D I N O S S A U R O S
Carlos Melo*
O PSDB quer a extinção do PT.
O fato é que, perdidos na pré-história, ambos
apavoram-se
com o pesadelo da interlocução perdida, da irrelevância
política
e não imaginam por onde se reinventar
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"MORTADELAS" À ESQUERDA E "COXINHAS" À DIREITA: UM ENFRENTAMENTO QUE NÃO VAI A LUGAR ALGUM!!! |
Aparentemente,
é uma guerra de extermínio. Não basta
vencer, o inimigo deve ser eliminado. É a política por todos os meios,
exceto os mais legítimos: formulação de projetos, alternativas para o País,
saídas mais gerais, sistêmicas e, digamos assim, mais políticas, estão
descartadas. O caudaloso rio de disputas, acusações e ressentimentos acumulados
em que se navega há anos trouxe o sistema político a esta corredeira que se
precipita ao abismo sem perceber que algo diferente e desconhecido se delineia
logo mais a diante.
O PSDB vai à Justiça pedir a
extinção do PT.
Toma o todo pela parte corrompida dos adversários. Não tem disposição para dialogar com a parcela da sociedade que, em
2014, significou mais da metade do eleitorado. Descarta processos
pedagógicos (e trabalhosos) de disputa, como o convencimento. É possível, sim, que, do ponto de vista legal,
sobrem motivos para riscar o PT do mapa. Uma grana preta, afinal, foi desviada
dos cofres públicos e, supostamente, financiou campanhas. Com religiosa
convicção, tucanos atiram pedras, expulsam os vendilhões do templo. Ou, antes, trata-se de cálculo deliberado
para retomar espaços da ira de radicais avulsos?
A prudência tem sido tachada
de parcialidade ou covardia, mas seria mais prudente esperar por julgamentos
formais, não? Mesmo
verossímeis, as denúncias que sustentam a ação tucana ainda são fruto de
delações premiadas que, de quando em quando, também atingem próceres do PSDB,
que, de pronto, as desqualifica. É
incoerente acatar fontes que se despreza quando não convém. Os tucanos
precisam decidir se essas delações são ou não legítimas, afinal, para tudo. Reclama dos “vazamentos seletivos”, que,
vê-se, só são tolerados na tubulação do vizinho.
É
certo que, em circunstâncias trocadas, petistas fariam o mesmo. Não perderiam a
chance, pelo menos, do discurso inflamado e furioso do qual, no passado, se
mostraram especialistas. Nesse jogo sem fair
play, a garganta do inimigo é a meta. Simples assim: a galera exige, o
gladiador executa. Tanto quanto alguns tucanos, alguns petistas aplicam as
mesmas receitas conhecidas e, ao final,
“mortadelas” [1] e “coxinhas” [2] são da mesma miséria nutricional: reduzida
atenção com o País, exagerado zelo consigo próprios. Indignação seletiva.
No
entanto, o busílis [cerne da questão]
é outro: o sistema se fragmenta. Em
cacos, transmuta-se. O quadro
partidário, não tarda, será outro, diferente do qual nos acostumamos. PT e PSDB já não representam a sociedade
como há pouco faziam. Não mais parcelas tão amplas. Buscam, na verdade, sobreviver à ruína que já experimentam. Sem o
PT, o PSDB é pão sem manteiga, Palmeiras sem Corinthians, Romeu sem Julieta. O
mesmo serve para o PSDB. Morrem abraçados.
Passada
a eleição de 2014, abalados pela crise de 2015, ambos perderam espaço e a
centralidade das forças políticas que até recentemente conduziam. É provável
que não se deem conta do processo e, por isso, relutem aceitar a realidade da
crise sem precedentes: o País se transforma sem saber para onde, como e para
quê, se para melhor ou pior. Petistas e
tucanos [PSDB] debatem-se numa
resistência inócua, com lances performáticos como “pedir” a extinção do outro.
Não é apenas erro, é patético: partidos não se extinguem por medida judicial,
mas por irrelevância política.
E
este processo parece ter começado. No PT, a liderança já não lidera para além
dos corredores das sedes, da militância orgânica ou fundamentalista. Históricas frações à esquerda já resultam
em novas legendas (PCO, PSTU, PSOL, Rede Sustentabilidade, Raiz). A antiga área de influência se descola
(PSB e, logo, o PCdoB). Sindicalistas e movimentos logo mais encontrarão outras
referências de corporativismo e abrigo no Estado. Aliados inconfiáveis (PMDB, PDT,
PSC e quejandos) se desvencilham do passivo à espera de saltar do vulnerável
barco governista.
No PSDB, não é diferente. Não mais há “a oposição”
(no singular), mas “as oposições” (no plural). Fragmentados, novos grupos vão se conformando: a Rede, de Marina Silva, almoça tucanos
em pleno dia, sufocando-os numa torrente de palavras imprecisas a respeito da
sustentabilidade democrática, social e ambiental. Pelo liberalismo econômico
ousado e sem pudor, o Partido Novo
os janta nas críticas ao papel e tamanho do Estado que os tucanos
envergonham-se de expressar. À direita, alternativas mais conservadoras (e
radicais) ocupam espaços que, desde o ocaso do malufismo, imaginava-se reserva
do PSDB. Até o satélite DEM se afasta.
PSDB
e PT se agarram, assim, um ao outro como forma de preservação. Antagonistas
escolhidos e sparrings mútuos. Quem apostou num sistema político tendendo ao
bipartidarismo gastou fichas em vão. Hoje, a polarização é social e está nas
ruas, nas famílias, nas redes. Perigosamente, sem direção nem freios. Perdidos na pré-história desse novo
momento, tucanos e petistas apavoram-se com o pesadelo da interlocução perdida
e da irrelevância política, não imaginam por onde se reinventar. O fantasma
da extinção política assombra a ambos os dinossauros.
N O T A S
[ 1 ] “Mortadela”: é o nome com o
qual se apelidou pessoas que comparecem em manifestações de apoio ao governo
petista de Dilma Rousseff. Esse nome provém do fato desses manifestantes, em
vários casos, receberem sanduíches de mortadela durante as manifestações. Elas
são, por isso mesmo, denominadas de manifestações “chapa branca”, porque
apoiadas pelo governo (chapa branca dos veículos do Estado). Com esse termo,
passou-se a designar, por extensão, todo aquele que sendo ou não do PT apoia o
atual governo federal.
[ 2 ] “Coxinha”: é um termo
pejorativo usado na gíria e que serve para descrever uma pessoa
"certinha", "arrumadinha". Tendo a sua origem em São Paulo,
a palavra coxinha quase sempre tem um sentido depreciativo e indica um indivíduo conservador, que é
politicamente correto e que se preocupa em adotar comportamentos que são aceitos
pela maioria das pessoas. Nas manifestações contra o governo Dilma Rousseff, os
manifestantes são denominados de “coxinhas”.
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CARLOS MELO é Cientista Político e Professor do
Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), em São Paulo.
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