O QUE PODE E NÃO PODE ACONTECER NA POLÍTICA E ECONOMIA DO BRASIL EM 2016?
CENÁRIO POLÍTICO
Crise no Brasil é um dos principais riscos
internacionais em 2016
Jamil Chade
Genebra
(Suíça)
Para consultoria americana, situação no País está entre
os
dez acontecimentos que representam maior risco no mundo
A
crise política e econômica no Brasil está entre os dez maiores riscos para o
cenário internacional em 2016. O alerta é da consultoria Eurasia Group que publicou seu ranking dos fatos e situações de
maior risco para o mundo no ano. O
Brasil aparece na oitava posição, e os analistas estrangeiros apontam ainda
que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode "atuar um pouco
como (Hugo) Chávez e peça que os trabalhadores intervenham". Mas descartam
a possibilidade de que uma revolução tenha espaço para ocorrer.
"O tombo na economia
brasileira será grande", declarou Ian
Bremmer, presidente da consultoria ao ser questionado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Chamado de
"guru em ascensão" pela revista The
Economist, Bremmer é professor da Universidade de Nova York e criou um
primeiro índice de risco político usado por Wall Street.
"Por
mais que o mercado de ações no Brasil e sua moeda tenham sofrido em 2015, a crise política e econômica vai piorar
durante 2016", alertou a Eurasia.
Segundo
a consultoria, "o Brasil está em
meio a uma ‘recessão profunda’" e que pode durar "múltiplos anos". "A presidente Dilma
Rousseff (PT) está lutando por sua sobrevivência política, e a crise política e
econômica deve piorar em 2016", insistiu.
Para
a consultoria, as apostas de que haja uma solução política não devem ser vistas
com otimismo. "A batalha sobre o impeachment de Rousseff não deve colocar
fim ao impasse político atual", apontou o grupo, um dos maiores do
mundo em termos de análise de risco político.
"Se
ela sobreviver, o que parece ser o caso, seu
governo não ganhará a força política necessária para fazer avançar as reformas
econômicas que o País precisa para lidar com seu déficit fiscal cada vez
maior", indicou. "Para garantir o apoio que precisa para impedir o impeachment no Congresso, Rousseff terá
de fazer concessões a sua base de esquerda. Essas aberturas vão enfraquecer sua
agenda fiscal e explicam a decisão de substituir seu ministro da Fazenda
ortodoxo Joaquim Levy por um menos duro em termos fiscais, Nelson
Barbosa", avaliou.
A opção por Michel Temer
(PMDB) também não é vista com bons olhos. "Se Rousseff cair, o governo liderado pelo
vice-presidente Michel Temer não fará muito melhor e a divisão entre os
partidos irá perdurar muito além do impeachment."
Para
o grupo, os problemas enfrentados por Temer neutralizariam o fato de o País
reiniciar o processo político com um novo governo. Na avaliação da consultoria,
as investigações sobre o PMDB vão
aumentar no âmbito da Operação Lava Jato, "implicando membros de seu
novo governo e diminuindo incentivos para que o PSDB continue a dar a ele seu
já tênue apoio".
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NEM MICHEL TEMER NEM DILMA ROUSSEFF respectivamente vice-presidente e presidente da República, inspiram confiança!!! |
Os
analistas também apontam que, se assumir o governo, Temer terá de conviver com
o PT na oposição, em um cenário em que o partido de Dilma estará ansioso para
fazê-lo "pagar pela queda" da presidente. O PT também vai querer
mostrar seu desacordo com sua "agenda neoliberal".
"Com a taxa de
desemprego aumentando a mais de 10% no curso do ano, o espaço de manobra
política do novo presidente será profundamente limitado."
A
consultoria também aponta para o impacto da Operação Lava Jato. "A
presidente vai continuar vulnerável ao caso de corrupção Lava Jato",
disse. "Isso deve revelar novas
evidências de irregularidades dentro de seu partido, o PT, que podem também
levar a novos pedidos por seu impeachment."
Lula
Para
a Eurasia, seu destino pode ser
definido ainda mais rápido se "seu mentor e ex-presidente Luiz Inácio Lula
da Silva sentir a pressão das investigações e se virar contra a agenda de
reforma de Rousseff".
O
próprio ex-presidente pode ter um papel central em 2016, na avaliação dos
analistas.
"Lula não hesita em falar em conspiração e
está disposto a atuar um pouco como Chávez, sair às ruas e pedir que
trabalhadores intervenham. Mas não vemos espaço para uma revolução ser
aceita", indicou Bremmer.
Para
ele, não existiria essa opção na sociedade brasileira diante do que ele chama
de "instituições sólidas", uma "classe média madura" e o
"nível de educação".
Ainda
assim, na avaliação do grupo, se Dilma
continuar no poder, ela será uma presidente cada vez mais cativa de elementos
radicais de seu partido", em conflito com o Congresso e que podem
levar a uma "paralisia
política".
Impacto
Para
Bremmer, o impacto econômico desse
impasse político será importante. "O
mercado vai punir o Brasil diante da falta de capacidade de fazer
reformas", disse. "Mas talvez seja a crise que o Brasil
precise", apontou.
A
repercussão promete afetar até mesmo os Jogos
Olímpicos, que ocorrem no Rio de Janeiro em agosto. "Será um evento ruim. Haverá manifestação, a insatisfação popular
é elevada e não será tranquila como a Copa do Mundo", disse.
Segundo
ele, os locais de eventos nos Jogos de 2016 são distantes um do outro e,
portanto, pode ser fácil para manifestantes fecharem as vias de acesso aos
locais. "Não será um ano para ir ao
Brasil. Não será um local para a festa", declarou.
Eleição
A Eurasia estima que a forma mais limpa de sair dessa crise política "está nas mãos do
Tribunal Superior Eleitoral, que avalia suspeitas de fraude nas eleições
presidenciais de 2014". "Se a Corte encontrar evidências de
financiamento ilegal de campanha, ela pode convocar eleições em 90 dias. Ainda que improvável, tal resultado teria o
benefício de colocar um novo presidente eleito com nova legitimidade
política".
"Um
novo governo se beneficiaria de uma
onda inicial de otimismo no setor privado. Um novo presidente pediria unidade
nacional, contaria pelo menos com o apoio tácito do PSDB e iria propor reformas
econômicas estruturais". Mas a
própria consultoria não aposta neste cenário e não acredita que isso vá ocorrer.
"No fundo, o Brasil
teria um ano de menor risco se houvesse uma eleição e que o País se livrasse de
Dilma"
[e de Michel Temer!], disse Bremmer.
Em sua avaliação, uma "luz no final do túnel pode surgir ao final de 2016
ou início de 2017, quando começar a ficar claro quem concorrerá nas eleições de
2018. "Muita gente quer apostar ainda no Brasil", disse.
Além
do Brasil, a lista dos maiores riscos para 2016 é liderado pela fragilidade da
aliança entre Estados Unidos e União Europeia, o que promete ter um
"impacto global sobre o risco político".
Segundo
a Eurasia, o informe "Top Risks" do ano tenta
"identificar as tendências políticas e geopolíticas mais desafiadoras e
pontos de estresse para investidores globais e participantes do mercado em
2016".
Em segundo lugar no ranking, está o risco de que a Europa feche suas fronteiras,
diante do fluxo de refugiados e a ameaça terrorista. O impacto da desaceleração na China vem na terceira posição, seguido pela [4ª posição] ameaça terrorista do Estado Islâmico.
A quinta posição no ranking é da Arábia Saudita, diante de sinais de
desestabilização interna. No sexto lugar,
a consultoria aponta para o surgimento
de magnatas do setor da tecnologia como atores políticos, capazes de
influenciar decisões internacionais.
A sétima posição entre os maiores riscos
de 2016 é a do fortalecimento de
"líderes imprevisíveis", como Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdogan.
Se
o Brasil aparece na oitava posição, a nona
é também relacionada com os países emergentes a "falta de eleições livres" em muitos deles. O ranking é
completado com a situação política na
Turquia e o destino de Erdogan.
Fonte: ESTADÃO.COM.BR –
Economia & Negócios – 04/Janeiro/2106 – 15h34 – Internet: clique aqui.
CENÁRIO ECONÔMICO
Que surpresas 2016 nos reserva?
Ilan Goldfajn*
As surpresas na economia raramente acontecem como
imaginamos.
As verdadeiras surpresas nos pegam, de verdade, pelo
inesperado.
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BOLSA DE XANGAI - CHINA: Este país é a grande incerteza de 2016!!! |
O
ano de 2015 foi muito pior do que o esperado. Para 2016 a expectativa também é
ruim. Na minha visita aos Estados Unidos da América [EUA], na última semana do
ano, só me defrontei com perguntas sobre os desdobramentos da atual crise
econômica e política. Voltando ao Brasil, deparo-me com a esperança de alguns
de um 2016 melhor que as perspectivas. Parece promessa de fim de ano. Ou talvez
a esperança seja mesmo a última que morre. Fico, então, pensando nas possíveis
surpresas para este ano. De fato, surpresas
positivas são possíveis, mas as mais negativas também. Para avaliá-las
resolvi escrever esta lista de surpresas.
No
Brasil quase tudo poderia ser qualificado como surpresa, já que nada parece
provável. Mais três anos na atual situação não parecem prováveis, assim como as
diferentes rupturas políticas e mudanças econômicas não são fáceis de se materializar.
Qualquer cenário é de certa forma uma
surpresa (por improvável), mas não
surpreenderia (por ter sido cogitado, na falta de opções).
No
exterior, as surpresas se dividem entre positivas e negativas, e estas últimas
preocupam. A fragilidade da situação
doméstica é tal que um choque externo negativo poderia levar a um
aprofundamento da crise no Brasil com consequências sociais imprevisíveis.
A única certeza é que um futuro choque externo levaria a culpa por toda a
crise, até mesmo pela situação atual. Um choque positivo, em contraste, daria
um tempo precioso para a política/economia local encontrar seu rumo.
Que
surpresas poderiam acontecer?
Juros nos EUA
Caso
os juros subam bem mais rapidamente que o previsto nos EUA, poderá haver uma reversão rápida dos fluxos
de capital em direção a esse país. A saída de recursos do Brasil
fragilizaria o balanço de pagamentos, justamente o último alicerce de
sustentação da economia brasileira. O governo reagiria vendendo dólares (via swaps ou à vista) para suavizar a
situação. Mas a falta de financiamento
externo e a depreciação do real aprofundariam a recessão e realimentariam a
inflação. Provocariam uma situação ainda mais difícil social e
politicamente.
Por
sorte, o Fed (o banco central dos
EUA), apesar da subida recente de juros, está mais preocupado com o crescimento
se consolidar nos EUA do que com a volta da inflação no futuro. Por isso a trajetória de juros implícita nos títulos
do mercado tende a ser muito gradual e benigna.
Uma
subida mais forte dos juros evidenciaria que o Fed estaria atrasado, a última coisa que o Brasil precisaria neste
momento.
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FED (FEDERAL RESERVE) É O BANCO CENTRAL DOS ESTADOS UNIDOS |
O choque inverso também é
possível.
Uma decepção com o crescimento da economia americana (em linha com a atual e
famosa tese da “estagnação secular”) levaria o Fed a ser mais cauteloso com a subida de juros, reduzindo o ritmo e
talvez até interrompendo o atual ciclo de alta. A manutenção dos juros nos EUA
perto de zero (com o adiamento da normalização da política monetária) prolongaria
o incentivo para manter os recursos em ativos de risco com juros maiores. O
Brasil se beneficiaria dessa situação, com os capitais permanecendo no País,
evitando uma pressão no balanço de pagamentos e ganhando um precioso tempo
adicional para ajustar sua economia. Essa surpresa favorável não garante a
melhora da situação, mas fornece as condições internacionais e o tempo para que
a política e a economia domésticas encontrem seu rumo.
China perde ou ganha o controle
A crise nas economias
emergentes, o fim do ciclo de commodities
e a desaceleração da China são fenômenos entrelaçados. Caso a China desacelere
mais que o esperado, uma nova queda forte das commodities poderá ocorrer, causando nova perda de renda nas
economias emergentes. No Brasil, uma
nova rodada de queda de commodities
depreciaria o câmbio (mais inflação e juros) e tiraria renda da economia. A
recessão se aprofundaria, piorando a
crise atual. Seria difícil administrar uma nova perda significativa de
renda externa na atual fragilidade local.
A
China até agora tem administrado a desaceleração de forma ainda ordenada,
apesar das dificuldades e da necessidade de rebalancear a economia (para mais
demanda interna, mais consumo), além dos receios do mercado. O crescimento do
PIB neste ano entre 6% e 7% configuraria a continuidade da estratégia de
aterrissagem suave. A prova final seria a estabilidade dos preços das commodities.
A surpresa inversa na China
é difícil de enxergar: seria a volta do rápido crescimento de dois dígitos e um novo boom das commodities. Seria a salvação da crise no Brasil, pelo menos no
curto prazo. O crescimento viria de fora e melhoraria a arrecadação, o controle
sobre o déficit fiscal (e a dívida crescente ganharia um poderoso aliado). Essa
surpresa levaria muitos a acreditar que Deus é de fato brasileiro.
Guinadas na política econômica no Brasil
A
necessidade de ajuste fiscal e a fragmentação política (que impede a aprovação
de reformas e ajustes) continuam sendo o núcleo do problema no Brasil. Uma
guinada em qualquer direção nessa questão constitui uma surpresa. Uma guinada
para abandonar a necessidade do ajuste fiscal seria o começo do fim, ou talvez
o fim do fim. Gastar o que não se tem
seria um verdadeiro “expancídio”. Por isso uma guinada irracional
(anunciada ou silenciosa) seria uma surpresa.
Uma
surpresa positiva seria a capacidade de juntar forças para aprovar as medidas
fiscais necessárias, assim como a reforma da Previdência (a idade mínima, por
exemplo). Daria um choque de confiança, o que poderia retomar o crescimento.
Lembrei-me
agora, no final do artigo, de que surpresas na economia raramente acontecem
como imaginamos. As verdadeiras surpresas nos pegam, de verdade, pelo
inesperado. Talvez o surpreendente este ano seja a ausência de surpresas. Nesse
caso, teríamos o cenário esperado, uma continuação (igual ou pior) de 2015.
Tenho a impressão de que isso ninguém quer.
*
ILAN GOLDFAJN é economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Espaço aberto
– Terça-feira, 5 de janeiro de 2016 – Pg. A2 – Internet: clique aqui.
“O cenário externo vai potencializar
o cenário interno”
Entrevista
com José Márcio Camargo
Professor
de Economia da PUC-Rio
Para economista, alta dos juros nos EUA e desaceleração
na China
devem impor barreiras à recuperação doméstica
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JOSÉ MÁRCIO CAMARGO Economista, Consultor e Professor da PUC-Rio |
Para
o professor da PUC-Rio e economista-chefe da gestora Opus, José Márcio Camargo, a reação do
mercado ontem pode ser uma constante neste ano. Além do cenário interno
delicado, as notícias vindas do exterior, especialmente da China e Estados
Unidos, não vão ajudar na recuperação da economia doméstica. Veja trechos da
entrevista:
O
que pressionou mais os mercados?
José Márcio Camargo: Do lado externo, os dados
da China vieram relativamente
fracos, indicando que a economia está em
desaceleração mais forte que a esperada. Tem ainda a questão da regulação
das bolsas na China, com algumas proibições inseridas em meados de 2015 e que
vão acabar dia 8. Os investidores temem que isso afete o preço das ações. Os indicadores de produção industrial nos
Estados Unidos também vieram fracos e fizeram as bolsas caírem. Estamos
esperando um crescimento da indústria americana menor do que o mercado. Com a
forte valorização do dólar, redução da taxa de desemprego e aumento dos
salários reais, nossa expectativa é de perda de competitividade da indústria
americana, o que deve fazer com que as margens de lucro caíam. Neste ano, o
cenário externo vai potencializar o cenário interno.
O
pessimismo de segunda-feira foi mais efeito externo ou interno?
José Márcio Camargo: Em parte, o movimento ainda
reflete a substituição de Joaquim Levy por Nelson Barbosa no Ministério da
Fazenda. Acho que o mercado também ficou apreensivo com a possibilidade de um
pacote de medidas que ninguém sabe do que se trata. Pesou também o fato de que há sintomas de algumas medidas que apontam
para um compromisso menos forte com uma situação fiscal mais equilibrada.
Que
sintomas são esses?
José Márcio Camargo: Algumas medidas tomadas nos
últimos dias sugerem que o governo está
um pouco menos preocupado com a questão fiscal. No fim do ano, o governo
mandou três medidas provisórias que indicam mais leniência fiscal:
- Uma eleva o prazo de maturidade dos créditos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e do Banco do Brasil;
- em outra o governo assume o custo de manutenção de algumas estradas repassadas aos governos estaduais; e o aumento de gastos da ordem de R$ 1,4 bilhão.
- Outra coisa que foi feita nos últimos dias foi que o governo decidiu que o BNDES – apesar de ter recebido as pedaladas – não precisa antecipar o pagamento das dívidas com o tesouro, da ordem de R$ 30 bilhões.
Quais
os riscos disso?
José Márcio Camargo: A situação fiscal é
insustentável e, se o governo não tiver
um projeto duro de reequilíbrio fiscal, a gente vai entrar numa trajetória
perigosa. Temos um déficit público de 9% do PIB; a relação dívida/PIB passará de 70%. Isso vai gerar mais rebaixamento
da nota de risco, mais aumento no prêmio de risco, mais desvalorização cambial
e mais pressão inflacionária. O que ocorreu hoje (ontem) é um sinal do que pode
vir pela frente.
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