Entenda a queda de braço por trás da decisão sobre os juros
Ruth Costas
O Banco Central (BC) anunciou nesta quarta-feira a
decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa básica de
juros da economia - a chamada Selic - em 14,25%.
"Avaliando
o cenário macroeconômico, as perspectivas para a inflação e o atual balanço de
riscos, e considerando a elevação das incertezas domésticas e, principalmente,
externas, o Copom decidiu manter a taxa
Selic em 14,25%, sem viés, por seis votos a favor e dois votos pela
elevação da taxa Selic em 0,50 ponto porcentual (p.p.)", afirma o texto do
BC sobre a decisão.
Até
o início da semana, o mercado apostava em uma alta de 0,5 p.p., em função de
declarações recentes de autoridades do banco ressaltando a necessidade de se
controlar a inflação.
Na
terça-feira, porém, o cenário ficou mais turvo com a divulgação de um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI)
em que a instituição revisou
drasticamente suas previsões para a economia brasileira em 2016, de uma queda
de -1% do PIB para uma de -3,5%.
Há
certo consenso de que um dos riscos de
um eventual aumento mais contundente da taxa de juros em um cenário recessivo
poderia ser um aprofundamento da recessão – embora também haja quem
argumente que assumir esse risco vale a pena para se evitar um descontrole da
inflação.
Ainda
na terça-feira, o presidente do BC, Alexandre
Tombini, emitiu uma nota afirmando que via como "significativas"
as novas projeções do FMI e que elas seriam consideradas pelo Copom.
Alguns
analistas do mercado reclamaram da "troca de sinais" do BC na véspera
da reunião do colegiado.
A BBC Brasil conversou com analistas e
economistas de diferentes vertentes teóricas para entender o que entrou em jogo
nessa decisão sobre os juros. Confira:
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MICHAEL VIRIATO Professor e especialista em finanças no Insper (São Paulo) |
1.
Combate à inflação
A
taxa de juros sempre foi tida como um instrumento crucial no combate a
inflação. A ideia é que, ao encarecer o
crédito, os juros mais altos ajudam a reduzir o consumo, segurando o reajuste
de preços.
A
elevação da taxa também sinalizaria para o mercado que o BC está disposto a
fazer o que for necessário para combater a inflação – o que faz com que
empresários, comerciantes e prestadores de serviço esperem uma inflação menor
para o futuro e reajustem seus preços de acordo com essa estimativa mais
moderada, como explica o professor do Insper Michael Viriato.
"A
lógica desse raciocínio é que, com um aumento da Selic, consegue-se ancorar as
expectativas para a alta de preços, o que ajuda a conter a inflação
inercial", diz.
Como
no ano passado a inflação medida pelo IPCA (medição oficial da inflação) ficou
em 10,67%, bem acima do teto da meta definido pelo BC (de 4,5% com margem de 2
p.p. para cima ou para baixo), parte dos economistas – principalmente os
ortodoxos – passaram a defender que, como resposta, a Selic deveria subir de
forma mais contundente.
O
próprio presidente do BC deu indicações de que estaria de acordo com essa tese
em declarações recentes. Numa carta aberta ao Ministério da Fazenda para
justificar o não cumprimento da meta, Tombini reafirmou que adotará as medidas
necessárias para manter a inflação de 2016 abaixo de 6,5%. E, em uma entrevista
ao Jornal Nacional, ressaltou que a
Selic é o instrumento que o BC vem utilizando e "utilizará quando
necessário" para atingir tal objetivo.
Tal política, porém, não é
consenso.
Para um grupo de
economistas, a alta de juros não seria eficiente no combate à inflação hoje
porque não há um excesso do consumo. Alguns também ressaltam que uma Selic mais elevada
complicaria os esforços do governo de fazer um ajuste fiscal, uma vez que parte da dívida pública é referenciada pela
taxa – ou seja, essa dívida aumenta conforme os juros sobem.
E
alguns acham também que um aumento da
taxa poderia até dificultar o controle de preços, ao fazer com que seja mais
vantajoso para o empresário deixar o dinheiro no banco, rendendo juros, em vez
de investir na economia real – o que poderia levar a uma restrição da
oferta de alguns produtos.
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CRISTINA FRÓES DE BORJA REIS Professora de Economia da Universidade Federal do ABC |
"Em 2015, o que impulsionou a inflação foi o
aumento dos preços administrados, como energia e combustíveis, além de questões
ligadas ao suprimento de alguns alimentos. Como o problema não é o excesso
de consumo, a alta dos juros não será uma solução. E pode até agravar a
recessão na medida em que inibe novos investimentos", opina Cristina Reis [foto ao lado], professora de economia
da Universidade Federal do ABC.
Viriato,
do Insper, admite que o peso dos preços administrados na inflação de 2016 foi
grande. "Mas por outro lado, o mercado precisa de um choque de
credibilidade do BC, porque o governo não está dando esse choque quando o tema
é o ajuste", diz Viriato.
Para
Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados, "há
argumentos para os dois lados". "Acho
que o importante é o BC deixar claro que não vai descuidar da política de
inflação qualquer que seja sua decisão agora", diz.
2.
Retomada do crescimento
Até
quem defende um aumento maior da taxa de juros admite que, no curto prazo, o resultado pode ser um aprofundamento da recessão e
mais dificuldade para se retomar o crescimento da economia.
Eles
argumentam, porém, que esse é o preço a ser pago para se segurar a inflação - e
que se os preços saírem do controle, a dificuldade para ajustar a economia será
ainda maior.
"A
questão é que tanto as expectativas do cenário nacional quanto as do cenário
internacional estão se deteriorando muito rápido", diz Viriato.
"Recentemente
foram reajustadas para baixo as previsões de crescimento para a China e o preço
do petróleo caiu em uma velocidade impressionante, por exemplo."
O
relatório do FMI, ao fazer um reajuste tão drástico das perspectivas para a
trajetória do PIB brasileiro em 2016, colocou em evidência esse processo e
reacendeu os temores de que a situação
brasileira possa piorar bastante antes de melhorar.
"É
por isso que se você tem argumentos para subir os juros agora, também tem
argumentos para esperar um pouco mais, até porque essa recessão pode ajudar a
segurar a inflação", diz Zara.
3.
Jogo de interesses e questões ideológicas
Esta
será a primeira reunião do BC para decidir sobre a taxa de juros desde a
substituição de Joaquim Levy por Nelson Barbosa no Ministério da Fazenda.
A
crença do mercado era que Levy era o
defensor, no governo, de um ajuste mais duro, com um corte drástico de gastos
públicos que permitisse o tal "choque de credibilidade", ainda que
isso gerasse mais recessão no curto prazo. Por isso, ele era o preferido de economistas ortodoxos e do mercado financeiro.
Já Barbosa – visto com bons olhos por
economistas heterodoxos e boa parte do PT – seria adepto de um ajuste brando ou moderado.
Nessa
linha de raciocínio, ao nomear Barbosa para a Fazenda – em vez de outro gestor
com visão semelhante a Levy –, o Planalto
estaria optando pelo ajuste brando, defendido por economistas heterodoxos e
parte do PT.
Agora,
a decisão do BC sobre os juros também vem sendo analisada à luz dessa queda de
braço.
De um lado, o mercado
financeiro e economistas ortodoxos pressionam por uma alta mais rápida. Do
outro, heterodoxos e parte do PT são contra essa opção (embora também haja economistas de outras linhas teóricas e até
analistas do mercado defendendo que a alta
dos juros hoje seria ineficiente).
[ .
. . ]
"É
claro que os agentes do mercado
financeiro defendem uma alta de juros porque quanto mais a taxa sobe, mais eles ganham investindo em títulos cuja
remuneração acompanha a Selic", critica Reis.
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