2º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho:
João 2,1-11
Naquele tempo:
1
Houve um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava presente.
2
Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento.
3
Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: «Eles não têm mais vinho».
4
Jesus respondeu-lhe: «Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não
chegou.»
5
Sua mãe disse aos que estavam servindo: «Fazei o que ele vos disser».
6
Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação que os judeus
costumam fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros.
7Jesus
disse aos que estavam servindo: «Enchei as talhas de água». Encheram-nas até a
boca.
8
Jesus disse: «Agora tirai e levai ao mestre-sala». E eles levaram.
9
O mestre-sala experimentou a água, que se tinha transformado em vinho. Ele não
sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que
tinham tirado a água.
10 O
mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: «Todo mundo serve primeiro o
vinho melhor
e, quando os convidados já estão embriagados,
serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!».
11
Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e
manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele.
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
LINGUAGEM DE GESTOS
O evangelista João não diz
que Jesus fez «milagres» ou «prodígios». Ele os chama «sinais»
porque são gestos que apontam para algo mais profundo do que podem ver nossos olhos.
Concretamente, os sinais que Jesus realiza, orientam para sua pessoa e nos
revelam sua força salvadora.
O que aconteceu em Caná da
Galileia é o começo de todos os sinais. O protótipo dos que Jesus levará a cabo ao longo
de sua vida. Essa «transformação da água em vinho» nos propõe a chave para
compreender o tipo de transformação que opera Jesus e que, em seu nome,
oferecerão seus seguidores.
Tudo
ocorre no contexto de um casamento,
a festa humana por excelência, o símbolo mais expressivo do amor, a melhor
imagem da tradição bíblica para evocar a comunhão definitiva de Deus com o ser
humano. A salvação de Jesus Cristo deve
ser vivida e oferecida pelos seus seguidores como uma festa que dá plenitude às
festas humanas quando essas ficam vazias, “sem vinho” e sem capacidade de
preencher nosso desejo de felicidade total.
O
relato sugere algo mais. A água somente pode ser saboreada como vinho quando,
seguindo as palavras de Jesus, é “retirada” de seis grandes talhas de pedra
utilizadas pelos judeus para suas purificações. A religião da lei escrita em tábuas de pedra está exausta; não há água
capaz de purificar o ser humano. Essa religião há de ser libertada pelo
amor e a vida que comunica Jesus.
Não
se pode evangelizar de qualquer maneira. Para
comunicar a força transformadora de Jesus não bastam as palavras, são
necessários os gestos. Evangelizar não é só falar, pregar ou ensinar; menos
ainda, julgar, ameaçar ou condenar. É necessário atualizar, com fidelidade
criativa, os sinais que Jesus fazia para introduzir a alegria de Deus fazendo
mais alegre a vida dura daqueles camponeses.
A palavra da Igreja deixa
muita gente, nos tempos de hoje, indiferente. Nossas celebrações aborrecem a muitos.
Necessitam conhecer mais sinais próximos e amistosos por parte da Igreja para
descobrir nos cristãos a capacidade de Jesus para aliviar o sofrimento e a
dureza da vida.
Quem desejará escutar hoje
aquilo que não se apresenta como notícia alegre, especialmente no caso de
se invocar o evangelho com tom autoritário e ameaçador? Jesus Cristo é esperado por muitos como uma força e um estímulo para
existir, e um caminho para viver de modo mais sensato e feliz. Se conhecem,
somente, uma “religião aguada” e não
podem saborear algo da alegria festiva que Jesus difundia, muitos seguirão
distanciando-se.
VINHO BOM
Jesus
é identificado, em geral, com o fenômeno que conhecemos por cristianismo. Hoje,
no entanto, começa a abrir caminho uma outra atitude: Jesus é de todos, não somente dos cristãos. Sua vida e sua mensagem
são patrimônio da Humanidade.
Ninguém
no Ocidente teve um poder tão grande sobre os corações. Ninguém expressou
melhor que ele as inquietações e interrogações do ser humano. Ninguém despertou
tanta esperança. Ninguém comunicou uma experiência tão sadia de Deus, sem
projetar sobre ele ambições, medos e fantasmas. Ninguém se aproximou da dor
humana de maneira tão profunda e penetrante. Ninguém abriu uma esperança tão
firme diante do mistério da morte e da finitude humana.
Dois
mil anos nos separam de Jesus, porém sua
pessoa e sua mensagem seguem atraindo os homens. É verdade que interessa
pouco em alguns ambientes, porém também é certo que o andar do tempo não apagou
sua força sedutora nem abafou o eco de sua palavra.
Hoje,
quando as ideologias e religiões experimentam uma crise profunda, a figura de Jesus escapa de toda doutrina e
transcende toda religião para convidar diretamente os homens e mulheres de
hoje a uma vida mais digna, feliz e esperançosa.
Os
primeiros cristãos experimentaram Jesus como fonte de vida nova. Dele recebiam um ânimo diferente para viver.
Sem ele, tudo se transformava, novamente, em seco, estéril, apagado. O
evangelista João redige o episódio das bodas de Caná para apresentar simbolicamente Jesus como portador de um «vinho novo», capaz
de reavivar o espírito.
Jesus pode ser hoje fermento
de nova humanidade. Sua vida, sua mensagem e sua pessoa convidam a inventar
formas novas de vida saldável. Ele pode inspirar caminhos mais humanos em
uma sociedade que busca o bem-estar sufocando o espírito e matando a compaixão.
Ele pode despertar o gosto por uma vida mais humana nas pessoas vazias de
interioridade, pobres de amor e necessitadas de esperança.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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