Os confins da misericórdia
Vito Mancuso*
Jornal “La Repubblica” (Roma – Itália)
23-01-2016
Mas realmente a família da doutrina da Igreja
corresponde ao desígnio de Deus?
![]() |
PAPA FRANCISCO CONCEDE AUDIÊNCIA E DISCURSA AOS MEMBROS do Tribunal da Rota Romana - o Supremo Tribunal do Vaticano Sexta-feira, 22 de janeiro de 2016 Sala Clementina - Vaticano |
Ao
contrário de muitas outras vezes, o papa não surpreendeu ninguém com o discurso
dessa sexta-feira, 22 de janeiro, ao Tribunal
da Rota Romana, um texto totalmente de acordo com o roteiro, o mesmo que
não só Bento XVI e João Paulo II, mas também todos os outros 263 papas poderiam
ter proferido.
Francisco disse que "não pode haver confusão entre a família
desejada por Deus e qualquer outro tipo de união", porque a família
tradicional (ou seja, aquela
"fundada no matrimônio indissolúvel, unitivo e procriador")
pertence "ao sonho de Deus e da sua
Igreja para a salvação da humanidade".
Existe, portanto, um modelo canônico de família, em relação ao qual todas
as outras formas de união afetiva e permanente são níveis mais ou menos
intensos daquilo que o papa definiu como "um estado objetivo de erro". É por isso que só a família da doutrina eclesiástica
merece o nome de família, enquanto a
todas as outras cabe o termo menos intenso de "união"...
Mas
é realmente verdade que a família da doutrina eclesiástica corresponde ao
desígnio de Deus? Ou ela também é uma
determinada expressão social, nascida em um certo momento da história e,
portanto, em um outro momento, destinada a declinar, como está acontecendo
justamente nos nossos dias dentro das sociedades ocidentais?
Eu
acho que o referendo da ultracatólica Irlanda, com o qual a constituição foi
mudada para permitir que pessoas do mesmo sexo contraíssem casamento, é uma
lição imprescindível para o catolicismo, a qual, porém, em Roma, ainda se custa
a reconhecer.
Na
realidade, o fato de que a família
evolui e muda já é mostrado pela linguagem. O termo "família" deriva do latim familia e, portanto, parece ser dotado
de uma estabilidade mais do que milenar, mas, se consultarmos o dicionário, veremos que o termo latino, bem longe de
se restringir ao modelo de família da doutrina católica, exprime uma gama de significados bem mais ampla: "Complexo de
escravos, servidão; tropa, quadrilha; companhia de comediantes; a casa inteira
que inclui membros livres e escravos; estirpe, casta, gente".
O
mesmo vale para o grego do Novo
Testamento, a língua da revelação divina para o cristianismo, que conhece
um significado totalmente semelhante ao latino, pois usa, a esse respeito, o
termo oikia, que significa, em
primeiro lugar, "casa"
(daí também o termo "paróquia", formado por oikia + a preposição pará,
que significa "junto").
No hebraico bíblico, casa e família também são
sinônimos: dizer "casa de
Davi" é o mesmo que "família de Davi", ou seja, remete-se ao casario, incluindo
mulheres, filhos, escravos, concubinas, bens móveis e imóveis.
Portanto,
as línguas da revelação de Deus não
conhecem o termo família no sentido
usado pela doutrina católica tradicional e reiterado nessa sexta-feira pelo
papa. Não é um pouco estranho? A
estranheza aumenta se abrirmos a Bíblia. É verdade que, nela, lê-se que "o homem deixará seu pai e sua mãe, e se
unirá à sua mulher, e eles dois se tornarão uma só carne" (Gênesis 2,24),
mas, se analisarmos as existências
concretas dos homens escolhidos por Deus como veículos da Sua revelação, vemos
um cenário muito diferente, com outras formas de família:
* Abraão teve três mulheres (Sara,
Agar e Quetura);
* Jacó, duas;
* Esaú, três;
* Davi, oito;
* Salomão, 700.
À parte Salomão, que, com
efeito, exagerou, não há uma única palavra de condenação da Bíblia contra eles. O que dizer? A palavra de
Deus é contra o desígnio de Deus? Ou se trata de textos que devem ser
interpretados historicamente? Mas, se os
textos bíblicos devem ser interpretados historicamente, como não afirmar que
também deve ser interpretado historicamente o modelo de família da doutrina
eclesiástica?
Isso
deveria levar, a meu ver, a evitar
afirmações como "estado objetivo de
erro". A vida cotidiana na sua concretude ensina que há uniões muito pouco tradicionais de seres
humanos, nas quais a harmonia, o respeito, o amor são visíveis para todos
e, vice-versa, há uniões com o devido
sacramento católico nas quais a vida é um inferno.
Estamos,
portanto, realmente certos de que a doutrina católica tradicional sobre a
família é coerente com a afirmação tão cara ao Papa Francisco segundo a qual
"o nome de Deus é misericórdia"? Eu,
obviamente, posso estar errado, mas sinto que posso afirmar que Deus não pensa
a família, muito menos aquela do Código de Direito Canônico. Ele pensa, em
vez disso, a relação harmoniosa a qual chama todos os seres humanos, porque
o sentido de estar no mundo é exatamente a relação harmoniosa, que se explicita de diversos modos e que encontra o seu cumprimento no amor. Cada indivíduo é
chamado ao amor: este é o sentido da vida humana de acordo com o núcleo da revelação cristã. De modo que ninguém
deve ser excluído da possibilidade de um amor pleno, total, até mesmo
reconhecido publicamente.
E é
precisamente por isso que nos
desposamos: para que o próprio amor, de fato ou simplesmente privado,
adquira uma dimensão pública, política, por ser reconhecido pela polis [sociedade]. Esse amor é definível
como integral conforme integra a
dimensão subjetiva com a dimensão pública e objetiva da existência humana.
O
nascimento de alguns seres humanos com uma inextirpável inclinação sexual para
com pessoas do mesmo sexo é um fato, não pequeno, aliás: eles devem permanecer estruturalmente excluídos da possibilidade do
amor integral?
Na realidade, a aspiração ao
amor integral [íntimo, pessoal e
reconhecido pela sociedade através do matrimônio] deve ser reconhecido como direito inalienável de todo ser humano,
adquirido no nascimento. O amor
integral é um direito nativo, primigênio, radical, isto é, diz respeito à
própria raiz do ser humano, e ninguém pode ser privado dele. Muitas vezes, no
passado, alguns o foram, e ainda hoje, em muitas partes do mundo, não
raramente, continuam a sê-lo.
Hoje,
porém, o tempo está completo para apoiar do modo mais explícito que todos têm o
direito de se realizar no amor integral, heteroafetivos
ou homoafetivos, sem distinção. A maturidade de uma sociedade é medida pela
possibilidade dada a cada cidadão de realizar o direito nativo ao amor integral,
mas eu acredito que a maturidade da
comunidade cristã também é medida pela capacidade de acolhida a todos os
filhos de Deus assim como vieram ao mundo, sem excluir ninguém.
O que quer dizer que "o
nome de Deus é misericórdia" para quem nasce homossexual? É bastante fácil dizer que
Deus é misericórdia quando nos encontramos diante de casos elaborados por
séculos de experiência. Mais difícil quando nos encontramos diante do pedido de
reconhecimento da plena dignidade por parte daqueles que, por séculos, tiveram
que reprimir a própria identidade.
Aqui, a misericórdia só pode
ser exercida modificando a própria visão de mundo, ou infringindo o tabu da
doutrina.
Mas é aqui que se mede a verdade evangélica, é aqui que se vê se vale mais o sábado ou o homem [Cf. Mt 12,1-14;
Mc 2,23–3,6; Lc 6,1-11]. É aqui que o Papa Francisco joga boa parte do valor
profético do seu pontificado.
Leia o discurso de Papa Francisco ao Tribunal da Rota
Romana,
clicando aqui (em língua italiana).
Para uma síntese desse discurso de Papa Francisco em
português,
clique aqui.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
* VITO
MANCUSO é um teólogo católico italiano. Ele foi professor
de Teologia Moderna e Contemporânea na Faculdade
de Filosofia do Hospital San Raffaele, em Milão, de 2004 a 2011. Seus
escritos têm atraído uma atenção considerável por parte do público, tendo sido
traduzidos para várias línguas. Aqui no Brasil temos publicado o livro Eu e Deus – Um guia para os perplexos
(Edições Paulinas, 2014). Seu pensamento é objeto de discussão e controvérsia devido
posições nem sempre alinhadas com a hierarquia da Igreja, tanto na ética e na
estritamente dogmática. Desde 2009 é colunista do jornal "La
Repubblica" (Roma). Seu livro mais recente é "Dio e il suo destino" (Deus
e o seu destino) publicado pela Garzanti Editore, em novembro de 2015.
Desde março 2013 ele tem ensinado "História da doutrina teológica" da
Universidade de Pádua.
Comentários
Postar um comentário