O que acontece com a pesquisa científica no Brasil de hoje?
“Precisa ter visão de futuro, ser persistente”,
diz físico brasileiro
Entrevista
com Paulo Artaxo
Herton Escobar
Falta de planejamento atrasa avanço científico do País,
diz um
dos pesquisadores mais influentes do mundo
Os
pesquisadores brasileiros são tão bons quanto os de qualquer país. Para
produzir ciência de alto impacto, porém, não basta ter um bom cérebro: é
preciso dinheiro, planejamento de longo prazo e ousadia para investir em ideias
inovadoras. "Temos cientistas brilhantes em todas as áreas do
conhecimento", diz o físico Paulo
Artaxo, da Universidade de São Paulo
(USP). "Do ponto de vista intelectual, estamos no mesmo nível; mas, do
ponto de vista operacional da ciência, estamos 50 anos atrás."
Referência internacional no
estudo de aerossóis atmosféricos (micropartículas essenciais para a formação de
nuvens e regulação do clima), Artaxo,
de 62 anos, é um dos cientistas de maior destaque no País. No início deste ano, foi um dos quatro brasileiros listados entre os 3
mil pesquisadores "mais influentes" do mundo pela empresa Thomson Reuters, com cerca de 400
trabalhos publicados e 12 mil citações (quando seu trabalho é usado como
referência por outros cientistas). Suas
pesquisas mais famosas são sobre o efeito dos aerossóis e mudanças climáticas
na Amazônia.
Qual
é a receita para se tornar um cientista de renome internacional no Brasil?
Paulo Artaxo: É uma conjunção de fatores.
Primeiro, você precisa vislumbrar oportunidades de pesquisa que sejam
relevantes para o País no cenário internacional. Eu fiz o meu mestrado em
Física Nuclear, mas logo no doutorado me desloquei para a Física aplicada ao
meio ambiente, que naquela época era uma novidade. Hoje é fácil olhar para essa
área e reconhecer a relevância dela, mas 30 anos atrás, não. Essa é outra
característica importante: olhar não só
para o futuro, mas para um futuro longínquo, e saber aproveitar as oportunidades que aparecem ao longo do caminho.
Não existe uma receita pronta, mas basicamente você precisa ter visão de
futuro, ser persistente e trabalhar muito.
E,
para ganhar visibilidade, as colaborações internacionais são essenciais?
Paulo Artaxo: Assim como a economia, a
ciência hoje é globalizada. A quantidade
de coautores estrangeiros que tenho nos meus trabalhos é enorme, porque desde o início eu acreditei na cooperação
internacional como chave para fazer uma ciência de qualidade. Se você faz
um trabalho isolado, pode até ser de qualidade, mas suas chances são menores.
Quanto
da comunidade científica brasileira segue essas orientações? Por que nossa
ciência não tem um destaque maior no cenário internacional?
Paulo Artaxo: Há uma série de entraves,
tanto nas universidades quanto no sistema de financiamento de pesquisa e na
burocracia estatal, que dificulta muito o trabalho científico no Brasil. A burocracia é um problema gigantesco.
Nos Estados Unidos, se eu preciso de um equipamento, eu pego o telefone e três
dias depois esse equipamento está no meu laboratório. No Brasil, são seis meses para fazer qualquer tipo de importação.
Isso causa um atraso enorme e
ninguém ganha com isso. Nossa ciência poderia ser muito mais eficiente com as
mesmas pessoas e com um custo muito menor.
O
brasileiro arrisca o suficiente para fazer grandes descobertas?
Paulo Artaxo: Um dos problemas é que a quantidade de recursos financeiros é
muito limitada fora do Estado de São Paulo, então há pouco espaço para
arriscar. Um pesquisador no interior do Piauí ou do Maranhão, por exemplo, em
geral vai ter um projeto aprovado no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico) que paga entre R$ 50 mil e R$ 100 mil a cada dois
anos. Se ele se arrisca em uma pesquisa que não dá certo, isso vai atrasar o
desenvolvimento da sua vida científica em dois anos. Nos Estados Unidos, isso
não existe, porque as fontes de
financiamento são muito mais diversificadas. Aqui os recursos ainda são muito escassos para permitir a realização de
trabalhos de grande escala e alta qualidade. Além disso, as agências de
fomento no Brasil tendem a esperar pela demanda dos pesquisadores, em vez de assumir um papel mais ativo de inovação,
lançando editais voltados para ideias
mais ousadas, coisa que ninguém nunca fez. Isso é muito raro no Brasil. Mas
para isso acontecer é preciso ter um sistema azeitado para tolerar o fracasso,
experiências que não vão dar certo.
Além
de mais dinheiro, então, precisa haver uma mudança cultural, no modo de pensar
da ciência brasileira?
Paulo Artaxo: Exatamente. Fazer inovação é atividade de risco;
pode ser que dê certo, pode ser que não dê. Tive várias ideias ao longo da
minha carreira que não deram certo, mas você só vai descobrir isso depois de
tentar arduamente com todos os recursos disponíveis. Tem de arriscar para haver
inovação.
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