Os desafios da "Quarta Revolução Industrial"
Paulo José
Whitaker Wolf e Giuliano Contento de Oliveira*
Brasil deve estar atento às discussões que ocorrem em
Davos,
sobretudo neste momento de grave crise econômica,
social e política
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FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL - DAVOS (SUÍÇA): O secretário-geral da ONU - Sr. Ban Ki-moon - discursa na abertura (na tribuna - em pé) |
Entre
os dias 20 e 23 de janeiro, chefes de governo e ministros, bem como
representantes de empresas, bancos e diferentes grupos sociais subirão os Alpes suíços em direção à pequena
cidade de Davos para participar do
encontro anual organizado pelo Fórum
Econômico Mundial, com o intuito de discutir o presente e propor caminhos
para o futuro. Trata-se de um grupo
pequeno, mas muito influente no processo de concepção e implementação de
políticas públicas em diversos países.
O
mundo discutirá em Davos a “Quarta
Revolução Industrial” em um momento em que ainda não foram superados os efeitos adversos daquelas que a
precederam, tais como:
a)
os elevados níveis de miséria,
b) pobreza
e desigualdades,
c) os
frequentes conflitos intranacionais e internacionais de grande capacidade
destrutiva e
d) a
rápida degradação dos recursos do planeta, gerados, em última instância, pela
busca incessante pela acumulação da riqueza em um contexto de acirramento da
concorrência intercapitalista em escala global.
O
encontro deste ano ocorre em um momento em que os efeitos da crise econômica, política e social iniciada em 2008 ainda
não foram superados, além de graves questões humanitárias, com destaque ao aumento do número de refugiados que
deixam o Oriente Médio em convulsão em busca de paz, e ambientais, como a ocorrência cada vez mais frequente de
fenômenos naturais extremos e cada vez mais destrutivos.
Essas
questões serão consideradas à luz do tema proposto pela organização do evento
liderada por Klaus Schwab, qual
seja, “O que esperar da Quarta Revolução
Industrial”, também chamada de “Indústria
4.0” – que, para muitos, já está em
curso, ainda que de forma sobreposta
à terceira revolução industrial.
A “Indústria 4.0” representa uma
descontinuidade do modelo de produção até então vigente. Ela se concentra nos
novos produtos e processos derivados dos avanços ocorridos na fronteira da
ciência, como a convergência entre info,
nano, bio e neuro-cogno tecnologias, que possuem aplicação em praticamente
todas as áreas do conhecimento, como a química, a física, a biologia, a
medicina, a engenharia, a computação etc.
Esse
processo tem ocorrido em escala e velocidade substantivos, afetando de forma
avassaladora todas as dimensões da vida dos indivíduos e da forma como eles se
relacionam entre si. Com efeito, a
denominada “Quarta Revolução Industrial” abre um mundo de possibilidades e,
inevitavelmente, também de riscos.
Trata-se,
pois, de uma oportunidade para se rever
a relação entre os homens e as tecnologias que ele criou. Isso porque os
homens devem dominá-las, ao invés de serem dominados por elas. As novas
tecnologias devem ser utilizadas para assegurar a todos a possibilidade de
contribuir e partilhar da riqueza criada, propiciando condições dignas de vida
para as pessoas, sejam elas quem forem e estejam elas onde estiverem.
Elas
devem garantir a promoção da dignidade humana ao assegurar a todos as condições
materiais para o atendimento de suas necessidades fundamentais e, assim, para o
desenvolvimento de suas potencialidades independentemente de distinções de
qualquer natureza.
Ao
contrário do que sugere a visão majoritariamente aceita, a liberalização dos fluxos de comércio e investimento, assim como a desregulamentação dos mercados, de
forma alguma são condições fundamentais para que os benefícios e custos da
“Quarta Revolução Industrial” se distribuam de forma menos assimétrica entre os
diferentes países e, dentro deles, entre os diferentes grupos sociais.
No
âmbito internacional, eles tenderão a
produzir uma nova divisão do trabalho, em que alguns países serão mais capazes do que outros no tocante ao
desenvolvimento de setores intensivos em tecnologia de ponta, capazes de gerar mais renda e melhores empregos e de
reduzir a sua vulnerabilidade externa. Já no âmbito nacional, aqueles de
maior qualificação encontrarão oportunidades de maiores salários e maior
estabilidade enquanto os demais não encontrarão trabalho ou se restringirão às
ocupações de menor remuneração e maior flexibilidade, como os empregos
temporários e em tempo parcial.
Essas
assimetrias entre países e entre grupos sociais tendem a se reproduzir
indefinidamente. Se o sistema for
abandonado à sua própria sorte, os ricos
se tornarão mais ricos e os pobres
se tornarão mais pobres em um processo de causação circular cumulativa.
Dessa
forma, mais do que nunca, devem ser criados novos mecanismos de intervenção no
sistema e fortalecidos aqueles eficazes e já existentes. Contudo, uma vez que o
tamanho do esforço necessário para que os países mais pobres e/ou de renda
média alcancem os países desenvolvidos, essa construção deve ser coletiva e
orquestrada internacionalmente.
Ou
seja, ela deve ser o resultado de mais
cooperação e menos competição entre os países, da união de recursos humanos e financeiros em favor de uma civilização
que partilha de um mesmo destino. Nobres valores, é verdade, mas que
infelizmente ainda estão muito longe de constituir um consenso capaz de criar
sinergias e viabilizar um sistema efetivo e eficaz de cooperação internacional,
diante da relutância dos homens em aprender com as lições da história e com o
poder também destrutivo de suas ações.
Nesse
contexto, o Brasil deve manter-se
atento às discussões que ocorrerão em Davos, sobretudo neste momento de grave
crise econômica, social e política que ameaça reverter avanços perpetrados
desde a Constituição Federal de 1988
– a chamada “Constituição cidadã”. Dispensável afirmar que uma inserção ativa na Quarta Revolução Industrial requer avanços
substanciais em frentes diversas, a partir de reformas necessárias para a superação das estruturas que caracterizam o
subdesenvolvimento.
De
fundamental importância nesse processo é o desenvolvimento
de setores de alta intensidade tecnológica, capazes de desenvolver e de
difundir inovações que beneficiem a economia e elevem as condições de vida dos
brasileiros, o que inclui a melhora dos padrões de educação, saúde,
alimentação e habitação, sobretudo. Um desafio e tanto, diante das graves dificuldades
pelas quais a economia brasileira tem passado em sua história recente.
Por
fim, o que se espera do encontro a ser realizado no topo do mundo nos próximos
dias é a atenção à realidade próxima e concreta das pessoas comuns em tempos
adversos. A Quarta Revolução Industrial
deve ser funcional ao crescimento econômico, à coesão social, à proteção do
meio ambiente e à manutenção da paz em todos os cantos do planeta, o que,
no capitalismo contemporâneo, não será possível se essa transformação não for
bem conduzida pelos governos nacionais e pelas relações entre os países, a
partir de um sistema articulado de cooperação internacional. Uma utopia,
talvez. Mas ainda há tempo para mudar.
* Paulo
José Whitaker Wolf é mestre em economia pelo Instituto de
Economia/Unicamp e doutorando na mesma instituição. Giuliano Contento de Oliveira é professor do Instituto de Economia
da Unicamp. Convidados do Grupo de
Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.
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