A CRISE DA CLASSE MÉDIA: nos EUA e no Brasil
Retalhos de um sonho
Entrevista
com Richard Sennett
Sociólogo, professor da Universidade de
Nova York
Vitor Hugo
Brandalise
O sociólogo Richard Sennett puxa o fio da meada da
corrida presidencial americana. Primeiro analisa o crescente debate sobre
desigualdade no país:
“A classe média está estrangulada, e tende a cair”.
Depois avalia a ascensão do socialista Bernie Sanders:
“O que ele diz não é utopia, é realidade, confronta os
milionários e conversa com os jovens sem emprego”.
Então fecha com Obama:
“Ele elevou o nível do debate ao falar como um adulto
para um público adulto. Esse é seu maior legado”.
![]() |
RICHARD SENNETT Sociólogo e historiador norte-americano |
Nunca
a concentração de riquezas foi tanta nos bolsos de tão poucos. Soubemos essa
semana que 62 bilionários (entre
eles, dois brasileiros) possuem o
equivalente ao que têm, juntos, outros 3,6 bilhões de pessoas, a metade da
população mundial, justamente os mais pobres. A cada par de anos sai uma
estatística parecida, tão difícil de acreditar quanto a primeira. Precisamos
Mesmo Ser Tão Desiguais?
No país de maior economia do
mundo, onde a corrida eleitoral começa a esquentar, essa parece ser a pergunta
da vez.
Mostra que alguma coisa já mudou no debate político americano. Não se fala
apenas em imigração e política externa, mas também nas jornadas de trabalho que só aumentam, nos salários que diminuem, nos empregos
que não dão segurança. A classe
média, símbolo da força da economia do país, começou a sofrer – e assim a
discussão sobre distribuir a riqueza ganhou espaço no epicentro da meritocracia
e dos self made men.
Para
o prestigiado sociólogo Richard Sennett, professor da London School of Economics e da Universidade de Nova York, esse é só o
começo do debate sobre desigualdade econômica em países ricos. “A classe média americana está estagnada
e, se vai a algum lugar, é para baixo.
É uma situação nova, num país que sempre se vendeu como terra da oportunidade. A fantasia acabou, o eleitorado está
percebendo e isso estará muito presente na política americana nos próximos
anos”, afirma Sennett, autor de O Declínio do Homem Público
(clássico da sociologia, de 1977, sobre mudanças de comportamento do homem
desde o século 18) e de Respeito: A Formação do Caráter em um Mundo
Desigual (Record), misto de livro de memórias e análise da desigualdade
social com base em sua infância pobre, no Brooklin dos anos 40.
Nesta
entrevista ao Aliás, Sennett também
analisou o papel do principal porta-voz da discussão sobre desigualdade nos
Estados Unidos: o senador Bernie Sanders,
que se declara socialista e vem desbancando Hillary Clinton em alguns Estados
na disputa pela candidatura democrata à Casa Branca. “Dizem que ele é idealista. Por acaso é idealismo defender o confronto
às oligarquias, se é o que os Estados Unidos precisam? Ele vem se tornando tão
popular, especialmente entre os jovens, por dizer o que tem de ser dito.” Sobre
o legado de Obama após oito anos na presidência, Sennett foi generoso. “Ele elevou o nível do debate político, ao
falar como um adulto para um público adulto.”
Por
que o debate sobre a desigualdade reapareceu nos Estados Unidos?
Richard Sennett: A principal razão é que a
natureza da desigualdade mudou no país. A classe média estagnou, num processo
que vem acontecendo há 20 anos. Houve uma recuperação depois da crise
financeira de 2008, mas, agora, com o país cada vez mais demandando produtos,
isso fica mais aparente. A desigualdade, em vez de ser definida pelos mais
pobres, é hoje um problema maior para os que estão no meio. Os que ficam mais
embaixo estão, inclusive, levemente melhores do que em 2007. Essa mudança, essa
redistribuição da desigualdade, leva o tema para o centro do debate político.
Nos Estados Unidos, é uma questão que se nota na medida em que afeta a classe
média.
Como
chegou a esse ponto?
Richard Sennett: A classe média estagnou,
essencialmente, porque muitas das indústrias de serviço americanas passaram a
oferecer apenas trabalhos de curto período, que pagam pouco, ou se transferiram
para o terceiro mundo. Especialmente indústrias de serviços, como call centers, que são levadas para
países como a Índia. Como eu disse, são oferecidos muito menos trabalhos full-time [tempo integral], ou de
períodos mais longos. O resultado é que os salários e, com eles, a riqueza
estão diminuindo, e as pessoas sentem muito mais insegurança no trabalho. Ao
olhar os dados globais de emprego nos Estados Unidos, no bruto, parece
saudável. Mas, se você observar quais são os trabalhos que empregam hoje, eles
são de pior qualidade. É uma situação distinta da do Brasil, onde há uma
diferença maior entre os de cima e os de baixo. A economia nos Estados Unidos
têm a forma de uma ampulheta, com o meio cada vez mais estrangulado. É a classe
média, forçada a subir, ou, mais frequentemente hoje, descer. Enquanto isso, a
riqueza extrema aumenta. Mas acho errado focar a questão da desigualdade no
topo. É preciso ir a um nível inferior para entender. Do ponto de vista social,
é interessante notar que todos estão tratando da estagnação da classe média.
Essa é a razão da popularidade de Bernie
Sanders, que é de outra geração, mas vem falando da realidade da classe média
jovem. E fala disso de uma maneira que Hillary Clinton não consegue.
![]() |
BERNIE SANDERS Senador norte-americano pelo Estado de Vermont - não possui partido político, mas disputa a indicação para candidato à Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata |
Quais
as diferenças no pensamento de Hillary e Sanders nessa questão?
Richard Sennett: Toda a campanha de Sanders é baseada na noção do que se
pensa na Europa, principalmente nos países nórdicos. Ele se diz socialista, mas
na verdade é um social-democrata.
Isso tem um apelo incrível entre os mais jovens e esse é o porquê de ele estar
se tornando um desafio tão grande para Hillary. O que estou descrevendo é um
problema grave para os jovens americanos, porque as oportunidades estão
diminuindo aos que têm diploma universitário, há menos espaço no topo, menos
gente com mais e mais dinheiro. E há menos empregos para os que estão embaixo e
querem ter uma vida boa. Sanders é mais realista sobre a questão do trabalho. A
noção de Hillary é mais baseada em mobilidade social. Uma visão antiga, desde
que era senadora ela fala disso, em mover-se para cima na escala ocupacional.
Mas não acho isso muito possível hoje, com menos posições de trabalho para a
classe média. Hillary enfatiza o self made man [homem que se fez a si
próprio; homem que se elevou pelos seus próprios méritos], algo que não se
sustenta mais, especialmente para os jovens. Não passa de fantasia.
E
Sanders entendeu isso.
Richard Sennett: Sim. Os jovens, os millennials [é a chamada geração Y, os
nascidos após 1980], estão acordando para a desigualdade. Isso é uma mudança
real. Antes de 2008, eles não pensavam muito nisso. Mas a crise dramatizou a
situação para eles. As oportunidades encolheram, a segurança está encolhendo. É
um mundo diferente para essa classe média que, desde a Segunda Guerra, presumiu
sempre que cada geração viveria melhor do que a anterior. Não houve reflexão de
que poderia ser diferente. Hoje a situação mudou, e os millennials são os primeiros a lidar com esse fato.
![]() |
HILLARY CLINTON É advogada e uma das candidatas à indicação pelo Partido Democrata nas eleições presidenciais |
As
propostas de Sanders para reduzir a desigualdade seriam efetivas?
Richard Sennett: Certamente. Ele fala em
diminuir o poder das oligarquias, aumentar impostos para os mais ricos e, com
isso, expandir programas de segurança social, criar um sistema de saúde
acessível a todos. Funcionou em países nórdicos. Não concordo com tudo o que
ele diz, mas ele tem falado em um problema real, que é a insegurança laboral.
Estou menos preocupado com a distribuição de riqueza do que com a segurança que
uma real democracia social poderia trazer. As pessoas sempre conviveram com
desigualdade e sempre lidaram com ela. O
que está realmente diferente hoje é a estrutura do trabalho, muito instável.
As pessoas sentem falta de segurança
inclusive para ousar, fazer coisas novas. Isso é estimulado se houver um
sistema que permita que se reergam se falharem. É o que Sanders defende, e esse
sistema seria uma boa opção, necessária até, para os Estados Unidos. Mas não
acredito que tenha chances.
Por
quê?
Richard Sennett: Não tem a ver com o fato de
que ele se diga socialista. Tem a ver com a estrutura da política. Ele não tem organização partidária, é um
indivíduo correndo sem estrutura política por trás. Ele pode ganhar as
primárias em Estados pequenos, mas nunca em Nova York, Pensilvânia, Texas,
Califórnia. Ele não está integrado na
classe política, e é o que gosto nele. Mas, como realista, digo que se você
não controla a classe política você tem problemas. Pode-se dizer que o
presidente Obama também não tinha organização política por trás dele em 2008.
Mas Hillary gerenciou tão mal seu plano naquela ocasião que Obama foi capaz de,
passo a passo, colonizar instituições políticas novas a ele. Isso não está
acontecendo com Sanders. Hillary aprendeu com a experiência de 2008. Então não
acho que ele terá a mesma oportunidade.
Mas
o que representa haver um político de esquerda com chance em um país como os
Estados Unidos?
Richard Sennett: Representa uma tentativa de falar de uma realidade que
mudou. Os americanos gostam de fantasias, de viver uma fantasia. E eles
tiveram o poder de viver isso durante muito tempo. A esperança da mobilidade
social, por exemplo, de trabalhar duro e chegar lá. E agora perderam esse
poder.
Sanders
está recuperando utopias?
Richard Sennett: Não acho que ele seja um
idealista, que tenha ideias utópicas. Seria porque fala em confrontar as
oligarquias? Eu diria que esse é um ideal realista. Seria mais realístico dizer
“não, não vamos falar disso”? Falar em confrontar milionários e bilionários,
como ele faz, não é o que se espera de um político que quer ser candidato a
presidente. Mas dizer o que precisa ser dito é ser utópico? Não acho que esteja devolvendo fantasias
aos jovens, ou motivos para sonhar. Ele está reconhecendo e mostrando a eles as
realidades em que vivem. Independentemente se pode ou não ganhar, está
criando um movimento. Aos 74 anos. Espero que vá bem, porque a América precisa
fazer as discussões que ele propõe.
Na
sua opinião, qual será o legado de Obama?
Richard Sennett: Ele concretizou propostas
muito boas. Conseguiu fazer um sistema de
justiça racial mais justo, o que é uma grande realização. Tentou melhorar o sistema de saúde e foi
parcialmente bem-sucedido. Fez um esforço. Em outras coisas ele foi mal: o
legado dele na questão ambiental é pobre, e sua política internacional teve
resultados mistos. Muito pobre no começo, com melhoras recentes. As aberturas para Irã e Cuba foram um
grande legado. Mas isso ele só fez no fim. E ficou na Casa Branca durante
oito anos. Gostaria de vê-lo sair do Afeganistão, de ser mais enérgico na crise
de refugiados... Em linhas gerais, foi um bom governo. Mas o que eu realmente
gosto nele é que Obama sempre falou como
adulto para um público adulto. E muitos políticos americanos tratam o
público como crianças. Obama honrou o
público ao levá-lo a sério, elevou o nível do debate na política. E agora,
para onde vai isso? Vai se perder. Se
for um republicano, cairá como chumbo. O discurso passará a ser primitivo.
Mas, mesmo se for um democrata, se for
Hillary, vai cair o nível. O único que está falando com o público como
Obama faz é Sanders. Uma discussão
adulta. Mas, como não acredito que ele tenha chance, corremos um risco sério de
ver, novamente, discussões infantis nos Estados Unidos. E sabemos como isso tem
reflexos em muitos países da área de influência americana.
Comentários
Postar um comentário