdia, permitindo ao povo nascer à liberdade
salvo das águas do Mar Vermelho. E também nós, neste Ano da Misericórdia,
podemos fazer este trabalho de ser mediadores de misericórdia com as obras de
misericórdia para nos aproximarmos, para darmos alívio, para fazer unidade.
Tantas coisas boas podem ser feitas.
A
misericórdia de Deus age sempre para salvar. É tudo o
contrário da obra daqueles que agem sempre para matar: por exemplo, aqueles que
fazem a guerra. O Senhor, mediante o seu servo Moisés, guia Israel no deserto
como se fosse um filho, educa-o à fé e faz aliança com ele, criando um laço de
amor fortíssimo, como aquele do pai com o filho e do esposo com a esposa.
Chega
a tanto a misericórdia divina. Deus propõe uma relação de amor particular,
exclusivo, privilegiado. Quando dá instruções a Moisés
sobre a aliança, diz: “Se obedecerdes à minha voz e guardardes a minha aliança,
sereis o meu povo particular entre todos os povos. Toda a terra é minha, mas
vós me sereis um reino de sacerdotes e uma nação consagrada” (Ex 19,5-6).
Certo. Deus já possui toda a terra porque a
criou; mas o povo se torna para Ele uma
posse diferente, especial: a sua pessoal “reserva de ouro e prata”, como
aquela que o Rei Davi afirmava ter dado para a construção do Templo.
Bem, assim nos tornamos para Deus acolhendo
a sua aliança e deixando-nos salvar por Ele. A misericórdia do Senhor torna o homem precioso, como uma riqueza
pessoal que Lhe pertence, que Ele protege e com a qual se alegra.
São essas as maravilhas da misericórdia
divina, que chega a pleno cumprimento no Senhor Jesus, naquela “nova e eterna
aliança” consumada no seu sangue, que com o perdão destrói o nosso pecado e nos
torna definitivamente filhos de Deus (cf. 1Jo 3,1), joias preciosas nas mãos do
Pai bom e misericordioso. E se nós somos filhos de Deus e temos a possibilidade
de termos essa herança – aquela da bondade e da misericórdia – no confronto com
os outros, peçamos ao Senhor que neste Ano da Misericórdia também nós façamos
obras de misericórdia; abramos o nosso coração para chegarmos a todos com as
obras de misericórdia, a herança misericordiosa que Deus Pai teve conosco.
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