COMO FUNCIONAM POLÍTICOS E PARTIDOS NO BRASIL
Resiliência atômica
José Roberto
de Toledo
Nesse sistema político brasileiro, o indivíduo só é
poderoso
quando vira uma organização
Se
alguma bomba H não explodir antes, o
prognóstico para o Brasil em 2016 é de mais sangria da economia pela política.
Como um vampiro suga suas vítimas, o
sistema partidário e eleitoral abriu as veias do País para drenar até a última
gota. Apocalipse à parte, não há perspectiva de que se lhe desgrude os
caninos. Ao menos não antes de março, numa previsão otimista.
Agora
é o recesso, depois é o carnaval. Daí irão e virão recursos e embargos ao
Supremo Tribunal Federal sobre o rito do impeachment
de Dilma Rousseff. Prazos, instâncias, quóruns, tudo será motivo para
questionamentos e pedidos de esclarecimento. Julho é mês de recesso. Agosto
tem Olimpíada. Em setembro e outubro
haverá eleição - fora os 14 feriados e pontos facultativos já oficializados
para Brasília. Fim de 2016.
Sobra uma janela estreita,
entre abril e junho, para um lado sobrepujar o outro - ou fecharem um acordo
entre si.
Mesmo sendo incerto fazer projeções para daqui a quatro meses, é provável que
os arsenais de antis e prós continuem se equivalendo. Nesse cenário, não há
vencedores. Segue o bombardeio
intermitente, com vítimas aqui e acolá, a provocar tanta fumaça que turva toda
previsão econômica e futiliza quaisquer planos de investimento.
Mesmo
que um grupo prepondere, será um sanguessuga por outro. Sem uma disrupção no
sistema político é cada vez mais improvável que o Brasil supere o “stop and go” [para e vai] econômico -
com paradas progressivamente mais longas em relação aos períodos de avanço.
Na política brasileira
atual, manda quem doa, obedece quem recebe. O dinheiro é o principal vetor de qualquer
eleição, rivalizando em influência apenas com a inércia eleitoral (já estar no
poder ou ser herdeiro de quem lá está).
Raros candidatos se elegem
graças à militância espontânea. Na Câmara dos Deputados, os paradigmas da exceção
são a família Bolsonaro e Jean Willys - dois extremos da trena
ideológica. Recebem muitos votos por poucos reais, relativamente aos colegas.
Seus cabos eleitorais podem ser gratuitos, mas não são desinteressados. Willys
e Bolsonaros têm agendas que vão ao encontro estrito do que pretendem seus
eleitores. É do jogo.
Mais
congressistas representassem lobbies explícitos, mais transparente seria a
disputa. Mas a maioria é uma mão-de-voto maleável e dependente dos recursos que
a elegem - sejam o dinheiro, a inércia ou a combinação dos dois.
Quem não é sócio do clube do
poder tem que pagar uma joia para entrar. Sua eleição tende a custar bem mais caro do que a
dos incumbentes e parentes. Mas mesmo quem já é associado tem que arcar com
seus estipêndios. Se não existe nem almoço grátis, quanto menos eleição. Daí ganharem força dentro dos partidos
aqueles capazes de alavancar doações eleitorais não apenas para si, mas também
para os colegas. E não é pelo seu charme.
Doações começam com cargos. Podem ser diretorias de estatais, cadeiras de ministro, presidências ou lideranças partidárias.
Qualquer posição que permita criar dificuldades, oferecer facilidades ou ambos.
Nesse sistema, o indivíduo só é poderoso quando vira uma organização.
Representando múltiplos interesses, adquire resiliência [= capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às
mudanças] no poder. Vale para partidos e políticos.
Tornam-se duros na queda os
que não se lambuzam sozinhos. Ficam de pé
aqueles que são generosos ao distribuir fatias de poder e zelosos ao guardar os
registros da distribuição. Os resilientes montaram redes de financiamento baseadas em empresas e pessoas físicas cujos
negócios dependem do governo. Dão, recebem, distribuem - há décadas. Quanto maior, mais resiliente é a rede. Se
uma parte é lavada a jato, outras ocupam seu espaço.
O
sistema tem tanta resiliência que, como as baratas, talvez escapasse até de uma
hecatombe nuclear. Melhor não testar.
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