CONTRA O CULTO AOS JUROS ALTOS!
Juros de amor
Luiz Gonzaga Belluzzo & Gabriel Galípolo*
Aposentados, trabalhadores e mães do Bolsa Família
tornam-se
alvo dos economistas que desejam equilibrar receitas e
despesas
do Governo Federal. Pode?
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LUIZ GONZAGA BELLUZZO Economista e Professor de Economia |
A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios), do IBGE, revelou que, entre
2004 e 2014, o matrimônio entre democracia e Estado Social originou um
crescimento real de 56,6% da renda média domiciliar per capita no Brasil.
Considerando
preços de junho de 2011, a renda saltou de R$ 549,83/mês para R$ 861,23/mês, o
que acarretou queda de aproximadamente
65% na taxa de pobreza extrema.
Mas
precisamos nos apressar, alertam os Cavaleiros
do Apocalipse [economistas a favor do arrojo]:
* sem elevação nas taxas de juros,
* redução do salário real,
* cortes na rede de proteção social e
* mortes nos hospitais, sofreremos um revés nos ganhos dos últimos
anos.
No
Brasil do austericídio rentista, o juro básico, um senhor volúvel, simula
fidelidade à coordenação das expectativas dos formadores de preços, enquanto há anos se entrega aos encantos da
Valorização Cambial.
Dessa relação, nasceu o
desmoronamento da indústria brasileira, desarticulação de um sistema de relações
intersetoriais decisivas para a formação e difusão da renda e do emprego na
economia.
O
trêfego avarento produziu a queda da
participação da indústria de transformação no PIB de 16,6% em 2007 para 10,9% em 2014 e a reversão no saldo da
balança comercial de produtos industriais de um superávit superior a US$ 18
bilhões em 2007 para um déficit de US$ 63,5 bilhões em 2014.
A elevação de 96,5% na taxa Selic, de 7,25% para 14,25%, entre
abril de 2013 e julho de 2015, prometia enfiar a inflação na meta. Traído pelo divórcio da
taxa de câmbio e pelo choque de preços administrados, o abandonado viu a
inflação disparar.
Vingou-se na queda de:
* 21,6% na Formação Bruta de
Capital Fixo [1],
* de 4,5% no consumo das
famílias e
* de 5,5% do PIB, comparando
o terceiro trimestre de 2013 com o mesmo período de 2015.
O
Saber Econômico da Avareza, amigo cúmplice, se prontifica a demonstrar que as despesas com juros
e swap cambial [2] são muito menores do que aparentam, a despeito de representarem:
* cinco vezes o orçamento da
saúde e da educação,
* mais de oito vezes o
orçamento do PAC,
* cinco vezes o déficit da
Previdência e
* mais de 16 vezes o
orçamento do desenvolvimento social.
"Trata-se
de uma ilusão de ótica, capaz de ser esclarecida (Kant nos socorra!) por
cálculos abstratos."
GABRIEL GALÍPOLO Economista, Professor de Economia e Consultor |
O
cúmplice mimetiza as "certezas da ciência" para seduzir os teólogos
da Razão Instrumental – que tenham piedade o matemático Kurt Gödel e seu Teorema da
Incompletude (impossibilidade aritmética de um sistema ser simultaneamente completo
e consistente).
Na
tradição do Tribunal do Santo Ofício, o
choque de tarifas e a vingança do
câmbio na inflação são absolvidos [ou
seja, não são levados em conta!!!]. As
reduções do juro Selic são condenadas como antinaturais. Já as elevações [dos
juros] são impostas por forças da natureza, como a lei da gravidade. "E pur si muove", exclamaria o duplo
avesso de Galileu.
Os
sacerdotes da razão instrumental [os
economistas a favor da atual política econômica brasileira] repreendem os hereges que apontam as conexões entre a queda do PIB, a derrocada fiscal e a Selic,
campeã do Torneio Mundial do Jurômetro. Valem-se da pertinente e necessária
demanda por equilíbrio entre receitas e despesas públicas para incriminar
aposentados, trabalhadores e mães do Bolsa Família pelo "ataque" ao
orçamento.
O governo prostra-se diante
do cantochão [3] da mídia. Os déficits primários [4] estimados
para 2015 pelo FMI Fiscal Monitor, em outubro, dão mostras de não concordar com os apavorados nativos.
Por
exemplo: -5,4% no Japão, -5% na Rússia, -3,1% no Chile, -2,8% na Índia, -2,6%
no Reino Unido, -1,8% nos Estados Unidos, -1,4% na China, -1,2% no México,
-0,8% na África do Sul, - 2,6% na média das economias de baixa renda, -2,4% nas
economias emergentes, -1,5% nas economias avançadas e -0,4% no Brasil. São déficits primários típicos de economias em
desaceleração.
N
O T A S :
[ 1 ] Esse
indicador de nome extenso e complicado mede
o quanto as empresas aumentaram os seus bens de capital, ou seja, aqueles
bens que servem para produzir outros bens. São basicamente máquinas, equipamentos e
material de construção. Ele é
importante porque indica se a capacidade de produção do país está crescendo e
também se os empresários estão confiantes no futuro. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) é calculada trimestralmente
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (Fonte: clique aqui).
[ 2 ] Por
meio dos contratos de “swap cambial”,
o Banco Central (BC) realiza uma operação que equivale à uma venda de moeda no
mercado futuro (derivativos), o que reduz a pressão sobre a alta da moeda. Os
swaps são contratos para troca de riscos: o BC oferece um contrato de venda de
dólares, com data de encerramento definida, mas não entrega a moeda
norte-americana. No vencimento desses contratos, o investidor se compromete a
pagar uma taxa de juros sobre o valor deles e recebe do BC a variação do dólar
no mesmo período. Esses contratos servem também para dar “proteção” aos agentes
que têm dívida em moeda estrangeira – neste caso, quando o dólar sobe, eles
recebem sua variação do BC. O BC vem usando os swaps desde junho de 2013,
quando o dólar atingiu R$ 2,40. O estoque desses títulos hoje está próximo de
R$ 370 bilhões (patamar do fim de julho). Mas quando o dólar sobe, o BC
registra perdas: em 2015, até 18 de setembro, as perdas do BC com essas operações já somavam R$ 97 bilhões. Se o
dólar cair, no entanto, o BC tem lucro com os swaps (Fonte: clique aqui).
[ 3 ] Cantochão: canto tradicional
da liturgia cristã-católica ocidental, monódico, diatônico e de ritmo livre,
composto sobre textos litúrgicos latinos e baseado na acentuação e nas divisões
do fraseado; canto gregoriano, canto
plano. Aqui, neste artigo, tem o significado de “doutrina muito conhecida e
repetida” (Fonte: Dicionário eletrônico Houaiss da língua
portuguesa – versão 3.0).
[ 4 ] Déficit primário é o valor gasto
pelo Governo e que excede o valor de sua arrecadação em determinado período (um
ano, por exemplo), sem levar em consideração a despesa realizada com o
pagamento dos juros da dívida pública.
*
LUIZ GONZAGA BELLUZZO, 73 anos, é diretor da Facamp (Faculdades de Campinas) e
professor titular do departamento de Economia da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp). Foi secretário
de Política Econômica do Ministério da Fazenda (governo José Sarney). GABRIEL GALÍPOLO, 33 anos, mestre em
economia política e professor do departamento de Economia da PUC-SP - Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, é sócio da Galípolo
Consultoria.
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