"O Banco Central no Brasil estrangula a economia"
Entrevista
com Joseph Stiglitz
Economista, vencedor do Prêmio Nobel de
Economia em 2001
Fernando
Dantas
Para economista, elevação dos juros para conter a
inflação em
uma economia em recessão só agrava o problema
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JOSEPH EUGENE STIGLITZ Economista norte-americano Foto: Ana Martinez / Reuters |
Às
vésperas da reunião do Copom [1] , em que se acredita que o Banco Central pode
subir mais uma vez os juros, Joseph
Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, disse em Davos [Suíça], onde participa
do Fórum Econômico Mundial, que o Banco
Central [BC] brasileiro estrangula a economia. Para ele, a política monetária do Brasil deveria se contrapor aos
efeitos depressivos da queda do preço das exportações e da Operação Lava Jato.
Sobre o quadro mundial, o economista avalia que a economia terá desempenho em
2016 igual ou pior ao de 2015. O Nobel também considera o aumento da desigualdade como outro fator que reduz a demanda global.
A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado.
Como
o sr. vê os atuais problemas do Brasil?
Joseph Stiglitz: A característica distintiva
do Brasil é que a política monetária estrangula a economia. Vocês têm uma das mais altas taxas de juros
no mundo. Se o Brasil reagisse à queda no preço das exportações com medidas
contracíclicas, o País talvez pudesse ter evitado a intensidade da atual crise.
Outra questão é que, sempre que ocorrem escândalos de corrupção da magnitude do
que acontece agora no Brasil, a economia é jogada para baixo. Isso cria uma
espécie de paralisia. O sistema legal no Brasil está colocando muita gente na
prisão. Não estou dizendo que não deveriam fazer isso, mas a política monetária deveria reconhecer que este é um período em que
haverá restrição de gastos, particularmente no setor público, em que as
pessoas serão mais cautelosas em tomar decisões, em que a construção civil vai
se contrair.
Mas
a inflação está muito mais elevada que o teto de tolerância do sistema de
metas.
Joseph Stiglitz: Esse modelo que diz que, se
a inflação está alta, você sobe os juros é uma teoria que foi desacreditada. É preciso saber qual é a FONTE DA INFLAÇÃO.
Se for excesso de demanda [compras, mais pessoas comprando], aí você sobe
juros, porque tem de moderar a demanda. Mas se for um impulso dos custos, você
tem de ser cuidadoso. Nesse caso, a forma pela qual a alta dos juros reduz a
inflação é matando a economia. Se você
conseguir desemprego o suficiente, os salários são deprimidos, e você segura a
inflação. Mas isso é matar a economia. Não é bom ter inflação em disparada,
mas também não é bom matar a economia. E eu acho que eles (o BC brasileiro)
perderam esse equilíbrio.
No
Brasil, muita gente acha que a culpa é da política fiscal, e não do Banco
Central.
Joseph Stiglitz: Quando a economia se
desacelera, as receitas tributárias caem e ocorrem déficits. Se a economia for
estimulada, a receita sobe. Dessa forma, a
política monetária pode ajudar a política fiscal.
Então
o problema no Brasil é a política monetária?
Joseph Stiglitz: Na verdade, vocês têm dois
problemas: o colapso do preço das
exportações e o escândalo de
corrupção. O que eu disse é que a política monetária deveria se contrapor a
esses fatores, mas, em vez disso, ela está agravando o problema.
Como
o sr. vê a economia global hoje?
Joseph Stiglitz: Meu diagnóstico não é nada
complicado: há falta de demanda agregada
global [2]. Mesmo antes da crise, o que
sustentava a economia americana era uma bolha artificial. Se não fosse por ela,
a economia teria sido fraca.
Por
que a demanda global está fraca?
Joseph Stiglitz: Olhando em volta do mundo, há quatro razões básicas:
1ª) A primeira é a desigualdade. As pessoas no topo não
gastam tanto (como parte da sua renda) quanto as pessoas na base. Então, à medida que a desigualdade cresce, a
demanda se enfraquece.
2ª) Em segundo lugar, há transformações estruturais acontecendo em
quase todos os países. Nos Estados Unidos, a transição da indústria
manufatureira para os serviços. Na China, das exportações para a demanda
interna. Mas os mercados são duros em conduzir essas transições. Tem sempre gente que fica para trás, o que
contribui para a desigualdade. Os setores que ficam para trás não podem
demandar bens.
3ª) Em terceiro lugar, a zona do euro está uma bagunça, com políticas econômicas que contribuíram para
reduzir o crescimento.
O
sr. se refere à austeridade?
Joseph Stiglitz: Sim, até nos Estados Unidos
temos uma forma moderada de austeridade, pela pressão política dos
Republicanos. Nós temos meio milhão de empregos a menos no setor público do que
tínhamos em 2008, antes da crise, e, se houvesse uma expansão normal da
economia, seriam dois milhões mais. Então temos austeridade nos Estados Unidos.
E
qual seria o quarto fator para a demanda global enfraquecida?
4ª) Joseph Stiglitz: Sempre que há uma perturbação como a queda do preço do petróleo. Todo mundo esperava que o preço mais
baixo estimularia a demanda, mas se esqueceram de que se trata de redistribuição. Os vendedores perdem e os compradores
ganham. Se os vendedores diminuem seus gastos em exatamente o mesmo volume que
os compradores aumentam, não há nenhuma mudança. Mas há assimetrias. Muitas vezes os que perdem têm de contrair
o seu gasto, dólar por dólar, e aqueles que ganham economizam, pois não sabem
se o ganho é temporário ou de longo prazo. E os desdobramentos podem ser
ainda piores em termos de investimento – uma das fontes de crescimento nos
Estados Unidos e outros países vinha sendo o investimento em hidrocarbonetos
(petróleo e gás). E isso foi cortado. Os efeitos são enormes. Da mesma forma, a
desaceleração na China provoca a queda
do preço do minério de ferro, e os ganhadores não gastam mais tanto quanto os
vendedores gastam menos.
Qual
a sua previsão para 2016?
Joseph Stiglitz: É provável que essas
tendências que eu descrevi continuem este ano. Se eu fosse otimista, eu
chamaria atenção para o fato de que o orçamento americano acabou sendo melhor
do que o esperado, mas há muitos fatores negativos. Não vejo nada positivo na
Europa. Acho que muita gente esperava a desaceleração na China, mas não o
tamanho da turbulência financeira. Tudo
isso me diz que 2016 será tão ruim ou pior do que 2015.
O
problema da economia global é demanda, para o senhor. Qual seria a terapia?
Joseph Stiglitz: A terapia econômica é fácil.
O problema é a política. Em termos econômicos, precisamos de um aumento dos gastos do governo nos Estados Unidos e na
Europa. Nos dois casos, os setores públicos podem tomar emprestado a juros
muito baixos. E, por outro lado, é
preciso investimento em tecnologia, educação,
infraestrutura. Isso estimularia a
economia. Compraríamos mais do Brasil, o que ajudaria vocês. Na Europa e nos Estados Unidos, temos
espaço fiscal, vocês têm menos. Mesmo que os Estados Unidos estivessem
preocupados com o déficit público, podemos
elevar impostos. Nossos impostos são muito baixos. Podemos aumentar
impostos, conseguir mais igualdade.
E
qual o obstáculo para isso?
Joseph Stiglitz: O problema maior está nos
Estados Unidos e na Europa, e se resume
à política. Na verdade, é um pouco mais complicado. Nos Estados Unidos, é apenas a política. Acredito que há um amplo
sentimento no Partido Democrata em favor das políticas que acabei de descrever.
Na Europa, é complicado por causa da ideologia alemã. Tenho dúvida de que, caso
a oposição vencesse, haveria uma mudança. Os
alemães reescreveram a história para acreditar que a inflação foi o problema
principal (na ascensão do nazismo), mas
o que causou Hitler foi o desemprego. E eles se esqueceram disso. Eles se esqueceram que o DESEMPREGO é a
verdadeira causa da instabilidade social. E eles promovem políticas que
causam o desemprego. Então a zona do
euro tem de ser reformada, e isso é mais difícil, é um problema estrutural.
N
O T A S
[ 1 ] O
Comitê de Política Monetária (Copom)
é formado pelo presidente e os diretores do Banco Central (BC), que se reúnem a
cada 45 dias para fixar a taxa básica de juros, a Selic. O objetivo das mudanças nos juros é manter a inflação sob
controle, ou seja, cumprir a meta de inflação para o ano. A decisão do BC sobre
os juros é soberana e não precisa de aprovação do presidente da República nem
do ministro da Fazenda. Já a meta de inflação é fixada pelo governo. O Copom
foi criado em 20 de junho de 1996. A ideia foi inspirada na experiência do
Banco Central dos Estados Unidos, o Federal
Reserve (Fed). Antes, o BC aumentava ou reduzia a taxa de juros sem
comunicar diretamente o mercado. Com a mudança, segundo o BC, o processo se
tornou mais transparente, o que melhorou a comunicação com o mercado
financeiro. Atualmente, vários países seguem esse modelo (Fonte: clique aqui).
[ 2 ] Em
macroeconomia, DEMANDA AGREGADA é a
demanda [procura] total de bens e
serviços numa dada economia para um determinado momento e nível dos preços. É o
total de bens e serviços na economia que será adquirido a todos os níveis de
preços possíveis. Esta é a demanda do produto interno bruto de um país quando
os níveis de estoque são fixos. A demanda agregada depende da quantidade de
moeda em poder dos agentes econômicos (consumidores, empresas, governos), das
despesas e impostos a que estão sujeitos e de outras variáveis (Fonte: Wikipédia).
* JOSEPH EUGENE STIGLITZ (nasceu em Gary, 9 de Fevereiro de
1943) é um economista estadunidense. Foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos (Council of Economic Advisers) no
governo do Presidente Bill Clinton (1995-1997), Vice-Presidente Sênior para Políticas de Desenvolvimento do Banco
Mundial, onde se tornou o seu economista chefe. Recebeu, juntamente com A.
Michael Spence e George A. Akerlof, o Prémio de Ciências Econômicas em Memória
de Alfred Nobel, também designado por "Prémio Nobel de Economia" em
2001 "por criar os fundamentos da
teoria dos mercados com informações assimétricas". Stiglitz defende a
nacionalização dos bancos americanos e é membro da Comissão Socialista
Internacional de Questões Financeiras Globais. Stiglitz formou-se no Amherst
College (B.A., 1964), em Amherst, Massachusetts, e no Massachusetts Institute of Technology (Ph.D., 1967), em Cambridge, Massachusets. O estilo acadêmico
característico do MIT - modelos simples e concretos, que objectivam responder
questões econômicas relevantes - agradou a Stiglitz e muito contribuiu para o
desenvolvimento do seu trabalho posterior. Foi agraciado pela Fullbright Comission com uma bolsa de
estudos para Cambridge, onde estudou de 1965 a 1966. Stiglitz lecionou em
várias importantes universidades americanas, dentre elas Yale, Harvard e Stanford. Em 2001 Stiglitz tornou-se
professor de economia, administração de empresas e negócios internacionais na Columbia University em Nova York.
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