Papa Francisco prepara o documento sobre a família
Thomas Reese
Padre
jesuíta e Jornalista
National
Catholic Reporter
21-01-2016
Neste ano, talvez já em março, o Papa Francisco irá
publicar o seu muito esperado documento sobre a família, que vai dar uma
resposta ao debate sobre o mesmo tema travado nos Sínodos dos Bispos nos meses
de outubro de 2014 e 2015.
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PLENÁRIO DO SÍNODO DOS BISPOS SOBRE A FAMÍLIA Outubro de 2015 - Vaticano |
Sempre,
desde 1975, os papas consideram as recomendações sinodais e, em seguida, emitem
um documento chamado exortação
apostólica.
Os Sínodos são encontros dos bispos,
geralmente em Roma, que fazem recomendações ao papa sobre um tema em
particular. Eles não têm autoridade para tomar decisões por si próprios.
Somente podem fazer recomendações.
Durante
o papado de João Paulo II, estas constituições apostólicas foram, em geral,
elaboradas por um conselho pós-sinodal cujos membros episcopais eram eleitos
pelo Sínodo e nomeados pelo papa.
Via
de regra, os papas pegam as recomendações dos Padres Sinodais e a proposta
textual do conselho formado e, em seguida, adaptam a proposta (ou a reescrevem)
conforme julgarem necessário. Às vezes, os papas apenas fazem referência às
recomendações e apresentam a sua própria visão no documento pós-sinodal.
O que o Papa Francisco irá
fazer?
A
julgar pelo que tem afirmado sobre a sinodalidade, podemos pensar que ele vai se manter próximo às recomendações do Sínodo.
Ele considera o processo sinodal como sendo um aspecto muito importante da
colegialidade. É, portanto, pouco
provável que ele venha a ignorar o que os Padres Sinodais disseram.
Por
outro lado, ele já deixou claro que está disposto a tomar decisões depois de
ouvir os bispos e estas decisões podem nem sempre refletir a opinião da
maioria.
Na
verdade, o seu principal documento enquanto papa foi a constituição apostólica de 2013, Evangelii Gaudium, que ignorou,
e muito, as discussões do Sínodo de 2012 sobre a evangelização. Aqui ele
claramente falou por si mesmo.
Se
eu tivesse de apostar, diria que a próxima constituição apostólica vai refletir
de perto as preocupações sobre a família trazidas pelos bispos do sul global,
especialmente os da América Latina e da África.
Estes
bispos veem suas famílias sofrendo com a pobreza, o que frequentemente associam
à globalização e ao capitalismo. As famílias nestes lugares
muitas vezes acabam se dividindo em decorrência da violência civil e das
guerras, o que eles associam à corrupção
política e ao extremismo religioso.
É impossível manter as
famílias unidas na pobreza e no caos político. Francisco entende isso e irá se expressar
incisivamente a esse respeito.
Nós
também iremos ouvir Francisco denunciar o que os bispos do terceiro mundo
chamam de imperialismo cultural,
onde os governos ocidentais [Europa
e América do Norte] e agências de
cooperação internacional tentam impor os seus valores sobre os países
recipientes, por exemplo, ao insistir na legalização do aborto e do
casamento gay. Francisco não apoia o casamento entre pessoas do mesmo sexo,
embora se oponha a qualquer criminalização ou discriminação contra as pessoas
gays.
No concernente aos gays na
Igreja Católica, ele provavelmente irá continuar dizendo o que já disse no passado. No
Sínodo, um documento intermédio contava com uma linguagem mais conciliatória,
mas esta foi deixada de lado por causa da forte oposição por parte de alguns
bispos.
A questão que causou mais
divisão no Sínodo foi a do tratamento aos fiéis divorciados e recasados. O cardeal Walter Kasper sugeriu que a Igreja
Católica Apostólica Romana pudesse aprender
com as igrejas ortodoxas, as quais, sob certas circunstâncias, permitem um segundo casamento civil depois
do fracasso de um casamento sacramental válido. Os cônjuges no segundo casamento seriam admitidos à Comunhão.
Para
muitos bispos, esta ideia ia longe demais. No Sínodo de 2015, sugeriram a
simplificação do processo de anulação como uma alternativa. O Papa Francisco
rapidamente deu sequência a essa recomendação com procedimentos simplificados
que entraram em vigor em dezembro passado.
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PAPA FRANCISCO Irá além de certas posições ambíguas do Sínodo dos Bispos ou se restringirá àquilo que foi ali dito e escrito? |
Inúmeros
bispos, inclusive o cardeal Kasper, quiseram ir mais longe e o Sínodo de 2015
parecia estar fadado a um impasse até que os bispos falantes do idioma alemão
propuseram uma alternativa: o foro
interno. Os demais bispos seguiram nesse caminho, e o documento final
afirmou:
«Por
isso, não obstante seja necessário promover uma norma geral, é preciso
reconhecer que a responsabilidade em relação a certas ações ou decisões não é a
mesma em todos os casos. Embora tenha em consideração a consciência retamente
formada pelas pessoas, o discernimento pastoral deve assumir a responsabilidade
por tais situações. Também as consequências dos gestos realizados não são
necessariamente as mesmas em todos os casos. O diálogo com o sacerdote, no foro
interno, concorre para a formação de um juízo reto sobre aquilo que impede a
possibilidade de uma participação mais plena na vida da Igreja e sobre os
passos que podem favorecê-la a crescer.»
Observemos
que nada é dito nestes parágrafos sobre
a possibilidade da Comunhão, seja a favor ou contra. Será que esta
ambiguidade proposital foi feita no intuito de alcançar os dois terços dos
votos necessários no Sínodo? Eu acho que sim. Será que Francisco vai dar continuidade a esta ambiguidade? Ou será que
vai esclarecê-la?
Da
mesma forma, existem pelo menos dois
modos diferentes de olhar a questão de foro
interno.
[1º] Em
termos reducionistas, o foro interno
é um método particular de discernimento feito por um indivíduo junto a um
sacerdote para decidir se o seu primeiro casamento foi, ou não, válido. Ele
pode ser usado quando, por um motivo ou outro, o processo jurídico normal não
pode ser empregado. Em outras palavras, esse método diz respeito à validade do
primeiro casamento. Não pode haver reconhecimento algum desta solução no foro
externo (público).
[2º] Uma
outra visão do processo chamado “foro
interno” assumiria uma visão mais ampla
e se perguntaria se, apesar do fracasso do primeiro casamento (inválido ou
não), uma pessoa está reconciliada e perdoada ao ponto de poder retornar à
Comunhão mesmo se o primeiro casamento tenha sido válido em termos sacramentais.
Aqui o divorciado se pergunta se ele está, ou não, agindo em boa consciência ao
entrar num segundo casamento. Esta visão
ampliada poderia ser considerada como sendo a abordagem [da Igreja] ortodoxa,
porém com um nome diferente.
Em nenhum dos casos a pessoa
se casaria na Igreja. Visto que o sacramento do matrimônio acontece no foro externo
(público), o divorciado iria precisar de uma anulação nesse foro, o que envolve
o processo jurídico normal.
Tenho
certeza de que diferentes bispos tinham
em mente diferentes opiniões sobre o foro interno quando aprovaram o
relatório final do Sínodo.
De
novo, será que Papa Francisco vai
esclarecer este ponto? Será que ele vai endossar a solução ortodoxa
conforme proposta pelo cardeal Kasper, pessoa a quem ele abertamente admira, ou
será que a oposição generalizada à abordagem ortodoxa vai significar que ele, o
papa, pelo menos neste momento, irá ficar ao lado da visão estreita do foro
interno? Francisco tem falado sobre
supremacia da misericórdia contra o legalismo, o que é um indicativo para uma
abertura à readmissão à Comunhão.
Ou
quem sabe o papa vai fazer algo extraordinário e admitir que a hierarquia está
dividida nesse assunto, dizendo que a situação requer estudos e um diálogo
posterior na Igreja antes que seja dada uma resposta definitiva. Isso seria
algo inédito.
Traduzido
do inglês por Isaque Gomes Correa.
Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.
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