CATEQUESE DO PAPA SOBRE A MISERICÓRDIA
Jéssica Marçal
Na Audiência Geral desta quarta-feira, Francisco
iniciou um ciclo
de catequeses sobre a misericórdia:
«Porque
Deus é grande e poderoso, mas esta grandeza e poder se desdobram em nos amar,
nós assim tão pequenos, tão incapazes.»
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PAPA FRANCISCO Durante a Audiência Geral desta quarta-feira (13/01/2016) segura uma criança no colo |
O
Santo Padre aborda o assunto segundo a
perspectiva bíblica, de modo a aprender a misericórdia a partir do que o
próprio Deus ensina com sua Palavra.
Francisco
começou pelo Antigo Testamento, que prepara à revelação plena de Jesus. Ele
explicou que, na Sagrada Escritura, o
Senhor é apresentado como “Deus misericordioso”, nome através do qual
revela a sua face e o seu coração.
Essa
palavra – “O Senhor é misericordioso”
evoca uma atitude de ternura, disse Francisco, como o comportamento de uma mãe com seus filhos. “A imagem que
sugere é aquela de um Deus que se comove por nós como uma mãe quando toma o
filho nos braços, querendo somente amar, proteger, ajudar, pronta a doar tudo,
até a si mesma”.
Outra imagem que a Sagrada Escritura
apresenta para Deus, explicou o Papa, é de piedade,
ou seja, que tem compaixão e, na sua
grandeza, se inclina aos frágeis e
pobres, sempre pronto a acolher. Além disso, é lento na ira, ou seja, é
paciente. E por fim, Deus se proclama
grande no amor e na fidelidade, o que Francisco disse que é uma bela
definição.
“Aqui
está tudo. Porque Deus é grande e
poderoso, mas esta grandeza e poder se desdobram em nos amar, nós assim tão
pequenos, tão incapazes. A palavra ‘amor’ aqui utilizada indica o afeto, a
graça, a bondade. Não é amor de telenovela…É amor que dá o primeiro passo, que
não depende dos méritos humanos, mas de uma imensa gratuidade”.
O
Santo Padre lembrou aos fiéis que Deus é fiel na sua misericórdia e uma
presença sólida e estável, e essa é a certeza da fé. “Então, nesse Jubileu da Misericórdia, confiemo-nos
totalmente a Ele e experimentemos a alegria de sermos amados por esse Deus
misericordioso e piedoso, lento na ira e grande no amor e na fidelidade”.
Leia, abaixo, a íntegra
desta catequese papal:
PAPA FRANCISCO
AUDIÊNCIA GERAL
C A T E Q U E S E
Sala Paulo VI – Vaticano
Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2016
Amados
irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje começamos as catequeses sobre a
misericórdia segundo a perspectiva bíblica, de maneira a aprender a
misericórdia, ouvindo aquilo que o próprio Deus nos ensina mediante a sua
Palavra. Comecemos a partir do Antigo Testamento, que nos prepara e nos conduz
à plena revelação de Jesus Cristo, em quem se manifesta a misericórdia do Pai.
Na Sagrada Escritura, o Senhor é
apresentado como «Deus misericordioso». Este é o seu nome, através do qual Ele
nos revela, por assim dizer, a sua face e o seu coração. Como narra o Livro do
Êxodo, revelando-se a Moisés, Ele mesmo assim se define: «Deus compassivo e
misericordioso, lento para a ira, rico em bondade e em fidelidade» (34,6).
Inclusive noutros textos voltamos a encontrar esta fórmula, com algumas
variações, não obstante se ponha sempre a ênfase na misericórdia e no amor de
Deus, que nunca se cansa de perdoar (cf. Gn 4,2; Gl 2,13; Sl 86,15; 103,8; 145,8;
Ne 9,17). Vejamos juntos, uma por uma, estas palavras da Sagrada Escritura que
nos falam de Deus.
O Senhor
é «misericordioso»: este vocábulo evoca uma atitude de ternura, como a de
uma mãe pelo seu filho. Com efeito, o termo hebraico usado pela Bíblia leva a
pensar nas vísceras, ou então no ventre materno. Por isso, a imagem que sugere
é a de um Deus que se comove e sente ternura por nós, como uma mãe quando pega
o seu filho ao colo, unicamente desejosa de amar, proteger e ajudar, pronta a
doar tudo, até a si mesma. Esta é a imagem que este termo sugere. Portanto, um
amor que se pode definir, no bom sentido, «visceral».
Depois, está escrito que o Senhor é «compassivo», no sentido que
concede a graça, tem compaixão e, na sua grandeza, se debruça sobre quantos são
frágeis e pobres, sempre pronto a acolher, compreender e perdoar. É como o pai
da parábola tirada do Evangelho de Lucas (cf. Lc 15,11-32): um pai que não se
fecha no ressentimento pelo abandono do filho mais novo mas, ao contrário,
continua a esperar por ele — foi ele que o gerou! — e depois corre ao seu
encontro e abraça-o, nem sequer o deixa terminar a sua confissão — como se lhe
tapasse a boca — tão grandes são o amor e a alegria por o ter reencontrado; e
em seguida vai chamar também o filho mais velho, que se sente indignado e não
quer festejar, o filho que permaneceu sempre em casa mas vivia mais como um servo
do que como um filho, e o pai debruça-se inclusive sobre ele, convida-o a
entrar e procura abrir o seu coração ao amor, a fim de que ninguém seja
excluído da festa da misericórdia. A misericórdia é uma festa!
Deste Deus misericordioso também se diz que
é «lento para a ira», literalmente,
tem um «longo respiro», ou seja, o amplo respiro da longanimidade e da
capacidade de suportar. Deus sabe esperar, os seus tempos não são os tempos
impacientes dos homens; Ele é como o sábio agricultor que sabe esperar, dá
tempo à boa semente para crescer, não obstante o joio (cf. Mt 13,24-30).
E finalmente, o Senhor proclama-se «rico em bondade e em fidelidade». Como é bonita
esta definição de Deus! Ela contém tudo. Porque Deus é grande e poderoso, mas
esta grandeza e poder revelam-se no amor a nós, que somos tão pequeninos, tão
incapazes. A palavra «amor», aqui utilizada, indica o carinho, a graça, a
bondade. Não se trata do amor das telenovelas... É o amor que dá o primeiro
passo, que não depende dos méritos humanos, mas de uma imensa gratuidade. É a
solicitude divina que nada pode impedir, nem sequer o pecado, porque ela sabe
ir mais além do pecado, derrotar o mal e perdoá-lo.
Uma «fidelidade» sem limites: eis a
derradeira palavra da revelação de Deus a Moisés. A fidelidade de Deus nunca
esmorece, porque o Senhor é o Guardião que, como recita o Salmo, não adormece
mas vigia continuamente sobre nós, para nos levar à vida:
«Ele não
permitirá que os teus pés vacilem;
não adormecerá
aquele que te guarda.
Não, não dormirá,
não cairá no sono
a sentinela de
Israel.
[...].
O Senhor
proteger-te-á de todo o mal;
Ele velará sobre
a tua alma.
O Senhor guardará
os teus passos,
agora e para
sempre» (Sl 121,3-4.7-8).
Este Deus
misericordioso é fiel na sua misericórdia e são Paulo diz algo muito
bonito: ainda que tu não lhe sejas fiel, contudo Ele permanecer-te-á fiel,
porque não pode renegar-se a si mesmo. A
fidelidade na misericórdia é precisamente o ser de Deus. E por isso Deus é
totalmente e sempre confiável. A sua presença é firme e estável. Eis em que
consiste a certeza da nossa fé. E então, neste Jubileu da Misericórdia, confiemo-nos inteiramente a Ele, e
experimentemos a alegria de ser amados por este «Deus compassivo e
misericordioso, lento para a ira, rico em bondade e em fidelidade».
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