História católica: conservador x progressista
Thomas Reese
Padre
Jesuíta e Jornalista norte-americano
National
Catholic Reporter
07-01-2016
A Igreja se deparou com alguns problemas depois do
Concílio Vaticano 2º porque a agenda reformista foi abandonada, e não por causa das
reformas que foram implementadas.
Ross Douthat é um conservador
inteligente e articulado que se converteu ao catolicismo em sua adolescência e
agora escreve para o The New York Times.
Ele enfurece muitos dos meus amigos progressistas, mas eu em geral acho os seus
escritos interessantes e instigantes mesmo quando eu discordo deles.
Este
mês, a First Things publicou um texto
seu intitulado “A Crisis of Conservative
Catholicism” [1], que é um discurso também
instigante dirigido aos católicos conservadores na era do Papa Francisco. Aí
Douthat tenta ajudar estes fiéis a lidar com as mudanças que estão acontecendo
na Igreja.
Espero
ser perdoado por adentrar neste diálogo intraconservadores. Ainda que ninguém
hoje irá me rotular como conservador, cresci numa Igreja conservadora na década
de 1950, entrei em um noviciado jesuíta conservador em 1962 antes do Concílio
Vaticano II e tive anos bastante difíceis para fazer a transição à Igreja
pós-conciliar.
Em
suma, sou simpático com o que alguns conservadores estão vivenciando hoje
porque passei por uma experiência parecida no final dos anos 1960.
Para
uma outra opinião, confira o texto “Ross Douthat’s Erasmus Lecture” [2], escrito por Michael
Sean Winters, o qual eu somente li depois de ter escrito esta coluna.
Douthat
começa o seu texto relacionando a narrativa conservadora aceita explicando os
últimos 50 anos do catolicismo, iniciando-se com o Vaticano II. Os objetivos do
Concílio eram «reorientar o catolicismo
para longe de sua mentalidade de fortaleza do século XIX, inaugurar um diálogo
renovado com o mundo moderno, olhar mais profundamente para dentro do passado
católico no intuito de se preparar para o futuro e introduzir uma era de
evangelização e renovação».
Mas
a «renovação esperada foi sequestrada, em
muitos casos, por aqueles para os quais renovação significa uma acomodação ao
espírito da década de 1960 e uma transformação da Igreja junto às linhas
protestantes progressistas».
A
Igreja pós-conciliar dividiu-se em dois campos. «Um seguiu os documentos reais do Concílio e instou a Igreja a manter a
continuidade com o ensino católico e a tradição, e o outro foi leal a um “espírito
do Concílio” que só aconteceu para coincidir com as modas culturais que vieram
em seu rastro».
Douthat
escreve que, no período imediatamente após o Concílio, o segundo grupo
controlou os seminários, as ordens religiosas, as universidades católicas e as
burocracias diocesanas. «Os resultados
foram, na melhor das hipóteses, decepcionantes e, na pior, desastrosas: a queda
na frequência às missas, o desaparecimento das vocações, uma erosão rápida da
identidade católica para onde quer que se olhasse».
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ROSS GREGORY DOUTHAT Tem 36 anos, é colunista, blogueiro e escritor conservador norte-americano |
Felizmente,
segundo a sua narrativa, um novo papa [João Paulo II] foi eleito advindo do
primeiro grupo «que rejeitava a
hermenêutica da ruptura, levando adiante as intenções verdadeiras do Concílio
ao mesmo tempo proclamando as verdades antigas do catolicismo mais uma vez».
Este papa e o seu sucessor [Bento XVI] «inspiraram
exatamente o tipo de renovação que os Padres Conciliares haviam esperado: uma
geração de bispos, sacerdotes e leigos preparados para testemunhar a plenitude
do catolicismo, o esplendor de sua verdade».
O
catolicismo progressista estava morto e o futuro pertencia aos conservadores.
Douthat
reconhece que esta sua narrativa está em crise. A crise de abusos sexuais e o seu acobertamento «lançou uma sombra sobre os últimos anos de
João Paulo II, fez surgir perguntas significativas sobre o seu comando na
Igreja e desacreditou os líderes católicos (de Bernard Law em Boston ao
pesadelo que foi Marcial Maciel – fundador dos “Legionários de Cristo”) que, certa vez, pareceram ser os pilares de
um reavivamento conservador».
A
rota dos conservadores nas guerras culturais, o declínio continuado de fiéis e
o aumento dos «sem religião» mostram que o
programa conservador não teve sucesso. Ele poderia ter também acrescentado
o crescente alienação das mulheres da
hierarquia.
Finalmente,
segundo Douthat, Bento XVI provocou um
fracasso administrativo que não pôde finalizar a obra de restauração de João
Paulo II nem controlar um «Vaticano
essencialmente não governável, cego às realidades midiáticas contemporâneas, à
corrupção e aos vazamentos de informação».
Antes
de irmos às recomendações do autor, deixe-me responder ao seu resumo da
narrativa conservadora e dizer o que deu de errado.
Primeiro,
penso ser necessário remontar até o século
XIX, quando a hierarquia católica,
após a experiência catastrófica da Revolução Francesa, se alinhou com o establishment político conservador no
combate a todas as coisas modernas (imprensa livre, liberdade de expressão,
democracia, sindicatos etc.). A Igreja
perdeu intelectuais europeus e as classes trabalhadoras (especialmente a
masculina) muito antes do Vaticano II.
A resposta da Europa à aliança da Igreja com o conservadorismo foi o anticlericalismo.
A experiência americana foi diferente
porque, enquanto na Europa a Igreja lutava contra a expansão da liberdade, aqui
a Igreja estava do lado da liberdade e aceitava a separação da Igreja e do
Estado. Consequentemente, até a crise dos abusos sexuais e as guerras
culturais, não havia um movimento anticlerical significativo nos Estados
Unidos. Os bispos americanos eram vistos como defensores dos sindicatos e das
famílias das classes trabalhadoras das quais eles vinham. Os bispos [norte-americanos] enfrentaram
um anticatolicismo, mas não um anticlericalismo.
Hoje, por outro lado, o
anticlericalismo está vivo e bem nos Estados Unidos entre os progressistas
políticos (por
causa da agenda política episcopal) e
entre as mulheres (por causa da postura dos prelados com respeito às
questões femininas dentro e fora da Igreja). Grande parte do que é rotulado como anticatolicismo
pelos conservadores é, na verdade, um anticlericalismo.
As elites progressistas não odeiam os católicos; odeiam os bispos.
Segundo,
a narrativa de Douthat passa por cima dos eventos do Vaticano II como se não
houvesse conflito ou desacordos nele. Na narrativa progressista, uma Cúria
Romana conservadora tentou impingir as suas propostas aos Padres Conciliares
que se revoltaram e voltaram-se aos teólogos em busca de ajuda na elaboração de
alternativas.
Os
bispos não chegaram a Roma como reformadores. Em lugar disso, os primeiros anos do Concílio mostraram-se
um programa de educação continuada onde os bispos tiveram uma formação sobre os
desdobramentos contemporâneos em teologia. Somente depois de atualizarem as
suas teologias é que eles estavam prontos para trabalhar na elaboração dos
documentos.
A Cúria e os seus aliados
conservadores lutaram com unhas e dentes contra estas reformas, as quais eles
certamente viam como revolucionárias e uma ruptura com o passado. Colocar a liturgia no
idioma vernáculo [de cada país ou região], dar o cálice aos leigos, promover o
ecumenismo, reconhecer a liberdade de consciência e religião – tudo isso fora
visto como inovações protestantes, e estavam certos. Após centenas de anos de oposição, a Igreja finalmente aceitava algumas
das reformas que resultaram da Reforma Protestante e do Iluminismo.
Paulo
VI, temendo um cisma por parte da direita, forçou a maioria progressista a
aceitar inúmeros compromissos no intuito de fazer com que os conservadores
aprovassem os documentos finais. Isso levou a documentos com uma linguagem ambígua e, por vezes, contraditória.
Os
progressistas aceitaram os compromissos porque viam o Concílio como o começo de
um processo de reforma, e não como uma conclusão. Os compromissos e textos
ambíguos eram apenas modos de postergar até ocorrer debates posteriores, que
eles imaginaram poderiam ter continuidade na Igreja.
O combate entre
conservadores e progressistas continuou depois do Concílio, mas é falso retratá-lo
simplesmente como sendo os conservadores que estariam promovendo os documentos
enquanto que os progressistas promoveriam o «espírito» do Concílio. Na verdade,
a discussão foi também sobre a
interpretação dos documentos, que às vezes eram propositalmente ambíguos.
A
narrativa de Douthat também ignora o documento Humanae Vitae e o seu impacto na Igreja. Nos Estados Unidos, este
documento marcou o fim do domínio clerical sobre os fiéis que rejeitavam a
conclusão segundo a qual todos os métodos contraceptivos artificiais são
imorais. Quando o ensino papal
contradizia as suas próprias experiências pessoais, os leigos rejeitavam o
ensino. Gerações anteriores poderiam ter se sentido obrigadas a deixar a
Igreja diante de um tal desacordo, mas aqui isso não aconteceu.
Humanae Vitae teve igualmente um impacto
profundo em Karol Wojtyła [Papa João Paulo II], que havia estado na minoria que
compôs a comissão papal para o controle de natalidade que recomendara uma
mudança ao ensino da Igreja. Ele ficou
escandalizado com os bispos dissidentes e teólogos que questionavam a encíclica.
A sua experiência na Igreja polonesa lhe ensinara a importância da unidade para
uma Igreja sitiada primeiramente pelo nazismo e, depois, pelo comunismo.
Como papa, fez da lealdade a
um ensino papal (especialmente em Humanae Vitae)
o teste decisivo para as nomeações
episcopais. A lealdade superava as
qualidades teológicas, pastorais ou administrativas. O seu longo reinado,
somado ao curto reinado de seu sucessor, assegurou que o episcopado se
refizesse em sua imagem.
João
Paulo II trouxe Joseph Ratzinger para trabalhar contra os teólogos dissidentes,
removendo ou silenciando sacerdotes e religiosos que questionavam o ensino
papal. Ele também apresentou uma
interpretação autoritária e conservadora de trechos ambíguos dos documentos
conciliares. Tópicos que haviam sido postergados no Concílio foram fechados
ao debate.
A lealdade tornou-se um
critério fundamental para os professores, seminaristas e assessores teológicos. Visto que a ampla maioria
dos teólogos discordava da Humanae Vitae,
acabou que este documento significou um afastamento desta parcela significativa
da Igreja. A fim de evitar o conflito e manter os seus empregos, a maioria dos
teólogos sacerdotes simplesmente pararam de discutir tópicos polêmicos. Até
mesmo os teólogos leigos, que não estavam sujeitos aos votos de obediência,
evitaram entrar em temas polêmicos, pelo menos até alcançarem o posto/título de
professor.
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SESSÃO PLENÁRIA DO CONCÍLIO VATICANO II - BASÍLICA DE SÃO PEDRO: À esquerda, temos o Papa João XXIII que convocou e deu início ao Concílio, à direita, temos o Papa Paulo VI que o concluiu. |
Seja
de propósito, seja por acidente, o
papado de João Paulo rompeu a aliança entre os bispos e teólogos que havia se
mostrado tão bem-sucedida na luta contra a Cúria Romana no Concílio. Na
verdade, os bispos nomeados por João Paulo II ou atacaram os teólogos ou os
evitaram. Conforme escrevi alhures [3], este é o
equivalente eclesial de uma empresa onde a gestão não se comunica com o setor
de pesquisa e desenvolvimento.
Em
resumo, o processo de renovação iniciado pelo Concílio foi parado e, às vezes,
andou para trás, segundo a narrativa progressista. Por exemplo, se um clero
casado tivesse sido aprovado e Humanae Vitae não existisse, teríamos uma Igreja
muito diferente hoje. A Igreja se
deparou com alguns problemas depois do Concílio porque a agenda reformista foi
abandonada, e não por causa das reformas que foram implementadas.
Finalmente,
nos Estados Unidos, os líderes
republicanos viram uma oportunidade
única para trazer os católicos brancos junto de seu partido. Quiseram transformar a Igreja Católica e as
igrejas evangélicas num Partido Republicado em oração. Nessa campanha,
prometeram auxílio a escolas católicas e um fim ao aborto, mas jamais fizeram
dessas coisas prioridades uma vez que estivessem no poder.
Muitos católicos
conservadores americanos minimizaram o ensino social católico porque ele ia
contra as suas opiniões políticas e econômicas, ou porque eles percebiam
que ele lhes tiraria a atenção das guerras culturais. Ignoraram ou contornaram
o que João Paulo II e Bento XVI haviam dito sobre guerra e paz e sobre justiça
econômica.
Concordo
com Douthat que a narrativa conservadora se enfraqueceu com a crise dos abusos
sexuais e com o êxodo continuado de fiéis (especialmente os jovens) sob João
Paulo II e Bento XVI. Também concordo que a narrativa progressista se
enfraqueceu com o aumento no número de evangélicos e pelo declínio das igrejas
históricas. Enquanto a metade dos que abandonam a Igreja se tornam ou
contrários a ela ou “sem religião”, cerca de um terço se torna evangélico.
Poucos, em comparação, se juntam a igrejas protestantes históricas.
Nem
a narrativa conservadora nem a progressista possui uma boa explicação para o
êxodo católico. A minha crença pessoal é
a de que ele tem pouco a ver com teologia e mais a ver com um desejo por
serviços religiosos carregados de emoção e um sentido de comunidade, coisas
ausentes na maioria das paróquias católicas.
As
narrativas são importantes para explicarmos o mundo a nós mesmos e aos outros.
Estas narrativas conservadoras e progressistas concorrentes ajudam a definir a
Igreja de hoje. Será que podemos ter um diálogo sobre elas sem xingamentos e
sem atirar pedras? Espero que sim.
NOTAS:
[1] Texto
disponível aqui.
[2] Texto
disponível aqui.
[3] Conferir o
artigo intitulado “Cinco motivos por que
o sínodo está fadado a fracassar”, clicando aqui.
Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa. Acesse a versão original deste artigo,
clicando aqui.
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