Previsão do tempo para 2040
José Antonio
Marengo Orsini*
Mesmo com corte de emissões, eventos extremos e altas
temperaturas ficarão mais frequentes no Brasil; o climatologista José Marengo dá
uma amostra do que pode estar nos telejornais no futuro
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SECA NO NORDESTE É A MAIS LONGA E GRAVE DOS ÚLTIMOS 40/50 ANOS!!! |
Vida
de meteorologista tem lances inusitados. Uma vez, quando trabalhava no CPTEC
(Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Inpe) me ligou uma noiva
querendo saber se choveria no dia 23 de setembro, pois tinha sua festa de
casamento planejada para aquela data. Detalhe: ela ligou no dia 18 de março.
Obviamente não dá para saber se vai chover daqui a seis meses – a previsão do
tempo é feita com até sete dias de antecedência.
Mesmo
que a tecnologia tenha melhorado, como melhorou, e que a confiança das pessoas
na previsão do tempo seja maior hoje do que no passado, as incertezas aumentam quanto mais se tentar enxergar adiante, devido à
natureza essencialmente caótica dos fenômenos meteorológicos. Mesmo que
seja possível prever o tempo para as próximas seis horas e para a próxima
estação do ano, o acerto será maior numa previsão para hoje pela noite que para
fevereiro 2016.
Agora,
já pensou como seria a previsão de tempo num futuro mais quente, como aqueles
projetados pelo IPCC, o painel do clima da ONU? Resultados de pesquisas em todo o mundo sugerem que, mesmo com o
sucesso do Acordo de Paris e quaisquer que sejam os esforços feitos para
limitar as emissões de gases de efeito estufa, ondas de calor mais fortes e
frequentes e episódios de chuvas intensas e períodos secos e secas seriam
inevitáveis nos próximos 30 anos.
Até
2040, a frequência de:
- episódios de calor extremos,
- chuvas intensas e
- secas vai aumentar, independente das emissões de dióxido de carbono na atmosfera.
Trata-se de uma conta a
pagar pelos gases de efeito estufa que já emitimos no passado, em grande parte enquanto
protelávamos a decisão de fazer algo a respeito.
Imagine
em um dia qualquer, digamos, de fins de fevereiro de 2040, a moça de tempo
falando o seguinte:
«Temperaturas podem chegar até 39º C na média
em São Paulo e há previsão de uma onda de calor a partir de amanhã, com máximas
previstas de 42º C durante os próximos quatro dias. Recomenda-se às pessoas não
se exporem entre 10h e 15h horas ao sol e se hidratarem continuamente. Já no
Nordeste, as máximas amanhã podem chegar ate 42º C em Fortaleza e Recife, mas
tem previsão e pancadas de chuva intensa pela tarde, e de noite as mínimas pode
chegar ate 32º C. A seca nessa região continua no seu quinto ano. No Norte do
Brasil, a seca que começou em 2038 continua se estendendo pela Amazônia, e a
secura do ar favoreceu um maior número de queimadas, que bateram um novo
recorde ao crescerem 200% em relação a 2039. As temperaturas médias chegam a
até 45º C. Com a baixa do nível dos rios, o transporte fluvial foi cancelado na
região até segunda ordem. No Sul do Brasil, as chuvas intensas continuam pelo
quinto dia consecutivo, e o risco de deslizamentos de terra no Vale de Itajaí
aumentou, e as máximas em Porto Alegre podem chegar a 35º C».
É
claro que em 2040 as previsões mostradas na mídia podem ser mais sofisticadas,
com mapas e imagens 3D, e a ótima Maria
Júlia Coutinho [apresentador da TV Globo] poderá ter dado lugar a uma
apresentadora ou um apresentador do tempo virtual. O que não muda, porém, é que
o futuro terá um clima mais quente e com
mais eventos extremos, e que se um imenso esforço de políticas de redução
de gases de efeito estufa não for feito para amenizar o aquecimento global, a
previsão de tempo no futuro deixará de ser uma parte amena dos jornais para
virar uma dor de cabeça para a população e os governantes.
*
José Antonio Marengo Orsini é doutor em meteorologia pela
Universidade de Wisconsin-Madison (EUA) e chefe de pesquisas do Cemaden (Centro
de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). Participou dos relatórios de
avaliação 4 e 5 do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) e
é membro do Painel Brasileiro sobre Mudanças Climáticas.
Fonte: Envolverde – Notícias – Segunda-feira, 4 de
janeiro de 2016 – Internet: clique aqui.
5 evidências que as mudanças climáticas
já são realidade
EcoDebate
06-01-2016
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Temperatura registrada foi de 43,4 graus a bordo de um coletivo no Fonseca (Niterói, RJ), em 15/02/2014. Números foram aferidos por meteorologista da UFRJ (Igor Balteiro) |
2015
foi um ano conturbado para o meio ambiente com desastres como o da barragem em
Mariana (MG), mas também com esperanças, por conta da assinatura do Protocolo
de Paris que definiu o novo acordo global. Mas e por que isso é importante?
Porque é preciso que todas as nações se unam para evitar o aumento da temperatura
na Terra e suas consequências. E que consequências são essas?
Confira
abaixo cinco evidências que o gerente de estratégias de conservação da Fundação Grupo Boticário de Proteção à
Natureza, André Ferretti,
elencou comprovando que as mudanças climáticas e seus efeitos já chegaram.
1.
Aumento da temperatura
De
acordo com a ONU, 2015 foi o ano mais quente da história, por conta do
aquecimento global, que já se sabe, é causado pelo homem. No Brasil, as altas
temperaturas foram sentidas durante todo o ano. A cidade do Rio de Janeiro registrou neste ano 43,2º C, com sensação
térmica de 47º C, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia. A
temperatura é a mais alta desde 1915, quando teve início a medição. Outras capitais
também tiveram recordes como Brasília
(DF) que registrou a segunda maior temperatura da história, com 35,1º, Manaus (AM), que atingiu 38,6º, maior
registro desde 1925 e Belém (PA), que
atingiu 38º, recorde de calor desde que se iniciaram as medições em 1897.
2.
Falta de Água
A
crise da água no Sudeste não é mais novidade. Desde 2014 a queda na quantidade
de chuvas já é realidade. Porém, a ação
do homem na degradação da vegetação nativa no entorno dos rios e reservatórios,
além da falta de investimento, contribuiu para potencializar a crise hídrica.
Da mesma forma, essa redução das áreas
naturais contribui para as alterações do clima, pois as vegetações nativas
possuem papel fundamental na regulação do microclima, além de, quando são
desmatadas, emitirem gases de efeito estufa. Apesar da redução do interesse
desse assunto na mídia, os níveis nos
reservatórios paulistas continuam alarmantes. De acordo com a companhia de
água de São Paulo (Sabesp), o Sistema Cantareira, um dos mais importantes do
estado, continua com nível de cerca de -10%, isto é, ainda utilizando o chamado
volume morto. [Neste início de 2016, o sistema Cantareira saiu do volume morto,
mas continua em níveis muito críticos!]
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SISTEMA CANTAREIRA - São Paulo O volume de água atual deixa ver as marcas de onde a água chegava anteriormente |
3.
Enchentes
Se
alguns estados sofrem com a escassez de água, o Sul do país foi atingido por chuvas devastadoras que causaram enchentes
nos três estados. No Rio Grande do Sul, o rio Guaíba, que corta a capital
gaúcha atingiu números alarmantes no ano passado, chegando a 2,80 metros,
alagando diversos pontos da cidade. Em Santa Catarina, as perdas por conta das
enchentes ultrapassaram os R$500 milhões, de acordo com a Defesa Civil. O Paraná registrou algo raro em 2015:
vários tornados foram visualizados na cidade de Marechal Cândido Rondon,
neste mês de novembro, quando os ventos chegaram a 115km/h. Com grande
destruição, o prefeito da cidade decretou situação de emergência. Os eventos
climáticos extremos são consequência direta das mudanças climáticas.
4.
Desertificação
A
falta de água que causa tantos transtornos para as pessoas também tem
consequências enormes para a natureza. Com a alteração do clima e a redução na
quantidade de chuva, o Brasil ampliou as
regiões atingidas pela seca. No final de outubro deste ano, dados de
satélite da Agência Espacial Norte Americana (NASA) mostraram que o Sudeste
perdeu 56 trilhões de litros de água, na pior seca das últimas décadas na
região. O Nordeste também perdeu 49
trilhões de litros. A falta de água no solo causa um processo chamado desertificação, no qual o ambiente vai
se modificando até transformar-se em uma paisagem árida ou de um deserto
propriamente dito.
5.
Extinção de espécies
Com
essas mudanças na temperatura e ciclos de chuvas alterados, a biodiversidade
mundial e brasileira sofre cada vez mais. Segundo estudo publicado na revista Science, uma em cada seis espécies pode ser extinta por conta das mudanças
climáticas, sendo que as regiões que
devem sofrer mais são América do Sul, Austrália e Nova Zelândia. Aqui no
Brasil, especialistas calculam que metade das espécies de plantas da Amazônia
pode desaparecer até 2050. Segundo eles, essa redução no número de árvores,
emite gases de efeito estufa, o que, por sua vez, alimenta as alterações do
clima. É um ciclo vicioso.
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