A IGREJA SOFRE HOJE "AS DORES DO PARTO" - DIAS MELHORES VIRÃO!
Em novos escândalos, o catolicismo sente as
dores do parto da reforma
John L. Allen Jr.
Crux
12-01-2016
Agora é a própria Igreja Católica que está indo fundo
na investigação
e denúncia de abusos sexuais e outros crimes em seu
interior.
Recentemente
na Alemanha surgiram notícias sobre
o abuso sexual e físico generalizado em
um coro católico bem-conhecido, notícia que ricocheteou ao redor do mundo
porque, quando o abuso ocorreu, o coro era conduzido pelo padre Georg Ratzinger, irmão do Papa Emérito Bento XVI.
A
informação era realmente chocante: pelo
menos 231 crianças abusadas ao longo de quatro décadas, desde os anos 1950 à
década de 1990, representando um em cada três meninos do coro “Domspatzen” de Regensburg.
O
advogado que compilou o relatório disse que, embora não haja acusações de abuso
contra Ratzinger, que hoje está com 91 anos, a investigação o leva a crer que o irmão do papa emérito deva ter tido
conhecimento do que estava acontecendo.
Em
torno da mesma época, o Vaticano estava sofrendo com as reviravoltas da saga “Vatileaks 2.0”, centrando-se nos vazamentos de documentos papais sigilosos
que revelaram vários tipos de corrupção financeira ou gastos dúbios:
cardeais vivendo em apartamentos luxuosos, dinheiro sendo usado para
influenciar nas causas de santidade, todos os tipos de pessoas que não deveriam
ter acesso a produtos de baixo custo no Vaticano tais como cigarro e gasolina,
e assim por diante.
As
duas histórias são embaraçosas para o Vaticano e para a Igreja, e ambas
levantam perguntas perturbadoras: Como uma má-conduta como esta pôde continuar
por tanto tempo sem ser detectada, e que tipo de responsabilização poderá ser
imposta de forma que não aconteça novamente?
Perdido
nessa situação toda, no entanto, está um outro ponto que tanto a história alemã de abuso quanto o Vatileaks 2.0 têm em comum:
nem um dos dois teria vindo à tona caso a própria Igreja não tivesse tomado a
decisão de ir a fundo neles.
No
caso do coro, o advogado que apresentou o recente relatório estava assim
procedendo em nome da Diocese de
Regensburg, na Baviera. A diocese o contratou depois que surgiram as
primeiras acusações de abuso. O intuito
era descobrir o que havia acontecido e quem era o responsável.
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LIVROS PUBLICADOS NA ITÁLIA EM 2015 Denunciando esquemas de abuso do uso do dinheiro e outros benefícios por parte de membros do Vaticano. Escândalo que recebeu a denominação de Vatileaks 2.0 |
Da
mesma forma, os documentos em questão do
caso Vatileaks 2.0 vieram de uma comissão criada pelo Papa Francisco logo
após a sua eleição, conhecida pela sigla italiana COSEA, cujo objetivo era examinar as operações financeiras do Vaticano
detalhadamente e fazer propostas de reforma.
A
comissão apresentou o seu relatório final em 2014, incluindo mais ou menos 20
casos específicos de irregularidades financeiras.
É
isso o que faz estas situações serem diferentes, digamos, da primeira crise em
torno dos escândalos de abusos sexuais cometidos pelo clero, quando vítimas,
advogados e jornalistas investigativos traziam segredos à luz do dia e as
autoridades católicas se esforçavam ao máximo para cancelá-los [leia matéria abaixo]. Nos casos mais
recentes, a Igreja era quem os estava revelando, e não o contrário
Um outro jeito de ver tanto
o escândalo do coral juvenil quanto o Vatileaks 2.0, portanto, é que eles são
as dores do parto da reforma.
“Dores do parto” é uma imagem bíblica,
tirada de Mateus 24, onde Jesus
discute o fim dos tempos: “De fato, uma
nação lutará contra outra, e um reino contra outro reino”, diz ele. “Haverá fome e terremotos em vários lugares”.
“Mas tudo isso”, continua, “é o começo das dores [do parto] (...) Mas quem perseverar até o fim, será salvo”.
Sem
ir muito longe na esteira da especulação apocalíptica, a sabedoria contida
nessa passagem é que os períodos de
transição são, normalmente, marcados por um grande tumulto, mas a turbulência
pode ser um arauto de algo melhor por vir.
Sem
dúvida, é frustrante para muitos católicos que os meios de comunicação deem
destaque a reportagens de escândalos, sem uma ênfase igual no fato de que alguém na Igreja tem desenterrado as falhas
em um esforço em fazer as coisas certas.
Em
outras palavras, a cobertura da imprensa
é, muitas vezes, focada nas partes tristes, sem lembrar das boas novas.
O
fato é que quanto mais a Igreja se esforçar em se confrontar com os seus erros,
mais verdades desagradáveis virão à tona, o que provavelmente quer dizer mais
notícias ruins.
Aos
que não acompanham estas histórias de perto, pode parecer que tudo isso é
terrivelmente prejudicial para a imagem da Igreja, mas quem é de dentro vai perceber que se trata do preço da mudança.
O
fato de que o coro de Regensburg reconheceu o abuso, ou de que o papa fora
informado das irregularidades financeiras, em si não significa que a reforma
chegou para ficar.
A
divulgação do que se encontrou nesses movimentos é um começo promissor, mas muito mais resta a ser feito, inclusive a
justiça para as vítimas e a questão da responsabilização, tanto pelos crimes
como pelo acobertamento.
Enquanto
isso, os católicos podem, pelo menos, ficar felizes de que nestes dois casos, e
em uma série crescente de outros, a Igreja não se viu forçada a evitar encarar
os fatos. Ela fez as perguntas difíceis por si mesma e foi em busca de
respostas, o que é um primeiro passo em direção a tentar fazer melhor.
Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa. Acesse a versão original deste artigo,
clicando aqui.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 13 de janeiro de 2016 – Internet: clique aqui.
Filme “Spotlight” expõe entranhas da
religião e da imprensa
Otavio Frias
Filho
A
investigação jornalística retratada no filme "Spotlight - Segredos Revelados" foi o que deu
visibilidade ao pesadelo subterrâneo dos abusos sexuais contra crianças
praticados por sacerdotes católicos. Antes havia denúncias esparsas, sempre
refutadas pela Igreja.
As
primeiras reportagens da série publicada em 2002 pelo jornal "The Boston Globe" implicavam
70 padres na cidade [BOSTON, nos
Estados Unidos], que abriga uma das maiores comunidades católicas dos Estados
Unidos. Essa cifra logo se multiplicou,
conforme casos semelhantes passaram a irromper em toda parte.
Em
2014, o Vaticano alegava haver aplicado sanções contra cerca de 3.500
religiosos nos últimos dez anos (quase 1%, num universo de 400 mil); os papas
anteriores e o atual amontoaram pedidos de desculpas. O assunto é dramático
para a instituição porque os crimes não se restringiam aos abusos cometidos, em
geral por padres que cativavam meninos em situação familiar vulnerável.
Como
atestaram as reportagens da equipe investigativa do jornal (chamada "spotlight", holofote), um meticuloso
esquema de acobertamento dos delitos e proteção dos infratores era mobilizado
por superiores hierárquicos, no caso de Boston por seu infame arcebispo, o cardeal Bernard Law, que renunciou em
dezembro de 2002.
Parece
óbvio que uma parcela de sacerdotes
mantém alguma vida sexual, o que deve favorecer certo "silêncio
obsequioso" na corporação. Além disso, embora as estatísticas não
sejam conclusivas ao comparar a prática de crimes sexuais por adultos leigos e
religiosos, é de se imaginar que uma
profissão que recruta celibatários e lhes confere poderes supostamente mágicos
corre o risco de atrair indivíduos propensos a distúrbios como a pedofilia.
O
filme que o diretor Tom McCarthy fez da persistente apuração levada a cabo pelo
"Globe" é sóbrio, cinzento como uma tarde bostoniana (dispensável o
piano um tanto pernóstico da trilha). Em meio às inevitáveis cenas de
jornalismo explícito (anotações frenéticas, portas batidas na cara de
repórteres etc.), uma aura de suave heroísmo banha a equipe do jornal.
O
adversário aqui não é uma ditadura sanguinária, mas a melíflua e sufocante
influência que a Igreja irradia sobre Boston e que se faz sentir dentro mesmo
de seu principal periódico, onde muitos editores provêm de tradicionais
famílias católicas.
Foi devido à obsessão de
três forasteiros – um editor-executivo judeu, um repórter de origem portuguesa e um
advogado armênio – que se rompeu o
circuito da inércia acomodatícia, quando o jornal, depois de tatear às cegas,
decide enfim aprofundar a investigação dos indícios de abuso.
Esse
aspecto do filme dissolve o maniqueísmo latente. Denúncias contra padres e
bispos haviam sido recebidas antes pelo "Globe" e registradas em
notas despercebidas, quando não sumiram no buraco negro que existe em toda
Redação, feito de falta de tempo, recursos, paciência e incentivo para quebrar
o hábito. Demorou para a notícia ser percebida, mas sua repercussão ainda ecoa.
SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS
DIREÇÃO:
Tom McCarthy
ELENCO: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams
PRODUÇÃO:
EUA, 2015, 12 anos
QUANDO:
estreou quinta-feira passada, dia 7 de janeiro, nos cinemas
Clique sobre a imagem abaixo para assistir ao trailer legendado:
Fonte: Folha de S. Paulo –
Ilustrada / Crítica – Quinta-feira, 7 de janeiro de 2016 – 02h10 – Internet: clique aqui.
"A raiz dos abusos na Igreja está no
seminário", diz terapeuta de padres
Redação
O psicoterapeuta e ex-padre americano RICHARD SIPE (1)
foi conselheiro e professor de mais de 1000 padres com histórico de
envolvimento sexual. Ele diz que os escândalos são apenas o sintoma de uma
estrutura eclesiástica que não lida com a sexualidade humana.
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RICHARD SIPE Ex-monge e padre beneditino, sociólogo, especializou-se em atendimento de padres, religiosos e religiosas com dificuldades psicológicas, é autor de livros sobre o assunto. |
O
que há na mente dos padres abusadores?
Richard Sipe: Primeiro, têm uma adaptação
social imatura e evitam pessoas. São também voltados à própria satisfação e não
identificam o sofrimento de sua vítima. Por outro lado, conseguem passar uma excelente imagem: se vestem de forma
impecável, adoram cerimônias e tudo que os coloca no centro das atenções. Mas
não têm controle interno. Nem compaixão.
Como
lidar com eles?
Richard Sipe: É preciso mudar o sistema que produz esses padres. É um
sistema psicopata que está tão corrompido agora como no século 12. Ele omite os
crimes e muda os abusadores de paróquia em paróquia. Assim, mantém pessoas
doentes e outras em perigo.
Qual
a solução para padres abusadores seriais?
Richard Sipe: Ela deve atacar 3 áreas: criminal, moral - porque a Igreja ensina que todo sexo é pecado - e psiquiátrico. Se houver crime, a pessoa
deve ser tratada como um criminoso. Abusadores
também não devem mais trabalhar como padres, pois aproveitam sua condição
de conselheiros para seduzir menores. E, se precisarem, devem receber
medicamentos e terapias. Mas o mais
importante é que sejam monitorados. São como os alcoólatras: se quiserem se
controlar, há meios para isso. Mas estamos falando mais de controle que de
cura.
Como
isso pode ser feito?
Richard Sipe: Acabo de visitar um grupo de
10 ex-padres, quase todos pedófilos, que moram juntos numa casa sob a
supervisão de outros padres. Não foram presos porque seu crime prescreveu, mas
vivem confinados. Ali eles tentam reconstruir sua vida espiritual, mas não podem
sair sem acompanhamento. O oposto é outro mosteiro que visitei, onde pedófilos
podiam pegar o carro e sair sozinhos. A
falta de supervisão é desastrosa, pois quem tem tal vício não consegue se
controlar.
E
qual a proporção de pedófilos no clero?
Richard Sipe: Coletei dados durante 25
anos (1960-1985) e a conclusão foi que, em
qualquer época, não mais de 50% dos padres e bispos praticam o celibato.
Uns têm relações sexuais com mulheres, outros com homens. E cerca de 6% se envolvem com crianças.
Mas isso aumenta quando você estuda dioceses individuais. Na Arquidiocese de
Los Angeles, 11,5% dos padres que trabalhavam em suas paróquias em 1983 foram
mais tarde acusados de abuso sexual de menores.
Qual
a raiz do problema?
Richard Sipe: Os padres não são bem
preparados nos seminários. Muitos
podem ser disciplinados nos anos de formação, mas começam a se envolver com
adultos ou menores ao mudar para suas paróquias. A questão é que muitas pessoas têm a vocação para ser
padre, mas não para o celibato. É aí que o conflito aparece.
A
solução é o fim do celibato?
Richard Sipe: O problema vai além disso:
ele reflete todo o ensino da Igreja
sobre sexualidade, e o abuso de crianças pelo clero é apenas um sintoma
desse sistema.
NOTA
[ 1 ] Richard Sipe participa do filme
Spotlight
– Segredos Revelados, em cartaz nos cinemas nacionais e comentado no
artigo anterior.
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